quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Cuide-se


   O mundo é um lugar frágil. Frágil até demais, para falar é verdade. E como se não fosse o bastante, ele gira sem parar, completa e aleatoriamente o bastante para nos deixar tontos. De todas as minhas crenças, nenhuma realmente se compara à minha paixão pela vida, apesar de todas as suas peculiaridades. Como a sua delicadeza que se mostra nos pequenos momentos que passamos juntos com alguém que a gente ama, ou através das surpresas que nos pegam desprevenidos. Mas nem todas as surpresas são boas, e vez por outras nos percebemos mais despreparados do que gostaríamos. É aí que toda a fragilidade desse mundo vem à tona; quando ele, de tanto girar, às vezes parece despencar na nossa cabeça. E é aí que eu paro e penso sobre o quanto o mundo pode ser o que for, assim como todas as pessoas com as quais nós o compartilhamos, mas que um detalhe em especial tende a se tornar fundamental: a gente precisa se cuidar; começando por nós mesmos, até quem estiver do lado e quem mais a gente puder alcançar. Não se trata somente de sobrevivência, mas de solidariedade.
   Porque uma hora ou outra todos nós vamos precisar de alguém. De uma palavra amiga em um silêncio doloroso. De um toque suave em uma grosseira tristeza. De um porto seguro em uma tempestade impiedosa. Porque a verdade que nós não gostamos muito de admitir em voz alta, é que somos tão frágeis quanto o mundo – e tão apressados, aleatórios e finitos quanto ele. Mas nem sempre é assim que a gente se sente. Tem dias em que parece que a gente pode tudo, que não existem limites para as nossas vontades, e que se o mundo precisa ser carregado nas costas, a gente aguenta. Salvo engano que a gente só percebe quando é tarde demais. Quando nosso bom humor se perde em uma fumaça de estresse, que resulta de tentar abraçar todas as causas do mundo com apenas dois braços. Ou, então, quando ficamos doentes de tanto nervoso, tanta preocupação ou, em alguns casos, de simplesmente estarmos constantemente sujeitos à sermos lembrados da nossa finitude.
   O problema em admitir que somos seres frágeis vivendo em um mundo inconstante é que nem todo mundo gosta de pensar que não é o bastante. Que não pode tudo a toda hora. Que não vai viver para sempre, e que é preciso colocar algumas coisas em perspectiva antes que não seja mais possível. E o mais importante e difícil de tudo: nem todo mundo gosta de pedir ajuda, ou de ser cuidado por outra pessoa. Como se fosse a pior coisa do mundo; perder o controle, a autonomia, o direito de ir e vir, para subitamente vir a depender de outra pessoa para se manter... Uma pessoa. Mas isto é uma visão que não pode nem deve perdurar, porque independente do que o mundo for e do que a pessoa ao seu lado também possa ser, a outra verdade inconveniente que precisa ser dita é que nós precisamos uns dos outros. Mais do que a gente pensa, e menos do que a gente deixa.
   Claro que nem todos são assim. Algumas pessoas em especial parecem ter recebido um toque a mais de delicadeza, um pouco mais de carinho e, particularmente, um chamado para tornar o cuidado de outras pessoas em algo mais do que um trabalho ou um favor, mas o exercício de uma vocação.  Pessoas que conseguem enxergar o mundo como uma extensão das suas vidas particulares, e que se importam com as outras pessoas com as quais dividem ou podem vir a dividir momentos inesquecíveis. Porque quem cuida não julga, e quem é cuidado não esquece.
   O mundo é um lugar frágil, assim como as pessoas. Por isso cuide-se, mas não se esqueça de que quem está ao seu lado pode precisar da sua ajuda hoje, assim como você pode precisar dele amanhã. Como se não fosse o bastante, o mundo dá muitas voltas.

