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E aí, você adorou?

Em algum momento , você terá que se perguntar isso. É como você esperava que fosse, ou as coisas não saíram como planejadas? Raramente saem, não é? Mas a questão não é essa. A questão é que você parecia tão certo, tão confiante, tão definitivo. Soava como algo infalível, independentemente do que pudesse acontecer. As coisas se acertariam, as dores se dissipariam, e você... Bom. Você estaria feliz. Bom, você está? Feliz, digo. Ou o fato de eu precisar completar essa frase por você já é indicativo de algo a mais? Algo em desalinho. Algo ferindo o precioso “ mise en place ” que você tenta manter a todo custo, vida afora. Ou então, traindo a promessa tão preciosa que você fez a si mesmo, anos atrás. Sobre o mundo não ser mais um lugar romântico, enquanto algumas pessoas – como você – supostamente ainda seriam, e a vocês coubesse a promessa de não deixar o mundo vencer. A quantas anda esse placar, afinal? Você viu nos jornais o que aconteceu, mas e se fosse com você? E se você...

O candidato ideal

Em clima de “ Sessão da Tarde ”, decidi revisitar um filme clássico da minha infância: “ Homens de Preto ”. Lançado em 1997 e dirigido por Barry Sonnefield, o longa é estrelado por Will Smith e Tommy Lee Jones e, além de ser divertido, também conta com uma lição por trás do enredo principal. No filme, o policial James Edwards (Smith) é recrutado pelo agente K (Jones) para trabalhar em uma agência ultra-secreta responsável por monitorar toda atividade alienígena no planeta Terra.  No entanto, antes de entrar em ação, Edward passa por uma série de testes vocacionais , competindo pela vaga contra militares e fuzileiros treinados. Eis o ponto de virada: para cada teste, Edwards apresenta uma solução incomum . Ao serem instruídos a preencherem uma ficha sem nenhum apoio, alguns tentam escrever sobre a perna ou a parte interior da cadeira em que estão sentados, sem sucesso.  Enquanto isso, Edwards decide puxar a pesada mesinha de centro para próxima dele, provocand...

Comédias para se ler na crise

O que pode ser considerado pecado capital para um jornalista admitir também é ironicamente verdade: eu não fui um jovem perdidamente apaixonado por ler. Pelo contrário: faria de tudo para fugir de uma interpretação de texto ou qualquer outra figura de linguagem envolvida em prestar atenção nas letras grafadas em páginas de papel.  Não é a toa que hoje insisto na verdade universal que invariavelmente nos guia: somos todos frutos de ironias da nossa juventude. Para me socorrer de um futuro analfabetismo funcional, meu pai deu um ultimato: levou-me a uma livraria e ordenou que eu escolhesse algum livro que me chamasse a atenção. Uma operação similar à sua tentativa de me incentivar a praticar um esporte – qualquer esporte – e a respectiva decepção quando eu, no auge do meu sedentarismo adolescente, sugeri destemidamente: “ golfe? ”. A diferença é que dessa vez não haveria negociação ou brechas; “ escolha um livro que não tenha figurinhas pra ir pulando as páginas e terminar ...

O amor nos tempos da covid

Suponhamos que o mundo esteja realmente acabando. Você finalmente acharia tempo para falar de amor de novo? A retórica é pessoal. Isso porque não me lembro exatamente da última vez que me coloquei nessa posição – tanto de escritor quanto de quem de fato para pra pensar sobre isso. É fácil se distrair entre tudo que acontece no mundo lá fora, antes mesmo de sermos afastados dele. Teoricamente, agora seria o momento de olhar para dentro.  O mundo entrou em modo avião, promovendo introspecção em escala global. Não há ninguém nas ruas, nem para onde ir. E agora? Bom, talvez agora seja o momento de se recordar de como chegou até aqui. Ou então, de que o amor com o qual você tanto sonhou ainda faz parte dessa equação. É fácil se esquecer do fundamental. O silencioso óbvio que dispensa apresentações, no entanto, justamente se torna evidente ao não ser apontado. Pode ser que não existam lições a serem aprendidas aqui e agora, e nada disso seja algo além de mera especulação. Digamo...

A porta aberta

Estar em processo de recolocação é como estar em um filme de suspense. Você nunca sabe o que pode acontecer, mas está fadado a vivenciar histórias de terror. Ou, nesse caso, histórias sobre promessas e oportunidades perdidas. É frustrante, mas é aprendizado. Mas enquanto uma porta não se abre, aqui estamos nós de novo – escrevendo na janela. Recém chegado à cidade, fiz o que qualquer candidato deve fazer para se familiarizar com o mercado: localizei as empresas nas quais gostaria de trabalhar e entrei em contato com elas . Enviei uma carta de apresentação, contendo minhas principais qualificações e o pedido por uma oportunidade, agora ou futuramente, mediante a demanda dos contratantes. Portas não se abrirão se você não bater. Em vista de um desses disparos, um gestor respondeu solicitando meu CV completo. Um bate e volta por e-mail, acompanhado por uma proposta inicial de trabalho, resultou em uma entrevista presencial em pleno sábado para trocarmos uma ideia. “ Qual é seu p...

Personalidades no limite III

Ser adulto é , por natureza, ser contraditório. Nada ficou tão claro para mim nesses últimos dias quanto isso, especialmente depois de desfazer a última mala da mudança. É oficial: estamos de volta à terra natal. Mas e quanto a pertencer a ela, de fato? Transitando entre Ciudads e Puertos ao longo dos anos, devo ter perdido minha sensação de que estava no lugar certo em algum compartimento de bagagem. Isto é, supondo que a tive de fato em algum momento. Mas não estamos mais na Terra das Cataratas , dos turistas japoneses perdidos , e das placas em inglês . Não. Estamos no Norte. E se a lealdade dos Stark fizer jus à vida real, o Norte se lembra. Voltando à contradição, matéria prima de qualquer ser humano. Levou algum tempo, confesso, mas eventualmente entendi que o que me levou à Foz em primeiro lugar era justamente o mesmo fator que fazia com que eu me sentisse desajustado por lá: as tais placas em inglês. Já tivemos essa conversa, Igor. Um lugar tão turístico, em plena trí...

O formando pródigo

Bom, aqui estamos. Dez anos depois. *** Se estivesse num filme da Marvel , 2020 teria o subtítulo “ ultimato ” antes mesmo de estrear. Os últimos dez anos e todo o meu universo expandido fariam jus à decisão artística. Mas Kevin Feige não produz a minha vida, infelizmente. O que também explica a triste ausência de efeitos especiais e a incoerência de certos arcos dramáticos. *** Entre todos os autores e clichês possíveis, Thomas Wolfe foi o precursor do princípio de que não se pode retornar ao lar. Ao menos, não ao lar da sua infância, dos sonhos e esperanças de um homem mais jovem, e dos lugares originais do mundo como você um dia o conheceu. Diz ele, não eu. Se perguntar a mim, a resposta seria diferente. Em algum lugar da coleção de endereços digitais que você percorreu para chegar até aqui, estará a marcação que comprova a alternativa. Aparentemente é possível sim voltar para casa, ou eu não estaria escrevendo isto a quilômetros de distância dos meus pertences, do...