quinta-feira, 26 de junho de 2014

A bandeira branca


   Dentre todos os meus deploráveis instintos de sobrevivência, talvez o pior deles seja o de competição interna que eu sinto que tenho com todo e qualquer outro ser humano ao meu redor. Desde a pessoa lerda que caminha despreocupadamente na minha frente na calçada, até aquele amigo com uma vida aparentemente mais incrível, rica e bem sucedida do que a minha, com quem eu mantenho uma rivalidade latente da qual ele nem desconfia. Ele nem imagina, mas a cada conquista que ele inocentemente me conta, eu mentalmente já inicio a arquitetura de mais alguma estratégia para superá-lo com algum outro feito, só para mostrar o quanto não só eu também ando muito bem, mas bem melhor que ele. Obviamente não é algo saudável, mas eu ainda acho que há algo de valor em admitir que existem partes deploráveis de mim que sinceramente existem. Sociedades à parte, talvez as pessoas fossem mais livres, felizes e despreocupadas mesmo enquanto estavam passando os dias comendo, dançando e correndo peladas por aí no meio de um matagal sem concretos e impostos. Mas, pelo bem ou pelo mal, a civilização está ai para nos acrescentar bem como nos diminui, e ou você atravessa a rua na faixa quando o sinal te permitir, ou é atropelado pelo que a maioria votou ser a regra moral vigente a ser seguida. Ou um carro; o que por ventura furar o sinal primeiro.
   Mas eu tenho competições internas secretas com algumas pessoas, o que me coloca constantemente em comparação com a felicidade alheia – e, como era de se esperar, as chances parecem nunca estar ao meu favor. Não é como se as vidas das pessoas pudessem ser medidas e avaliadas por algum placar; como se a cada vitória sua, automaticamente alguém é passado para trás. Isto é, exceto por alguns detalhes primordiais como o capitalismo e, por que não?, a procura pela felicidade. Porque por mais socialmente maduro e evoluído que alguém se considere, não há como negar que a queda ou o débito de uma pessoa que a gente não gosta nos causa uma alegria injustificavelmente grande, apesar de parecer algo grotescamente inaceitável. Adjetivos à parte, eu ainda me considero um discípulo da autenticidade – por mais bizarra e torta que ela se apresente. A gente é o que a gente é, com qualidades, defeitos, e hábitos horrendos aos quais nós só nos entregamos de madrugada, depois de um dia cheio e cansativo, quando temos certeza de que a porta está trancada e ninguém está nos vendo. E também não precisa ser algo tão apocalíptico; basta aquele julgamento interno que a gente sente ao ver a foto escrota que alguém postou no Facebook que nos faz pensar, “Fulano não tinha nenhum amigo por perto pra avisar ele pra não fazer isso?”. Se isso é o resultado de alguma seleção natural, influência do meio, ou herança bio-psico-social dos nossos ancestrais cro-magnon, eu não sei. Mas a gente é o que a gente é, com todo o bom e o ruim que nos constitui, o conforto de nos sentirmos acolhidos por amigos e família, e o prazer de julgar e superar aqueles que ocasionalmente perdem a chance de fazer parte da curva da normalidade.
   Lidando então com o fato de que somos seres questionáveis com comportamentos incoerentes, eis que nasce um problema: se estamos competindo algo com alguém, corremos o risco de chegar em segundo lugar. Se tentamos ganhar a todo custo, e ultrapassar todos que estão em nossa frente, até mesmo quando sabemos que a vida não é uma corrida, às vezes a linha de chegada pode não ser cruzada por nós. E pior do que admitir que estávamos competindo por algo que não era preciso, é aceitar que perdemos. Eu não sei admitir derrota, e talvez por isso insista em tantas frases prontas e textos batidos sobre otimismo, esperança, o amor e o amanhã. É a minha maneira de pegar impulso antes de continuar correndo. A minha manipulação da curva da normalidade, para evitar que eu seja arremessado para fora do gráfico. Eu não aprendi a desistir, não sei ceder, e não consigo abrir mão de certas causas que estavam perdidas desde o início. Metáforas, filosofias e abstrações à parte, eu estou falando sim da vida, e de trabalho, e de amor, e – por que não? – do amanhã.
   Mas para qualquer pessoa cuja vida é uma competição imaginária constante, chega a hora em que é preciso parar de correr. Até porque, ninguém consegue manter o fôlego por muito tempo. O corpo cansa, a cabeça esquenta, o coração não aguenta mais bombear sangue, e por mais que você seja contra querer parecer fraco e cansado, a linha de chegada aparece. Talvez não seja a linha de chegada com a qual você tanto sonhou, e não consigo deixar de ter essa sensação a cada aniversário que passa - eu não deveria ter chego mais adianta na vida a essa altura? Com quem estamos competindo, afinal? Com os outros, ou com quem gostaríamos de ser e não conseguimos?
   Tudo tem um limite, inclusive essa vida insensata, irracional e incoerente que eu levo. Pode não ser muito saudável, ou particularmente boa, mas é minha e é a única que eu vou ter. Sou livre para fazer dela o que eu quiser, mas não consigo deixar de querer que ela seja melhor que a sua. Tem dias que ela parece ser, outros dias nem tanto. Não é algo que me dê orgulho, mas é algo que me faz sentir autêntico por admitir. Infelizmente, não posso dizer o mesmo sobre aceitar que o fim tem um fim, que a linha de chegada nem sempre será como eu imaginei, que eu não sou nem serei capaz de tudo que eu imagino, e que às vezes a melhor maneira de encerrar uma competição sem sentido é admitindo uma verdadeira derrota. Não com o mundo nem com ninguém, mas com a pessoa que eu simplesmente não conseguirei ser, e com a vida que eu jamais terei, porque está fora do meu alcance. A gente é quem a gente é. E eu deveria perder menos tempo em querer o que não pode ser meu, para ganhar mais com o que eu tenho.
   Eu desisto. E pela primeira vez, essas palavras não soam tão ruins. Não significa que eu perdi alguma coisa, porque até onde consigo me lembrar, essas pessoas ao meu redor tinham mais o que fazer do que competir comigo por algum título infame em um pódio qualquer. Isso pode parecer sem sentido para você, mas convenhamos que não seria a primeira vez. Eu só estou aqui levantando uma bandeira branca. Porque eu não aguento mais competir pelo primeiro lugar com ninguém, e ainda assim sempre sentir que acabei em segundo.

