quinta-feira, 27 de junho de 2013

Agonia e ex-tase


            Duas coisas que definitivamente não combinam: carência e tempo livre. Porque a combustão desses dois fatores só pode gerar uma das duas possibilidades: ou você acaba pensando em coisas que deveria esquecer, ou acaba fazendo coisas que você imediatamente vai se arrepender. E ambas as alternativas geralmente envolvem o mesmo alvo: a ex-namorada, ou a ex-ficante, ou a paixão platônica que você carrega consigo no bolso há anos, ou o reascender de qualquer outro relacionamento interditado da sua vida que, por um instante, você decide esquecer que foi interditado por medidas de segurança ou bom senso e resolve dar uma relembrada pelos velhos tempos. Ou pela falta de coisa melhor pra fazer.
            Se acabou, acabou por um motivo. Por um motivo maior do que vocês, maior do que as risadas que vocês compartilhavam, maior do que o prazer que os lábios dela te traziam. Pode parecer grosso – ou existencial, depende do cliente – da minha parte, mas é realmente tão simples assim. Mas todos nós fazemos e ninguém pode jogar a primeira pedra. Por que nós fazemos? Medo do novo, disfarçado de tédio que nasce do tempo livre, que se alimenta da carência e acaba te engolindo por inteiro se você ficar olhando para a chuva lá fora por muito tempo, achando que o clima frio é nublado é a melhor coisa do mundo. Eu sou o primeiro a defender todo o patrimônio que é o inverno, mas fugir do frio tem limite. Se esconder no familiar e ter medo do novo tem limite. E se você tiver muita, mas muita sorte mesmo e encontrar aquela ex online no Facebook, será ela quem irá te lembrar o motivo pelo qual você não está aproveitando o inverno abraçado com alguém.
            É natural se prender ao familiar, especialmente quando faz tanto frio lá fora e a chuva não perdoa – e a ex está sempre online ali, encarando você, questionando você, atraindo você e rindo da sua cara, tudo ao mesmo tempo, sem nem trocar duas palavras com você. De agora em diante eu jamais julgarei alguém de novo por procurar alguma ex-namorada para conseguir um colo para se esconder enquanto o inverno continua arrepiando a nossa pele e congelando o chão da nossa cozinha – lugar onde todo solteiro costuma visitar regularmente; na falta de alguém para amar, pelo menos faremos nossos estômagos felizes. Só não venha chorando para mim quando a primavera chegar e tudo ficar bem de novo, enquanto você tenta achar uma maneira de não afundar com o iceberg que um dia você chamou de “meu amor”.
            Deve haver um jeito melhor de lidar com a carência do inverno sem recorrer a antigas paixões ou cinquenta tons de pizza, e algo me diz que enfrentar o medo do novo é a resposta. Ou você enfrenta o frio lá fora e tenta conhecer alguém novo pra trazer para dentro de casa, ou esfria por dentro e espera pela primavera te salvar, já que tem tanto tempo livre assim.
            Ou pare de enrolação e análise funcional do desespero da sua existência, coloque uma blusa e vá escrever seu TCC que você ganha mais, Igor. Pode colocar uma música depressiva pra tocar enquanto isso, se te faz feliz.


terça-feira, 25 de junho de 2013

Algo novo


   Com nada para fazer a não ser investigar a profundidade do meu tédio existencial, eu decidi fazer o que qualquer homem normal faz quando fica sozinho em casa. Eu pedi uma pizza, claro. Na verdade eu tenho o que fazer e muito, por sinal. TCC, relatório de estágio, roupa pra passar. Pelo menos a barba anda em dia. Mas as coisas que nós temos que fazer e a urgência delas tendem a ser diretamente proporcionais ao trabalho e a chatice que elas acarretam. O que nos leva a fazer qualquer coisa, como pedir pizza e fingir que nada disso é com a gente.
   Eu gosto de ter o que fazer, e isso só perde para o prazer de ter muito o que fazer e resolver procrastinar em vês de produzir resultados. Ultimamente eu tentei me ocupar o máximo que pude para evitar cair no abismo que o meu tédio existencial costuma produzir, e é tudo muito útil e indispensável em teoria, mas na prática não passou de projetos e promessas vazias; coisa que eu também sou muito bom de fabricar.
   Na minha lista de afazeres estavam candidatar-me a um projeto de triagem estendida na minha faculdade, recomeçar a academia pela quarta vez nesta vida (“e levar a sério dessa vez!”), terminar pelo menos a parte teórica do meu TCC, escrever meu relatório bimestral de estágio, e rascunhar alguma ideia boa – ou razoável, não estou podendo escolher – para um livro e quem sabe com muita fé, esperança e enredo o suficiente, conceber uma história interessante o suficiente para ser publicada e – por que não? – me render alguma fama ou até mesmo apenas alguns trocados colaterais para pagar as contas.
   Parecia tudo muito promissor se não fosse por um detalhe: eu acabei ficando em casa mesmo pedindo pizza e assistindo filmes e maratonas de séries por dias. Sim, eu disse dias. E não me olhe assim; a chuva começou em Cascavel em 2009 e nunca mais parou. Que outra escolha eu tinha? É, eu poderia assumir responsabilidade pela falta dos meus atos em vês de colocar a culpa no clima úmido lá fora. Fácil pra você dizer; não é a sua roupa no varal que não seca nunca.
   Mas apesar dos meus planos – os teóricos, os fictícios e a pizza de verdade – ainda me faltava algo. Algo que eu não poderia planejar ou rascunhar, ou até mesmo prever. Me faltava vida. Eu não deveria reclamar. 2013 tem sido muito bom pra mim, até mesmo quando não foi. Pelo menos havia ação, emoção, movimento. Havia pessoas que eu não conhecia, lugares que eu ainda não tinha visitado, coisas que eu não tinha pensado em dizer ou fazer antes. Algo novo. Era disso que eu sentia falta. Já teve a sensação de que sua vida estagnou? Eu já. Especialmente aos fins de semana, esperando a parte boa do Sábado começar. Sabe, entre as quatro da tarde e as dez e meia da noite. Horário rico em tédio existencial e potencial suicida. E o que eu faço nesse horário geralmente? Tem sido uma matinê constante de pizza, filmes e maratonas de séries a cada novo fim de semana. De novo, que outra opção eu tinha com essa chuva e esse frio lá fora?
   Não. Não é de algo novo que eu sinto falta. É de alguém novo. E o nome disso não é tédio existencial; é saudade. E só tem um jeito de resolver isso: sair de casa e passar frio, mesmo debaixo de chuva. Pelo menos sentirei algo. Talvez não seja algo novo, mas é um começo. Eu gosto do inverno, mas convenhamos que não tá fácil.


