quinta-feira, 30 de junho de 2011

Fugindo de Cascavel

Cascavel. Fria, tempestuosa, cinza. Ou era só eu? Depois de fechar a porta para o amor, meus amigos e quaisquer expectativas de que as coisas poderiam melhorar, acidentalmente deixei que diagnósticos, antibióticos e decepções amorosas me fizessem ficar em casa para me previnir contra quaisquer outras surpresas que a vida poderia lançar em minha direção. Eu achei que nada mais poderia me surpreender, até que em uma típica quarta-feira ensolarada, eu tive a minha resposta.

Caminhando com um olhar perdido, desinteressado e levemente alheio às pessoas ao meu redor, eu me arrastei pela avenida à trabalho até um banco para pagar uma conta, mas mesmo com os fones de ouvido ao máximo para abafar meus pensamentos, algo aconteceu que fez com que eu parasse de prestar atenção à música; uma atendente bonitinha fixou seu olhar em mim, e parecia intrigada. Achei que só podia ser minha imaginação, até que ela se fez presente ao passar por minha direção três ou quatro vezes, até chegar a minha vez de ser atendido e ficar frente a frente com ela.

Mas ao me aproximar do caixa, algo aconteceu: por mais atraente que ela parecia ser, eu não estava interessado. Saí do banco me sentindo bem por tê-la atraído mas a sensação me fez perceber que, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava mas loucamente à procura de um amor ou um relacionamento; tudo o que eu precisava era ficar sozinho por um tempo, e reencontrar minha paz. Ao me deparar sem grandes amores, eu decidi que precisava voltar às minhas raízes, ao básico das minhas crenças se quisesse voltar a acreditar novamente, mas isto não era algo que eu encontraria em Cascavel, tão próximo dos meus últimos erros.

Eu teria que ir para longe, ou melhor, teria que voltar para casa, para o meu primeiro grande amor: a cidade de Londrina. Afinal, pessoas entram e saem da sua vida, relacionamentos terminam e nossas crenças podem mudar, mas nosso coração sempre precisa dar um jeito de voltar à ativa e permitir-se que ainda é possível acreditar que amor, amor mesmo, está por aí para ser encontrado. Mas antes disso, eu preciso voltar a acreditar em mim, e não há lugar melhor para reaprender a fazer isso do que naquele com as pessoas que me mostraram que isto era possível.

Não posso fugir do meu passado ou dos meus problemas, mas em se tratando dos últimos seis meses e para obter fôlego para viver os próximos seis que virão, esta definitivamente é a hora de tirar umas férias.

***

Trilha sonora de Junho (2011)

Volume I

01. Rhapsody in Blue – George Gershwin

02. As Long As You’re There – Glee

03. The Story – Brandi Carlile

04. The Sweet Escape – Gwen Stefani

05. 6 Months – Hey Monday

06. The Wasteland – Elton John

07. Rose’s Turn – Bernadette Peters

08. Songbird – Fleetwood Mac

09. Rehab – Amy Winehouse

10. Tears Dry On Their Own – Amy Winehouse

11. Learning to Breathe – Switchfoot

12. I’m Outta Love – Anastacia

13. All By Myself – Celine Dion

Bonus Track: You Lost Me – Christina Aguilera

Volume II

01. Do Your Thing – Basement Jaxx

02. Empty Apartment – Yellowcard

03. Go Your Own Way – Fleetwood Mac

04. Start All Over – Miley Cyrus

05. The Only Love I Had – Venice

06. Love for Real – Everlast

07. By Your Side – Sade

08. Point of View – DB Boulevard

09. There Goes the Fear – Doves

10. Winter Wonderland – Macy Gray

11. Is This It – The Strokes

12. Alone Again (Naturally) – Gilbert o’Sullivan

13. Are You Gonna Go My Way – Lenny Kravitz

Bonus Track: Rolling in the Deep - Adele

terça-feira, 28 de junho de 2011

A dor maravilhosa II

Dor é o sentimento mais fundamental do ser humano; é o que nos faz perceber que estamos vivos mesmo quando as coisas estão difíceis e a luz no fim do túnel parece inalcançável demais até mesmo para ser vista. Somos criados para acreditar que não há qualquer sinal de amadurecimento sem dor, mas até quando vão as dores do crescimento e como saber quando as dores reais começam a torturar nossas almas? Somos todos sadomasoquistas disfarçados que não conseguem mais definir nossos limites, ou toda forma de dor na verdade vem para o bem? Como saber até quando aguentaremos ser feridos?