   Você vai precisar de alguém do seu lado.

domingo, 24 de agosto de 2014

As sobras da felicidade


   Quando eu não desperdiço o meu tempo ao ficar pensando sobre como eu desperdiço o meu tempo, meu ócio criativo também passa por momentos aleatórios de otimismo e esperança que me fazem repensar sobre a vida e afins. E geralmente esses momentos tendem a me iluminar ainda mais quando estou sentado na sacada com alguém tomando um tereré e filosofando sobre... Bom, qualquer coisa. E foi em um desses dias em que eu ouvi um absurdo tão espontâneo que resultou em uma teoria mais improvisada ainda, mas que perdurou nas engrenagens dos meus pensamentos preguiçosos por algum tempo.

- Eu acho que estou feliz, mas não tenho certeza.
- Isso é normal. A gente nunca tem certeza de quando está feliz. Quer dizer, tem sim. Por uns cinco ou dez minutos. A partir daí é uma curva decrescente que resulta em dúvida, ansiedade e ataques aleatórios de pânico e auto-destruição intelectual.
- Ok... E como você explica isso?
- Ué. A gente sempre sabe quando está triste. É quase palpável. Tem gente que falta só pendurar uma placa ao redor do pescoço com a frase, “Vá embora, estou triste!”. Mas quando a gente está feliz, não. Isto é, no começo é visível. Não precisa nem de placa porque o sorriso estampado no rosto não deixa espaço para outras sinalizações. Mas não dura. Felicidade genuína tem a mesma duração que o gás da Coca-Cola. Com o tempo o refrigerante vai perdendo o gás, mas nem por isso ele deixa de ser bom.
- Eu não gosto de Coca-Cola sem gás.
- Não conta. Você é fresca. Mas olha só, raciocina comigo: sabe quando você está naquele seu tradicional coma de seriados, trancado em um quarto escuro para não deixar o reflexo da vida lá fora atrapalhar a visão do seu monitor, completamente alheio ao resto da humanidade que não entende porque você assiste aquele seriado tão ruim?
- Ok, estou com você até agora. Continue...
- Então... Um corpo parado assistindo uma temporada inteira de um seriado qualquer tende a terminar esta temporada no conforto da sua inércia, certo? Mas em algum momento você levanta para ir até a cozinha e buscar alguma coisa na geladeira para deixar a sua inércia mais apetitosa. Como, por exemplo, as sobras da pizza da noite anterior.
- Hum... Pizza de frango com catupiry.... Por falar nisso, ainda tem a minha parte, né?
- Melhor não entrarmos nisso agora. Continua comigo! Olha só; você vai até a geladeira, abre a porta e não encontra a pizza. A pizza acabou. Você já comeu tudo e nem se lembra. O que você sente?
- Tristeza... E raiva, agora que eu sei que foi você quem comeu tudo.
- Não perca o foco! Olha só, vou encher o copo de tereré pra você e pode pular a minha vez. Agora imagine um outro dia qualquer, uma terça-feira gorda e abafada. Você está entediada em casa, já assistiu todos os filmes que você tem no mínimo três vezes, não tem ninguém legal online para conversar no momento, aí você levanta e vai para a cozinha. Abre a porta da geladeira e revisa tudo o que tem dentro dela. O que você quer?
- Nada, eu acho... Aliás, por que a gente faz isso? Abre a porta da geladeira sem saber o que quer, fica lá parado só olhando, depois fecha sem pegar nada e volta pro quarto?
- Pelo mesmo motivo que a gente não sabe que é feliz e fica se questionando. Quando a gente fica triste, não há dúvidas. A falta é óbvia, é clara, é obscena. Agora, quando a gente fica feliz, igual quando a pizza chega, é uma festa que dura uns dois ou três pedaços. Depois a gente fica preguiçoso, cansado, distraído... E se questiona se comeu demais, se arrepende porque o esforço da semana na academia já era mas que foi por uma boa causa, etc... Mas nem por isso a gente para de procurar pela felicidade plena. Especialmente no dia seguinte, quando a gente reencontra as sobras, que são as alegrias aleatórias que sempre restam mas que tendem a ser mais sutis.
- O que você quer dizer, então, é que eu estou feliz e não sei disso?
- Exatamente. Você está triste?
- Não...
- Então você está feliz. Qualquer meio-termo que flutue entre uma coisa e outra é assunto para outra discussão, outra teoria, outra metáfora. Mas agora eu estou com preguiça, então aceite estar feliz e se contente com isso. E me passa o tereré.
- Ok... Mas isso não justifica você ter comido a minha parte da sobra da pizza de ontem.
- Outro exemplo clássico de como algumas coisas simplesmente não sabem ser felizes e ficam procurando problemas. Veja bem, imagina comigo...