domingo, 23 de junho de 2013

O melhor amigo


   18 anos atrás, eu conheci alguém. Eu jamais lembrarei o lugar ou o momento exato em que eu estava, ou até mesmo o que eu estava fazendo. Talvez você se lembre, sua memória sempre foi mais apurada do que a minha. Eu sempre me lembro das datas, mas não exatamente do que aconteceu. Você sempre se lembra de cada detalhe, desde os inúteis até os mais memoráveis, mas não consegue recordar em que dia do mês nós estamos. Exceto por hoje, claro.
   Mas nós nos conhecemos e nos tornamos amigos com base em absolutamente nenhum critério realmente – nós estudávamos juntos na mesma sala, tínhamos a mesma idade e a mesma altura, e provavelmente em algum ponto eu fiz algo estúpido ou engraçado – ou quem sabe os dois, porque minhas tragédias sempre foram naturalmente cômicas – e você deu risada. E provavelmente pensou que poderia rir muito mais se continuasse andando comigo. E era legal ter alguém rindo das minhas piadas mais estúpidas, ou dos meus erros mais estúpidos, porém cômicos. Mas talvez um dia algo tenha dado errado e meus erros tenham cruzado a fronteira das risadas e realmente se tornaram problemas, e foi aí que as coisas ficaram sérias e começamos a crescer. E você decidiu que precisava me ajudar com os meus problemas, se a gente quisesse chorar de rir de novo.
   Com o passar do tempo começamos a esclarecer melhor nossos critérios para rir juntos, além da nossa idade e altura. Ainda mais quando você se tornou cada vez mais bem sucedido conforme amadureceu, e eu só cresci na altura mesmo. E logo vieram outras pessoas, outras salas de aula, outros compromissos, outros apartamentos (e mudanças, por sinal), outras mulheres além daquelas com as quais sonhávamos estar um dia. Lembra de quando tirávamos o telefone do gancho e subíamos até o telhado do meu prédio para comer salgadinhos e encher a cara de suco enquanto aproveitávamos a vista lá de cima que, para nós, parecia ser o ponto mais alto da cidade – do mundo que nós até então conhecíamos. E nos imaginávamos com nossas mulheres e aos poucos fomos preenchendo outras lacunas das nossas visões sobre o futuro. O que fazer depois do ensino fundamental? O ensino médio ia ser tão difícil assim? E faculdade, trabalho, mais e mais compromissos. Casamento, filhos, uma vida toda a nossa frente só esperando que a gente crescesse para começar. E nos perguntamos se ainda seriamos amigos, porque nem você sabia o que iria acontecer. Geralmente eu procurava você para ter as respostas sobre tudo, porque você sempre foi o mais inteligente. Eu era o engraçado, o criativo, o sem noção. O que, provavelmente, teve a ideia genial de subir no telhado, pra começar... Mas deu certo, e ainda dá certo até hoje.
   Porque hoje, 18 anos depois, já estamos na casa dos vinte-e-poucos. Você já se formou, enquanto eu ainda faço o que posso. E temos responsabilidades, faturas de contas com nossos nomes; coisa que costumava ser só dos nossos pais - para nós elas eram só pedaços de papeis que não podíamos usar para desenhar. Temos empregos e carteiras de motorista. Quer dizer, você tem. Mas com o seu carro e o meu próprio apartamento, se estivéssemos na mesma cidade seriamos invencíveis, com certeza. Como sempre fomos. Porque nem mesmo quando eu fui embora, a gente precisou se despedir. Eu simplesmente fui, e volto quando posso. E te ligo para pedir o desgraçado favor de acordar de madrugada para me buscar na rodoviária.
   O que eu quero dizer com tudo isso é que, pra falar a verdade, eu sinceramente não vi esses 18 anos passarem. Às vezes ainda é como se aquele pequeno apartamento onde eu e minha mãe morávamos ainda está lá a nossa disposição, com aquele portão baixo e fácil de se pular quando alguém perdia a chave. E com a porta para o telhado sempre destrancada, por que quem em sã consciência iria querer subir lá? Nós subíamos para ver o futuro, para fugir da rotina um pouco, para matar tempo durante uma tarde chata onde todos os desenhos animados na televisão são reprises, e para questionar se ainda seriamos amigos quando tudo aquilo passasse. 18 anos depois, acho que temos a nossa resposta.
   Feliz aniversário, meu amigo. Estamos semi-novos, meio ao nossos vinte-e-poucos anos, gordos e levemente embriagados pelo tempo, pelo álcool e pelas responsabilidades que nos alcançaram, mas ainda somos os mesmos. As duas crianças que, sem nenhum critério nem pretensão nenhuma, durante uma manhã de pré-escola há quase duas décadas, simplesmente se tornaram amigos e nunca mais se separaram. Você é o irmão mais velho que eu sempre precisei, e o melhor amigo que eu poderia ter.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Consciente coletivo


