domingo, 30 de abril de 2017

Este cara está apaixonado por você


Eu estive apaixonado pela garota errada desde os meus 14 anos, e não pulei um dia sequer desde então. Claro que a garota mudou de nome com o passar dos anos, assim como a cidade em que morávamos, as músicas que eu dedicava a ela e as sacadas nas quais eu passava noites em claro. Sentado, esperando, rezando que ela estivesse pensando em mim também... E mesmo quando não era recíproco, ou quando a esperança parecia ser tão rarefeita quanto os ventos de uma noite de verão, e uma lágrima ou outra acabava por escapar dos meus olhos, eu era feliz. Por simplesmente ainda acreditar em algo, em nós, eu era feliz. É algo que nós perdemos com o passar dos anos, entre uma pessoa errada e outra: a habilidade de continuar acreditando que pode dar certo.

Às vezes eu ainda me pego pensando em alguém, mas não do jeito que já cheguei a sonhar um dia. As sátiras envolvendo andar de mãos dadas no shopping e as fantasias sobre ter alguém com quem dividir o cobertor em uma noite fria são mais fáceis de se imaginar, mas bem mais distantes de se alcançar. Houve um tempo em que uma simples conversa me fazia feliz. Os tempos em que você ficava feliz em receber uma mensagem minha, e me deixava igualmente ansioso ao imaginar no que você poderia estar pensando... Esses tempos se foram.

É uma segurança triste que acompanha a experiência de viver aos vinte e tantos anos, em comparação à novidade e toda a expectativa de um primeiro amor. Já faz tempo que não tenho primeiras vezes; só segundas intenções e decepções com terceiras pessoas. Algo que se torna terrivelmente verídico através da minha lista de contatos do WhatsApp, ou pela lista de visualizações que minha última foto publicada recebeu em uma das minhas quinze redes sociais.

O mundo se tornou mais rápido. Mais suscetível a ter as coisas instantaneamente. E por mais que eu gostaria de esquecer, meu coração ainda é do tempo das longas esperas. Porque entre uma resposta e outra, entre um olhar e outro, eu me permitia sonhar sobre você. Sobre nós. O que hoje chamam de vácuo, costumava contemplar mais sonhos do que pode conceber a nossa vã fibra óptica.

Eu costumava chorar por amor. Amargamente, loucamente, verdadeiramente. Mais vezes do que gostaria de admitir, chorava por amores que nem chegaram a realmente existir. Chorava pelas chances que nunca tive de provar que eu poderia ser o cara que você estava esperando. Chorava pelos planos que precisei desfazer na minha cabeça, porque no mundo real você não estava disposta a andar de mãos dadas comigo. Este foi o mesmo período em que eu me sentia constantemente ofendido pelas noções de que amor era um jogo, e que vencia aquele que demonstrasse o menor interesse.  Talvez seja por isso que eu nunca tenha vencido: eu não sabia lidar com esse tipo de regras.

O tempo passou e as canções mudaram, mas quanto mais eu penso sobre o que me leva a escrever sobre isso, mais eu percebo que esta é a única salvação que me resta. A única maneira de manter viva a parte de mim que realmente sofria por amor, e passava noites sem dormir pensando naquela garota, e sonhava acordado com tudo que poderiam viver juntos, se ela só me desse uma chance...

Às vezes eu penso que essa parte de mim morreu. Quebrou-se de um jeito incapaz de reunir os pedaços, esmigalhados por cada paixão incerta que surgiu ao longo do caminho. E sobre ainda encontrar razões para acreditar, é triste pensar que a esperança possa viver na barra de rolagem de uma lista de contatos. Se ela disse “não”, ou então não disse nada, talvez outra diga “sim”. Eu não vivo assim, ao contrário da crença popular que já ouvi falar ao meu respeito. E talvez seja nesses momentos em que eu deteste esta cidade. Este não é quem eu sou. Você não deu tempo de conhecer quem eu realmente sou.

E cá entre nós, eu ainda queria que você tivesse me conhecido.