   Admitindo uma dificuldade, aceitando uma derrota, enfrentando o fim. Um dia de cada vez, com tudo de bom e ruim que aparecer, até o amanhã. Metáforas à parte, eu já tive desabafos piores. Mas aí sou só eu caindo em velhos hábitos de competição de novo.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O outro lado da crevasse


   Em 1994, Gaspar LeMarc, um explorador francês, estava no meio de uma jornada através das cordilheiras dos Alpes quando uma nevasca o separou de sua equipe e subitamente causou um acidente que o fez cair dentro de uma crevasse – uma abertura natural entre geleiras, cuja profundidade aproximadamente estendia-se até 90 metros acima do chão. Quando recuperou a consciência, Gaspar descobriu que sua perna estava severamente ferida, e percebeu-se impossibilitado de escalar de volta à superfície. Ao lutar contra todos os instintos naturais que possuía, e ao obrigar-se a aceitar a pior alternativa possível no momento, Gaspar decidiu que não havia outro meio a não ser se aprofundar cada vez mais dentro da crevasse e da escuridão que a dominava. Depois de quase dois dias, Gaspar conseguiu encontrar uma saída do outro lado, e ao retornar para a base, Gaspar reencontrou sua equipe auxiliar que estava prestes a abortar todas as tentativas de resgate que já haviam procedido, conforme o código de honra e ética dos escaladores. Diante deles, Gaspar anunciou que, apesar de estarem a ponto de desistir e deixá-lo para trás nas cordilheiras e em suas memórias, eles estariam fazendo a coisa certa. Porque diante de uma nevasca, conforme o código, é cada um por si, e um homem que por acaso fica para trás, deve ser deixado para trás, para que a segurança do grupo seja mantida.
   Antes que você tente pesquisar a veracidade desta história, permita-me poupar o seu tempo: é mentira. É uma história fictícia que eu descobri dentre uma das minhas diversas maratonas de seriados em que eu me perco para compensar pela ausência de uma vida pessoal, amorosa, ou qualquer outra que não inclua uma escala impiedosa de trabalho que insiste em não me dar sossego não só em horário comercial, mas em qualquer outro horário socialmente aceitável que me permita ser readmitido à sociedade como um ser ativo, solteiro e contribuinte de impostos que prezam pela vigência de convenções políticas como a Copa do Mundo, a Polícia de Economia Nacional, e o Dia dos Namorados. O que também explica por que eu ando tão ausente da vida noturna Cascavelense, e tão online nas redes sociais depois das duas da manhã.
Mas o meu objetivo com esta história é similar ao que ela alude: a como lidar diante de problemas ou situações aparentemente impossíveis, a ponto de nenhuma equipe de apoio se dar ao luxo de voltar para tentar uma missão de resgate. Porque, assim como eu imagino que seja dentro da comunidade de escaladores, na zoeira da vida também é cada um por si. E alguém que por acaso tropeçar e cair, será impiedosamente deixado para trás. Apesar de todos os aspectos bio-psico-sociais envolvidos, das normas morais que nos são passadas de geração para geração, e de qualquer bom senso instintivo que seja desperto em cada um de nós, não há argumentos contra o fato de que, quando outros caem, estamos mais interessados em continuar seguindo em frente. Especialmente para encontrar outras pessoas com quem a gente possa comentar sobre com a vida do Fulano anda mal, e como ele provavelmente vai morrer congelado naquela montanha de problemas dele. É a natureza humana no seu pior, porém, no seu normal.
   Acho que todo mundo em algum momento da vida já chegou em casa cansado depois de um dia aparentemente interminável e abominável, e pensou “Eu preciso fazer alguma coisa com isso...” E pensou que mudar seria a solução, e que daquela noite em diante, depois de abrir uma garrafa de vinho (ou qualquer outra bebida que simbolizasse o autotriunfo do seu insight), brindou consigo mesmo e jurou silenciosamente que “Amanhã será um novo dia, para um novo eu!”. E aí acordou, saiu de casa, tropeçou na velha rotina de sempre, e caiu na crevasse dos seus problemas mais uma vez. E até aí tudo bem. Estamos vivos, logo, fadados ao acaso, ao imprevisível e, invariavelmente, à sentença terminal dos nossos próprios comportamentos padrões. Porque instituir uma mudança da noite pro dia é difícil – talvez até improvável, dependendo do grau do seu desespero silencioso. Por mais que você se sinta cheio de problemas, eles não irão desaparecer na manhã seguinte só porque você subitamente decidiu que eles não possuem mais importância que tinham quando você passou no mercado para comprar mais vinho antes de chegar em casa em uma noite solitária de inverno.
   Foi então que, ao voltar para casa em uma noite dessas, eu me lembrei daquela história fictícia e do quanto – pelo menos, dentro da lógica do episódio daquela série – aquilo sinceramente fazia sentido. Se quanto mais você insistir em confrontar os seus problemas sem nenhuma estratégia para resolvê-los, mais eles ganham força e acabam com a sua paciência, porque não fazer o contrário? Claro que não é fácil; admitir derrota, cansaço ou incapacidade vai contra tudo o que eu visceralmente acredito. Mas talvez seja o que esteja me impedindo de encontrar uma saída mais viável. Talvez, no final das contas, seja a chave da minha sobrevivência. Às vezes, na vida, para seguir em frente é preciso voltar atrás. Às vezes para subir aos céus, é preciso descer até os confins do inferno, nem que seja para pegar impulso. E assim como o imaginário Gaspar, às vezes quando alcançar a superfície parece impossível, talvez o melhor jeito de rever a luz seja ao entregar-se para a escuridão da crevasse. E é exatamente isso que eu vou fazer.
   Que se danem as contas, os amigos que não vejo há meses, a cidade em que parece cada vez mais longe de que eu retorne, o amor que talvez nunca chegue, e a sanidade cuja qual eu gosto de pensar que ainda tenho algum controle. Eu vou me arrastar até o limite, indo contra tudo o que eu sempre acreditei que fosse o ideal, o certo, o justo para mim, e vou parar de lutar contra a escuridão da crevasse, da qual o mundo real está incomensuravelmente cheio. E vou encontrar a felicidade do outro lado, ou vou morrer tentando. Metaforicamente, é claro. Porque eu tenho uma faculdade para terminar, uma conta da Renner para quitar, um amor que dure o resto da vida para encontrar, e um punhado de seriados para rever em Setembro.

