terça-feira, 31 de março de 2009

Acredite nas estrelas

Toda vez que minhas aulas acabam mais cedo, ou quando minha van atrasa (ou, ambos), eu fico no estacionamento frente ao meu bloco e olho para o céu, em típica moda subjetiva. Mas o que eu nunca deixo de reparar é a quantidade de estrelas que estampam a noite em Cascavel. Talvez fossem os prédios ou minha cegueira adolescente natural, mas eu não conseguia ver as estrelas em Londrina. Em Cambé não havia prédios que cobrissem minha visão, e a janela do meu quarto era virada justamente para a imensidão lá fora - também, sem estrelas.

Na minha mente eu sempre acreditei que existia certa conexão entre as estrelas e algum tipo de esperança, para não dizer felicidade. Desde a literatura até o cinema retratam estrelas como símbolo desse significado, e eu cresci com isso. O que eu acho estranho é exatamente esta contradição: eu era feliz em Londrina/Cambé, mesmo sem estrelas. E agora que tenho uma cidade estrelada, tudo parece ser mais difícil - isto é, até eu olhar para o céu.

Honestamente? Eu sentia falta de estrelas na minha vida, e são elas quem me animam hoje - especialmente, quando a van atrasa. Por isso eu decidi acreditar mais em mim, e em Cascavel - isto pode realmente dar certo. E mesmo que eu, por ventura, esteja errado, ainda sim acreditarei nas estrelas.

Porque, mais do que nunca, preciso de algo que ilumine meu caminho; para onde quer que eu vá.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Rapidinha

Pra mim, manchas de caneta nas mãos não é sujeira, mas sinal de trabalho.

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Estou trabalhando numa teoria sobre como tudo no mundo é subjetivo. Mais detalhes em breve.

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Às vezes a nostalgia me domina demais e eu sinto vontade de dizer à pessoas com quem não converso mais algo como “obrigado por ter feito parte da minha vida”.

O mesmo vale para alguns lugares.

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Só isso.

domingo, 29 de março de 2009

Mesmo que distante

Meu nome é Igor Costa Moresca. Há cerca de dois meses atrás eu tinha uma vida completamente diferente em Londrina, mas motivos pessoais e estudantis fizeram com que eu decidisse, de certo modo, seguir em frente - para Cascavel.

Eu tinha uma vida plena com minha família, meus amigos, e minha consciência. Mas agora eu preciso começar tudo de novo, num lugar novo, com pessoas novas e quase nenhum histórico de qualquer tipo. Nenhum laço, nenhuma lembrança, nenhum fragmento meu. Em Londrina, parece que estou fragmentado pela cidade. Cada rua me lembra uma história, uma piada, uma sensação. Porém, o que resta agora são apenas fragmentos, e eu terei que me acostumar com isto.

De agora em diante, terei que me contentar em perder aniversários, ocasiões especiais e momentos... Aqueles momentos em que eu quase sempre estava presente. De agora em diante, com raras exceções, serei frases de MSN, fotos de Orkut, textos de blog, e uma voz no telefone por um bom tempo.

Serei uma lembrança de tempos passados, mesmo que distante, aceso na memória daqueles que deixei para trás. Uma faísca que fura a escuridão, e ainda aconselhando, ainda conversando, ainda desabafando, mesmo que distante. Não sei qual parte seja a mais difícil; deixar o familiar ou recomeçar no desconhecido, mas continuarei caminhando sempre em frente - esperando ansiosamente pelo dia em que voltarei para casa.

Estarei presente, mesmo que distante.

Laços rompidos

Ultimamente eu tenho reparado bastante nas doenças que eu possuo, e chamo-as de “doenças” propositalmente no sentido pejorativo. Minhas síndromes são bastante peculiares e malignas: desde minha Compulsão por drama transcrito até a perigosa Apegação emocional instantânea. São bem simples de diagnosticar mas complicadíssimas de se tratar - ou então, era o que eu achava.