   Eu fui pra rua. Confesso que não sou a pessoa mais ativista que já existiu, ou até mesmo a mais bem informada em... Bom, qualquer coisa. Não conheço muito sobre política, mas até aí é proposital. Por incrível que pareça, não gosto de discutir nada que leve a muita polêmica, porque meu coquetel pessoal de egocentrismo e instinto de autodestruição sempre supera minha capacidade de ser humilde e aceitar a opinião de outro ser humano. Mas apesar de tudo isso eu fui pra rua sim. Porque existe algo de errado com este país e eu não concordo. Pronto, é isso. Não vou questionar mais os motivos de mais ninguém sobre ter ido para as ruas se ninguém invocar justificativas para os meus.
   O protesto durou cerca de três horas e foi desde o calçadão de Cascavel até a prefeitura, e depois voltamos à Catedral porque disseram-me que, em termos de passeatas e manifestações, o point é ali mesmo. Choveu incansavelmente durante todo o percurso, o que diminuiu o número de participantes, mas quem foi deve levar o crédito. Porque a caminhada até lá não foi fácil, mas se considerarmos o longo caminho que o Brasil teve que percorrer para finalmente “acordar” como todos dizem, alguns passos molhados que duraram minutos foi um preço baixo a se pagar. E eu fui porque precisava ver com meus próprios olhos o povo reunido na rua, lutando de alguma forma pelos seus direitos e querendo ser ouvido a todo custo, porque o absurdo da nossa nacionalidade já havia passado dos limites há muito tempo. Não, não foi por vinte centavos. Os vinte centavos foram a gota d’água que transbordou o copo. Foi o estopim que anunciou a passeata. Foi o aumento que nós como nação não estávamos dispostos a arcar para continuar da mesma maneira que estávamos desde a última vez que exigiram mais de nós e em troca nos deram menos da metade do que merecíamos. Menos da metade do que nossos direitos constituem que deveríamos ter. E não foram só vinte centavos, pra ser exato.
   Mas quando me perguntaram qual era a minha causa, meu silêncio abobado por fazer parte daquela multidão mudou de forma. Meu silencio passou a moldar toda a minha alienação que, por mais que eu tentasse defender, faz parte fundamental de mim e acho que isso infelizmente também é proposital. Eu não só evitava discutir política; eu achava que não importava. E mesmo assim eu estava ali, pegando carona debaixo dos guarda-chuvas dos meus amigos que, ao contrário de mim, não precisaram buscar a definição do PEC 37 no Google antes de sair marchando pela rua. Foi então que eu percebi exatamente não só o que eu estava fazendo ali, mas o que eu estive fazendo ultimamente na minha vida pré-protesto: nada. Me disseram que eu deveria ir pra rua e eu fui, assim como me dizem que eu preciso pensar no futuro e chegar na hora no trabalho, preferencialmente usando uniforme, e fazer a barba mais regularmente, além de uma série de outros comandos com os quais eu me comprometi sem questionar, na falta de um argumento convincente ou o temor de combater minha preguiça e mover um músculo que fosse contra a maré. Naquele momento eu era como o Brasil: havia algo errado comigo e era preciso fazer alguma coisa. Era preciso acordar, mudar, e sair pra rua mesmo e tomar sérias providências.
   Mesmo sem entender muito de política, eu me coloco contra as últimas decisões que o governo superior ao meu pai e minha mãe tem tomado, e nem precisei ler muito mais além da timeline do meu Facebook: a teoria de uma “cura gay”, a aprovação primária do Ato Médico, e até mesmo o PEC 37 (dentre outros PEC, por sinal). Alienado ou não, mas seriamente desinformado, confesso que fui pra rua porque apoiava mesmo aquele povo junto, lutando não só por essas causas, mas muito mais. O passe livre para estudantes, a melhoria da saúde pública, a necessidade de mais investimento na educação do país. Tudo, definitivamente, mais importante do que um estádio novo que, pelo preço da obra, terá preços ainda mais caros em cima dos ingressos para entrar nele. Não é de um prédio que o país precisa agora. O país precisa de esperança. E se até eu fui capaz de acordar, não deve demorar muito para as coisas começarem a se acertar.
   Brasil, eu e você precisamos fazer alguma coisa. Chega de esconder sujeira debaixo do tapete em vês de arrumar a casa de verdade, ou de empurrar as coisas com a barriga – volte para a academia, e dê um jeito de colocar esse dinheiro – o nosso dinheiro – para trabalhar exatamente aonde deve, e não gaste mais com supérfluos. Como se você tivesse mesmo dinheiro pra supérfluos – já deu uma olhada no seu extrato do cartão da Renner, Igor?
   Enfim, o gigante acordou e ele não gostou do que encontrou. Talvez seja muito discurso vindo de alguém que, até ontem, achava que tudo estava bem do jeito que estava. Verás que um filho teu não foge a luta. Antes tarde do que nunca, não é?