   Antes de traçar qualquer estratégia, é sempre bom rever as prioridades.

domingo, 15 de junho de 2014

A história da minha vida


   Esta é a minha última tentativa de descrever o que eu realmente quero dizer sobre músicas com letras diferentes das que a minha mãe pensava, planos que eu tinha em mente quando me mudei para cá que acabaram tomando rumos completamente diferentes, e canastras que foram formadas a partir de uma mão que não era a que eu esperava, mas que era o único jogo que eu fui capaz de formar. O que eu venho tentando dizer já faz alguns posts, é que a minha vida não tem me levado ao caminho que eu sempre pensei que ela iria me levar. Não. Pelo contrário. Aonde eu vim parar não é nem remotamente perto da onde eu cogitei que fosse o que poderia acontecer. Mas isso não necessariamente torna o caminho que eu ando seguindo, algo ruim. Só o torna algo... Diferente. E, definitivamente, é aí que mora o problema. Até quando você vai esperar que a sua vida seja tudo aquilo que você pensou que ela seria, hein Igor? Porque não vai ser. E aqui não entram variáveis como atitudes, oportunidades ou – devo até arriscar dizer – destino. Ela só segue o caminho que pode seguir, como um rio cuja correnteza possui uma única direção. Talvez não tenha tido a mais perfeita nascente, mas também não significa que irá encontrar sem fim em um penhasco em forma de catarata, que destrói seus navegantes em sua base de rochas e profunda imensidão. A essa altura eu já construí uma série de metáforas, e ainda nem passei do rascunho do primeiro parágrafo. E, adivinhe só, eu ainda não consegui dizer o que eu quero dizer.
   O que eu quero dizer, é que depois de ouvir músicas cujas melodias não eram nada daquilo que eu imaginava, e depois de ver filmes cuja história desviou-se do fim que eu imaginei que ela teria, e depois de confrontar uma vida cujo percurso não mostrou-se ser nada daquilo que eu havia pensado que seria, chegou a hora de admitir que eu não possuo todo o controle que eu gosto de pensar que possuo sobre o meu destino. Não aquele destino todo poderoso e misterioso que, teoricamente, rege os meus comportamentos e o desdobramento deles no contexto do universo além do meu umbigo, mas sobre o meu próprio fim. Porque tudo acaba; empregos, amizades, relacionamentos, faculdades, e até mesmo a vida. É claro que eu estou exagerando aqui, mas só porque é algo em que eu sou muito bom em fazer, salvo descrever devaneios irracionais e preocupações sem fundamento sobre a vida. E caso você não seja um leitor de primeira viagem, a ironia deste novo parágrafo não irá te surpreender.
   Talvez seja isso mesmo que eu precise: que a vida me surpreenda, mas de um jeito bom. Depois de ter percorrido metade de 2014, eu acho que finalmente entendi qual é a lição que eu preciso aprender com este ano: aprender que a vida jamais será do jeito que eu quero que ela seja, mas apenas do jeito que ela poder ser. Dentro de todas as suas limitações e possibilidades, e que isto pode até não ser do meu agrado, mas como já diziam os populares, “é o que tem pra hoje”. O problema é que a noção de limite sempre me incomodou. Admitir que todas as possibilidades, todos os sonhos do mundo, na verdade não estão ao meu alcance é algo realmente doloroso para que eu admita em voz alta. A não ser que seja a última coisa que eu possa fazer, antes de admitir derrota perante o universo como eu o reconheço.  Só para ter a surpresa de que – uau! – a vida não é como eu a percebo. Não. É um pouco pior. Mas isso também não significa que ela não vale a pena. Só significa que eu talvez eu não vá parar aonde eu sempre imaginei que iria. A diferença aqui é que as atitudes contam um pouco mais do que antes. Por mais que a minha concepção de destino permaneça imutável, o caminho que eu irei trilhar para chegar até ele pode mudar, bem como as pessoas, os lugares e as oportunidades que eu poderei conhecer através dele. E aí só depende de mim querer seguir em frente por uma nova direção, e de sentir-se disposto o bastante para enfrentar uma vida cuja qual eu não me preparei, mas que essencialmente eu sempre acreditei que iria ficar bem.
   Talvez seja a madrugada que eu já adentrei, o medo que sempre me contrai, ou a garrafa de vinho que eu tomei, mas há algo em mim agora que está começando a parecer uma luz na fim de um túnel. Um túnel que tem sido honestamente, loucamente e profundamente longo de se percorrer, mas que apesar de todos os apesares, pode finalmente me levar de volta à luz. A luz da realidade, que arde um pouco mais do que o mundo de fantasia em que eu sempre lutei para me prender, mas que tem o benefício de ser mais verdadeiro e bem menos abstrato. Porque a negação só te levará até parte do caminho; depois disso você estará a mercê de uma faísca na escuridão. Quando você finalmente aceitar o que a sua vida é, do que ela é e não é capaz, e até onde você pode ir através dela, é aí que as coisas começam a ser um pouco menos assustadoras, e a ter um pouco mais de valor a medida em que você as conquista.
   A verdade é que eu deveria beber menos. E pensar antes de falar. E sorrir mais, publicamente, e chorar menos escondido. Planejar mais do que imaginar. Agir mais do que sonhar. Me impor mais do que esperar pela minha vez. Viver mais do que escrever bêbado de madrugada. Eu não sei. Às vezes a vida parece um presente tão grande, uma graça tão imensa, que eu não me sinto capaz de aproveita-la em sua plenitude. Uma parte parece sempre se perder no tempo, e talvez seja justamente a parte em que eu seriamente me prendo para buscar um significado, até que o todo pareça infame. O lado bom das divagações embriagadas das madrugadas de insônia, é que elas podem te ajudar a abrir melhor os olhos na manhã seguinte. O lado ruim é que, se você não tomar cuidado, pode passar o resto da vida em um coma de sonhos e planos que jamais tomarão forma. Porque por mais que seja bom sonhar até as duas horas da tarde, isto ainda não supera a sensação de acordar às sete da manhã e se deparar de um dia cheio e cansativo pela frente, mas que jamais dará a impressão de que foi inútil acordar cedo.
Enfim, filosofias à parte, é nisto que dá ter muito tempo livre e pouco o que fazer com ele. Claro que eu saio, bebo, vivo e dou risada. Mas depois disso, eu ainda preciso de um pouco de disciplina para dar forma à minha irracionalidade. Apesar dos insights, eu estaria fatalmente perdido sem uma rotina.