***

   Dia desses a Joyce comprou uma jarra nova de tereré para deixar as nossas tardes e noites na sacada mais felizes. E durante os primeiros instantes de vida inanimada dela dentro da nossa casa ela nos deixou muito felizes. Mas como é de praxe da tragédia do mundo, nós massacramos a jarra com a nossa existência medíocre e desajeitada ao tirar a tampa para enchê-la pela primeira vez, e tivemos a infeliz frustração de jamais conseguirmos alinhar a tampa na jarra igual como ela estava antes.

- Cara, como pode a gente ter tanto azar?
- Não é azar, Joyce, é a história da minha vida se repetindo.
- Mas o que?!
- Claro. Minha vida é tão torta quanto essa jarra. Minha felicidade é tão desalinhada quanto essa tampa. Marque minhas palavras: se um dia eu conseguir alinhar a tampa dessa jarra de novo, será o dia em que eu finalmente atingirei a felicidade plena.
- Eu ia sugerir comprar uma jarra nova, mas tudo bem. Você e suas metáforas...

   Até a presente data eu ainda não consegui alinhar aquela maldita tampa, mas tudo bem. Mais refrescante do que o tereré em uma tarde ensolarada de Domingo, é a esperança que eu sinto ao prepará-lo antes de tentar fechar a tampa da jarra mais uma vez.

   Se isso não é pensamento positivo, então eu não sei o que é.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O fim do começo


   A cada dia que passa, eu me surpreendo mais com as novas fronteiras que o meu egocentrismo atinge. Toda vez que eu penso que já cheguei longe demais com as minhas irracionalidades, algumas conversas com meus amigos despertam em mim uma força que me leva bem mais além das conformidades. Mas eu estou me antecipando; tudo começou quando eu ainda estava de férias em Londrina, passeando pela cidade com um dos meus amigos que, assim como eu, está relativamente desemprego e incorrigivelmente atraído a tirar proveito do ócio criativo que dominam os nossos dias.

- E aí, para onde vamos?
- Cara, ainda é cedo para achar algum bar aberto...
- Mas não precisa ser um bar bar, sabe? Estou de férias: qualquer coisa vale. Praça de alimentação de shopping, posto de gasolina, lago municipal...
- Melhor evitarmos o lago por enquanto. Lembra do que aconteceu da última vez, não é?
- Não é minha culpa. Como é que eu ia saber que aquelas latinhas que eu joguei no lago iam boiar invés de afundar? Isso é pra gente aprender: cerveja boa afunda, cerveja boa boia. Igual...
- Ok, entendi! Tive uma ideia; podemos ir na casa de um amigo meu. Acho que você vai gostar dele.
- Por que as pessoas dizem isso? Eu não gosto de ninguém.
- Mas dele você vai gostar, ele tem umas ideias parecidas com as suas...
- Sério?
- Bom, na verdade, não. Igual você não tem outro. Só você é assim.
- Vou considerar isso como um elogio, ok?
- Então, cara, não tem mais nenhum lugar aberto. Ele mora em um daqueles condomínios fechados. Bem legal lá...
- Sei não, cara. Sempre me sinto mal nesses lugares. Não por estar lá, mas por sair de lá e voltar pra minha casa depois...
- Eu falei que lá tem um bar particular para os moradores e visitantes?
- Acelera!
...
- Cara, como você aguenta isso?
- Isso o que?
- Isso que eu faço. Eu, dizendo que não gosto de ninguém. Indisposto a fazer amigos novos. Alucinado para achar um bar aberto no meio da tarde de uma quinta-feira...
- Olha, cara, estou falando sério; nunca conheci outra pessoa igual você. Mas isso é bom! Não é a toa que somos amigos há tanto tempo, por mais que você more longe. Quando você vem pra cá, é como se nada tivesse mudado. O pessoal daqui também não é lá aquelas coisas. Tem muita gente trash. Que não dá pra confiar. Agora você é como um irmão, já te falei isso. Confio até pra ir junto jogar cerveja no lago!
- Hum...
- O que?
- Pensei numa coisa.
- O que?
- Eu não me imagino morrendo.
- Que?!
- Morrendo, sabe. Acabando. Sumindo. Não me vejo envelhecendo também. Me imagino assim, fazendo merda, falando besteira, pensando idiotices, com 22 anos, para sempre...
- Mas ninguém se imagina morrendo...
- Tá, tudo bem. Mas todo mundo tem uma noção de que vai acabar. Que tudo acaba, inclusive a gente. Eu não consigo. É muita prepotência da minha parte?
- Bom, vindo de você, nada mais me surpreende. Mas acho que isso é bom, sabe. Carpe diem.
- É. Carpe diem...
...
   Algum tempo depois, eu estava na sacada com a Joyce, conversando sobre aquelas coisas de sempre (vida, morte, relacionamentos, faculdade, “por que a gente é assim?!”, fim dos tempos e tudo mais), quando acabamos chegando no “carpe diem” também.