Compulsão por Drama Transcrito (CDT) baseia-se na comodidade momentânea que encontro ao digitar minha dor para fora de mim e expô-la ao mundo em forma de arte (ou, tentativa de arte), mas na maioria das vezes o brilho de mártir não é tão reluzente quanto eu esperava. A cura? Ter mais tempo para pensar, porém menos tempo com as mãos sobre um teclado. Um caderno pode até ser usado para absorver tais frases, mas o cansaço natural de meus dedos, perante a rapidez dos meus pensamentos, sobressai-se e cessa este mal.

Mas os verdadeiros danos são causados pela Apegação Emocional Momentânea (AEM?), e se não forem tratados com rapidez e eficácia, podem ser letais à minha saúde. Consiste-se por minha mente fazer planos de matrimônio toda vez que uma garota me dá a mínima moral, até tudo explodir na minha cara e trucidar meu coração. Para remediar, basta romper quaisquer laços afetivos não-correspondidos prejudiciais ao paciente antes que a doença atinja seu estado crítico - dependência e perda das funções motoras essenciais (como passar frente à casa de um antigo amor, mesmo tendo a opção de dar a volta no quarteirão).

Dizem que o melhor modo de superar um vício é substituí-lo por outro, e foi exatamente o que eu fiz. Então troquei cigarros e álcool excessivo por milk-shakes e pastéis de feira, passei a concentrar-me mais no trabalho e na faculdade, e logo veio a luz (mais especificamente a luz do banheiro, local onde costumo ter grande parte de minhas epifianias): morar aqui não é tão difícil, depois que se pega o jeito. De repente recuperei meus monólogos internos, e ao perceber que eu poderia realmente ser feliz aqui, senti minhas doenças lentamente se ocultarem enquanto minha personalidade restaurava-se pouco a pouco e a cada dia mais. E nada de Neosaldina desta vez.

Eu estou ficando muito saudável. Com sorte, logo poderei usar minha camiseta “Farras” de novo.

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A verdade é que eu ainda espero por Aquele amor, mas retardar gratificação não é a definição de maturidade?

quarta-feira, 25 de março de 2009

O mundo real

Existe uma linha tênue entre viver e sobreviver, e é bastante simples perceber a diferença: está na paixão. Se você tem paixão, você vive. Senão, você só sobrevive, por questão humana básica. Antes de vir para cá, eu me considerava um apaixonado; pelo curso que escolhi, pelas pessoas que me deram força para prosseguir com ele e com os desafios que viriam pela frente. Perdão, eu não me considerava um apaixonado e ponto. Eu achava que minha paixão era eterna, algo escrito nas estrelas e que nunca se apagaria. Curiosamente, eu expressava tudo isso com palavras digitadas. Parecia tão inocente e confortável; eu me sentia bem com isso.

Dois meses depois, a situação amadureceu, mudou, cresceu e está assim agora: cinza, tipo aqueles dias nublados e perfeitos para ficar dentro de casa com uma xícara de chocolate. Nem precisa dizer que são meus dias preferidos, e eu até fui agraciado com um deles hoje – mas não pude aproveitar como gostaria, devido às responsabilidades que adotei e, em troca, roubaram todo o meu tempo livre. Ócio virou lenda; raro como ouro. Com exceção das coisas boas, a situação está cinza. Igual a mim.

Minha alma parece estar mal-lavada, embaçada e difícil até de descrever. Tudo bem, tudo mudou, mas deveria ter um limite. Eu deveria continuar o mesmo... não deveria? Estou lentamente aderindo à minha nova geografia, mas sinto que estou perdendo minha personalidade pelo caminho. E ainda dizem que este é o tal mundo real.

Pois vou lhes dizer: no meu mundo real não se tem tempo para absorver mudanças, é mais fácil criar inimigos do que fazer amizades, responsabilidades tornam-se sinônimo de desistir do que você quer no presente para colher os frutos do seu trabalho no futuro, e não há abraços. Simplesmente não há, e não consigo vos dizer o quanto fazem falta.