   Deus abençoe o meu superego.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A segunda opção


   Eu gosto de pensar que sou fiel às minhas escolhas. Isto é, até elas me traírem e deixarem de serem símbolos do meu caráter, para significarem apenas mais um exemplar da minha coleção de arrependimentos. Parece que eu tenho uma capacidade espetacularmente infalível de me perceber entre a opção certa e a duvidosa, e correr para o lado duvidoso enquanto os gritos de desespero da certa vão se abafando com a distância. Isto certamente explicaria porque eu passo grande parte do meu tempo deixando oportunidades únicas passarem, ou insistindo que o meu jeito torto é capaz de endireitar até mesmo o mais distorcido raciocínio que me levou a produzir uma resposta incompleta, ou – por que não? – amando as mulheres erradas. Mas apesar dos erros – que até o presente momento não foram poucos, incluindo este post infame – eu me mantenho leal a eles. Se o capitão do Titanic manteve-se firme em seu posto ao decidir afundar junto com o navio, eu também devo me manter firme em minha insensatez e me afundar junto com este post.
   Por me sentir tão fiel às minhas escolhas, mais vezes do que poderia, meu potencial tende a sair perdendo em quedas-de-braço para as quais meu orgulho o desafia. E não há nada mais teimoso do que um egocentrismo exacerbado para destruir qualquer possibilidade promissora que apareça em seu caminho. Quer dizer, salvo as vezes em que o destino – que me parece ser cada vez mais uma instância mitológica, como um unicórnio ou um amor que dura a vida toda – também insiste em dar mais uma chance para que a minha vida se acerte, por mais que eu deixe as oportunidades mais raras passarem. Mas apesar de ser indiscretamente protegido pela vida, chega um ponto em que não é mais possível continuar dependendo de coringas para ser salvo de uma mão ruim, logo após ter descartado um às. E que o privilégio de uma segunda opção nem sempre estará ao meu dispor.
   O que eu quero dizer com tudo isso? Às vezes parece que a minha vida tem sido uma sucessão incomensurável de erros, com raras exceções e muito mais sorte do que eu sou capaz de admitir entre um desastre e outro. E são nessas ocasiões em que eu me percebo sendo arrastado para um devaneio irresistível chamado E se.... “Se eu tivesse continuado em Londrina, o que teria sido de mim? Se eu não tivesse abandonado Jornalismo, já teria me formado, mas estaria trabalhando? Se eu não tivesse te convencido de que não era o cara para você, talvez ainda estaríamos juntos, mas estaríamos felizes?” Questionamentos com tons futuros são um pouco perigosos de se fazer em voz alta, porque pode dar a impressão de que você não está necessariamente contente com o que destino – aquele que, até então, você botava fé de que estava cuidando de você – insistiu que era o que estava alinhado para você.
   A ironia – caso estivessem com saudade dela – de tudo isso é que, mais vezes do que eu gostaria de admitir, eu mesmo me percebo como a segunda opção de alguém. O “quase” de alguém. O “não arrumei nada para fazer, vamos sair?” de alguém. O “a gente não manda no coração, mas existe alguém ainda melhor que eu para você” de alguém. Enquanto eu me sinto incomodado por desdenhar da mão que a vida tirou para mim, também existem as vezes em que eu sou impensadamente descartado por outras pessoas. Pessoas que se sentem com a mão cheia de descartes, e que se precisarem de mim, podem esperar que eu apareça novamente acima do deck de cartas. Porque eu sou tão ordinário que é só uma questão de tempo para que eu volte. Tão ordinário, que não fecha nenhuma canastra. E eu não posso reclamar, porque também não me orgulho de já ter escondido coringas de volta no deck só pela frescura de não querer sujar a minha canastra, por mais que estivesse ciente do valor deles.
   O lado bom dos meus devaneios é que, por mais que eu sinta que posso me perder neles, são eles mesmos quem acabam por me trazer de volta à realidade. Precisamente, a realidade de que ir embora de Londrina, abandonar o curso de Jornalismo e me separar de você foram decisões inteiramente minhas. Claro que houveram protestos, questionamentos acerca da minha sanidade mental, e manifestações populares pelas avenidas Brasil do país (e é aqui que o meu egocentrismo exacerbado deixa de ser pejorativo e vem ao meu resgate), mas de nada serviu para impedir que eu fizesse o que eu senti que deveria: descobrir se a vida que eu realmente queria estava atrás da porta #2.
   Às vezes eu sinto que a minha vida toda é um “quase”, ou apenas uma montagem com recortes de segundas opções que eu fiz, depois que estava prestes a passar a limpo os rascunhos das minhas decisões mas finalmente decidi que não. Que eu poderia fazer melhor. Que o conformismo não deve roubar o lugar do destino. Que, convenhamos, a vida é minha e eu faço dela o que eu quiser. E que, o mais surpreendente de tudo, é que esta história já está bem adiantada e cada vez mais seguindo em frente. Claro que eu ainda cometo erros, pego a direção errada e me sinto perdido em um beco sem saída, enquanto o destino, a vida e o amor tentam me nortear de volta ao caminho certo. Mas talvez este seja mesmo eu: aquele que prefere trilhar o caminho mais longo rumo à felicidade. O que sofre de uma curiosidade tão grande que precisa ao menos sentir um pouco como são os outros caminhos, as outras possibilidades, as primeiras tentativas, para só depois ter certeza do que quer. Ou, quem sabe, eu atropelo minhas primeiras opções porque não eram elas que trariam o que eu preciso.
   Então eu me mudei de cidade, de faculdade, e de amor. Talvez eu jamais saberei se foram as escolhas certas, mas definitivamente não posso me culpar ou me julgar por algo que decidi no calor de um momento em que estas coisas simplesmente pareciam que não se encaixavam a mim. Talvez eu seja só mimado e mal acostumado com o destino, mas se por acaso eu sentir que algo ou alguém não cabe a mim, eu não penso duas vezes em mudar de direção. E é assim que eu desisto de me bombardear com os questionamentos de uma vida que eu não escolhi para mim, e percebo que “se” eu tivesse escolhido outro caminho, eu não teria chego até aonde estou. E apesar das coisas estarem como estão, talvez seja assim que elas deveriam estar mesmo.
   Talvez seja esta mesmo a vida que o destino preparou para mim, bem como tudo mais que está em meu caminho. Isto é, a não ser que exista uma terceira opção guardada no meu bolso que eu ainda não encontrei, mas provavelmente não há. Escolher uma vez, se arrepender e tentar de novo, é maturidade. Escolher duas vezes, se arrepender e tentar mais uma vez, é falta de coerência. O que também explica porque muitas pessoas tentam se reaproximar de ex-namorados, e se surpreendem quando as coisas não dão certo de novo. Pior do que ser assombrado por um “e se?”, é ser traído por um “de novo”.
   Antes tarde do que nunca: um beijo para você, amor, que não quis voltar para mim. Você fez a coisa certa.

***


   “Às vezes as escolhas erradas nos levam aos lugares certos.”