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O grupo de apoio


   A maioria das pessoas tem amigos, festas e confraternizações normais, e eu admiro muito isso. Mas o que eu admiro muito mais mesmo é o que eu e meus amigos temos. Temos festas sim, regadas a muita cerveja e com direito à degustação de vodkas diferentes, e até nos arriscamos em letais partidas de jogos de tabuleiro apostando doses de tequila e o que restou da nossa reputação. E quase sempre sobrevivemos, salvo alguns danos aos nossos egos e piadas recorrentes que nascem depois que a ressaca do dia seguinte passa, mas logo estamos prontos para o próximo fim de semana. E temos confraternizações como qualquer outro bando de amigos próximos. Nossos aniversários não passam em branco – quer dizer, quase todos; não é minha culpa se o Luis nasceu em Janeiro ou se o Chuck só se lembrou do dele na véspera quando já tínhamos outros planos. E quanto às datas comemorativas, como a vez em que eu consegui sair e ficar bêbado sem voltar a pé pra casa da balada, ou mais recentemente o churrasco da minha despedida de álcool – já que vou passar os próximos seis meses na base de água, antibióticos e amarga sobriedade – também fazemos questão de nos reunir e fazer o que fazemos de melhor: dar risada uns dos outros livremente, custe a piada que custar.
   Renan é o estrategista. Ele é o encarregado de planejar as festas, correr atrás dos convites, organizar os convidados e fazer o fervo acontecer. Ele também é o encarregado quando eu estou ocupado e não posso liderar o bando. Não? Ok, eu tentei. Por causa da sua carreira como poker player, possui uma tendência de analisar cada aspecto dos jogadores ao seu redor – seus pontos fracos, suas aspirações, seus medos. Quando não me irrita ter cada atitude minha à mercê de uma autópsia funcional, eu gosto dos seus insights. São eles que na maioria das vezes me fazem parar e repensar algumas coisas, especialmente depois que eu faço algo errado e preciso de ajuda para rever meus passos e descobrir exatamente em qual rodada da vida eu me excedi e dei tilt.
   Luis é o cauteloso. O que pensa bem antes de tomar alguma atitude e nos inspira a fazer o mesmo, apesar de nunca conseguirmos. Nós somos impulsivos e pagamos caro por isso às vezes, mas é para isso que o Dr. Luis está conosco. Ele é o que nos socorre quando precisamos de ajuda, uma consulta ou até mesmo uma anestesia geral para esquecer as idiotices que fizemos. Ele é o que nos faz perceber o quanto nossas atitudes tem consequências, e nos obriga a parar para pensar em cada resultado possível quando estamos com algum novo alvo em mente mas sem nenhum plano plausível de como chegar nela. Sempre posso contar com o doutor para me certificar de que não estou me envolvendo com alguma doença em potencial na forma de uma mulher assustadoramente atraente. E convenhamos que ele foi o primeiro a me dizer que eu precisava tirar aquele negócio no meu pescoço. Confie no seu médico e nunca falte a uma consulta. Confesso que sou relapso com a minha saúde – especialmente a mental – por isso é bom ter um médico por perto em caso de emergências.
   Chuck, também conhecido como Mudão ou Lucas para os menos próximos, é o reflexivo. Ou talvez “reflexivo” seja só um adjetivo mais cativante do que, “aquele que sabe tudo que está acontecendo ao redor mas não diz nada, só espera para ver no que vai dar”. Chuck é o engenheiro e o amigo pau-pra-toda-obra que você precisa ter quando sai por aí. Ele é a rocha do grupo, aquele que está sempre ali pro que der e vier, mas não contribui muito em termos de palavras e... Bom, ele não fala muito mesmo. E nem precisa, pra ser sincero. Porque quando ele realmente pede a vez para falar, todos nós ficamos quietos e só tentamos escutar e aprender, porque a lição é certa. Ele é o que nos faz realmente rever os nossos planos e procurar possíveis falhas na planta que não conseguimos ver quando estamos prestes a colocar o projeto em ação. Ele é o que nos salva de nos afundarmos em vazamentos ou soterrarmos em algum deslizamento que não previmos porque estávamos mais preocupados em terminar a obra do que escolher um bom terreno. É por isso que você sempre pode confiar em um engenheiro.
   Eu sou o psicólogo e, ironicamente, o que mais corre para pedir ajuda. É por isso que eu disse que a maioria das pessoas tem amigos e festas e confraternizações normais, e eu acho tudo isso ótimo. Mas o que eu tenho é melhor ainda. O que nós temos é um grupo de apoio, com toda a sinceridade e firmeza de uma terapia, mas com direito à álcool e confusão. Nossas reuniões ocorrem todo fim de semana ou em ocasionais encontros de última hora durante a semana mesmo quando algum evento importante precisa ser debatido ou analisado com clareza pelo bem de um dos integrantes. Clinicamente falando, ter amigos é ótimo e eu não seria nada sem eles, mas eu não trocaria o meu grupo de apoio por nada mais convencional. Qual é o nosso lema? Quando tudo mais falhar, apenas “segue o jogo”. E é a minha opinião como pseudo-profissional da saúde mental e encarregado de manter a ordem e o progresso do grupo que eu digo que nós vamos ficar bem, e o melhor ano das nossas vidas está correndo conforme o planejado.
   #partiuvida