- Esses dias eu estava assistindo um vídeo de um filósofo que criticava bastante aquele negócio de “carpe diem”, sabe?
- Por que criticava?
- Porque esse “carpe diem” passa uma mensagem muito distorcida: aproveite o dia, aproveite o hoje. Faça tudo agora, como se não houvesse amanhã. Parece apressado, impensado, inconsequente...
- Então, o certo seria: “aproveite o hoje, mas nem tanto”?
- Mais ou menos. O cara também falou sobre epitáfios. Sabe, aquelas frases de túmulos? Dizia: “Não deixe a sua vida ficar para o epitáfio”. Pensando bem, isso parece um pouco contraditório.
- Não é contraditório; é uma questão de equilíbrio. Sobre viver entre o “carpe diem” e o epitáfio. Aproveite o dia, mas deixe algo para amanhã. Só não deixe tudo para amanhã...
- É. Faz mais sentido...
- É...
...
   Eu queria ter uma vida mais equilibrada. Entre o “carpe diem” e o epitáfio. Entre o aqui e agora, e o “para sempre”. E aí eu percebi o quanto eu, não satisfeito em me sentir sem limites, também penso demais no fim das coisas. Penso que tudo vai acabar, e mais vezes do que poderia, acabo não começando nada. Como relacionamentos com alguém que parece não ter nada a ver comigo, ou projetos de escrever um livro cuja primeira linha me falta completamente, ou lugares que estão longe demais da minha familiaridade, e das minhas pessoas favoritas. É assim que eu me imagino sendo para sempre? Eternamente intermediário? Irracionalmente infinito? Focado tanto no fim que jamais dou brecha para o começo. O que é deveras irônico, já que quando a faculdade terminar, estarei oficialmente no meio da minha vida. A segunda idade, depois da primeira infância e a juventude fundamental, e antes da maturidade eventual e a velhice inevitável. Mas o que vou fazer com ela, eu ainda não sei.
   Eu não vou viver para sempre, por mais que goste de pensar o contrário. E apesar de reclamar, procrastinar e desperdiçar muito tempo, ainda me considero profundamente apaixonado pela minha vida e tudo que faz parte dela: as pessoas, os lugares, as músicas, as lembranças, os sonhos e as surpresas que ainda estão por vir. Mas enquanto o “para sempre” não chega, e as palavras certas para meu epitáfio ainda não me vem à mente, tudo que me resta é o “carpe diem”.