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A culpa é minha


   Eu sinceramente acredito que existe algo a ser dito sobre as coisas que não fazemos. Só não sei ao certo o que, porque dizem que o que não foi feito também não vale a pena ser comentado. Se não aconteceu, não significou nada. Mas aí entram as coisas que acontecem e que, vez por outras, também sofrem pela falta de um significado, um sentimento que as mantenha vivas em nossa memória. Então eu não sei. Particularmente eu gosto de acreditar que tudo que é capaz de me causar algum tipo de impressão marcante, também vale a pena ser discutido. E na falta de alguém para me ouvir, acredito que vale a pena ser escrito.
   Talvez a poesia seja o exílio dos arrependimentos, ou o porto-seguro dos sentimentos ocos. Tudo parece muito bonito, muito apaixonante, muito sintético, mas sem muita utilidade. Isto é, a não ser para indicar a leitura à alguém que está sofrendo por algo que não sabe como lidar direito. Poesia serve para dar forma a estes sentimentos, como um porta-retratos que enfeita uma estante com um momento que decidiu-se ser inesquecível. Às vezes ser entendido é tudo que a gente precisa. Seja por alguém que nos ouça, pela poesia que nos traduza, ou por qualquer outra válvula de escape pela qual você permita expor as marcas que a vida te causou. Sejam elas boas ou ruins, ainda deixo um espaço separado especialmente para as coisas que eu não fiz que, por não terem acontecido, também não conseguem se encaixar em apenas uma categoria.
   Porque tudo que não acontece, tem um motivo. Ou no mínimo, uma desculpa. E a minha desculpa de hoje vai para você, que às vezes dedica um pouco do seu tempo para mim, e nem sempre consegue o que esperava em troca. Às vezes eu penso se sou uma pessoa ruim com uma vida complicada, ou apenas um cara normal com uma capacidade extraordinariamente criativa para elaborar desculpas plausíveis que cubram as fraturas das minhas ações. Ou, então, a fratura causada pela falta delas. A verdade é que eu penso demais. E por pensar demais, mais vezes do que deveria, eu faço... Nada. A não ser que justificar minha falta de movimento conte como uma ação – não deixa de ser um movimento defensivo, e deveras cansativo. Tanto, que às vezes até eu preciso questionar os limites das minhas contradições, e refletir se talvez não seja mais fácil fazer as coisas em vez de justificar porque não às fiz, ou em vez de delegá-las a terceiros, como a Vida, o Destino ou Amor. Como se a vida, o destino e o amor já não estivessem ocupados demais.
   Mas tudo isso não passa de mais um devaneio infame, mais uma desculpa, que só serve para camuflar o que eu realmente gostaria de dizer: eu sinto muito. Sinto muito por não ter acreditado em você. Sinto muito por te ignorar, ou tentar te bloquear da minha vida e impedir que você sequer soubesse a quantas eu ando, porque custei a deixar de duvidar que você se importa. Sinto muito por muitas vezes não medir as minhas palavras, e pela dor que elas são capazes de causar. Sinto muito por minhas dúvidas terem feito com que você mesma se questionasse. Sinto muito por você ter se sentido sozinha. Sinto muito por ter dito que eu não era o cara para você, em vez de simplesmente ter feito algo a respeito para que eu me tornasse então esse cara. Sinto muito por ter convencido você a desistir. A culpa não é sua, nem da vida, do destino ou do amor. Muito menos, das estrelas. Não. A culpa é minha. E é algo pelo qual eu preciso começar a me responsabilizar, antes que as minhas contradições acabem comigo de vez. Mas eu sei que não chegará a isto. Senão, o que seria das minhas poesias?

   Este sou eu: dando dois passos para trás, para dar um adiante. Se me perco, é só porque parei para pensar em escrever alguma coisa. Às vezes fica bonito, às vezes compensaria mais ir em frente. Bom... Vivendo, escrevendo, amando e aprendendo.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A tempestade perfeita


   Hoje eu decidi escrever sobre o glorioso e marcante fato de não ter tomado chuva. Aos desavisados sobre a minha natureza neurótica, melancólica e metafórica, abandonem este post já! Porque, crianças, como você já conhecem bem o costume, esta não é a história da vez em que eu saí de casa no meio de uma tempestade, e não tomei chuva. Claro que não. Esta é uma história de como a vida nem sempre vai ser do jeito que a gente quer, e nem do jeito que a gente se acostuma que é também. Como assim? Eu vou explicar...
   Porque eu tenho essa natureza neurótica, melancólica e metafórica que transforma toda e qualquer situação em que eu arrisque encostar a minha fútil e infame existência em algo que a simboliza como um todo, mesmo que seja só parte de nada. E eu tenho essa natureza neurótica, melancólica e metafórica que vos escreve porque, de um jeito ou de outro, foi assim que a vida me modelou. Existencialistas dirão que é uma mistura de inautenticidade com ma fé descarada. Psicanalistas dirão que é culpa da minha mãe. Comportamentalistas entenderão. Leigos não entenderão nada. Mas tudo bem.
   A questão é que eu tenho uma nuvem negra, um azar recorrente, uma zoeira sem limites que rege a minha vida desde quando consigo me lembrar que queria que algo desse certo... E não deu. Era sempre a pessoa errada, na hora errada, no lugar errado, fazendo o trabalho errado, do jeito errado, apaixonado por outra pessoa errada, que já tinha rolo com um cara que ela pensava ser o cara certo. Tanto é, que é assim que as minhas histórias costumam acabar, especialmente em 2014: desempregado, adiantado ou atrasado demais, perdido, cansado, irritado pela teimosia, com o coração partido pela Fulana, e voltando para casa debaixo da chuva. Porque só existe um fenômeno que se compara à nuvem negra que paira sobre mim: os ventos fortes que ela traz, e que sempre acabam quebrando os meus guarda-chuvas no meio da rua. Guarda-chuvas, pra ser mais exato. Sete guarda-chuvas nos últimos cinco anos, para ser mais amargamente exato. O que me fez pensar, inclusive, que Cascavel está tentando me dizer algo. Mas Cascavel não possui a mesma ironia fina que o universo possui. Não. Cascavel está deliberadamente me mandando embora. E causará outro grande dilúvio para me extinguir, se precisar. Ok, desta vez até eu admito que é exagero.
   Mas aí algo aconteceu. Ou melhor, algo não aconteceu. Mas ao contrário do meu momento Amy Winehouse que não aconteceu semana passada, desta vez não aconteceu algo ruim. Porque hoje Cascavel amanheceu com aquela vontade sádica de sacanear o pessoal singelo, honesto e trabalhador que acorda cedo para enfrentar o frio impiedoso e o vento forte lá fora, e fez chover em cima dessa gente igual criança serelepe que queima formigas usando a lupa que pegou escondido do pai e o calor infernal do sol.  Só que com água. Muita água. Enfim, choveu demais. Era o prelúdio do dilúvio. O epílogo do fim. E teria sido mesmo mais um dia de mau humor, sarcasmo assassino e meias angustiantemente molhadas dentro do tênis, se não fosse por um detalhe: estar desempregado me possibilitou alguns poucos benefícios ultimamente, como ir ao cinema em plena quarta-feira e, por que não?, acordar tarde na quinta. Meus sinceros votos de dias melhores e secos para você que saiu cedo hoje, mas não sinto muito por não estar entre vocês. Porque depois de cinco anos, sete guarda-chuvas e inúmeras nuvens negras, eu finalmente me percebi no lugar certo, na hora certa, fazendo a coisa certa, com o coração em paz: dormindo alucinadamente manhã afora no oasis de paz e sossego que é a minha cama. Recheada com quatro cobertores, porque ninguém no inverno se atreve a dormir sem se fantasiar de rocambole de mantas. Era a tempestade perfeita, porque pela primeira vez eu estava fora dela.
   E é claro que não ter tomado chuva hoje me fez usar isso como uma metáfora para o resto do universo. Do meu universo. E de como a minha natureza neurótica, melancólica e metafórica na verdade é culpa minha. Existencialistas dirão que o termo correto é “responsabilidade”. Psicanalistas insistirão que a culpa é da minha mãe. Comportamentalistas irão querer debater esta tese mais afundo. Desta vez fico com os leigos, que vivem alheios a toda a psicologia que sua existência possui sobre o mundo, e que o mundo impõe sobre eles. A partir do momento em que eu parar de esperar que a vida seja do jeito que eu sempre pensei que ela seria, ela realmente... Será. Só ela. A vida. Sem mais. Livre de justificativas, de sinais do destino, e de interpretações sem sentido sobre coisas e pessoas que não existem somente na órbita do meu umbigo. A vida não é sempre um mar de rosas ou um por-do-sol cinematográfico, mas também não é só nuvens negras, azar, zoeira e tempestade infames. A vida é só a vida. Às vezes coisas boas acontecem, e às vezes coisas ruins acontecem. E entre uma coisa e outra, às vezes chove.
   Existencialistas dirão que preciso rever meu projeto original. Psicanalistas dirão que eu preciso ligar para a minha mãe. Comportamentalistas dirão que eu preciso reavaliar meu repertório. Leigos não dirão nada, porque não perderam tempo em ler isso. E quanto a mim, eu só espero aprender de uma vez por todas que a vida jamais será do jeito que eu quero, tampouco é do jeito que eu a vejo. Sem definições, parâmetros ou padrões. Ela só é, e isso é bom. E eu só espero também que amanhã não chova. Ou que chova, tudo bem.