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O efeito Scherzinger III


   Todo mundo quer um amor pra vida toda. Quer dizer, aqui e agora falo apenas por mim e absolutamente todas as pessoas que já conheci até hoje. Ainda não conheci muita gente para garantir os direitos autorais de uma nova regra vigente social. Enquanto isso, continuo com minha mera e infame afirmação que eu, você e todos ao nosso redor estão cansados de saber e sonhar um pouco a cada dia nem que seja nos últimos instantes da sua rotina corrida e intransigente, quando você finalmente deita a cabeça no travesseiro e pensa: “Finalmente consegui voltar pra minha cama... Mas seria bom ter mais alguém aqui. Quem sabe a fulana...” Todo homem sonha com uma Fulana. Talvez não com a mesma fulana duas noites seguidas, mas definitivamente com uma Fulana pra vida toda. Quer dizer, depois de provar uma Ciclana e uma Beltrana, nem que seja só para ter certeza de que a Fulana é mesmo a mulher certa.
   Com mulheres não é muito diferente. Sonham com o príncipe Fulano, da província de Fulânia, com as rédeas do seu cavalo branco Spartacus em uma mão e sua espada afiada e justiceira na outra. E querem que ele venha logo... Isto é, não precisa aparecer agora, entende? Com tantos Beltranos mandando mensagens de madrugada e Ciclanos convidando para dar uma volta por aí numa sexta-feira fria e preguiçosa. Quem sabe só ver um filminho, uma pipoquinha, um vinhosinho. Ninguém precisa ficar sabendo. Não tem nenhum compromisso sério com o Fulano, tem? Nenhuma aliança no dedo, nenhuma satisfação para dar, nem mesmo hora pra acordar no dia seguinte. Esta talvez seja a única maneira em que todos nós somos iguais: homens e mulheres, altos e baixos, gordos e magros, feios e bonitos, solteiros e comprometidos. Todos nós queremos um amor pra vida toda. Mas honestamente falando, a gente ainda tem a vida inteira pela frente.
   Quanto a mim, confesso que, entre uma confissão de amor eterno e outro, tenho minha lista de Ciclanas e Beltranas guardada no bolso com muito carinho. Não desista dos seus sonhos, não é o que dizem? E além das Ciclanas e Beltranas, tem a Nicole Scherzinger que não me deixa realmente me comprometer com mais ninguém, mesmo que ainda não tenha cruzado nem no mesmo CEP que ela. Mas a esperança é a última que morre, e a Nicole pode estar por aí procurando por mim neste exato momento, sonhando comigo cada vez mais a cada decepção que a multidão de Ciclanos e Beltranos vem causando a ela. Pobre Nicole. Eu posso ser o seu Fulano, meu amor. Não, eu não tenho um cavalo. Não, eu não sei dirigir ainda. Mas eu sou engraçado... Isso conta? Tá, depois a gente resolve isso.
   Eu não tenho idade para encontrar o meu amor pra vida inteira. E nem ganho o suficiente pra isso também. Quem sabe daqui uns dois ou três anos. Ou sabe se lá quando, realmente. Como se eu pudesse me dar ao luxo de escolher. Até porque, se pudesse, renovaria meus votos à Nicole todas as vezes. Claro que não estou falando aqui da Scherzinger de verdade. Estou falando da Ciclana... Aquela que não só convive no mesmo CEP que eu às vezes, como até desfila por mim com seu perfume apaixonante e olhar enigmático. Tão enigmático que de vez em quando eu gosto de alucinar que estão me chamando. Só que não. Mas é bom sonhar, e é bom curtir a vida. Pessimismo à parte, o seu amor pra vida inteira pode muito bem aparecer amanhã. Ou pode não aparecer nunca, vai saber. O que eu quero dizer é que eu não me prendo mais a isso. É isso mesmo que você leu. Eu. Não me prendo mais a um amor pra vida inteira. E pra falar bem a verdade, não me prendo mais a nada ultimamente. Só a coisas que me fazem feliz, e as obrigações que preciso honrar se eu quiser me formar, ou continuar recebendo meu salário, ou ter a chance de me divertir um pouco com alguma Beltrana que me aparecer daqui pra frente. Por que não?
   Quem vive para um amor pra vida inteira sozinho, na verdade não vive nada. Não que a minha vida seja um exímio exemplo de motivação, mas ultimamente tem sido melhor do que qualquer publicação lamentosa de quem passou o Dia dos Namorados solteiro(a), ou quem ainda cria expectativas com as pessoas erradas – quando já sabem de frente que são as pessoas erradas. Eu ando muito bem, mesmo sem um amor pra vida inteira, ou um amor pra hoje a noite mesmo. Talvez eu tenha mais sorte amanhã. Quanto ao futuro não há argumentos; ainda sou um otimista. E nem desejo mais mal pra ninguém. Ok, quase ninguém. É um processo. Ainda estou aprendendo. Felicidade não vem assim da noite pro dia, né. Mas convenhamos que é um bom começo.
   Sonhe comigo, Nicole.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Como salvar uma vida