   Bom, “carpe diem” e a louça acumulada na pia.

domingo, 10 de agosto de 2014

O nome do pai


   Você me dá trabalho. Começa com aquela mistura sutil de susto e ansiedade que eu sinto quando toca o telefone e eu vejo que é você, e me pego imaginando o que deve ser que você quer me dizer, que precisou procurar seus óculos para procurar o meu nome na agenda do celular para me ligar. Só para começar a dizer qualquer coisa que não tem tempo de fazer sentido, porque a ligação sempre cai e sou eu quem precisa te retornar. E dá trabalho. Assim como às vezes acontece da gente precisar ir resolver algum negócio de família por aí, que obriga a gente a dirigir por um caminho em comum ao invés das vidas separadas que aprendemos a levar. Você de um lado da cidade e eu em outro. Você com seus problemas, seu estresse, seus telefonemas sem fim, seus cabelos brancos impiedosos, sua rispidez acidental e seu chaveiro completo com todas as chaves do seu mundo que, vez por outras, você acaba perdendo junto com seus óculos. E eu com os meus problemas, minhas inquietações, meus trabalhos de faculdade, meus problemas de saúde, minhas reclamações sem fundamento, minhas filosofias furadas e minhas superficialidades abstratas que eu cultivo tanto. Como este pequeno espaço cibernético, por exemplo, que serve para arquivar as minhas paranoias, os meus sonhos encostados e os meus desejos por um futuro mais tranquilo para mim. Aliás, para nós. Porque, como era de se esperar, você me dá muito trabalho. Inclusive o trabalho de começar a pensar sobre o que eu vou fazer com você.
   Você, que tem dias que só sabe reclamar, passar as mãos pelos cabelos brancos resilientes, suspirar fundo e dizer que não está fácil. É, eu sei. Eu ando acompanhando bastante as suas lutas, os seus desafios e as suas limitações. E tem me dado muito mais trabalho do que eu esperava, porque eu cresci com essa visão distorcida de que a gente ficaria bem sempre, independente do que acontecesse. Aí você vem e puxa a minha orelha, arregala os olhos, perde a paciência e me diz que a vida não é nada disso, que a gente precisa batalhar desde quando acorda até ir dormir para garantir que o que é nosso continue sendo nosso, e que só existe uma coisa nesse mundo pela qual nós podemos nos descobrir capazes e sobreviventes: trabalhando.
   Talvez seja esta a grande lição que eu sempre me recusei a aprender, mas que agora parece fazer mais sentido do que nunca. Talvez seja devido ao fato de que você, com os seus olhos cansados e seus cabelos brancos, não vai estar aqui para sempre, e mais cedo ou mais tarde eu vou precisar deixar as minhas bobagens de lado e me adequar um pouco mais a este mundo, passando menos tempo sonhando acordado e mais tempo trabalhando firme. Talvez seja devido ao fato de que, ultimamente, o primeiro pensamento que me vem à mente quando você me liga já não é mais “o que foi que eu fiz errado desta vez?”, mas sim, “ele precisa de ajuda; o que será que eu posso fazer?”.
Demorou muito tempo para que a gente chegasse até esse ponto. Aliás, muito tempo e muito trabalho. Que, por sinal, são duas coisas sobre as quais eu ando aprendendo muito mais com você do que jamais aprendi por conta própria, no meu lado da cidade, na minha vida alheia à sua. Aprendi que quando se é responsável por empresas, negócios, pessoas, compromissos, prazos, vencimentos de boletos, planilhas e – mais importante do que tudo – uma família, o tempo tende a passar rápido demais em um dia, e o trabalho que tudo isso dá parece que só acumula. E ninguém consegue fazer nada sozinho nesse mundo. Na verdade, talvez até consiga, mas de que adianta fazer um bom trabalho sem ter com quem compartilhar as vitórias? Alguém com quem brindar pela sensação de dever cumprido.
   A verdade é que, com o passar do tempo e do trabalho pelo qual a gente vem se sacrificando cada vez mais, cada vez menos eu consigo pensar em algo marcante para te dizer quando esses dias especiais chegam. Esses dias inúteis que não servem para fazer serviço de banco, mas que significam muito mais do que o prazo de vencimento de uma fatura. E aí eu me pego tentando fazer um bom trabalho com as palavras para ter algo com o que te presentear no seu dia; algo que te dê orgulho de ver    que, depois de todo esse tempo e todo o nosso trabalho, eu ando aprendendo muita coisa sobre você, sobre mim, e sobre o legado que eu vejo você construindo e se esforçando ao máximo para compartilhar com os seus filhos. O legado de que, se a gente quiser chegar a algum lugar neste mundo, o jeito é levantar da cama de manhã cedo e trabalhar. E quando digo que você me dá trabalho, não é uma coisa totalmente ruim. Porque foi você quem me deu o meu primeiro trabalho, e o primeiro a tomá-lo de mim quando eu não soube valorizá-lo. Assim como foi o primeiro a me devolvê-lo quando eu prometi mudar e me esforçar mais, e o primeiro a me incentivar a chegar cada vez mais longe com tudo que eu sou capaz de realizar. Mas você também me dá trabalho quando eu me pego pensando em como eu posso continuar ajudando você, e como eu posso cuidar de você agora que estou quase andando sozinho pelo mundo, enquanto a sua vista fica cada vez mais cansada e o seus cabelos, mais brancos.
   Seu jeito grosseiro foi o que incentivou a minha ironia fina. Sua determinação é o que semeou a minha teimosia. Sua força é o que fundamenta o meu caráter. E, acima de tudo, sua resiliência é o que me ensina cada vez mais que desistir não é uma opção, e que é trabalhando que um homem se mantém inteiro. Eu carrego seu nome comigo, assim como seu legado, o futuro da nossa família, e a herança da sua integridade. E como se tudo isso não fosse o bastante, dizem que eu também me pareço muito com você.