A paixão que eu costumava ter por tudo na minha vida não esfriou, mas está suave e silenciosamente desaparecendo pouco a pouco, música a música, olhar a olhar, lágrima a lágrima... O que era vida, o que era amor, agora se torna sobrevivência num mundo frio, áspero e sem abraços. Como se gente grande não precisasse de abraços. Esta cidade é pequena demais para acolher todas as minhas irracionalidades.

Claro, tudo isso não cabe numa resposta a um “tudo bem?”, vide meu silencio crescente. Parece que não adianta dizer aos outros que, depois de dois meses longe da vida que eu levava, a luta por sobrevivência está acabando comigo.

Talvez isto tenha sido um erro, ou talvez seja passageiro. Quem sabe? Não me importa; engulam a vontade de me dizer que tudo dará certo... o que eu quero agora é um abraço.

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Sabe por que a despreocupação em colocar tudo isso aqui? Sou um mísero “ghost writer”, apenas aspirando por um desabafo e uma boa noite de sono.

E o mundo nunca saberá...

terça-feira, 24 de março de 2009

Infidelidade

Meu nome é Igor Costa Moresca, meu melhor amigo é meu mp4 e uso meu caderno para anotar conversas comigo mesmo.

Alguma coisa deu errado.

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A verdade é que mentir é mesmo mais fácil, e acompanhando as mentiras vem as justificativas para elas. Dizemos a nós mesmos que não há necessidade de contar a verdade se tudo o que causará será dor; talvez uma consciência limpa não valha isto. Mas mentiras encobertas podem ser mais difíceis de agüentar do que verdades expostas. Mentimos para nós mesmos esperando pelo melhor: que nossas mentiras se transformem em verdades.

Depois que parei de mentir para os outros sobre meu bem-estar toda vez que perguntam se estou, afinal, bem, as coisas até pareceram ficar mais fáceis – mesmo que tenha sido uma sensação momentânea. Só que não parou por aí. Eu continuo a mentir pra mim mesmo. Eu vou dormir à noite sempre achando que amanhã será melhor, mas acaba sendo só a mesma coisa. E está ficando muito cansativo.

Eu não sei se tudo dará certo, ou se eu posso mesmo ser feliz aqui. Não sei se algum dia me sentirei livre para ser quem eu era de novo, ou se esse desconforto é temporário, como tanto tentam me acalmar. Não sei se posso começar tudo do zero. Não sei se existe amor nesta cidade, e isso me assusta.

Por isso eu decidi parar de me enganar, de mentir para todo mundo e congelar um sorriso forçado no rosto para tranqüilizar terceiros. E então, eu parei e respirei fundo, e admiti a verdade terrível em voz alta:

- Eu quero ir pra casa.

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Não preciso de um relacionamento para sentir essas coisas, mas ultimamente parece que estou sendo infiel ao amor em si.

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De repente, comecei a usar a palavra “difícil” com mais freqüência do que antigamente. Alguma coisa, definitivamente, deu errado.

Andar sobre a água

Depois de toda tempestade, um arco-íris aparece no céu. Até aí, tem tudo a ver com biologia, ou química, ou pura bichisse – essas coisas. O que eu parei mesmo pra reparar é o tempo que algumas tempestades duram, algumas levam apenas uma tarde, enquanto outras se transformam em dilúvios aparentemente eternos – tipo aquele em que eu me meti enquanto atravessava a Avenida Brasil semana passada (falando nisso, minha calça preferida continua um pouco úmida). E não estou falando simplesmente de trovoadas a céu aberto – viva, subjetivismo!

Morar aqui, andar por aqui, viver aqui está sendo como caminhar meio a uma tempestade – estou constantemente tropeçando em simbólicos buracos nas ruas, cobertos pelas águas, enquanto rezo pela volta do sol. Na minha cabeça, faz mais sentido, mas eu não quero mais guardar essas coisas só pra mim – eventualmente, me afogarei nelas.