   Ela me fazia sorrir. De tudo é disso que eu mais me lembro. Ela me ensinou a sorrir de novo, quando eu já estava acostumado a aparecer sempre com a mesma cara fechada e aparentemente séria em todas as fotos por aí. Ela me fez questionar mais as coisas. Me fez pensar em tudo que eu costumava dizer e fazer para as pessoas e para mim mesmo, e o que tudo aquilo realmente significava. Me fez perceber que eu falava muito e fazia muito sem pensar em nada antes, ou que eu poderia me tornar um prisioneiro das minhas próprias palavras e atitudes se eu não começasse a me segurar um pouco e, por que não?, cuidar de mim um pouco mais. Ela disse que eu poderia baixar a guarda e relaxar porque ela cuidaria de mim. Eu nunca pensei que seria mais fácil sair por aí sorrindo de novo do que simplesmente baixar a guarda. Anos de decepções podem ser facilmente disfarçados com um pouco de otimismo nos lábios, mas confiar em outra pessoa sem me preocupar em ter um plano B guardado no bolso já é outra história. Outra história que, apesar de ter ido longe desta vez – a ponto de se tornar física, verdadeira, cativante e excitante – acabou se repetindo.
   Ela é linda e graciosa, apesar de levemente desastrada e esquecida. É engraçada e acidamente sarcástica. Não teve como não me apaixonar. Seu olhar era enigmático, mas um pouco perdido às vezes. Como se olhasse ao redor, por toda parte, à procura de respostas que não existiam para perguntas que realmente não importavam, mas que a incomodavam mesmo assim. Sua risada era alta e contagiante. Era o que mais me fazia sorrir, especialmente quando eu era o autor daquela risada. E durante cada instante que estávamos juntos, eu precisava sempre segurar sua mão, ou abraçá-la mesmo quando tentávamos andar juntos por aí. Eu precisava segurá-la de algum jeito, talvez para ser realmente capaz de acreditar que ela era real e estava mesmo ali comigo. Andando comigo, rindo comigo, amando comigo.
   Era tudo muito novo e assustador, mas tentador demais para deixar minha capacidade natural de auto-sabotagem abordar a campanha toda. E por um tempo a minha paranoia realmente acalmou-se. E as pessoas passaram a me ver diferente. Eu parecia mais leve, mais despreocupado, menos com cara de sério. Mais feliz, até. Não que eu não fosse feliz antes, mas havia algo nela que despertava algo a mais em mim. Algo que até então eu não havia conhecido, nem pensava que conheceria um dia. Não, não era amor. Eu já havia sentido amor antes. Já tive amor antes e tenho as cicatrizes para provar. Isso era outra coisa. Era como se a satisfação da felicidade tivesse se juntado com o conforto do amor. Sabe o que era mesmo? Segurança. Ela me fazia sentir seguro, mesmo sem ter sido capaz de baixar a guarda.
   Ela me ensinou que era preciso aceitar as pessoas como elas são. Desde os amigos até os familiares, os distantes e os pedestres na rua. Inclusive a ela e a mim mesmo. Nós éramos o que éramos, e era preciso aprender a conviver com isso se ser feliz fizesse parte dos planos. Ela me ensinou a não ter tanto medo, e a admitir que às vezes eu preciso de ajuda. Que eu não preciso dar conta de tudo sozinho. E quando o mundo parecia desmoronar, ela me deu colo. De verdade. E eu não queria sair dali tão cedo, por mais fisicamente desconfortável que eu estivesse. Era um apoio, um porto seguro no meio de tanta tempestade. Tanta correria, tantos compromissos, tantas pessoas. Era amor no meio de tantos afetos e desafetos. E era muito bom.
   Qual foi o problema então? Acontece que eu me sentia muito bem. Muito bem mesmo. Mas ela não. Pela primeira vez em muito tempo – só não me arrisco a dizer “pela primeira vez na vida”, porque minha memória não é tão boa assim e meu coração parou de contar as vitórias e as derrotas já faz algum tempo – eu estava me sentindo feliz comigo mesmo. Mas ela não. O mesmo porto seguro que me passava segurança e carinho, era o mesmo que se sentia por um fio o tempo todo, todo dia, e até mesmo incapaz de servir de apoio para alguém. Achava que não servia para isto, ou para nada por sinal. Ela conseguia me fazer sorrir por fora, até mesmo quando eu estava me sentindo bem por dentro mas meus músculos faciais não colaboravam. Os dela eram perfeitos, mas ela não sorria por dentro. Quando arriscava elaborar um rascunho de sorriso banguela, ele não durava muito tempo.
   Sempre havia mais alguma coisa dentro dela que o abafava de volta à imensidão do seu coração ferido e à deriva. E não havia nada que eu pudesse fazer para ajudá-la a não ser tentar ser paciente e esperar pelo melhor. Esperar que nós ficássemos bem e aceitar que nós éramos felizes, enquanto metade de nós estava lutando para sobreviver. Eu a fazia rir sim, mas não era bom o bastante. Eu segurava sua mão sempre que podia durante cada passo que dávamos juntos, mas e quando precisávamos desviar de algum obstáculo e eu não estivesse por perto para trazê-la de volta à calçada? Existe uma linha tênue entre amor e dependência, e se você quiser mesmo ser feliz vai precisar conseguir enxergá-la. Especialmente quando a ultrapassar.
   Ela me fez sorrir de novo, e às vezes eu ainda esboço alguns movimentos faciais bem sucedidos e arrisco até mostrar alguns dentes para as pessoas como sinal de contentamento. Mas quando eu digo que era preciso seguir em frente, cada um pro seu lado, não é porque a primeira pedra no caminho me fez tropeçar e desistir da caminhada toda. Não era ela e os seus problemas; era eu mesmo e meu ego psicótico. Meu ego apocalíptico e imprudente que se sentiu encarregado de tirá-la daquele sofrimento. De fazê-la feliz a todo custo. E quando descobriu que não era capaz, que não dependia só dele e às vezes não há mesmo nada a fazer a não ser ter paciência e simplesmente estar do lado de alguém enquanto este procura as respostas inexistentes para perguntas inúteis. Eventualmente alguém chegará a algum resultado e tudo ficará bem de novo, mas foi uma verdade dolorosa demais para mim. Ela me fez sorrir de novo, e tudo que eu queria era salvar a sua vida em troca. E quando o mundo tornou-se grande demais para acolher em meus braços, eu a deixei ir e quase perdi a direção de tudo que já havia conquistado do melhor ano das nossas vidas.
   Eu não posso salvar a vida de ninguém. E enquanto eu não aceitar este fato, é melhor eu continuar tentando sobreviver do meu jeito e ajudando os outros ao meu redor aos poucos, conforme eu puder. Um sorriso de cada vez.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Reabilitação caseira