   Feliz dia dos pais, Marcio Moresca. O homem, o mito, o administrador.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A programação anormal


   Antes de qualquer coisa, eu vou admitir o óbvio: eu tenho muito tempo livre. Compromissos à parte, eu sempre me senti capaz de dar conta de todos os meus afazeres, de lavar, secar e guardar a louça da pia, de não esquecer que o vencimento da conta de água é diferente do talão da luz, de que eu tenho uma consulta médica marcada para o meio de Setembro, de que eu preciso passar no mercado para comprar sabão em pó e de que tem roupa para tirar do varal antes de encher a máquina de novo, e de que, se possível, eu preciso repensar alguns comportamentos meus caso eu queira dividir a minha vida com alguém... E apesar de tudo isso, eu me sinto irremediavelmente entediado no fim do dia. O que me faz carregar um travesseiro, uma coberta e o meu ócio criativo em modo avião para o sofá da sala, onde eu ligo a televisão e desligo a minha ansiedade para me distrair um pouco. Só que, mais vezes do que eu gostaria, minha ansiedade não desliga; ao invés disso, ela só diminui de volume um pouco para que eu consiga escutar o que está acontecendo na novela. Até que cortaram para o comercial com parte da trilha sonora do casal principal tocando ao fundo, e foi aí que a minha ansiedade desregulou de novo. Normal. Pelo menos, para mim.
   O que me incomodou não foi a música em si, mas o fato de que eu me lembro dela ter sido usada como tema de um casal principal de outra novela de não muito tempo atrás. Mas uma rápida pesquisa no templo dos desocupados – que, ao contrário de mim, você que trabalha, estuda, faz academia, recicla seu lixo, lê para velhinhos cegos em asilos e entende como o mercado de ações funciona, o conhece apenas como Google – me deixou um pouco mais assustado do que eu estava preparado. Olha só: “Quelqu'un ma dit” é uma música da Carla Bruni que, além de eu não saber escrever e do Google milagrosamente ter reconhecido que era isto que eu queria quando pesquisei “quldnmadid”, é o tema do casal principal da nova novela das “9” da Globo. E ao ser parcialmente traído pela minha memória, eu confirmei minhas suspeitas de que ela já havia sido usada para outro casal de outra novela, mas há nem tanto tempo assim. 2005, para ser mais exato. 9 (sem aspas) anos atrás.
   É aí que você – que trabalha, estuda, faz academia, recicla seu lixo, lê para velhinhos cegos em asilos, entende como o mercado de ações funciona e vai à igreja aos Domingos – se pergunta, “E daí?”. Mas para você que tem tanto tempo livre quanto eu e secretamente acompanha minhas desventuras irracionais, é claro que eu não preciso explicar que a música das novela das 9 não era só uma música, mas um eco da minha mortalidade, não é? Não? Ok, fui longe demais dessa vez. Olha só: 9 anos atrás, eu tinha 14 anos. Só 14 anos. Eu estava no primeiro ano do Ensino Médio. Estava morando em Londrina com a minha mãe, minha avó e, se não me falha a memória, nossa gata de estimação.  