Às vezes minha vista embaça e eu não consigo enxergar meu caminho – ou até mesmo a mim, ou quem eu costumava ser. Não consigo deixar de sentir partes da minha personalidade pingarem por meu corpo até atingirem o chão e serem carregadas até o bueiro mais próximo – perdendo-as para a cidade. E a cada passo adiante que dou, sinto mais falta do eu passado.

Está ficando cada vez mais difícil manter a cabeça fora d’água.

sábado, 21 de março de 2009

Milk-shake

A cada dia que passa eu me convenço mais de que o começo das coisas é sempre a parte difícil. E todo dia eu me lembro de alguém, é infalível. Um rosto similar, uma fala, um gesto... Minha mente volta automaticamente para Londrina. Eu vou a pé para o trabalho todo dia, na esperança de criar qualquer tipo de vínculo com a cidade. E é tão difícil quanto o resto. As esquinas são desconhecidas, as avenidas são incoerentes e as pessoas são estranhas. Por sorte, eu compro milk-shakes por dois reais em uma das mil banquinhas de sorvetes que existem espalhadas pela avenida principal. Tudo bem, ninguém me disse que seria fácil. Mas ninguém disse que seria tão difícil, salvo exceção de duas primas minhas que já moraram aqui por alguns anos e logo voltaram para Londrina e que disseram que no começo tudo seria “uma merda”. E tenham dito.

Aí eu faço meus amigos me ligarem a 346 km de distância pra me ouvir, porque ninguém aqui me entende. E é uma das coisas que mais fazem falta; ter alguém pra me entender. Pra me ouvir tenho cobradores de ônibus e clientes que tomam o chopp no balcão da loja achando que é um boteco qualquer – mas eu não falo com eles; um pouco de prudência eu ainda tenho. Peço desculpas por gastarem tanto crédito, mas em troca vocês fazem com que eu me sinta melhor e evitam que eu venda os móveis do apartamento daqui para pagar minha mudança de volta pra minha terra. Também ganhei duzentos reais em bônus, de quebra.

Na faculdade eu me sinto um analfabeto - é um desabafo mesmo – porque, depois de matar mil aulas pra ir ao bar que fica logo ali do lado (ás vezes não sei explicar se isto é intervenção divina ou tentação do capeta), tenho alguns trabalhos atrasados pra entregar. A essência da faculdade parece ser esta: trabalhos em grupo. E não vou nem comentar sobre o desprazer que isto está se tornando. Não adianta, eu sou do tipo faça-você-mesmo e não tem jeito. E não consigo deixar de sentir que todos os outros sessenta e nove da minha sala são melhores do que eu, com seus estágios, empregos na área, blogs inquestionavelmente superiores (pra não dizer, úteis) e aquele ar de jornalista que me falta. Ninguém bate o olho em mim e comenta: “Você deve escrever bem”. De fato, não escrevo.

Mas parei de beber, fumar e estou tentando amenizar minhas falas irônicas e rudes. Por enquanto, as duas primeiras pareceram ser mais fáceis de cumprir. Minha dentista disse que também tenho que parar com a Coca-Cola por motivos de saúde (“Mas se você quiser que seus dentes derretam, pode continuar tomando!”); parece que a única coisa que falta é me caparem. É da minha natureza perceber as coisas óbvias muito tempo depois que as pessoas normais, e, realmente, nada dessas coisas vai preencher o vazio que a saudade está criando.

Eu sinto saudade das ruas que eu conhecia, das pessoas peculiares que sempre cruzavam meu caminho, dos lugares pelos quais eu caminhava, e até mesmo de seres que não merecem importância. Começar tudo de novo é complicado, porém não impossível; mas complicado do mesmo jeito. No entanto, eu continuo fazendo meus amigos me ligarem, só que agora eu também criei vergonha na cara para gastar alguns créditos também. Porque quando meus momentos de fraqueza passam, eu consigo ver tudo claramente de novo. Eu não vou fazer minhas malas e correr de volta, não pela faculdade ou qualquer outro aspecto físico, mas por honra. Eu vim para cá por três razões: para crescer, encontrar um amor, e estudar - nessa ordem. E eu não vou embora enquanto não conseguir.