Dizem que amor, amor mesmo, não existe sem dor; como se toda pessoa apaixonada caminhasse sobre uma linha tênue onde cada alfinetada vai direto para o nosso coração, e ao mesmo tempo nos atrai cada vez mais a continuar caminhando. Sadomasoquistas são conhecidos por sentirem atração por dor, mas qual a real diferença entre eles e nós, que nos sentimos constantemente atraidos pelas pessoas erradas, mas ainda assim somos incapazes de deixar de desejá-las? Seria porque eles expõe seus fetiches para o mundo enquanto nós optamos por sofrer em segredo? E até quando conseguimos sofrer em segredo, mesmo quando o mundo percebe que é o outro quem possui o chicote, mas somos nós quem nos amarramos a eles para uma nova surra.

Desilusões amorosas talvez sejam a maior forma de uma pessoa sentir dor e ao mesmo tempo se sentir atraída por ela; mesmo quando dizemos que não aguentamos mais, de algum modo ainda sonhamos em voltar para os braços da pessoa que nos deixou caídos no chão e ainda caminhou sobre nós sem remorso ou compaixão. Eu ainda vou dormir pensando em você, mas leva horas para que as lembranças parem de me assombrar e eu realmente caia no sono. Imagino o que diria se nos víssemos de novo, mas não nos sobraram mais palavras; já dissemos todas.

Eu sabia que esse era o nosso fim, mas será que eu realmente te amei ou estava apenas viciado na dor? A dor maravilhosa de querer alguém tão inatingível. Eu queria voltar para você mas me sinto incapaz te tentar te alcançar; como se meu corpo estivesse me impedindo de chegar perto de você e mostrasse enfim qual é o meu limite. Assim, eu me despedi de você. Eu estava livre, mas não havia nada de maravilhoso nisso.

Ao som de: Anna - Gunnar Madsen.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O que o diabo dá, o diabo leva

Todo dia eu ainda acordo pensando em você. Sigo com minha rotina pensando no que você diria se pudesse me ver, ou a sua reação caso ainda lesse meus apelos por aqui. Parece que acabei de adentrar a fase da despedida em que a realidade da sua ausência começa a ficar clara, nas palavras não ditas, nos olhares que não trocamos mais, e nos sentimentos que ainda restam em nós e gritam em silêncio por misericórdia.

Por que eu ainda me importo tanto? Por que algo que demorou tanto para começar, e que suavemente tornou-se parte do meu coração, agora parece tão mais difícil de se deixar ir? Minha cabeça diz que tenho razão, assim como todos os outros que me alertaram sobre você e ainda tem um certo orgulho do que fiz, mas por que meu coração não sente o mesmo? Nunca fui o tipo de pessoa que aceita as coisas que vem assim, tão facilmente para mim. Pelo contrário, quando não há drama, para mim geralmente é um sinal de que não há muita importância ou significado, e que a novidade não durará muito tempo.

Acho que é verdade o que dizem; o que vem fácil, vai fácil, mas por quanto tempo mais vou continuar tentando deixar você ir? Exatamente quanto tempo dura um adeus? Minha mente se enche de perguntas enquanto um novo dia nasce e a luz do sol traz a tona toda a dor que mantenho escondida; será que você ainda pensa em mim também? Mas apesar dos meus questionamentos e tentativas de me agarrar a frases prontas como "as coisas vão melhorar logo" ou "eu fiz a coisa certa", só o que parece se prender a mim é o dito de que "o que o diabo dá, o diabo leva"; talvez isto explique porque parece que, mesmo depois de ter feito algo bom para mim pela primeira vez em muito tempo, ainda me sinto preso no inferno.