Eu tenho meus defeitos. Posso ser grosseiro ou arrogante em alguns momentos, e prepotente e egocêntrico em outros. Mas são defesas construídas pelo tempo, resultantes de uma série de desenganos, promessas desfeitas e vácuos que deram espaço para o acúmulo de dúvidas e medo – muito medo - de ser magoado de novo. E talvez seja só isso que você consiga enxergar: um cara babaca que não te deu oportunidade de realmente dar uma chance a ele, por parecer estar preocupado demais em levar você para sair, como desculpa para levar você para a cama. Um cara cheio de contatos, experiências infames e histórias engraçadas para contar na mesa do bar. Um cara insensível, egoísta e frio. Um cara que definitivamente não é o que você está procurando, embora tenha momentos em que eu parecesse ser...

Bom, eu vou te contar um segredo. Talvez eu seja mesmo esse cara. Talvez seja isto que anos de declarações românticas e ataques constantes ao meu coração partido tenham gerado. Eu não sei. Só o que sei é que alguns sonhos e algumas músicas ainda permanecem intactas na minha cabeça. E que durante algumas noites frias de outono – mais frias do que você pensa que eu mesmo sou – eu relembro algumas razões para acreditar, e digo a mim mesmo que tudo ficará bem um dia desses.

E te digo mais: durante uma conversa, ou um telefonema, ou um encontro que compartilhamos, houve um momento em que tentei segurar a sua mão. Ou um olhar inocente que direcionei a você, que permitiu mais interpretações do que realmente convidava. Ou confessei algo que realmente não estava acostumado a admitir em voz alta para qualquer um. Nós tivemos momentos assim, e são os mesmos que continuam comigo, enquanto você há tempos está por aí. Longe de mim, mas acompanhando meus movimentos, achando que não penso mais em você, e que nada do que escrevo tem a ver contigo.

Se estiver lendo isso, quero que tente se lembrar deles. Porque foram nesses momentos em que um cara quebrado e incorrigível tentou demonstrar que estava apaixonado por você. Mas talvez você também não seja a garota otimista e esperançosa que já foi um dia. E talvez tenha aprendido que confiança custa caro e dói demais. E eu não a culpo. Todos nós temos nossa bagagem, nossas histórias para contar, e nossos motivos para sermos quem somos agora.

Quanto a mim... Sinto saudades. Boa noite.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A odisseia do transporte público


Andar de ônibus é mais que uma modalidade urbana; é uma educação. Da física – ao aprender que uma mão não será o suficiente para te amparar quando ele faz uma curva aberta – até a religiosa – quando você avista seu número se aproximando do ponto e reza para que dê tempo de embarcar.

Salvo alguns anos do meu ensino fundamental, em que a sorte ainda me permitia depender de várias opções de linhas que passavam na frente da minha casa para me levar até a escola, eu nunca realmente dependi de ônibus. Mais do que isso, sempre fiz questão de provar o contrário. Como quando aprendi a ir andando por diversos caminhos até o centro de Londrina, e a transitar pela cidade para chegar a qualquer outro destino que desejasse ir. Até a prova definitiva, durante os meses que morei no anexo Londrinense batizado de Cambé, quando perdi o único ônibus metropolitano que passaria pela próxima hora. E ao avisar o horizonte com descrença e frustração, pensei comigo mesmo: “Pelo tempo que vai levar para o próximo ônibus passar, eu poderia até ir à pé...” E fui.

Mas os tempos mudaram, assim como as estações, a direção do país e tudo mais. E por mais que eu quisesse culpar a economia para ter algum argumento no qual eu poderia me amparar quando o ônibus freia repentinamente, a verdade é que eu sou e sempre serei um produto das minhas decisões. E meu contexto de mobilidade será um escravo dos fatos que optei por assumir para mim. Neste caso em particular, a oportunidade de emprego que surgiu para mim era ridiculamente boa demais para deixar passar em branco. Mas não dormir no ponto em termos profissionais me levou a aprender na prática de uma vez por todas o que significa mesmo estar no ponto no horário. Inclusive como isso, às vezes, será indiferente à minha rotina. Os ônibus, assim como a vida em geral, não costumam esperar que você tome uma atitude.