Hoje eu paguei sete reais em um só milk-shake, e minha vida nova só está começando. Por mais difícil que seja.

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Foram as linhas mais sinceras que já escrevi, desde que cheguei.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Escute a chuva no telhado

Por mais que eu tente, eu não consigo ter um dia normal. Meu nome é Igor Costa Moresca e hoje eu vi um pombo dançando “Hips Don’t Lie” na rua.

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Cascavel é uma cidade absurdamente imprevisível; prostitutas fazem ponto às segundas-feiras, a maioria das pessoas nunca ouviu falar de “Crepúsculo”, e a Coca-Cola em lata custa R$2,50 em todos os lugares. Mas nada se compara ao clima; quente em um momento, frio no outro, e isso não se deve apenas ao ar-condicionado do shopping. Só que não é disso que eu quero falar.

Com a superlotação que domina o ônibus no horário que o tomo para o trabalho somado com a atrevida tarifa de R$2,20, eu decidi que andar os 5 km que separam minha casa do shopping não seria tão ruim. Afinal, entre derreter dentro do ônibus ou na rua, pelo menos na rua é de graça.

Saí de casa com pouco mais de uma hora para andar até o trabalho, armado com o mp4 carregado, – apesar da bateria viciada – meus óculos escuros que, depois de esquecer no carro do meu pai, finalmente recuperei, e meu bom humor. Andar ao som da minha trilha sonora me deixa de bom humor. Cantar também, mas só quando não tem mais ninguém no mínimo ao raio de 10 metros.

Vinte minutos depois, nuvens estranhas começaram a tampar o céu azul repentinamente e meu “modo pânico” foi acionado. Tentei entrar em negação, mas não tive tempo; uma gota d’água caiu direto no meu olho esquerdo. E então, lá estava eu quase na metade do caminho, na avenida principal da cidade, quando a tempestade começou. Não foi chuva, foi tempestade mesmo.

Por mais surreal que pareça, corri para o estabelecimento mais próximo para me proteger – e era um McDonalds. Decidi comer um pão tostado enquanto esperava a tempestade passar, mas só serviu para me ocupar enquanto via as águas aumentarem suas forças pela janela quase coberta de adesivos. Foi então que me deparei com a escolha: ou eu me atrasava para o trabalho (de novo), ou eu enfrentava a chuva e simplesmente ia tentando me proteger debaixo dos toldos acima das lojas na rua até chegar ao shopping. Eu fiz a escolha mais úmida.

Parecia um bom plano na minha cabeça, mas eu nem parei para pensar que meus planos geralmente envolvem mais fantasia do que realismo. Talvez, por um instante, eu tenha achado que começaria um musical à medida que eu pulasse poças d’água pelo caminho, e isso subconscientemente tenha feito com que eu saísse correndo do McDonalds com o pão meio comido na mochila.

Passei correndo por lojas, vitrines e bancos, todos com pessoas sãs me olhando com espanto. Senti-me como no meio de um desfile de chegada à cidade, decorado por jatos de água que pareciam vir de todas as direções. Algumas pessoas nem acreditavam quando me viam todo molhado ao chegar debaixo de uma cobertura, e ainda sim continuar caminhando. Em Londrina, fiz isso o suficiente para ser tratado como figura rotineira no centro da cidade em dias nublados.

Foi então que passei frente a uma “cover” das Casas Bahia, e um grupo de vendedoras que estava na porta da loja me chamou. A moto de uma delas estava caída e acorrentada no meio-fio frente a porta, mas nenhuma se atrevia a se envolver na tempestade e levantá-la antes que fosse danificada. Como eu já estava encharcado mesmo, perguntaram sem titubear se eu poderia fazer o favor. Com minha vergonha e integridade escorrendo por meu rosto e minhas roupas, concordei imediatamente.