   Duas semanas atrás, eu voltei para casa. Pra falar bem a verdade eu nem sei mais qual dessas cidades é a minha casa – a que eu nasci, a que eu cresci ou a que eu amadureci, mas para fins geográficos mais apropriados vamos chamá-las de Cambé, Londrina e Cascavel, respectivamente. Cambé é onde a mãe e a vó moram. É lá que meu antigo quarto fica, que está sempre ao meu dispor quando eu consigo tirar alguns dias de folga da vida em Cascavel para revirar tudo do avesso de novo. Para desarrumar os lençóis da cama, tirar a velha rede do armário para pendurar os ganchos nada confiáveis das paredes, carregar a televisão do quarto da mãe e o aparelho de DVD da sala para a minha antiga escrivaninha (berço dos meus primeiros trabalhos como autor, cartunista, colorista e estudante vagal de ensino médio), encostar a porta que nunca fecha por causa do peso-de-porta-feito-de-pano-da-década-de-oitenta que vovó sempre deixa ao dispor para evitar que a porta bata por causa do vento quando a janela é esquecida aberta, e simplesmente esqueço de toda a vida lá fora para me afundar na nostalgia e conforto que só meu antigo quarto, do meu antigo apartamento, da minha antiga cidade podem trazer.
   E não pára por aí. Voltar para casa, especialmente quando deixo Cascavel às pressas devido a crises (verídicas ou existenciais) no meio da noite para amanhecer em meu velho mundo, é sempre uma experiência muito proveitosa apesar de já ter construído uma rotina deveras certeira ao longo dos anos. Depois de quatro anos de idas e voltas entre Cascavel, Cambé e Londrina, e como estamos falando de mim e não uma pessoa normal e equilibrada qualquer, era de se esperar que alguns rituais já estivessem nos planos. Como ir à padaria na quadra do lado do condomínio da vovó para comprar os piores salgadinhos já produzidos pelo homem (que tem gosto de isopor colorido artificialmente com alaranjado-fandangos, mas são altamente viciantes), um pote de sorvete crocante, alguns litros de coca-cola, um bolo tradicional de fubá feito pela vovó, um pavê espetacularmente enfeitado pela mamãe (ou qualquer outra sobremesa à escolha prévia de no mínimo 48 horas antes da viagem) que só poderiam ser condecorados com o mais afrodisíaco de todos os meus vícios – DVDs piratas com qualidade surpreendentemente boa (sempre com menus semi-interativos e opções dubladas e legendadas dos filmes) à venda na lan house que fica a uma quadra da padaria. Basicamente tudo em Cambé fica há uma quadra de distância, exceto, claro, por Londrina e todo o resto da minha vida que me espera quando faço minhas malas aqui e deixo um espaço extra vazio somente para enchê-lo de souvenirs que sempre trago de lá.
   Ir para casa é ótimo, e eu entendo todos os meus amigos daqui que desaparecem durante os fins de semana para visitarem seus pais, seus amigos de infância, seus quartos antigos e suas padarias há uma quadra de casa. Todos são de cidades próximas de Cascavel que, ao contrário das minhas, ficam há apenas uma hora ou duas (e dez reais ou vinte) de distância de seus apartamentos de universitários solteiros que – acredite – ficam há uma quadra da faculdade. Talvez tudo de bom na vida esteja há uma quadra de distância, e eu nunca percebi isso antes porque estou ocupado sempre percorrendo o mesmo caminho todo dia – isso quando não fico andando em círculos sem fim e tenho a audácia de me sentir frustrado por nunca chegar a nenhum lugar novo.
   Particularmente falando, é difícil voltar para casa e rechear meu quarto antigo com nostalgias crocantes e supérfluas, mas quando consigo economizar o bastante para pagar as passagens é sempre reconfortante estar de volta naquele condomínio que eu sempre desprezei enquanto morava lá, que até hoje não tem internet ou sequer um computador (para não falar mal da televisão a cabo que depende do humor dos deuses para funcionar em dias chuvosos). É como uma reabilitação, com direito a bolo e pavê, que me priva de novos vícios como Facebook, chafurdar por horas nos comentários e eventos alheios, horas de divagações existenciais, TCC e relatórios atrasados de estágio, para voltar às minhas raízes – ou, meus antigos vícios – que fizeram parte da minha história bem antes dos meus novos amigos, meus grupos de apoio, minhas aventuras alcoólicas e soberbas em meu apartamento de estudante solteiro acontecerem. É como voltar no tempo para recuperar meu fôlego antes de embarcar de volta para a correria e os compromissos da minha vida madura de solteiro paupérrimo e medianamente engajado academicamente que eu levo em Cascavel. É tudo muito bom e eu percebo hoje como a cidade em que eu nasci e a cidade em que eu cresci, apesar dos meus amigos e DVDs disponíveis, foram fases boas enquanto duraram e é preciso seguir em frente em Cascavel ou sabe-se lá aonde mais eu vou parar depois daqui.
   Mas de vez em quando é bom sentir aquela vida simples de novo, com tudo de bom há uma quadra de distância, com o pavê da mamãe e a bagunça do quarto antigo ao meu dispor. O apartamento parecia menor do que eu me lembrava, mas acho que isso era de se esperar. O apartamento ainda é o mesmo, mas eu cresci.

   93 Million Miles

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Redução de danos


   Todo desastre iminente na minha vida sempre começa comigo procurando um amigo para confessar secretamente a seguinte declaração infame, porém fatal: “Então, eu conheci alguém...”. Daí em diante é uma lenta, porém derradeira ladeira abaixo rumo à tragédia, vergonha alheia e mil e um argumentos para tentar defender o raciocínio pobre que me levou a percorrer este caminho mesmo sabendo que iria chegar ao mesmo lugar: sentado em um bar com um ar de sabedoria melancólica – só que sem a sabedoria, claro – cercado pelos meus amigos, alguns melhores do que eu e outros nem tanto, que tentam colocar seu repúdio de lado para pelo menos tentar entender o que me fez apertar meu botão de autodestruição mais uma vez. E pedimos uma segunda rodada que sempre serve como anestesia para me preparar para a chuva de “Até quando você vai continuar com isso?” e “Você precisa mudar” que cai sobre mim sem dó. Enfim, chegamos à terceira rodada, onde todos recompõe sua postura e voltam aos seus lugares para comemorar em silêncio que, apesar de mais tarde, pelo menos eu voltei a raciocinar direito e podemos beber tranquilamente de novo. Até eu conhecer alguém de novo, claro.
   Foi aí que eu percebi que o melhor jeito de me importar menos com conhecer alguém seria não me importar com mais nada. E então eu comecei a aprender a lição mais valiosa que um homo sapiens razoavelmente sadio e equilibrado aprenderá em toda sua existência cro-magnon e complicada: dane-se tudo! Quando não se tem nada a perder, tudo é lucro. Por que não simplesmente fazer o que quer, em vês do que acha que deve fazer ou o que isso pode significar para quem estiver vendo? A não ser que a plateia que se reúna ao meu redor subitamente cuide das minhas contas e dos meus compromissos, eu vou cuidar de mim e fazer o que eu quiser enquanto isto me fizer bem. Quando não fizer mais, mudo de opinião. Troco de canal, compro uma roupa nova, atravesso a rua, viro a página, mudo de assunto, ou simplesmente fico quieto que é o melhor mesmo a se fazer quando não puder criar algo mais produtivo.
   Redução de danos não é só uma técnica de tratamento para dependências químicas; é uma reflexão pela qual eu tenho sentido muita falta, enquanto procurava pelas pessoas erradas e praticava maratonas pelos caminhos que eu pensava que deveria seguir – às vezes, porque todos correram pelo mesmo caminho, e às vezes porque continuar seguindo reto parecia o mais coerente a fazer. Talvez não seja tão ruim dar um passo ou dois para trás, ou ficar em casa por uma noite ou duas – ou um Inverno inteiro – se é o que eu sinto que preciso fazer para não ficar tão desorientado entre compromissos, obrigações, horários e deveres que eu preciso cumprir. Isso para não falar de todos os sentimentos alheios que se metem no meio disso tudo, e as críticas que brotam a cada movimento em falso meu. Até os acertos acarretam observações em caneta vermelha, para continuar assim ou quem sabe rever uma vírgula ou duas.
   Então, eu conheci alguém mesmo. E até eu decidir o que vou fazer com isto, vou fazer qualquer outra coisa que me der vontade. Vou encher a cara, ou passar fins de semana em casa cercado de DVDs e embalagens de pizza, mas quem quiser se juntar a mim é muito bem vindo. Só não me peça explicações ou análises profundas acerca da situação atual da minha psique, senão pode parar por aí mesmo. O que eu preciso agora é relaxar antes de qualquer coisa. E todo e qualquer dano colateral que possa nascer do que eu vier a criar de agora em diante, não responderei por nada. Não é comigo, você deve ter me confundido com outra pessoa. O Igor foi por ali, talvez se correr você o alcance.
   Só para constar – e esta será minha última explicação por um tempo – o que vocês podem talvez perceber disto tudo como estresse, eu prefiro chamar de Existencialismo. E não estou achando nada mal.