Também foi nessa idade em que eu me apaixonei pela primeira vez, e me decepcionei pela primeira vez, e insisti no mesmo erro pela primeira vez, até que perdi algo que nunca foi meu para outro cara pela primeira vez. Foi uma idade de muitas “primeiras vezes” – exceto pela mais relevante de todas, que foi acontecer só alguns anos depois – e eu me lembro de que, apesar das coisas parecerem tão intensas e do mundo parecer tão grande, eu sentia que ainda tinha um longo caminho pela frente para seguir. Que ainda havia muita vida por vir, e que com o passar dos anos tudo iria mudar, iria melhorar, e blá blá blá.
   9 anos depois. Estou com quase 23 anos, cursando o último ano da faculdade de Psicologia, morando longe dos meus pais em Cascavel com o meu próprio apartamento, sem trabalhar, sem estudar além da lei do mínimo esforço, sem academia para reduzir os danos de comer porcaria e beber demais de Segunda à Segunda, sem reciclar o lixo e sem ler para velhinhos cegos em asilos, sem ter uma noção sequer de como o mercado de ações funciona ou de que horas é a missa aos Domingos. E sem alguém para dividir a minha vida, a minha cama ou, muito menos, o meu sobrenome. Tem dias em que eu me sinto mal por passar horas assistindo séries no meu quarto, sem sentir a luz do sol e sem ouvir a voz de outra pessoa. E tem dias que eu me sinto bem – confortável, até – e que eu deveria estar exatamente onde estou aqui e agora na minha vida. E aí a Globo resolveu usar aquela música – a mesma música de 9 anos atrás – como música tema do casal principal da novela. O que me faz pensar que, entre dias bons e ruins, também existem dias consideravelmente férteis para a minha imaginação, que tem seu limite muito próximo ao da zoeira. Entendeu? É que a zoeira não tem limites, há há. Especialmente, a zoeira que rola na minha cabeça.
   Minha criatividade exacerbada me inspira a interpretar o paralelo dessa música de 9 anos atrás e de hoje, de duas maneiras: como a prova abstrata de que, apesar de ter crescido, eu estou preso no tempo e desesperadamente necessitado de uma mudança antes que eu envelheça na minha rotina e seja sepultado pelo meu tédio existencial... Ou, em uma luz um pouco mais positiva (porém não tão menos exagerada), como o limite do universo que me cerca, pelo qual eu já vivi tanto, mas tanto, que as coisas ao meu redor se viram obrigadas a serem reprisadas para mim. Vai ver é por isso que eu consigo perceber a minha vida organizada em padrões: desde as mulheres que me atraem, até as músicas que eu ouço, os lugares que eu visito, os amigos que eu encontro, os textos que eu escrevo, e a essência que eu mantenho.
   E enquanto eu viajava cada vez mais longe nos meus pensamentos sobre a vida, a morte, os caminhos não trilhados e o limite do universo, a novela voltou do comercial com aquela música ao fundo de novo, com uma daquelas paisagens montanhosas iluminadas por um entardecer manso que acalmou os meus nervos e diminuiu o volume da minha ansiedade de novo. Será que o casal vai continuar junto, ou vai ser uma daquelas novelas em que acontece algum mal entendido que deixa eles separados por 100 capítulos, até se resolverem no final? Será que eu vou encontrar alguém assim pra dividir a minha vida? Será que eu desliguei a torneira da máquina de lavar?