Levantei a moto, jogaram-me a chave do cadeado para libertá-la e a levei até a calçada, perto da porta da loja onde a dona pôde manuseá-la e conferir aliviada a falta de arranhões ou batidas. Depois de ser aplaudido pelas vendedoras e ser atonitamente observado por todos os outros espectadores abarrotados em lojas ao redor, prossegui meu caminho um pouco mais satisfeito; pelo menos adentrar a chuva interminável não foi totalmente inútil. Mas isso não fez do caminho restante menos complicado.

Uma vez que eu estava molhado o bastante, não me incomodei mais com a chuva e segui o percurso cantando, o que até me fez chegar mais rápido. Entrei pela doca do shopping acompanhado dos olhares tipo “não-acredito-que-você-fez-isso” de seguranças, faxineiras e fiscais, pouco conhecedores da minha natureza inconseqüente.

Quatro telefonemas depois, consegui uma troca de roupas para trabalhar e uma blusa para sobreviver ao ar-condicionado tenebroso. Antes de tirar todas as coisas dos meus bolsos, testei se meu celular e meu mp4 estavam a salvo. O celular precisou de alguns tapas da bateria, mas pegou. O mp4 não foi tão forte e não ligou. Voltei ao trabalho com meu luto silencioso.

Horas depois, saí do trabalho com a mochila cheia com a roupa molhada e uma blusa por debaixo do uniforme, só para encontrar o sol iluminando o céu novamente. Rangi com os dentes durante toda a volta sem música de ônibus para casa.

[...]

De noite o calor persistiu um pouco, mas o frio da madrugada logo tomou conta. Cheguei tarde da faculdade após imprevistos com a van e comecei a arrumar minha mochila para a manhã seguinte. Num ato de curiosidade, tentei ligar o mp4 uma última vez antes de me desfazer dele – e fiquei em choque quando o pequeno aparelho, após poucos instantes, iniciar normalmente. Comemorei comigo mesmo e fui dormir um pouco cedo, só para ir a pé para o trabalho novamente na manhã seguinte. Dessa vez, o sol teria que me acompanhar. Se até o mp4 resistiu.

***

Hoje eu descobri minha característica mais marcante, ou minha qualidade mais peculiar. Mesmo na mais inimaginável das situações, eu ainda consigo manter meu bom humor. Seja durante uma tempestade ou mesmo se a van quebrar a caminho da minha casa, não consigo segurar sequer uma piada.

O que salvou meu dia, além da ressurreição do meu mp4, foi acalmar meus colegas de van ao convencer o motorista de que uma parada na feira prestes a fechar para comprar pastéis seria a coisa mais prudente a se fazer. Graças a Deus por frango e catupiry.

domingo, 8 de março de 2009

Momento Amy Winehouse

Tudo que eu queria agora é que existisse alguém para quem eu pudesse fazer a pergunta que só eu posso responder. Eu fiz a coisa certa ao vir para cá? Ao deixar tudo e todos para trás, para começar uma vida nova? Será que eu consigo?

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Um mês depois. A ficha finalmente caiu, e não foi um momento bonito. Imagine só; quem diria que eu, logo eu, me desapegaria não apenas de uma pessoa ou um lugar, mas de uma vida inteira, na esperança de recomeçar e crescer numa cidade sem resquícios emocionais de qualquer tipo. Sem lembranças em cada rua, ou conhecidos em cada quarteirão. E o mais importante: sem complicações amorosas – algo que, ao longo dos anos, tornou-se minha marca registrada.

Só tem um problema; um detalhe que eu escolhi deixar passar em branco, achando que não seria relevante. Por mais que eu tenha evitado, algumas lembranças que eu não queria mais carregar comigo deram um jeito de se infiltrar na minha bagagem, e viajaram comigo até aqui. Eu as afogo durante o dia, mas ressurgem de noite. Não sei por mais quanto tempo manterei tudo isso só pra mim.