   Pumped Up Kicks – Foster the People



segunda-feira, 3 de junho de 2013

O retorno do recalcado

   Às vezes eu estou errado. Eu tenho algumas habilidades com leitura e escrita, resolução de problemas e pragmatismo suficiente para julgar certas situações como necessárias ou não, mas às vezes eu estou errado. O que quero dizer com isso, então? Talvez tenha a ver com o fato de que cerca de poucos dias atrás, eu finalmente me deparei com o limite da minha arrogância latente e percebi exatamente o quanto é difícil para mim pedir ajuda, ou admitir que cheguei ao máximo que podia, ou simplesmente que – por incrível que pareça – às vezes eu estou errado.
   Eu não acredito em inconsciente, ou qualquer outra forma de justificativa psicossomática para os meus recentes transtornos de personalidade que me levaram a dizer coisas sem pensar, a estipular princípios baseados em coisas que não acredito, e a tomar atitudes que não tem muito a ver com a pessoa que eu sempre acreditei que fosse. E quando essas crises batem forte demais e meu reflexo no espelho deixa de parecer comigo e toma a forma de uma neurose falante gigante que precisa cortar o cabelo, eu procuro conselhos das pessoas que convivem comigo – como se escrever desta maneira esconderia o fato de que eu busco resquícios secretos de ajuda dos meus amigos e da família que construí para mim e na qual confio para me colocar de volta no eixo quando minha paranoia deixa de ser levemente excêntrica e passa a caracterizar-se como um sintoma para diagnóstico de depressão ou alguma vertente mais eufórica de uma comum síndrome do pânico – pelo menos, de acordo com o pessimismo gritante do novo DSM-V.
   Depois de uma série de mal-entendidos, conflitos desnecessários, trilhas sonoras de fossa sem fim, cinquenta tons de pedidos de desculpas, cinco quilos a mais, olhares perdidos em direção a um horizonte cinzento (mesmo enquanto havia sol) e treino intensivo para aprender a esticar o braço e pedir a ajuda de alguém, eu admito que tenho um problema. Eu não sei admitir derrota, mesmo sabendo que isso não se trata de uma guerra. Eu não sei lidar com críticas ou opiniões muito diferentes da minha, muito menos sei como aceitar as pessoas como elas são sem antes projetar uma série de expectativas em cima delas, e ter a capacidade de me surpreender quando elas não seguem o script que escrevi e julguei estar perfeito em meus pensamentos perturbados. Eu não tenho noção do que eu falo, ou do jeito que eu falo, ou para quem eu realmente estou falando. E tudo isso por que? Porque conceber a conjuntura de que às vezes eu poderia estar errado parecia sempre errado. Ó as ideias...
   Eu ainda sou bom em outras coisas. Posso elaborar uma dissertação de quinze a trinta linhas sobre qualquer tema humanamente possível entre quinze a trinta minutos. Sou capaz de aprender com facilidade matérias deveras tediosas se eu realmente me empenhar e lutar contra minha própria preguiça de manter os olhos abertos durante uma aula. Consigo me lembrar com clareza de datas ou eventos importantes como aniversários ou a centésima vigésima terceira vez em que confundi carência ou fome com amor. E às vezes estou certo, também, sobre aquele lugar ser muito longe, ou aquele filme ser muito chato, ou aquela pessoa ser muito desnecessária.
   Mas quando não estou usando meus super-poderes para o mal, consigo me esforçar para fazer uma boa ação para alguém – posso te emprestar a matéria do meu caderno com a minha letra semi-decente se precisar, ou procurar o nome daquela música que você escutou há cinco anos e só lembra duas palavras da letra que nem passam perto do refrão, ou simplesmente servir de companhia caso você não queira ficar sozinho. É, eu não erro o tempo todo. Só quando eu realmente acredito que estou certo. Mas se este for o caso, então significa que estou errando agora mesmo sem saber. Enfim, eu não acredito em inconsciente, mas ultimamente meus recalques tem sido maiores do que a minha capacidade de acreditar em qualquer coisa, inclusive em mim mesmo.
   E o que um ser humano razoavelmente equilibrado e sensato pode fazer numa hora dessas? Deixar todo mundo falando sozinho, aumentar o som dos fones de ouvido, arrumar a mala e voltar para casa. Eu admito que às vezes estou errado, e admito que estou cansado de pensar o contrário. E admito, também, que preciso de alguns dias para me recompor antes de dar continuidade à esta corrida alucinada e cheia de tropeços que eu chamo de vida. Volto em breve, quem sabe um pouco mais sensato e disposto a te dar razão sobre tudo isso, se eu for capaz de recuperar a minha primeiro. Eu sei, eu sei; não deveria ser tão pessimista, mas já admiti o problema. Este não é o primeiro passo?
Pare de frescura, ou morra tentando. Saúde mental, aí vou eu.

   Under Pressure - Smash