Pular para o conteúdo principal

Postagens

A utopia das mãos dadas no shopping

É a última vez que falaremos sobre isso, eu prometo. Mas para quem costumava dizer que precisava acreditar que funciona, acho que agora eu só preciso acreditar mesmo que ele, o amor , existe. Mesmo que sua eficácia ou durabilidade seja deveras questionável. E não é porque você se foi que o que tínhamos simplesmente acabou. Vão-se os amores, ficam os sentimentos. Esparramados no chão até que alguém crie coragem de levantar e reuni-los de novo. Na esperança de que possam ser oferecidos a outra pessoa de novo. Amor é como vinho derramado, se parar pra pensar. Você chora porque o perdeu, então respira fundo e abre outra garrafa. Não? Ok, longe demais, eu admito. Isso porque não parece existir uma metáfora melhor do que as mãos dadas no shopping . Eu repito há anos sobre o sonho, o simbolismo e a simpatia envolvidos no menor dos gestos – as mãos dadas – no mais grotesco dos cenários – qualquer conglomerado de lojas de departamento iluminadas por luz artificial fluorescente, sonorizado por ...

Mil e um motivos

Você não pode assustar alguém com seu sonho de querer ser feliz para sempre. Para quem ainda não entendeu, ressalto dois principais motivos para isso: 1) o “ nada sério ” reina em aplicativos de relacionamento e 2) com uma certa idade você descobre que “ para sempre ” dura mesmo umas duas semanas em média.  Dos conceitos que a modernidade líquida nos ajudou a construir, nada me chama tanto a atenção quanto o “ nada séri o”. Do latim “ non factusattachiatus ad ” (pesquise, vale a pena), o “ nada sério ” consiste naquilo que as pessoas dizem que querem quando tentam disfarçar o quanto gostariam mesmo de ter tudo. Só não podem admitir isso para aquele contatinho especial porque, né... Quem diria uma coisa dessas?! É nessas horas que me vejo como o pobre Ted no episódio piloto de “ How I Met Your Mother ”. Depois de um primeiro encontro questionável com Robin, Ted a leva até sua porta e começa a se distanciar até finalmente romper com todo o bom senso que ainda tinha para desenfrear es...

Adultos não existem

Crescer é inevitável. De tanto falarem sobre assumirmos as responsabilidades pelos nossos atos ou da importância de falarmos por nós mesmos, a tendência ainda é que evitemos ao máximo sermos reconhecidos por adultos por aí. Na maior das contradições, relembrando os tempos de criança onde as limitações impostas por “ gente grande ” – como ter hora para ir dormir, não falar de boca cheia e pedir desculpas mesmo quando “ não foi você quem começou ” – dependiam solenemente da equação: tempo + altura = maturidade .  Aí você finalmente cresce e descobre que não se tratava de uma equação tão simples assim. E que, convenhamos, a área de exatas não é o seu forte . Por que estou dizendo isso? Bom, talvez porque não haja dia melhor para falarmos sobre isso. Falando como alguém que acaba de receber um “ Feliz Dia das Crianças ” de uma ex-namorada zoeira, a reflexão parece pertinente. Há anos eu repito que adultos não existem – agora eu gostaria da oportunidade de defender a minha tese, com a...

O fim do começo, ou deixe ela ir

  Parece ser definitivo . O término de um ciclo. O fim de uma era. Um sol que se põe. Escolha o seu clichê favorito para ilustrar uma forma pela qual algo se encerra e o insira aqui. Mas nem todos os clichês do mundo podem atrasar o inevitável. Meus vinte e poucos anos estão acabando. E com eles lá se vão os planos que gostaria de ter colocado em prática para colher os frutos aos trinta. Maturidade é realmente como um financiamento imobiliário: ou você planeja investir nisso com antecedência, ou chega o dia em que descobre que não existe fundamento para os seus sonhos .  E assim como o fim das desculpas para ser imaturo se aproxima, também me despeço da paciência para certas convenções tão características dos vinte e poucos anos. Dos infames jogos de atração aos trágicos vácuos de conversa. Ou como um amigo descreveu tão eloquentemente: a roleta do amor, a dança da paixão, o bingo da sedução, o pega-pega do cortejo, o passa anel apaixonado, a disputa do desejo, entre outros t...

A Síndrome de "Só Pra Contrariar"

Eu não estou louco.  Talvez um pouco desalinhado, confesso. Coisa que, diga-se de passagem, é a única tendência seguida globalmente em 2020. Mas é óbvio que não estamos falando do resto do mundo aqui. Claro que não. Estamos falando de mim. E, preciso admitir, estamos falando do quanto eu não sei o que fazer com essa tal liberdade .  Diagnosticada recentemente por, bom, eu mesmo, a Síndrome de “Só Pra Contrariar” é um daqueles fenômenos mais corriqueiros do que se imagina, porém perdem-se em meio a tantos outros lugares comuns. Há quem diga que confunde-se muito com o Complexo de Meter o Louco , mas há controvérsias. Até porque, se parar pra pensar, Meter o Louco envolve foco. E não estamos trabalhando com foco ultimamente.    Tudo isso só serve de pano de fundo para o meu atual estado de espírito. Algo entre a prosa de Fernando Pessoa (“ Tenho em mim todos os sonhos do mundo ”) e a melodia do SPC (“ O que é que eu vou fazer com esse fim de tarde? ”). Ambos igualm...

Nós quase tivemos tudo

Amor é...  Algo a ser descoberto, definitivamente. Não é a toa que existem poemas, sonetos, contos, curtas, longas e todo qualquer outro tipo de formato possível e imaginável, dedicado a tentar defini-lo. Nenhum conseguiu, tampouco conseguiria, assim como eu jamais conseguirei. Ao menos, não de uma forma que faça sentido para você. Porque isto aqui não é sobre você. Desculpe decepcioná-la. Só você saberia dizer o que amor é – ou não é, ou o quão próximo ele realmente chega a ser de alguma outra coisa familiar a ti. Isso aqui, no entanto, é sobre mim. E o amor, bom...  Amor são reticências. *** Não é que seja disfuncional viver à procura de uma resposta. Só entenda que tudo é uma questão de prioridades, que só existem 24 horas em um dia. Tempo que se torna insuficiente depois que você chega a uma certa idade. Não o bastante para que faça sentido ser nostálgico e melancólico, mas o suficiente para deixar de ser inocente sobre certos conceitos. E talvez nenhum outro conceito seja...

E aí, você adorou?

Em algum momento , você terá que se perguntar isso. É como você esperava que fosse, ou as coisas não saíram como planejadas? Raramente saem, não é? Mas a questão não é essa. A questão é que você parecia tão certo, tão confiante, tão definitivo. Soava como algo infalível, independentemente do que pudesse acontecer. As coisas se acertariam, as dores se dissipariam, e você... Bom. Você estaria feliz. Bom, você está? Feliz, digo. Ou o fato de eu precisar completar essa frase por você já é indicativo de algo a mais? Algo em desalinho. Algo ferindo o precioso “ mise en place ” que você tenta manter a todo custo, vida afora. Ou então, traindo a promessa tão preciosa que você fez a si mesmo, anos atrás. Sobre o mundo não ser mais um lugar romântico, enquanto algumas pessoas – como você – supostamente ainda seriam, e a vocês coubesse a promessa de não deixar o mundo vencer. A quantas anda esse placar, afinal? Você viu nos jornais o que aconteceu, mas e se fosse com você? E se você...