   Antes de qualquer outra coisa, eu vou admitir o óbvio: eu ando gastando o meu tempo livre assistindo televisão demais. Mas convenhamos que talvez seja melhor eu me sentir emocionalmente ameaçado de morte pela Globo durante o comercial, do que ser alienado por ela durante a programação normal.

domingo, 3 de agosto de 2014

A importância do sinal amarelo


   Acho que eu nunca vou me cansar dessa mania de enxergar grandes metáforas de vida nas pequenas coisas ao meu redor. Por um tempo eu acreditei que essa mania era algo ruim, como uma espécie de pseudo-egocentrismo disfarçado de recurso literário, misturado com uma dose de alguma bebida que estivesse ao meu alcance no momento em que decidi criar uma moldura ortográfica para a fração abstrata da minha existência. E acreditava que precisava parar com isso, e talvez usar o tempo gasto com questionamentos inúteis sobre a natureza humana e a exploração do meu ócio criativo aparentemente infinito, para estudar para concursos públicos, lavar a louça que o Domingo acumulou na pia, ou ler pelo menos um livro inteiro enquanto ainda estamos em 2014. E eu estava seriamente decidido a fazer isso... Até eu me distrair com outra metáfora. Eu até poderia tentar justificar minha irreverência ao dizer que velhos hábitos são difíceis de se quebrar, se não fosse por um detalhe: dessa vez a metáfora não foi minha. E como já era de se esperar, as metáforas da minha vida não andam sozinhas; pelo contrário, elas andam de mãos dadas com aquela ironia fina que pavimenta a minha estrada. Ou, neste caso, a rua em que meu pai estava dirigindo.

- Acho que não vai dar tempo, pai.
- Nós não temos tempo pra “não dar tempo”, filho. Estamos atrasados.
- Mas, pai, tem um monte de carros passando ali e... E você passou.
- Sim. Eu disse que dava tempo.
- Atá. E isso justifica?
- O que?
- Isso que você acabou de fazer.
- O que foi que eu fiz?
- Passou no amarelo.
- Não estava amarelo. Estava aberto, Igor.
- Olha, eu não sou especialista em transito, nem tenho carteira ainda – né – mas a última bolinha decrescente do sinal amarelo, eu acho que não quer dizer que o caminho já está livre para você.
- Igor...
- Só acho. Sabe.
- É assim que você enxerga a vida?
- Oi?
- Você acha que a vida é assim? Que o caminho vai estar sempre livre para você? Que um sinal vai aparecer para te dizer o que fazer? Para avisar quando você deve seguir?
- An...
- Não, não vai. Você precisa ter mais ambição, Igor. O sinal amarelo não significa que pode passar ou não. Significa que você precisa prestar atenção. Você precisa prestar mais atenção na vida, Igor.
- Não foi isso que eu aprendi na Auto-Escola...
- É? E a sua carteira, vai bem?
- Ok, ponto pra você.
(Silêncio)
- Tudo bem, filho. Não se pode passar no amarelo, ok? Mas também não pode dormir no volante.

   E aí eu comecei a pensar sobre o que o meu pai disse. Sobre o sinal amarelo, o sentido da vida, os pontos da baliza que eu precisava lembrar para fazer o teste da Auto-Escola de novo... Mas de tudo isso, o que mais persistiu – e o que sempre persiste – foi a ironia fina de um motorista grosso, e a sensação reconfortante de saber que, egocentrismo à parte, minhas metáforas não são maldições: são legados de família.

   Isso sem falar da outra mania de atravessar a rua no amarelo também, sob a teoria de que “dá tempo”, mas aí eu acho que já entramos em outro questionamento filosófico. Eu ainda tenho muito a aprender com o meu pai.