   Pela primeira vez em muito tempo, eu não preciso acordar cedo...

terça-feira, 3 de junho de 2014

O direito de ir e "devir"


   Eu acho que perdi o meu “devir”. Não, eu não escrevi errado – tanto é que o Word nem quis me corrigir automaticamente, diferente de quando escrevo meu sobrenome, Moresca, e ele insiste em querer corrigir para “Marisco”, mas tudo bem. A questão é que eu acho que perdi o meu “devir”. O que é “devir”, você me pergunta? Bom, mesmo que não tenha perguntado eu vou explicar. E mesmo que você já saiba o que é, vai continuar lendo mesmo assim. Porque nunca se sabe quando eu terminarei minha aparentemente breve explicação sobre este fenômeno da filosofia, sem que antes eu acidentalmente me perca um pouco na minha própria filosofia distorcida de vida, e suas respectivas ramificações dentro das entranhas da sociedade atual. Hum... Não, desta vez não. Ainda está cedo, só tomei uma xícara de café, e não me sinto tão aloprado e inspirado ainda. Sabe por que? Porque eu acho que perdi o meu “devir”.
   “Devir” é como o caminho para a felicidade; é uma instância filosófica que representa um processo de transformação do ser, de um estado simples e básico para uma matéria mais complexa e significativa. Igual, digamos assim, como um garoto de 17 anos que se muda para outra cidade sem conhecer nada nem ninguém, e apanha insensatamente do mundo real até que este passe a ter forma para viver nesta terra estranha de pessoas relativamente maduras, responsáveis e, até onde eu consigo perceber, melancólicas. Digam o que quiserem, contestem mentalmente tudo o que eu escrevo igual eu paranoicamente sempre imagino que vocês fazem, mas nada me tira da cabeça o paradigma de que, a medida em que nos tornamos mais adultos, também nos tornamos irremediavelmente mais trágicos. Seja pelas vontades que precisam ser postas em espera para que o que precisa ser feito tenha prioridade, ou pelos sonhos que precisam ser guardados no bolso para que a gente não tropece na realidade sem querer a caminho do trabalho, ou pelo amor que a cada vez mais se torna mais um detalhe e menos um foco de vida. Porque dá trabalho, é complicado e custa caro. E quanto a estes quesitos, já nos basta ter que correr para pegar o ônibus para o trabalho, bater um cartão-ponto no horário e economizar para conseguir parar o aluguel e passar no mercado antes de voltar para casa. Todo dia, das 9 às 17h, exceto Domingos e feriados. Ou não, dependendo de quantos meses de aluguel você estiver atrasado.
   Quando digo que o “devir” representa um caminho para a felicidade, é porque quando se vivencia tal fenômeno, você já não enxerga mais suas tarefas diárias como trabalhosas, complicadas, difíceis ou melancólicas. Pelo contrário, você nem percebe o tempo passar enquanto está tentando equilibrá-las no ar, porque este malabarismo que a gente costuma fazer com a vida deixa de dar medo e passa a ser divertido de novo. Igual quando se era criança e um dia era pouco, era curto, para brincar de todas as brincadeiras que a gente sentia vontade. E quando digo que acho que perdi o meu “devir”, talvez queira mesmo dizer: acho que eu me perdi do caminho da felicidade. E antes que você pense alguma injúria ao meu respeito, desta vez eu já admiti de cara o quanto isto é melodramático.
   Eu me recuso a acreditar que só eu já me senti assim. Como se os dias estivessem curtos e irremediavelmente esquizofrênicos. Para mim que adoro uma rotina, esta falta de estabilidade tem sido deveras desafiadora. Só não desisto porque, mais do que divagar sobre melancolia, eu também adoro um desafio. Não necessariamente significa que eu seja bom em superá-los, mas em temos como este de frio e vento que destrói todos os guarda-chuvas que eu tento comprar, tentar superar desafios me parece um esporte muito bom para se praticar. E porque qualquer coisa é melhor do que fazer academia. Mas o que eu quero dizer com tudo isto, é que eu sinto muita, mas muita falta daquela sensação tediosa de rotina. E agora eu sei que tem gente que lê a palavra “rotina” e tem calafrios; pude senti-los daqui. Mas a rotina a qual me refiro não é aquela declaração de morte cerebral que algumas pessoas assinam, e em seguida passam o resto da vida em um círculo vicioso de repertórios limitados e reações em cadeia de angústia mental que eventualmente causam com que a pessoa entre em um supermercado, se esqueça do que tinha que comprar, e acabe atirando em todo mundo.
   Eu me refiro àquela rotina mais sossegada, resultado de uma vida mais estável, igual a que eu costumava ter há alguns meses, antes de ter dito “desafio aceito!” muito alto e de ter comprado uma baita briga com a vida, que por sua vez transformou o meu caminho para a felicidade em uma pista olímpica de obstáculos. E é isto que esses textos tem sido; sou eu, sinalizando mais uma vez, que “Ei, eu caí! De novo! Mas já vou levantar... Só mais cinco minutos...”. Só que isto me fez refletir sobre o verdadeiro significado do “devir”, e se ele deve ser mais uma conquista do que um direito. Só se sente a felicidade depois de cair, levantar e descobrir que é possível continuar seguindo em frente mesmo com o joelho ralado e um corte na testa – a princípio. Efeitos que só podem ser produzidos por aquela pista de obstáculos, patrocinados pela melancolia, que sempre tende a acompanhar os níveis de maturidade que a gente atinge ao longo da vida. Então, se eu estou me sentindo todo quebrado e machucado, mas ao mesmo tempo percebo o porque disto, e nem por isso desisto de continuar tentando ou de passar no mercado depois do trabalho para comprar mais leite antes de voltar para casa, isto significa que eu estive no caminho certo esse tempo todo?
   Há quem diga também que o “devir”, ao mesmo tempo em que representa um caminho, também contempla aquela sensação de cruzar a linha de chegada, olhar para trás e dizer distraidamente, “o percurso já acabou?”. É a sensação de vitória, de conquista, depois de superar tantos desafios, e desviar de tantos obstáculos, e apesar de estar todo ralado e machucado, ainda ser capaz de passar no mercado depois do trabalho e voltar para casa com o leite, e o sentimento de dever cumprido. Então, no fim, o “devir” acaba sendo mais uma consequência do modo como você percorre os caminhos que a vida te dá. Às vezes é divertido trilhá-los, às vezes nem tanto. Mas no fim do dia, toda vez que você estiver de volta em sua cama, enrolado em cinco cobertas e pelo silêncio do seu quarto, e imaginar “Que dia...”, esta é a prova de que você está mesmo no caminho certo, Igor. Todo mundo tem o direito de ir e “devir”, mas nem todo mundo se compromete a tomar uma direção. Bem ou mal, eu ando me mexendo.

