sábado, 28 de setembro de 2013

Nós encontramos amor

            Eu me lembro como se fosse ontem. Era uma sensação que jamais me abandonava porque de tanto senti-la, já era familiar demais para ser considerada como mero devaneio. Acontecia quando eu me pegava olhando para o horizonte, ou quando começava a sentir aquele algo a mais por alguém, ou quando eu estava simplesmente distraído em uma multidão sem dar atenção ao que estavam me dizendo. E ao mesmo tempo em que eu a sentia a esperança, imaginava o sonho e me lembrava do olhar daquela mulher cuja qual eu estava desesperado para me tornar a razão do seu afeto, a desesperança também me acompanhava.
            Eu sempre achei incrível o quanto as pessoas mais desesperançosas pareciam as mais merecedoras do amor. Isso porque eu sempre imaginei o vazio em seus olhos como resultado de um círculo vicioso: como se aquele olhar tivesse se prendido à alguém um dia, alguém que não a queria ao seu lado e a empurrou para longe, fazendo-a derrubar todos os seus sonhos no chão só para vê-los se espatifarem no asfalto da onde jamais seriam recolhidos de novo. Era isso que o olhar das pessoas amarguradas representava pra mim, e por muitos anos esse foi o meu maior medo. Me encarar no espelho um dia e me deparar com a ausência do meu otimismo, o brilho da minha esperança, a razão do meu afeto.
            E eu estava quase ao ponto de desistir, de realmente acreditar que não existem razões para acreditar, quando ela apareceu. Da desesperança, do cansaço e dos fantasmas que tomaram o lugar das minhas fantasias, o amor surgiu. E o que parecia ser só o refrão de uma música agora estava diante dos meus olhos falando comigo, rindo comigo, amando comigo. Nós encontramos amor em um lugar sem esperanças, ou então um mero ponto de encontro entre dois portos abandonados: o meu coração e o seu.
            E por um tempo nós fomos felizes. Com as nossas conversas sem sentido, músicas deprimentes que nos faziam feliz, caminhadas sem rumo pela cidade e beijos que trocávamos que jamais queríamos que terminassem. Mas os beijos terminaram e confesso que a culpa foi minha. Eu sinto muito, mas eu não estou acostumado a ser feliz. Quer dizer, eu tinha momentos de esperança e glória antes de te conhecer, mas a verdade é que eu não estava acostumado a ser feliz com outra pessoa. E a outra verdade, ainda mais dolorosa e preocupante, é que eu não sei se um dia eu realmente vou me acostumar, mesmo que alguém tente encontrar amor em mim de novo.
            Eu tenho medo de ficar sozinho. Só que entenda; não é medo que você sente por andar em uma estrada escura no fim do dia para chegar à sua casa, ou o medo de que nenhum dos seus amigos esteja disponível para te fazer companhia em um fim de semana. Não. Eu também me lembro como se fosse ontem da maior discrepância, incoerência e contradição que me tornou quem eu sou; da necessidade incansável de querer alguém para amar, e ao mesmo tempo a frustrante conformidade de que eu jamais encontraria.
            Não é fácil encontrar alguém para amar. Para variar os seus dias, te dar forças para continuar quando o mundo te contrariar, e te fazer passar raiva e ao mesmo tempo alegria pelo simples fato de que ela ainda está ali, completamente aberta e disposta a amar você também mesmo com todos os seus defeitos, imperfeições e manias de regular as cobertas e não jogar a caixa de leite fora da geladeira depois que ele acaba. E assim como o fenômeno inexplicável do otimismo que nasce em mim, fruto da minha descrença de que eu encontrarei o amor de novo, outra incoerência arrebatadora me atingiu enquanto eu andava pelas ruas da cidade tentando não me perder ou tropeçar na felicidade alheia. Mesmo com o olhar esvaziado, até eu consegui enxergar que o amor estava em toda parte. Convenhamos que não é fácil encontrar alguém para amar, mas algum de nós tem total certeza do que está procurando? Ou não estamos todos à deriva do destino, apenas tentando sobreviver enquanto alguém não se dispõe a nos salvar e nos acolher em sua casa, sua cama e seu coração?
            Nós aplicamos tantas regras, condições e restrições para o amor até que o campo de pesquisa limite-se ao extremo e comprove os nossos medos. De que não há ninguém para nós lá fora. De que ninguém além das nossas mães pensa em nós antes de dormir. De que há algo muito errado conosco que nos impede de compartilhar nossas faíscas de felicidades com alguém. Não... Até um desiludido cansado, gordo e perdido como eu te dirá que o amor está em toda parte e só depende de você deixá-lo entrar. O segredo não é abrir mão de toda a esperança, mas de parar de esperar que tudo será do jeito que você pensou que ia ser. Porque você não é perfeito e adivinhe só: ela também não será. Mas vocês podem tentar ser felizes mesmo assim. Não se acostume com o que não te faz feliz, mas também não se conforme com ficar sozinho.
            Anos atrás eu tive a sensação assustadora de que jamais encontraria alguém. E depois de tê-la encontrado, de errar miseravelmente com ela e de pedir educadamente que ela se retirasse da minha casa porque eu não estava pronto para dividir meus rascunhos de vida com ela, aqui estou de novo. De volta ao lugar-comum da solidão, da segurança do eu e somente eu, e dos choros comedidos e tradicionais da desesperança. E se tem uma coisa que eu aprendi depois de todos esses anos, é que logo encontrarei o amor neste lugar sem esperanças de novo.