O que vem fácil, se vai fácil, e mesmo com o nascer de muitos novos dias por vir, acho que ainda vou te amar por um bom tempo, e não há nada que eu possa fazer a não ser aceitar isto até que eu naturalmente me esqueça de você. Enquanto isso, estou sozinho de novo - naturalmente.

Vendo pelo lado bom, pelo menos tenho minha teatricalidade de volta.

Ao som de: Alone Again (Naturally) - Gilbert o'Sullivan.

domingo, 26 de junho de 2011

Fingindo

A arte de fazer de conta é algo que aprendemos cedo na infância; começa a partir de fábulas com príncipes e princesas que se deparam com diversos obstáculos antes de encontrarem um ao outro e o "feliz para sempre" que vem em seguida. Conforme amadurecemos, as formas de fazer de conta tomam novas formas, até percebermos que fazer de conta nada mais é do que viver com base em aparências e fingimento, e que nem sempre seremos felizes para sempre quando o sol se pôr.

Às vezes mentimos para os amigos e os certificamos de que está tudo bem, sem deixar que percebam que estamos sofrendo por dentro. Alguns imaginam relacionamentos como sendo mais significantes do que realmente são, até se depararem com a verdade. Ocasionalmente usamos máscaras para convencer aos outros e a nós mesmos de que nossos segredos não são tão terríveis, mas o sentimento os persegue quando deitam a cabeça no travesseiro ao fim do dia e percebem que na verdade estão apenas mentindo para si mesmos. Não é fácil viver em fingimento; você começa por se enganar, e se conseguir fazer outros acreditarem em suas mentiras, então nada restará a não ser sua versão da verdade e uma consciência pesada, mas é o preço a se pagar para fazer de conta de que tudo está em ordem.

E claro, sempre haverá os momentos definitivos em nossas vidas onde descobrimos que aqueles mais próximos de nós na verdade estão sendo falsos conosco, e o sentimento de traição é tão grande que jamais paramos para pensar em seus motivos. Mentiram por medo? Fingiram para não nos decepcionar? Ou cairam em profunda negação e perderam a si mesmos sem perceber? Existe muito mais por trás do fingimento das pessoas do que podemos enxergar, isto é, até a verdade vir a tona. Quanto a mim, eu decidi parar de fingir e admitir derrota: as coisas estão difíceis, preciso de ajuda, e eu fui embora porque parecia menos doloroso estar longe de você do que ao seu lado.

O mais curioso sobre fingir é que quanto mais acreditamos que é mais fácil fazer de conta que estamos felizes, mais solitários nós nos sentimos. Você e eu, por exemplo, por quanto tempo mais vamos fingir que não sentimos falta um do outro?

Ao som de: Pretending – Glee.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sexo e a cidade

Baseado em provavelmente muitas histórias reais. Era uma vez uma garota que acabara de se mudar para a cidade. Ela era linda, inteligente, audaciosa, tudo isso e muito mais no auge dos seus 16 anos. A garota logo fez amizades, e como era de se esperar, logo atraiu olhares de outros garotos também. Um dos garotos decidiu se apresentar e aproveitar a oportunidade para também apresentar a cidade a ela - uma desculpa esfarrapada apenas para ficar sozinho com ela. Em questão de dias, logo apresentaram seus lábios um para o outro, suas mãos passaram a entrelaçar-se quando caminhavam, e seus olhares cruzavam-se quando se despediam. Era perfeito; era amor e a garota achava que as coisas não poderiam ficar melhores. Realmente, não ficaram.

