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Eu conheço o fim.

Tem tanta coisa que eu gostaria que você soubesse. Mas não queria que apenas ouvisse o que tenho a dizer.  Queria que acreditasse que é verdade, porque é. Mas calma: não quero dizer que tenho algum tipo de razão. Longe disso. Existem coisas maiores do que você e eu, isso é só um fato. E entre todas as coisas que existem pelo mundo afora, quanto mais você as descobre, menos você percebe que tem razão sobre alguma delas.  Só porque você as descobriu agora, antes de alguém que você conhece, não significa que há algum mérito a ser coletado. Só significa que você saiu da sua zona de conforto por tempo e distância suficientes para perceber que há um mundo lá fora. Maior do que si mesmo e com certeza maior do que você que está lendo isso.  Não é, nem nunca foi, sobre razão. É sobre conhecimento e sobre a dádiva de compartilhá-lo. E é isso que eu quero que você saiba, porque talvez seja novidade pra você: eu conheço o fim. Não me pergunte como eu sei disso. Apenas acredite em mim...

Quem é você agora?

Você já deve ter se perguntado isso: como eu cheguei até aqui? A resposta, bem como a leitura da pergunta, pode atribuir um ar positivo ou negativo. E não depende necessariamente de onde você está agora. É o que eu digo há anos: perspectiva muda vidas. Se repensar em todos os momentos em que se pegou definindo algo para si mesmo, consegue traçar uma linha reta desde então até aqui e agora? Provavelmente não. Ao contrário do que os heróis nos ensinam, nenhuma jornada é linear.  Algumas tem menos em comum com a Odisseia e mais em comum com a minha cidade mesmo: cheia de rotatórias bem-intencionadas, porém mal executadas. O que explicaria a incessante sensação de que parecemos viver em círculos. Se pensarmos de uma forma negativa, é fácil cair na armadilha da comparação. Como se todos à sua volta tivessem desvendado o enigma de quem deveriam ser, o que deveriam ser e onde deveriam estar, enquanto você ainda tenta distinguir as pistas.  Tão fácil é cair nisso, que só nos lembramos...

Os melhores dias da sua vida

Eu sei que ainda sou um recém-chegado à casa dos trinta e poucos, mas já me sinto seguro o bastante para colecionar (e propagar) algumas verdades absolutas. E antes que você se exalte, respire fundo três vezes: ninguém carrega consigo as verdades absolutas sobre a vida, o universo e tudo mais – isso você só descobre aos 42. A questão aqui é mais atemporal: seria bom saber que os melhores dias da sua vida estão acontecendo bem diante dos seus olhos, nesse exato momento, se fosse o caso. A realidade é mais severa nesse sentido: você só os reconhecerá à distância, pelo espelho retrovisor, enquanto dias aparentemente medianos parecem repetir os mesmos padrões, problemas e pessoas. Esse seria um jeito de pensar sobre tais dias, salvo exceção quando se decide rever suas expectativas. Ambição é uma dádiva – sem ela nem sairíamos da cama de manhã – mas percepção é o verdadeiro tesouro. Especificamente: o meio termo que você mesmo pode determinar entre a vida que sempre sonhou em ter, e a vida ...

O domínio do "f*da-se"

Treze anos atrás, eu disse que quando dói a ponto de morrer, você sobrevive. Quod erat demonstratum. Na primeira temporada da pandemia, nenhum de nós imaginou, pra início de conversa, que seria uma “primeira temporada”. Olhando em retrospectiva, após algumas renovações involuntárias e variantes incessantes, parecer ser cada vez mais cômodo acreditar que nada será como antes. A questão é: nada nunca foi, muito antes do colapso de 2020.  Agora, o porquê nos apegamos aos desastres naturais externos mais do que às armas de autodestruição que estamos habituados a detonar em nós mesmos, eu ainda não sei. Talvez pela cobertura jornalística envolvida. Tudo soa mais urgente acompanhado pela vinheta do Plantão da Globo. Mas nenhuma redação pode viver em torno dos desgastes e destroços emocionais, tentando emitir algum alerta a partir deles. Não, espere. Essa aqui pode. Se estamos prestes a encerrar esse capítulo obscuro da nossa história, seria importante ressaltar os piores momentos – a fi...

O schadenfreude nosso de cada dia

Preste atenção, pois este vai ser um texto confuso. Mas eu prometo que você não precisa entender alemão ou geopolítica para saber do que estou falando. Schadenfreude. De origem alemã, o termo resulta da junção das palavras “schaden” – que significa “dano, tristeza ou prejuízo” – e “freude” – sinônimo de alegria, prazer. Você pode nunca ter ouvido falar nisso, mas a pratica diariamente e eu posso provar.  Schadenfreude é o motivo pelo qual, por exemplo, somos atraídos à janela após ouvir o freio demasiado que antecede a batida de dois carros na esquina. Ou a razão pela qual a guerra da Ucrânia se consolidou como uma linha editorial de toda grade televisiva – do matinal jornalístico ao entretenimento noturno. E é o catalisador das reuniões informais nos cantos do escritório para sussurrar sobre como a Cíntia da Contabilidade voltou a beber após seu marido sair de casa. Enfim, schadenfreude é o sentimento de euforia que só a falência alheia pode nos proporcionar. Analisado extensivame...

A falácia do custo afundado

Eu não vim até aqui pra desistir agora Entendo você se você quiser ir embora Não vai ser a primeira vez nas últimas 24 horas - “Até o Fim”, Humberto Gessinger É fácil se deixar levar pela falácia do custo afundado – tanto que aposto que você nem sabe o que é. Claro, já a vivenciou em primeira mão, já teve segundas intenções sobre ela, e já a presenciou em terceiros. Mas como é de se esperar de todos nós, só é possível mesmo absorver algo quando este algo se materializa de uma forma óbvia. Nem todo mundo reconhece a falácia do custo afundado, mas todos temos na memória a última vez agimos com teimosia. Ou então, a última vez que pensou sob a famigerada noção de que algumas oportunidades não cabem aos outros, apenas a si. Já tentou acelerar em um cruzamento sob o alerta do sinal amarelo? Ou insistir em percorrer um caminho apesar das placas de “rua sem saída” à sua frente? E quanto a conceder mais tempo do que um relacionamento necessitava antes de declarar sua falência? Esse misto de a...

O complexo do perrengue

Eu agora espero pelo momento em que a catástrofe da minha personalidade se torne bela de novo, e interessante, e moderna...   – “Mayakovsky”, Frank O’Hara É um bom indício dos tempos nos quais me encontro hoje, quando me deparo diante de uma página em branco sentindo-me mais ameaçado do que o de costume. Não mais pelo medo das palavras que possam vir a ocupar aquele espaço, mas pelo medo de que não tenha restado nada a ser dito. Tempos de mudança, desequilíbrio e transtorno. Essa é a natureza da... bom, natureza. Não há corpo em seu estado presente que venha a permanecer dessa forma por muito tempo. Somos como os dias, os ventos e as dúvidas: em constante mudança, sem grandes esperanças. Mais do mesmo, de novo e de novo, até que o habitual recupere seu charme de outrora. O mesmo charme que nos atraiu a ele em primeiro lugar, e nos repeliu logo antes de partirmos. Existem várias maneiras de (tentar) descrever as mudanças, e raras são aquelas que ainda não conhecem o interior de um l...