Moral da história: pra quem estava à quinze tranquilos minutos de distância do trabalho, a mudança foi brusca. Agora são necessários três ônibus, duas baldeações e uma hora de viagem. E o processo tem sido tudo, menos tranquilo. Mas o planejamento não é tão impossível assim, especialmente na era dos aplicativos. Com alguns cliques você pode descobrir em qual deve embarcar, e qual deve passar batido. Mas este é só o ensino fundamental da trajetória. O ensino médio se baseia em aceitar que sua órbita pessoal nunca mais será só sua, e que o número de lugares disponíveis dentro do transporte não se limite aos sortudos 46 que conseguem ir sentados.

Dizem que a parte mais importante de qualquer viagem é o caminho percorrido e não o destino final. A exceção desta regra vive dentro das trajetórias municipais, quando ninguém – repito: ninguém – se diverte entre o embarque e o desembarque. A não ser que sua concepção de diversão inclua passatempos do tipo “o que aconteceria se eu puxar a alavanca da saída de emergência?” Ou então quando você descobre que ginástica rítmica está inclusa no preço da passagem: do contorcionismo para se encaixar na multidão, até o uníssono requerido para se apoiar entre as curvas do caminho, onde todos devem se inclinar para o mesmo lado caso não queiram esbarrar ainda mais em quem estiver ao lado.

Mas nem tudo são cheiros estranhos e olhares oblíquos e dissimulados que te encaram quando você embarca e decide que irá fazer parte da massa já apertada no carro. Quem nunca viveu a emoção de um grande amor ao encontrar aquela garota bonita todos os dias na mesma linha que a sua, e teve seu coração partido quando ela desceu em um ponto antes? E imaginou desde o encontro súbito até a primeira conversa, as risadas compartilhadas, o ombro amigo no banco, e o primeiro beijo sob as luzes fosforescentes? Seria digno de um romance Shakesperiano, se o cenário não fosse tão apertado.

No final das contas, andar de ônibus é uma escolha de poucos e uma necessidade de muitos. E agora que faço parte do segundo grupo, o melhor a fazer é aceitar que existem coisas neste mundo que simplesmente estão além do meu controle. E que a principal delas é a grade de horários da linha que eu preciso pegar para chegar ao trabalho. Apesar dos pesares, minha educação está bem encaminhada, e o restante é só uma questão de prática. Mas o sonho da formatura ainda permanece: o dia em que eu conseguir ir sentado.

Além da economia do país, é isso que nos move adiante.

domingo, 23 de abril de 2017

Não aprendi a fazer logoff

Qual é a dificuldade em admitir que você se importa com alguém? Talvez tenha um pouco a ver com medo, ou muito mais a ver com orgulho. A questão é que se você é como eu, provavelmente preferiu ficar sozinho em casa num sábado à noite, em vez de criar coragem de perguntar a ela onde ela gostaria de ir para beber alguma coisa, e então se organizar para ir ao seu encontro.

Caso isso nunca tenha acontecido contigo, pare de ler. Estou falando de insegurança, neurose, paranóia e uma série de tentativas infames de praticar o desapego com alguém que aparentemente nunca irá deixar de fazer parte dos pensamentos que temos antes de dormir.

Agora, caso isso seja mais “você” do que você gostaria de admitir, seja bem vindo. As coisas não ficarão bem, mas você aprenderá a lidar melhor com elas. Ou não.

As redes sociais e suas incontáveis maneiras de me atualizar sobre o que você anda fazendo definitivamente contribuem para isso, mas a verdade é que eu não preciso clicar para visualizar os seus status mais recentes para me lembrar dos momentos que passamos juntos. Ou das conversas que compartilhamos de madrugada. Ou das promessas que fizemos, sobre continuar mantendo contato, sobre estar falando sério quando os sentimentos deixaram de ser casuais, e sobre realmente estar disposto a dar uma chance a seja lá o que poderia estar surgindo entre nós.

