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O paradoxo da piscina em casa

Eu fui uma criança de apartamento, o que em teste já deveria te dizer tudo que precisa saber sobre mim. Desde as pobres habilidades sociais – graças à arte de evitar vizinhos nas escadas – até a péssima coordenação motora – por ter preguiça demais para enfrentar as escadas rumo a qualquer espaço livre no térreo para praticar alguma atividade física. Mas meu prédio não era como os de hoje – completo com todas as áreas gourmetizadas possíveis, quadras de beach tennis e espaço pet. Longe disso; naquele tempo o ápice da vida verticalizada era ter um botão para controlar a entrada e saída da “porta de vidro” que separava o portão externo e os capachos dos moradores do primeiro andar. Naquele tempo eram raros os prédios com elevador ou algum atrativo na área comum. Por isso era sempre animador visitar algum amigo ou parente que morasse em uma casa cujo terreno permitisse melhorias como churrasqueira, uma rede pendurada entre pilares e, claro, uma piscina. Os meses entre novembro e fevereiro...

É assim que acaba

Eu preciso confessar uma coisa. Por mais arrogante que eu soe, na maior parte do tempo eu mais tento convencer a mim mesmo do que a quem ouse atentar-se aos meus pensamentos. O que nada mais é do que uma nova tentativa de me redimir diante da declaração de um falso absoluto. Se esta não é a sua primeira vez aqui, certamente leu o quão veementemente eu conheço o fim. Bom, adivinha só? Não é bem assim... Eu achei que conhecia o fim pelas mesmas razões que me motivaram a declarar que conhecia o que vinha antes dele. Mas ao que parece você só pode se certificar de algo ao dispor de tempo e distância suficientes para enquadrá-lo. Enquanto estiver no meio de algo, apenas atravesse a tempestade. Só sabe dizer como é ver a floresta através das árvores quem já trilhou seu caminho fora dela – o que não era o meu caso até então. Caso essa seja sua primeira vez aqui, recolha meus votos de acolhimento e boa sorte. Nada aqui fará sentido a não ser que você o atribua. Isso é algo que me deixa seguro ...

Eu conheço o fim.

Tem tanta coisa que eu gostaria que você soubesse. Mas não queria que apenas ouvisse o que tenho a dizer.  Queria que acreditasse que é verdade, porque é. Mas calma: não quero dizer que tenho algum tipo de razão. Longe disso. Existem coisas maiores do que você e eu, isso é só um fato. E entre todas as coisas que existem pelo mundo afora, quanto mais você as descobre, menos você percebe que tem razão sobre alguma delas.  Só porque você as descobriu agora, antes de alguém que você conhece, não significa que há algum mérito a ser coletado. Só significa que você saiu da sua zona de conforto por tempo e distância suficientes para perceber que há um mundo lá fora. Maior do que si mesmo e com certeza maior do que você que está lendo isso.  Não é, nem nunca foi, sobre razão. É sobre conhecimento e sobre a dádiva de compartilhá-lo. E é isso que eu quero que você saiba, porque talvez seja novidade pra você: eu conheço o fim. Não me pergunte como eu sei disso. Apenas acredite em mim...

Quem é você agora?

Você já deve ter se perguntado isso: como eu cheguei até aqui? A resposta, bem como a leitura da pergunta, pode atribuir um ar positivo ou negativo. E não depende necessariamente de onde você está agora. É o que eu digo há anos: perspectiva muda vidas. Se repensar em todos os momentos em que se pegou definindo algo para si mesmo, consegue traçar uma linha reta desde então até aqui e agora? Provavelmente não. Ao contrário do que os heróis nos ensinam, nenhuma jornada é linear.  Algumas tem menos em comum com a Odisseia e mais em comum com a minha cidade mesmo: cheia de rotatórias bem-intencionadas, porém mal executadas. O que explicaria a incessante sensação de que parecemos viver em círculos. Se pensarmos de uma forma negativa, é fácil cair na armadilha da comparação. Como se todos à sua volta tivessem desvendado o enigma de quem deveriam ser, o que deveriam ser e onde deveriam estar, enquanto você ainda tenta distinguir as pistas.  Tão fácil é cair nisso, que só nos lembramos...

Os melhores dias da sua vida

Eu sei que ainda sou um recém-chegado à casa dos trinta e poucos, mas já me sinto seguro o bastante para colecionar (e propagar) algumas verdades absolutas. E antes que você se exalte, respire fundo três vezes: ninguém carrega consigo as verdades absolutas sobre a vida, o universo e tudo mais – isso você só descobre aos 42. A questão aqui é mais atemporal: seria bom saber que os melhores dias da sua vida estão acontecendo bem diante dos seus olhos, nesse exato momento, se fosse o caso. A realidade é mais severa nesse sentido: você só os reconhecerá à distância, pelo espelho retrovisor, enquanto dias aparentemente medianos parecem repetir os mesmos padrões, problemas e pessoas. Esse seria um jeito de pensar sobre tais dias, salvo exceção quando se decide rever suas expectativas. Ambição é uma dádiva – sem ela nem sairíamos da cama de manhã – mas percepção é o verdadeiro tesouro. Especificamente: o meio termo que você mesmo pode determinar entre a vida que sempre sonhou em ter, e a vida ...

O domínio do "f*da-se"

Treze anos atrás, eu disse que quando dói a ponto de morrer, você sobrevive. Quod erat demonstratum. Na primeira temporada da pandemia, nenhum de nós imaginou, pra início de conversa, que seria uma “primeira temporada”. Olhando em retrospectiva, após algumas renovações involuntárias e variantes incessantes, parecer ser cada vez mais cômodo acreditar que nada será como antes. A questão é: nada nunca foi, muito antes do colapso de 2020.  Agora, o porquê nos apegamos aos desastres naturais externos mais do que às armas de autodestruição que estamos habituados a detonar em nós mesmos, eu ainda não sei. Talvez pela cobertura jornalística envolvida. Tudo soa mais urgente acompanhado pela vinheta do Plantão da Globo. Mas nenhuma redação pode viver em torno dos desgastes e destroços emocionais, tentando emitir algum alerta a partir deles. Não, espere. Essa aqui pode. Se estamos prestes a encerrar esse capítulo obscuro da nossa história, seria importante ressaltar os piores momentos – a fi...

O schadenfreude nosso de cada dia

Preste atenção, pois este vai ser um texto confuso. Mas eu prometo que você não precisa entender alemão ou geopolítica para saber do que estou falando. Schadenfreude. De origem alemã, o termo resulta da junção das palavras “schaden” – que significa “dano, tristeza ou prejuízo” – e “freude” – sinônimo de alegria, prazer. Você pode nunca ter ouvido falar nisso, mas a pratica diariamente e eu posso provar.  Schadenfreude é o motivo pelo qual, por exemplo, somos atraídos à janela após ouvir o freio demasiado que antecede a batida de dois carros na esquina. Ou a razão pela qual a guerra da Ucrânia se consolidou como uma linha editorial de toda grade televisiva – do matinal jornalístico ao entretenimento noturno. E é o catalisador das reuniões informais nos cantos do escritório para sussurrar sobre como a Cíntia da Contabilidade voltou a beber após seu marido sair de casa. Enfim, schadenfreude é o sentimento de euforia que só a falência alheia pode nos proporcionar. Analisado extensivame...