Um dia o garoto não quis andar de mãos dadas, não olhou duas vezes ao se despedir, e não respondeu à nenhuma das mensagens que a garota enviou. Curiosa, ela decidiu ir até a casa dele para descobrir o que estava acontecendo, e descobriu que não era alguma coisa, era alguém - outra mulher, com as mãos juntas às dele, e de olhos fechados enquanto se beijavam. A garota correu de volta para casa e chorou por dias até perder o fôlego, e conforme as lágrimas secavam, perdia também as esperanças de que aquilo que achava que existia entre eles era mesmo amor. As amigas da garota decidiram animá-la e mudaram seu visual para levá-la a uma festa, onde ela chamou a atenção de outro garoto.

Decidida a não se apegar a ele somente para se perder em lágrimas de novo, ela tomou a iniciativa de mostrar que estava interessada, e antes mesmo que pudesse se dar conta estavam se beijando, se tocando, se despindo até chegarem à casa dele, onde a garota descobriu que, enquanto não podia ter certeza de que amor existia, sexo era algo definitivamente muito mais palpável. No entanto, na manhã seguinte, ao deparar-se com suas roupas pelo chão e o garoto ao seu lado, a garota só conseguia pensar no outro garoto, no que ele pensaria dela ao descobrir o que tinha acontecido, e logo suas lágrimas voltaram - mas jamais deixaram seus olhos até que ela tivesse deixado aquela cama e a lembrança do que houve aquela noite entre eles para trás.

Bem vindos à era da falta de inocência; ninguém mais tem amores para recordar, e ninguém acredita que pode ser feliz para sempre com alguém. Pelo contrário; agora temos casos que tentamos esquecer o mais rápido possível com pessoas cujos nomes nem fazemos questão de aprender. A era do amor se foi. Isto é, não para alguns. Talvez eu esteja afrente do meu tempo ou apenas seja resultado da maturidade que vem com a idade, mas ao contrário da minha geração, eu não procuro por sexo fácil todas as noites; eu procuro por um amor para a vida toda, e sou incansavelmente ridicularizado, criticado e questionado por isto. Como é que nos metemos nessa bagunça de querer saber apenas de meteção? Devemos nos entregar a uma vida de relacionamentos casuais, instantâneos e, porque não dizer, temporários, ou ainda é possível acreditar que, no meio disso tudo, ainda existem jovens dispostos a acreditar que coisas boas podem vir para aqueles que esperarem por tudo o que sonham? Se sexo for mesmo mais importante, é possível ter sexo sem amor?

Chegamos a um ponto em que as pessoas não tentam mais se envolver em relacionamentos para eventualmente se envolverem debaixo de lençóis; a moda agora é tentar transformar sexo em relacionamentos com ainda mais sexo, e talvez um pouco de intimidade se não puder ser totalmente evitada. O que me parece de tudo isto é apenas uma grande expressão de medo colocado em prática sob o disfarce de nossos instintos mais primais; como se o nosso passado cro-magnon não tivesse ficado para trás e as pessoas não tivessem evoluido a ponto de sentirem emoções mais profundas umas pelas outras - em ves de tentarem se sentir mais profundos um dentro do outro.

Sexo até hoje continua sendo um dos tópicos mais fechados para discussão, exceto quando é debatido por pessoas a respeito de outras pessoas e com quem elas andam transando. Sexo perdeu parte do seu significado a medida que deixou de ser a maior maneira de expressar amor entre duas pessoas e passou a ser tratado como esporte, onde os jogadores se vestem com seus mais belos uniformes e mais sedutores argumentos, visando encurralar o oponente contra a parede e tomá-la para si, apenas para que ele ou ela seja mais um em uma longa lista de amantes e comparações em rodas de conversa. Talvez para algumas pessoas, mas não para mim. Eu ainda acredito que sexo é importante demais para se ter com qualquer uma, porque senão o que significará quando eu decidir tê-lo com a mulher que eu escolher para dividir minha cama pelo resto da minha vida?