Sentir-se sem rumo às vezes faz parte, eu acho.

domingo, 1 de junho de 2014

O momento Amy Winehouse


   Quatro anos atrás, eu fui a uma balada. Com o passar dos anos desde então, eu fiz jus à minha reputação de solteiro permanente (apesar que, aqui, gosto mais de usar o termo “indomável”... pelo bom senso de tentar ser menos estranho e mais sociável, mas tanto faz) e cheguei a ter aquela fase que todo mundo tem de vislumbrar o ápice da sua semana como a famigerada sexta-feira, seguida pelo alucinante sábado à noite e, por que não?, a mesa redonda do Domingo à noite para reunir as tropas e deliberar sobre tudo o que fizemos, certo e errado, e para já começar os preparativos para o próximo final de semana. Eu sinceramente não consigo me lembrar da onde tirava tanta animação, tanta energia e – principalmente – tanto dinheiro para fazer isso final de semana após final de semana, mas não posso negar que foi uma boa época da minha vida. Daquelas em que nós costumávamos ser menos ocupados, menos exigentes e mais flexíveis perante a vida. Sabe, antes do trabalho, a faculdade e o peso morto dos relacionamentos que não vingaram começarem a nos afundar nas melancolias da crise dos vinte e poucos anos. Mas não é sobre isso que eu quero falar. Eu me lembro que, bem antes dessa fase baladeira começar, eu tive uma experiência que, bom... Para falar a verdade, eu não tive uma experiência. Eu só saí e vi algo que mexeu muito comigo, de um jeito que só aquele arrependimento pelas coisas que você não faz consegue mexer. E eu nem perguntei o nome dela.
   Enfim, eu me lembro que naquele dia, quatro anos atrás, eu não conheci alguém. Eu poderia ter conhecido alguém; as possibilidades estavam todas ali, e se não fosse pela minha irredutível mania de justificar minha falta de atitude com frases-prontas infames como “o destino se encarrega, deixa só ela passar aqui de novo, e se ela me olhar fixamente por 10 segundos, ou pegar na minha mão e dizer que eu era o cara que ela esteve procurando por toda a sua vida, aí eu falo alguma coisa”, nada teria me impedido de ter me aproximado dela, perguntar o nome dela, e, dependendo da careta que ela fizesse ou não, perguntar outros detalhes importantes – como “Você é casada? Tem filhos? É lésbica? Seu número é da Tim?”. Como eu gostaria de não pensar nesses tipos de possibilidades, mas até recentemente estas foram as “oportunidades” que a vida me trouxe, e as respectivas desilusões que elas provocam... Eu sei que não funciona, mas quem é que ainda não tem um chip da Tim hoje em dia?!
   Quatro anos e inúmeras baladas repletas de foras, gafes e mulheres comprometidas com caras que não se importavam mais com elas e/ou com filhos que elas tiveram com eles, eu gosto de pensar que aprendi algumas coisas. Gosto de pensar ainda mais que estou um pouco mais maduro perante a vida, por mais que meus horários e minha energia já não sejam mais tão flexíveis quanto minha juventude um dia lhes permitiu. Não que eu esteja velho, mas depois de tentar equilibrar problemas de trabalho, frescuras da faculdade, compras de mercado, contas a pagar e, quem sabe?, uma vida social aqui e ali, quem é que ainda tem fôlego para sair à noite, depois das 22h, no frio que esta cidade anda fazendo? Sem contar o vento forte, que  acabou me custando mais um guarda-chuva essa semana – o quinto que tive nos últimos quatro anos, mas tudo bem.
   Mas eu resolvi sair em um dia exatamente como este, quatro anos depois de não ter conhecido alguém, de ter passado no mercado à tarde para comprar leite, de ter lavado a louça dos últimos dois dias sob a ameaça da água gelada (cortesia do fim do Outono), de ter adiado os trabalhos da faculdade que preciso entregar semana que vem, e ciente de que eu teria que acordar cedo para ir trabalhar no dia seguinte. Eu fui. E é claro que a vida ia dar um jeito de fazer com que eu me arrependesse. Mas, sendo a vida aquela eterna brincalhona sem graça, é claro que eu iria me arrepender por algo que eu não fiz. De novo. Porra, Igor!
   Eu não estava lá à procura do amor da minha vida, igual costumava fazer toda vez que saia para... Bom, qualquer lugar. Não. Desta vez eu só queria relaxar depois de uma semana corrida, de um mês interminável, de uma vida complicada que eu estava levando. Pedi uma Heineken, encontrei uma cabine livre para mofar confortavelmente a noite toda enquanto escutava o cover de Amy Winehouse de longe, e estava sinceramente tudo bem. Até que ela apareceu. Ela que, por motivos óbvios, não terá nome nem nenhuma descrição que vá além da sua blusa preta estilosa e seu shorts jeans que parecia não condizer muito com o ambiente (e, muito menos, com o tempo frio lá fora), mas que perdia a importância diante das suas pernas morenas e impiedosas. E digo “impiedosas”, porque foi assim que elas apareceram para mim nas duas primeiras vezes que ela passou pela minha cabine, olhando não-tão-discretamente para mim. E digo “não-tão-discretamente”, porque não foi nem preciso que a minha amiga me avisasse que “Ei, aquela ali olhou pra você!”, porque até eu mesmo percebi. E pra quem não percebe nenhum detalhe relevante ao seu redor, como o olhar de uma mulher bonita em sua direção ou a inevitabilidade da vida como um todo, isto definitivamente significava alguma coisa. Ao fundo, cover Amy cantava “Tears Dry On Their Own”.
