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Casal que vive brigando não tem crise

A primeira DR do mundo certamente começou quando Adão respondeu Eva sarcasticamente enquanto eram expulsos do Jardim do Éden por terem sucumbido ao fruto proibido. Eva : E agora, o que faremos? Adão : Não sei. Quer comer alguma coisa? Até aquele momento tudo havia sido criado por Deus. Discutir relação, no entanto, foi a primeira obra colaborativa do mundo. E se de fato foi assim que começamos, não há como fingir surpresa diante de qualquer briguinha cotidiana. Sobre nunca responder as mensagens no WhatsApp, esquecer a data do aniversário de namoro, deixar a louça suja para o outro lavar, bater com força a porta do carro, apagar fotos, não atender ligações, acusar o outro de ser egoísta, dramático, grosso, insensível, preguiçoso... Insira aqui o motivo da última briga que teve com ele(a), e sinta-se reconfortado por já estarmos no fundo do poço. O pecado original nos tornou humanos, ou seja, as coisas não vão melhorar muito. Humanos são seres sensíveis com emoções com...

A insustentável leveza do crescer

Ninguém em sã consciência escolheria ser adulto. Os boletos, os compromissos, as trinta e cinco tentativas de acionar o “soneca” para evitar o despertador todas as manhãs. Equilibrando a alimentação ruim com o sobrepeso, as noites mal dormidas com as olheiras, as dores de cabeça com os fones de ouvido para fugir de estranhos no ônibus que pouco a pouco se tornaram familiares. Relembrando os tempos de colégio a cada reencontro com um semi-conhecido, e suspirando fundo ao quase esbarrar com um colega de firma a caminho do banheiro. Talvez seja o cinismo que só um jovem adulto às vésperas dos 27 anos é capaz de desabafar, mas nem isso diminuiria a verdade da afirmativa: ser adulto não é para qualquer um. Por isso há anos defendo minha própria teoria: adultos não existem. *** O maior ato de caridade direcionada ao meu ego que recebi atualmente foi o de uma professora nova. Entre normativas pedagógicas e genuíno interesse para saber exatamente com quem ela estaria lidando pelo...

A dor maravilhosa

Esta é uma história sobre ironia. Claro, outros gêneros literários também ilustraram alguns capítulos: uns foram romances, outros foram aventuras, boa parte foi repleta de suspense, e a maioria não passou de thrillers psicológicos... Mas em se tratando de definições, nada faz tão jus à vida que passou por mim, a que está ao meu redor, e provavelmente a que ainda está por vir, do que a ironia. Infame, indiscutível, impiedosa ironia. E como já é de costume, a moral da história só se torna clara quando chega ao fim. Por isso só é engraçado para mim agora quando digo que, depois de anos de piadas de mau gosto e comentários sarcásticos jogados ao vento, posso dizer com certeza o seguinte: estou morto por dentro. *** Se você ainda não conhece a história, bom... O que exatamente está fazendo aqui? Eu não escrevo devaneios independentes há anos. Isso é uma história recorrente, assim como a vida ao redor dela. E tão quanto a vida, é necessário manter-se atento e ciente do que j...

Nós

A verdade é que ninguém realmente saberá responder à eterna pergunta: “ o que faz um relacionamento funcionar? ” O mesmo pode ser dito sobre suas variantes: “ estou em um relacionamento saudável? ”, “ é isso mesmo que eu quero para a minha vida? ”, “ quando se sabe que tal pessoa é de fato a pessoa? ”. Eu li certa vez em algum lugar sobre como você realmente se descobre como pessoa pelo modo de criar seus próprios filhos. Apesar de ainda não ter a experiência em arquivo, eu prefiro pensar que existe um estágio anterior a este. Um bem mais antigo e registrado por sociólogos, psicólogos, antropólogos, e quaisquer outros especialistas que estudaram para adicionar o sufixo “ ólogo ” ao seu título. Você se descobre mesmo a partir do outro. Ou, melhor dizendo, a partir de momento em que duas pessoas completamente diferentes – com endereços distantes, educações paralelas, dotados de uma constelação de amigos, familiares e ex-pessoas que vieram antes – decidem assumir a posição mais ...

O que eu escrevi por amor

Talvez a tragédia de qualquer escritor more ao lado do seu suposto talento de traduzir a vida ao seu redor em palavras. Porque é um talento invariavelmente posto à prova em rascunhos envelhecidos numa gaveta do criado mudo, ou escondidos em uma pasta oculta do computador. Palavras que envelhecem mais rápido do que seu autor, com o passar dos anos, cuja mensagem original cede seu lugar para outros sentimentos mais atemporais do que o preferível: arrependimento, inocência, saudade. A meu ver, escrever nunca foi um gosto a ser aperfeiçoado a cada artigo científico que precisei escrever, ou a cada mensagem de aniversário que dediquei a um amigo. E, definitivamente, não foi algo afinado a cada declaração de amor que divulguei por aí. A tragédia de qualquer escritor é ter um histórico de mensagens ao seu dispor. O que um ego reúne para a posteridade, ele destrói na mesma intensidade. Toda vez que relê o que deixou marcado numa folha de papel de outrora, e se depara com a frequência...

Eu ainda estou aqui

A vida é muito curta. Quando eu penso sobre todas as cidades nas quais morei, todos os empregos que tive, todas as ruas por onde andei, até todas as pessoas que conheci, é difícil concordar com autores como T. S. Elliot. “ A vida é muito longa ”, ele escrevera. Talvez seja uma questão de perspectiva: eu não teria um histórico tão abrangente na memória, se a vida não fosse tão longa. Mas o que explicaria então, escrever sobre essas coisas no tempo passado? Ou quem sabe, a vida não tenha sido feita para ser definida. O que explicaria, ironicamente, porque as cidades, os empregos, as ruas e as pessoas sempre mudam. “ Que seja eterno enquanto dure ”, já dizia Vinícius de Moraes. Convenhamos que um autor nada mais é do que alguém com tempo demais em mãos. O que eu quero mesmo dizer, independente de qual for o tempo que esta vida dure, é isso: até que se prove o contrário, esta é a sua única chance de fazer o que quiser. O projeto em si é brilhante: você sabe para onde está caminhan...

Medianeira

Dez minutos. Este deve ter sido o tempo máximo durante o qual o ônibus ficou parado na rodoviária. Mas eu não precisei procurar por nenhuma placa que me informasse aonde estávamos. Eu senti um arrepio na espinha quando olhei de relance por uma das janelas e reconheci aquela parte da estrada. Entre o mundo novo e o antigo, há sempre um lugar por onde o caminho se desdobra.  Eu sabia exatamente aonde estava e, principalmente, quem estava por perto. Alguém que desapareceu para mim desde o último calendário. Alguém que, ao que recordo, nunca quis que eu estivesse naquele lugar.  Alguém que, entre falsas promessas e dedos cruzados, partiu meu coração.  Por cerca de dez minutos, eu perdi o fôlego. A verdade é que eu não conhecia a cidade - nunca adentrei seus limites, nunca percorri suas ruas, e nunca conheci o seu centro. Há quem diga que haviam mais paralelos entre você e a cidade do que um mero olhar pela janela de um ônibus era capaz de perceber. Eu mesmo costuma...