Cascavel é uma cidade sexualmente ativa, assim como seus moradores. Sexo está por toda parte; pelas esquinas sendo negociado, pelos bares sendo caçado, e pelas cabeças das pessoas sendo imaginado. Mas apesar de pensar muito em sexo, penso muito mais em sua importância e o quanto afetará não só minha vida mas também meu coração; como se fosse somente meu pênis e a vagina de alguma qualquer que estivessem envolvidos. Talvez eu ainda passe minhas noites sozinho por um tempo, mas intimidade não é algo que se consegue através de esquemas para um final de semana - nada contra os galinhas e vagabundas; quer dizer, só um pouco. Por mais fácil que seja encontrar sexo na cidade, o que sempre me atraiu muito mais são as coisas difíceis; neste caso, sexo com amor e, de preferência, acompanhado por uma vida a dois.

Ao som de: More, More, More - Andrea True Connection.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Enquanto eu estiver aqui

Mais tarde naquele dia eu saí para fazer uma caminhada pela cidade, e conforme o pôr-do-sol trazia a noite, meus medos e verdades também vieram a tona. Às vezes eu penso que talvez não tenha nascido para ter um relacionamento, ou alguém com quem eu possa dividir minha vida. Isto é, há uma vida aqui para ser dividida? Bom, ao menos um pouco de vida deve haver, senão da onde tiraria cada vez mais palavras para tentar traduzí-la, não importa se faça sentido ou não. Quanto mais eu caminhava, mais eu imaginava se talvez não exista alguém com quem eu combine, alguém que me complete e que caminhará ao meu lado quando tudo ao meu redor parecer quebrado e sem volta. Nem todo mundo tem seu "feliz para sempre", e se eu tenho tantas outras coisas em minha vida, talvez um relacionamento seja a única peça que me faltará para tornar tudo completo, afinal não se pode ter tudo. Ou talvez o problema seja eu mesmo; por que eu me importo tanto? Eu sei...

Tudo o que eu sempre quis desta vida, desde que consigo me lembrar, é ter alguém para trocar beijos, dividir risadas, confessar meus segredos, e que me ensine a simplesmente deixar as neuroses de lado e ser feliz, ao seu lado. Isso é tão errado assim? Dizem que o segredo está em deixar de procurar, de querer, de correr atrás e simplesmente aproveitar, e assim começam a ecoar em meus pensamentos todas as falas que meus amigos me disseram ao longo dos anos, e por mais que os rostos mudassem, as mensagens eram sempre as mesmas. Acontece que eu não consigo deixar de querer, não sei deixar de correr atrás, se minha definição de felicidade, felizmente ou infelizmente, ainda envolve duas pessoas, e por mais contente que eu consiga ser comigo mesmo, ainda não será o bastante... E não me digam que não pensam o mesmo.

De repente, ao parar para esperar pelos carros seguirem seus rumos para que eu pudesse atravessar, a realidade também me fez parar aonde estava; não é mesmo possível que, em todos estes anos, ninguém ainda não tenha sido colocada em meu caminho para que eu ao menos não tentasse tocar o amor com o qual eu sonho tanto. Seria possível que aquilo que eu mais desejo, também seria aquilo que eu mais temo? Estaria eu sabotando a mim mesmo esse tempo todo, me ocupando ao inventar desculpas enquanto a vida acontece ao meu redor? E então eu percebi que não estava em dúvida quanto a me mudar do meu apartamento para deixar de morar sozinho; eu estava mesmo evitando que as pessoas entrassem, para que eu não deixasse de viver sozinho.

Quando uma pessoa se acostuma a viver sozinha por tanto tempo, é difícil abrir a porta para os outros, especialmente quando as coisas ficam difíceis. Por isto não contei aos meus amigos quando meu chão desabou, por isto abri mão de conhecer pessoas novas quando achei que não poderia confiar nelas, e por isto deixei outro amor ir embora, porque não pude dizer as palavras que agora me agonizam por dentro. Ao chegar perto de casa, tirei duas chaves do bolso; a chave do meu apartamento que não está mais vazio de coisas, mas continua vazio de vida, e a chave de um apartamento novo, e possivelmente de uma vida nova.