Eu não preciso ser surpreendido por fotos que me tragam de volta o seu rosto, ou me corroer por dentro através de uma letra de música que tenha sido compartilhada por você, como quem quis jogar uma rede de indiretas ao alto mar da sua rede banda larga para ver quem morderia a isca. Eu simplesmente me lembro de tudo que disse, e de todas as suas respostas, e moro no eco que passou a existir entre uma coisa e outra. E por mais que você não ouça mais falar de mim, eu sei que também recebe alertas de saudade em seus dispositivos móveis.

Este é o mundo em que vivemos agora – constantemente conectados e, consequentemente, eternamente fadados a nunca realmente dizer adeus.

E entre notificações ignoradas e mensagens não visualizadas, as palavras não ditas permanecem. É claro que eu ainda me importo. É óbvio que eu sinto a sua falta. É evidente que eu fiquei sem saber o que fazer depois que você sumiu. Porque foi exatamente assim que eu me senti: desamparado. Você desapareceu, da noite pro dia, como eu jamais esperava. Aliás, como eu insisti em acreditar que não seria possível. Você, com todo o seu bom humor, sua inteligência irresistível e seus olhos castanhos, não podia se tornar rarefeita. E é claro que eu também não sou inocente nisto. Se é preciso duas pessoas para fazer um relacionamento dar certo, as mesmas duas pessoas são responsáveis quando ele falha. Ou então, quando ele se desfaz. Ou pior, quando ele nem mesmo tem a chance de existir.

Isto é um desabafo, e nada mais que isso. Inocente, atemporal e desconectado de futuras interpretações. Sem palavras complicadas, referências a filmes estrangeiros, ou com direito a letras de músicas que traduzam indiretamente tudo aquilo que eu ainda gostaria de te dizer. É para que você saiba de uma vez por todas, clara e abertamente: eu gostaria de ter descoberto se era mesmo importante para você. E que a recíproca seja concretizada também: eu nunca saberei como dizer adeus a você.

Então continue acompanhando, visualizando, curtindo, compartilhando, seguindo e fazendo uso de todas as ferramentas que nós possuímos hoje para nos mantermos juntos ainda. Assim como eu confesso que também faço. Somos a geração que não se importa em deixar o celular ligado a noite toda, esperando secretamente que a mensagem daquela pessoa especial chegue de madrugada, admitindo que sente a nossa falta. Vivemos livres de qualquer peso na consciência ou temor por vivermos logados em cinqüenta redes sociais diferentes para todo o sempre. Nem que seja só para ter certeza de que você ainda está aí, decidida a não me procurar, mas prestando atenção para ver se as próximas palavras que eu decida publicar por acaso serão sobre você.

Talvez isto seja mesmo sobre você. Talvez não. Talvez eu esteja admitindo uma dificuldade sobre viver através das redes sociais, para nos ajudar a sobreviver também. Ou talvez eu simplesmente estivesse afim de atualizar o meu próprio status: nostálgico, porém incorrigível.

Quando estiver pronta, uma hora dessas, me conte como é continuar acompanhando uma história que você mesma optou por não fazer mais parte. Mas não hoje. Hoje estou offline.

domingo, 9 de abril de 2017

Boa noite, e boa sorte


Vou me arrepender disto no final?” Essa é a pergunta mais assustadora de todas, independente das opções que estejam diante de você. Ter escolhas por si só já é um fardo e tanto, e a psicologia existencial está aí para não me deixar mentir. Em se tratando de escolhas, eu faço o máximo que posso para conviver em paz com as minhas. Por exemplo, eu não me arrependo de ter deixado você... Ou você. Ou até mesmo você. Assim como eu não me arrependo de ter me mudado para longe de tudo familiar para mim – em nenhuma das vezes que fiz isso. Tudo que fiz, ou deixei de fazer nesta vida, sempre foi por amor. Inclusive quando ele deixou de existir.

Não sei qual é o seu parâmetro de vida em termos de definições importantes como “o que quero ser quando crescer?” ou “o que estou buscando a partir desta decisão?”. Há quem diga que 25 anos é pouco para saber disso ao certo, e há quem diga que eu já deveria saber disso há muito tempo. Minha história é controversa, tumultuada e complicada. O que explica a minha natureza dispersa, inquieta e exagerada. Mas é a única que eu tenho, e é com ela que eu preciso fazer a minha vida dar certo. Seja lá o que isso queira dizer.