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Eu não estou repensando minhas decisões ou considerando retroceder de modo algum. Eu só admiti uma dificuldade, e tudo ficará mais fácil com o tempo.

Só não me pergunte quanto tempo.

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Nós só dissemos “adeus” com palavras.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ferida aberta

Quando éramos crianças e nos machucávamos, era de costume transformar um arranhão em um escândalo ou anunciar uma torção como se fosse uma tragédia grega. E isso é normal; éramos jovens e desacostumados com a dor. Mas – gostemos ou não – isso muda com o tempo e logo descobrimos que nos machucar não é tão incomum e, infelizmente, é muito fácil.

A maior diferença, porém, é invisível aos olhos; uma ferida aberta pode ser tratada do mesmo modo, não importa se tivermos três ou trinta anos, mas não há Nebacetin que cure, digamos, um coração partido. E então aprendemos a cuidar do nosso emocional assim como cuidamos do nosso físico, mas não é nada fácil. Não existe um folheto que nos informe como prevenir decepções massacrantes ou lágrimas agonizantes, e por mais que a psicologia evolua, ainda não existe nenhum posto de saúde que ajude a reparar sonhos despedaçados.

No fim, ainda sofremos arranhões e torções como crianças, mas choramos sem lacrimejar, gritamos sem aumentar o tom da voz, e engolimos a dor até mesmo com um sorriso no rosto – porque, às vezes, um corte no dedo não é nada, comparado a uma desilusão amorosa ou a culpa por ter cometido erros irreversíveis.

Minha irmã ralou o pé semana passada e chorou muito. Tudo o que eu queria era dizer que ela logo voltaria a brincar com as amigas porque aquilo nem era dor, era só um treinamento. Mas ela só tem sete anos, então o Nebacetin resolveu. Eu fiquei mais aliviado do que ela.

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Honestamente? Em um mundo objetivamente frio, ás vezes uma dose de subjetividade faz bem.

Em voz alta

Audácia é uma característica poderosa, mas demora a ser amadurecida nas pessoas. Ocasionalmente, pensamos duas vezes antes de abrir a boca em uma sala de aula por timidez ou até medo do grande grupo, ou não nos levantamos imediatamente em um local lotado porque não estamos preparados para termos olhares alheios direcionados a nós.

E se não tomarmos cuidado, timidez ou medo podem nos prejudicar quando tentarem passar por cima dos nossos direitos, e acabarmos imobilizados por nós mesmos. Felizmente, nosso silencio tem limite e para todos chega a hora de soltar o verbo e protestar, ou simplesmente obtemos voz o suficiente para responder a chamada.

É assim que deixamos de ser crianças e assumimos responsabilidade por nossos atos e citações. Mas claro, até mesmo audácia demais pode ser autodestrutiva.

Ser independente é muito complicado.

Alguém novo

É um fato certo da vida; as pessoas que entram no seu cotidiano, mais cedo ou mais tarde, também irão deixá-lo. Alguns morrem, outros se mudam, e boa parte deles é até mesmo expulsa, mas ninguém dura para sempre. Por isso mantemos fé em um melhor amigo quando a distância vai lentamente tornando-se insuportável, e continuamos a carregar entes queridos em nossos corações mesmo sem mais compartilharmos o mesmo teto.

E quando nos encontrarmos ao redor de um mar de rostos desconhecidos e nos sentirmos sozinhos, o melhor jeito de remediar é simplesmente dizer “olá” ao colega do lado.

Obrigado, de nada

Nem sempre temos ajuda disponível e por isso é importante ter noção – e um pouco de controle – sobre as coisas que nos cercam, como o portão de casa ou o interruptor certo no trabalho. Saber onde fica a Reprografia na faculdade também é muito útil.

A maioria das pessoas não gosta de admitir que, de vez em quando, precisam de um pouco de orientação – e isso é compreensível. É da natureza humana querer fazer tudo sozinho; afinal, um homem das cavernas não ensinou seu hipotético vizinho a acender uma fogueira para que ele também pudesse aquecer sua comida e se proteger do frio.