Antes de entrar em casa eu tive que parar para pensar; por que eu estava tão desesperado em me manter no mesmo lugar, em um apartamento que mesmo depois de dois anos continua sem vida? Entrei em casa para me deparar com a mesma solidão de sempre, e naquele momento fiz uma escolha; talvez eu tenha mesmo perdido minha capacidade de acreditar em mim mesmo e nas coisas que quero para mim, ou talvez esteja sendo movido por medo e só agora me dei conta disto, mas eu iria me mudar, na esperança de que talvez eu mesmo começasse a mudar também. É estranho acreditar que palavras possam me aproximar das coisas que quero para minha vida, quando na verdade muitas delas apenas servem de desculpas para me afastar, mas não desta vez.

Meu nome é Igor Costa Moresca, solteiro e disposto a mudar. Enquanto outras pessoas ainda estiverem dispostas a entrar em minha vida, talvez se eu puder aprender a deixá-las entrar, eu ficarei bem. E enquanto eu estiver aqui nesta cidade que aprendi a amar, talvez eu também aprenda a amar a mim mesmo, e quem sabe outra pessoa em especial também. Isto é o que faz a diferença hoje.

Ao som de: As Long As You’re There – Glee.

A boa briga

Dizem que é preciso anos para que se possa verdadeiramente chamar alguém de amigo, mas o conceito de amizade varia de acordo com o contexto em que acontece. Na faculdade, por exemplo, pode demorar de um a cinco anos, ou então pode acontecer instantaneamente. Ao me deparar com meus convites imaginários para minha formatura, tenho um pouco de medo de tentar contá-los e descobrir que não tenho vinte amigos para convidar para presenciar um dos momentos mais importantes da minha vida; pelo menos, não em Cascavel.

Eu costumava preservar uma teoria de que colegas só se tornam realmente amigos após uma briga; aquele momento de choque de ideias e opiniões onde é colocado a prova exatamente o quanto preferem defender seus ideais ao contrário de passarem aulas conversando e rindo de besteiras cujas quais ambos, na maior das coincidências, acham engraçado. O prazo para uma briga entre amigos durar é diretamente proporcional à proximidade que tinham antes de entrarem em conflito, e a cada dia que passa é possível sentir o quanto a pessoa é importante ou não na sua vida. Mas e quando nenhum dos dois quer dar o braço a torcer e admitir que errou? Até que ponto estamos brigando com outra pessoa até passarmos a brigar com nós mesmos?

Existem dois tipos de amigos; aqueles que nunca deixam um impasse de ideias tornar-se um impasse entre eles e nada realmente evolui para uma briga, e aqueles que são mais do que amigos, e sim companheiros de guerras que já lutaram por anos para defender seus pontos de vista, até amadurecerem o bastante para perceberem que não há briga que justifique ficar sozinho em casa quando poderiam estar juntos se divertindo. Em Londrina, talvez a maioria dos meus amigos sejam do segundo tipo; temos histórias o suficiente para escrever bons volumes de livros sobre nossas próprias guerras e de como superamos tudo para nos revermos conforme eu os visito esporadicamente em nossos velhos campos de batalha.

Talvez não tenha uma regra geral ou qualquer outro fator para definir o que torna duas pessoas em amigos; talvez seja apenas algo que acontece após certo tempo e que só é provado conforme as brigas acontecem e terminam. Às vezes é preciso ficar quieto e deixar que o outro grite e se irrite sozinho, e se algum tempo depois ele voltar podemos fazer com que tudo fique bem de novo. A verdade é que nem todas as amizades suportam o calor de uma briga, e ao se desfazerem é exposto o quanto seu laço não era tudo o que se esperava para começar. Mas para os verdadeiros amigos não há nada como uma boa briga para mostrar o quanto se importam, especialmente quando brigam por quererem o bem um do outro.

Ao som de: Hot n' Cold - Katy Perry.