E o exemplo mais recente disso ainda é coerente com o motivo pelo qual estou aqui, em Foz do Iguaçu. É o mesmo motivo pelo qual deixei para trás um apartamento, um grupo de amigos que sempre serão as melhores pessoas do mundo para mim, e um potencial de vida razoavelmente estável, embora não particularmente satisfatória. Estava na hora certa, mas no lugar errado. Especialmente, na profissão errada.

É claro que eu nunca vou abandonar tudo o que a psicologia fez por mim, ou tudo que fui capaz de conquistar através dela. E é claro que existem dias em que me pego encarando meu diploma pendurado na parede, e tenho momentos do tipo “Meu Deus, o que foi que eu fiz?!”. Tanta gente por aí à procura de um sonho, incapaz de cursar uma faculdade, e eu aqui, indigesto com as minhas filosofias. Me sentindo saturado com meu atestado de curso superior completo enfeitando uma parede do meu quarto, enquanto eu sigo na eterna busca por algo à mais.

Mas pra você que já conhece bem essa história, sabe que eu nunca estive à procura de algo inalcançável. Pelo contrário; esse sonho veio bem antes da psicologia, do apartamento, do grupo de amigos, e até mesmo das duas mudanças de cidade que optei por fazer. Trilhei o caminho mais longo, admito, mas só porque acabei me perdendo entre uma decisão e outra, e nem todos os retornos estão sinalizados ao longo da pista.

Caso você tenha se juntado a mim agora e ainda não sabe: eu cursei um semestre de jornalismo bem antes de me matricular em psicologia. Em outro mundo, em outra vida. E a decisão de abandoná-lo foi tão cara quanto custou para retomá-lo. Levei seis anos, duas cidades e incontáveis crises existenciais, mas aqui estamos nós. E como eu sempre digo, não há ironia o suficiente no mundo para contemplar o quão perfeito foi o fato de que meu último dia oficial como produtor de telejornal tenha sido exatamente na sexta-feira, dia 7 de abril: dia do Jornalista.

Conseguir aquele emprego foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo. Depois de exatamente um ano em Foz do Iguaçu, à procura de um espaço dentro do campo que eu nunca deveria ter abandonado, tive a oportunidade de vivenciar a rotina de um jornalista de verdade. Completa com sua correria, suas dificuldades, seus desaforos e suas vitórias. Mesmo nos dias em que tudo parecia estar perdido, e o deadline das 18:30 parecia se aproximar num piscar de olhos enquanto o jornal do dia não estava sequer perto de tomar forma, não houve um dia em que não saí de casa à caminho da redação feliz pelo trabalho que encontrei.

A emoção de ver uma pauta sair do papel, a vibração de conseguir um furo de reportagem, a alegria que senti ao ver meu nome subindo nos créditos finais pela primeira vez... Foram algumas das evidências que provaram de uma vez por todas que eu havia encontrado o inimaginável: o lugar certo, na hora certa. E à todos que tornaram esse momento possível, desde aqueles que passaram a morar longe de mim até os que conheci pelo caminho, inclusive a cada “não” que recebi para que eu estivesse disponível para receber este “sim”, eu sou grato.


Antes tarde do que nunca: feliz dia do Jornalista. Sem arrependimentos.

domingo, 2 de abril de 2017

A desconstrução


Quando você acorda de manhã, talvez o seu primeiro pensamento não seja tão pessimista quanto “o mundo como eu o conheço pode acabar hoje”. Não. A maioria das pessoas é mais otimista do que isso. A maioria das pessoas provavelmente pensa que terá um bom dia pela frente, que os problemas eventualmente irão se resolver, e que mesmo que tudo não fique completamente bem ao final do dia, sempre haverá uma próxima oportunidade de acertar as coisas. E se você for uma dessas pessoas, volte para o seu dia feliz. Porque este não é o desabafo de alguém que ainda acredita que as coisas ficarão bem.

Este é o desabafo de alguém que viu o mundo acabar mais vezes do que deveria, em menos tempo do que parecia ser possível.