Hoje, as pessoas mais humildes que não vêem mal em pedir ajuda sentem até um pouco de receio para interagirem com outros que se mantém mais reservados, porque pensam que não precisam de ajuda com nada – ou além, pensam que sabem muito mais do que elas.

Comunicação é uma coisa mágica.

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As pessoas da minha sala morrem de curiosidade para saber do que falam os textos que escrevo durante a aula. Acho irônico, justamente porque me escondo com meu caderno e em minhas palavras para fazer tudo, menos chamar a atenção.

Não sou CDF, sou só levemente autista. E – pasmem – estou contente por ser assim.

Guerras domésticas

Acontece em todo lar; entre quatro paredes existem inúmeros cabos-de-guerra imaginários cujos participantes buscam algo impagável – controle. Às vezes são pequenos confrontos entre pais e filhos, ou batalhas sangrentas entre maridos e esposas – e, ocasionalmente, até mesmo uma família inteira pode acabar dividida em trincheiras adversárias, onde somente um triunfa e deixa para trás seus entes “queridos” a tratar de suas feridas.

Pode ser simbolizado pela briga para escolher um canal para assistir na televisão, até a artilharia utilizada para decidir quem lavará a louça do almoço, mas toda família enfrenta ocasionais conflitos que, se não forem resolvidos pacificamente, podem causar confrontos épicos.

O melhor jeito de resolver tais duelos é simplesmente baixar a guarda e parar de ver outras pessoas que convivem debaixo do mesmo teto conosco como inimigas. Porque, no fim do dia, todos ainda dormem no mesmo quartel – conseqüentemente, no mesmo time.

É tudo questão de espaço e comprometimento; nenhum tiro é necessário.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Letra e música

É até meio estranho de descrever, mas eu sinto uma inveja/admiração imensa ao ouvir uma música cuja letra fala exatamente o que eu tinha pensado em escrever, e que alguém obviamente mais capacitado expôs ao mundo antes. Por exemplo, se eu disser que tive a idéia de fazer um musical com as músicas do ABBA antes de descobrir sobre a existência de “Mamma Mia!”, ninguém vai acreditar – mas a letra de “The Winner Takes It All” será escrita na minha lápide, sem discussão.

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Ninguém que eu conheço conhece Stephen Sondheim, ou Andrew Lloyd Webber, ou Bernadette Peters. Eu me incomodava com isso antes e, como de costume, me achava a pessoa mais estranha no recinto. Agora eu acho legal, principalmente pela mania de gostar de coisas diferentes que cativa as pessoas, mas nem compartilho; é tudo meu.

Na verdade, é assim; Sondheim e Webber escrevem musicais e na maioria das vezes chamam Peters para estrelá-los, tudo isso na época de 90 pra trás. E é como eu disse no trecho acima; tudo que eu sinto e gostaria de escrever, tanto para exteriorizar mas pelo prestígio, eles já fizeram anos atrás – e dia após dia colocam mais vídeos da Bernadette no YouTube pra me lembrar disso. Quando eu conheci Peters, tinha menos de uma página de resultados, eu tinha 14 anos e as coisas ainda estavam só começando a fazer sentido; agora são inúmeros vídeos, estou com 17 ½ e eu ainda recorro a ela em momentos nostálgicos. Se quiserem saber mais, pesquisem. Como eu já disse, esse gosto estranho é meu. Só meu.

Na verdade, algumas pessoas que conheço até chegaram a conhecer Sondheim por tabela, mas quando eu digo que foi ele quem escreveu “Sweeney Todd” e o Burton “só” (sem querer menosprezar) dirigiu, não me levam a sério.

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Hoje eu conheci Katy Perry. Ela fala mal de mim em todas as músicas, mas o ritmo é divertido.

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Eu até tenho um lado “cult”, mas eu o escondo atrás das minhas infames piadas de elevador. E esse é só o topo do meu poço de contradições.