   Depois de passar por mim duas vezes, e de só ser percebida por mim ao fim da segunda vez, Ela se dirigiu à multidão que estava reunida na frente do palco, delirando ou com o show ou com o espaço pequeno do pub por alguns instantes, até que voltou ao bar para recalibrar seu teor alcoólico e se sentou, junto com A Amiga Loira em uma mesa ao lado da nossa cabine. E deu a fatídica terceira olhada que deveria ter sido o catalisador de qualquer atitude plausível minha, que tinha tudo para ser bem recebida e bem sucedida. Mas não foi, porque ela não existiu. Quando tive coragem de olhar, Ela já estava sentada e virada para A Amiga Loira, segurando firmemente seu copo quase como se ele simbolizasse o pescoço de alguém. Alguém que não a olhou. Ao fundo, cover Amy cantava “Back to Black”.
   Corta para o seguinte diálogo entre minha amiga e eu:
- Cara, você viu a olhada que ela te deu agora? E sentou bem aqui do lado? Vamos trocar de lugar, você senta perto da ponta e fala com ela!
-E o que eu iria dizer?
- An... “Oi”?
- “Oi”?! E depois?
- Aí você conversa com ela, ué.
- Sobre...?
- Puxa conversa, ué. Não achou ela bonita?
- Claro que achei, mas essa não é a questão. Não foi pra isso que eu saí hoje.
- Tudo bem que não foi pra isso, mas foi pra isso que a noite se virou. Vamos trocar de lugar logo e...
- Não, fique aí. Olha, pensa comigo. Dois caminhos podem surgir se eu me aproximar para falar com ela...
- Ok...
- O primeiro: suponhamos que ela estava olhando mesmo para mim, e não para esta mini-televisãozinha que tem aqui atrás de mim na parede da cabine, eu chego lá e dou “Oi”, e descubro que eu estava errado. É um fora, mais um prahistória, e eu não estou afim de ampliar a minha coleção.
- Ou...
- Ou, segundo: suponhamos que ela estava olhando mesmo para mim, e não para esta mini-televisãozinha que tem aqui atrás de mim na parede da cabine, eu chego lá e dou “Oi”, ela me convida para sentar com ela e A Amiga Loira, começamos a conversar, nos damos bem, talvez a gente até dê uns amassos por aqui, continue a conversar na vida lá fora, e eventualmente isto se torne mais do que uma conversa entre dois estranhos que deixaram de ser estranhos em um show cover de um pub em uma noite fria.
- E o que tem de errado com isso?
- Eu não quero um relacionamento. Não tenho tempo nem dinheiro para isso. Não é para isso que eu saí, por mais qMEU DEUS!
- O que?
   Sentada na mesa do lado, Ela cruzou as pernas de modo que seu mini shorts jeans estraçalhou todos os meus argumentos, e até parte da minha racionalidade. Ao fundo, cover Amy cantava “Wake Up Alone”.
- E agora?
- E agora, nada. Tudo bem que ela é ridiculamente bonita, talvez uma das mais bonitas que eu vi aqui hoje, e pareça ser muito mais areia do que o meu caminhãozinho é capaz de dar conta. Já disse que nem tenho carteira?
- Eu vou falar com ela por você.
- Não faça isso! O que ela vai pensar? Que eu sou tão imaturo que precisei que a minha amiga falasse com ela por mim?
- Então fale você com ela!
- Já disse que não...
- Por que?
- Porque eu não tenho coragem.
- Ok. Eu entendo.
   E assim a noite continuou, com aquele belo par de pernas cruzadas em minha vista, enquanto a ela aleatoriamente ainda me procurava. E eu não tive coragem de fazer nada. Quatro anos e incontáveis baladas depois, eu ainda não tenho coragem de chegar para uma mulher aleatória, perguntar seu nome e deixar com que eu me envolva em sua história, sua conversa e, se tudo der certo, suas pernas. Ao fundo, enquanto eu me deparava com minha inevitável covardia perante novas pessoas, novos relacionamentos e novas pernas, cover Amy cantava “You Know I’m No Good”.
   Apesar de não ter conhecido Ela, e apesar de ter tido todas as oportunidades possíveis (como, por exemplo, as duas vezes em que A Amiga Loira foi ao banheiro e a deixou sozinha para que, supostamente, eu me sentisse menos intimidado para falar com Ela), naquela noite eu tive um pensamento: talvez toda essa conversa de “eu não quero um relacionamento, não tenho tempo nem dinheiro pra isso” seja mentira. Talvez eu só não tenha coragem. Ou um talvez ainda maior, eu sinceramente acreditei que ela não estivesse olhando mesmo para mim, mas para aquela mini-televisãozinha que tinha ali atrás de mim na parede da cabine.
   Ao ir embora do pub, de repente eu não podia deixar de olhar para Ela enquanto a fila de saída não andava, mas Ela já não olhava mais como antes. Agora parecia mais frustrada, como quem saiu à procura de algo e sentiu que havia encontrado, mas se enganou. Igual a mim, quatro anos atrás, quando vi aquela garota chorando na fila de saída da balada. E enquanto cover Amy cantava “Our Day Will Come” ao fundo, eu me lembro de ter tido um último pensamento antes de sair do pub e da visão Dela:
- Eu sinto falta de um relacionamento...

   Engraçado como às vezes, mesmo quando não se está à procura de nada, você encontra algumas coisas. Naquela noite, eu encontrei minha vontade de tentar gostar de alguém de novo. Ironicamente, poderia ter sido Ela. Porra, Igor...