Os últimos dias não foram fáceis. Poderia dizer, inclusive, que 2017 como um todo tem sido o ano dos planos desfeitos, das promessas mal cumpridas e da lástima e definitiva teoria de que se algo pode dar errado, é só uma questão de tempo para isto.

2017 tem sido, basicamente, sobre desconstrução.

***

Nós acordamos e saímos de casa para trabalhar, à procura de objetivos para alcançar, esperando que os problemas possam ser resolvidos e, quem sabe se tivermos sorte, ainda reste tempo para reencontrarmos aquela pessoa especial ao fim do dia. Alguém que esteja esperando por nós com duas taças de vinho e um beijo para selar as vitórias e amenizar as pendências das últimas 24 horas.  E eu costumava viver assim; sob uma noção romântica de que as coisas podem dar certo, que tudo tem a sua devida hora, lugar e, principalmente, limite. Mas não. A vida não segue o roteiro de uma comédia romântica. Aliás, a única coisa que a vida segue é adiante. Mesmo que ela atropele você pelo caminho.

Durante os dias que se passaram, eu vivenciei o término de mais um relacionamento, a turbulência de mais uma mudança, e a tristeza de mais uma perda. Pode não ter sido nada original, mas definitivamente não foi algo fácil de absorver. Com o passar dos dias, não há muito que possa diferir em termos de tragédia – a única variável permanece sendo o elemento da surpresa. Você não sabe o que vai acontecer contigo amanhã. E já que estamos nos aprofundando nos confins do pessimismo, ainda dá tempo de algo te surpreender hoje.

Não pense que todo este desânimo é gratuito. Não é. Desabafos possuem uma função, por mais descontentes que eles deixem quem aceita acolhê-los. E o que eu estou tentando fazer é algo triste, porém simples: abrir mão das minhas decepções, publicamente, em voz alta, para que seguir adiante pareça menos complicado.

Porque a verdade é que todo o tempo que passamos nos empenhando em tarefas diárias como tentar planejar o dia de amanhã, ou alinhar os quadros na parede, ou lembrar de mandar uma mensagem para ela no meio da tarde pra dizer que está com saudade, ou dar uma passadinha na casa daquela sua tia que você não vê há sabe-se lá quanto tempo... Tudo tem validade. A vida é uma obra constante onde as reformas ocorrem o tempo todo.

Agora, não estou dizendo que você não deve fazer planos. É claro que deve! E não estou dizendo para não investir nas pessoas, nos lugares ou em si mesmo, imaginando um futuro melhor. É claro que precisamos. É por isso que levantamos da cama pela manhã, todos os dias. Não deixe o meu desabafo destruir toda a esperança que ainda lhe resta. Assim como estou tentando desesperadamente manter a minha, mesmo ainda diante dos destroços do último mês.

Pra quem é acostumado a viver com base em metáforas, acho que atingi o limite das minhas ao ser obrigado a aceitar que o amor chegou ao fim mais uma vez, e ao encaixotar todos os meus pertences para tentar encaixá-los em outros cantos de um jeito que fizesse parecer como um lar, e ao ter que me despedir de alguém que eu visitei menos vezes do que deveria em vida, e que jamais serei capaz de me redimir em morte.

***

Esta é a nossa realidade: quando menos esperamos, somos confrontados com a temporalidade das coisas. E mesmo quando pensamos que existem pessoas insubstituíveis e lugares inesquecíveis, você percebe que não. Tudo é construído, mas nada está escrito em pedra.

O que eu espero daqui pra frente não é que as coisas se tornem magicamente mais fáceis. Tampouco quero aceitar que estou me tornando alguém silenciosamente amortecido pela desconstrução do mundo ao meu redor. Porque uma outra verdade também é clara: da demolição de uma vida conhecida, surge a necessidade de reconstruir uma nova.

Felizmente, nesse caso, ser obrigado a adaptar-me à mudanças inesperadas é algo ironicamente familiar para mim. E nada comprova isso tão bem quanto este exato momento aqui: estou escrevendo novamente. Dramático, irredutível, egocêntrico. O que passou, passou, e eu ainda estou aqui. Então lá vamos nós de novo.

Mãos à obra.