            Pelo menos é isso que eu espero...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

150 maneiras de como o amor acaba

Existem 50 tons de cinza e 50 jeitos de dizer adeus, mas existem mais motivos entre o céu e a terra do que compreendem a nossa fã filosofia quando se trata do fim de uma relação. Especialmente quando ela nem começou.

Isto é uma história de amor. Acredite se quiser.

Meu nome poderia muito bem ser o seu aqui. Se você está lendo isso, certamente se sentiu curioso o bastante para querer saber como o amor – aquele sentimento primoroso e extraordinário, capaz de levar homens e mulheres comuns a vivenciarem as sensações mais excitantes e a realizarem as ações mais inimagináveis, desde as declarações de afeto em público até os crimes passionais do estilo “se-eu-não-posso-ter-vocè-então-ninguém-pode” – pode começar e terminar entre duas pessoas... E que isto poderia acontecer de mais jeitos do que você pode imaginar.
Quando digo que poderia ter o seu nome, é porque sinto que você já deve ter passado por isso. Ao longo da vida, em algum lugar e em alguma hora, quando menos se espera (ou às vezes, quando já era esperado mas mesmo assim a gente paga pra ver), você terá seu coração partido. Se você tiver muita, muita, mas muita sorte mesmo, talvez isso só aconteça umas duas ou três vezes. Se você for como eu, continue lendo e vamos tentar contar juntos quantas vezes nós juramos que isto não aconteceria de novo... Até que aconteceu de novo.
Eu não tenho certeza de quando tudo começou, mas acho que foi no réveillon de 2005/06 em Cascavel, Paraná. Eu estava passando as férias na casa do meu pai quando, no dia de ano novo, depois de um churrasco bagunçado e mal-cheiroso (como os churrascos de família costumam mesmo ser), eu estava sozinho na sacada do apartamento olhando para o horizonte com uma espécie de paz em mim que eu jamais havia sentido antes. Olhando em retrospectiva, foi um tipo de paz que até hoje – sete anos depois – eu ainda não consegui sentir novamente. Era um sentimento de plenitude; a vida estava boa, completa, feliz, divertida até. Nada parecia estar faltando. Nada, exceto por algo que, quando mais eu observava o horizonte, mais eu me confundia sobre o que poderia ser.
Mas acho que aquele sentimento de calmaria e tranqüilidade acerca do que o amanhã iria trazer era normal; eu não havia me apaixonado ainda, logo, não tinha noção de que toda aquela paz, toda aquela calma, poderia acabar num piscar de olhos. Quer dizer, numa piscada de olhos de outra pessoa para mim. Eu também não imaginava que aquela cidade, que não era minha e não me atraía nem um pouco a não ser para fugir um pouco da correria da cidade grande de Londrina, com o passar de pouco tempo se tornaria o palco do que hoje eu consigo chamar de “Os melhores anos da minha vida” – apesar das cicatrizes ainda estarem um pouco abertas. Pode parecer exagero, mas, como eu disse antes, se esta fosse a sua história e com o seu nome, você pouparia palavras para descrever a dor e a delícia que foi ter se apaixonado pela primeira vez?
Convenhamos que é mesmo exagero. E extrapolação dos fatos. E ansiedade desgastada. E medo, insegurança, incerteza de tudo e de todos. Mas também é bom, é gostoso... É divertido até. É capaz de te fazer descobrir exatamente qual é o seu limite, e até onde você pode ir quando o ultrapassa. Pode fazer você redescobrir a si mesmo, seus gostos, seus desgostos, suas crenças, seus mitos e suas verdades.
Pode fazer você perceber o quanto é possível se preocupar com outra pessoa, e sentir não uma necessidade, mas uma vontade de querer cuidar, de querer estar perto, de desejar sempre o bem para ela. E se você puder ser o motivo do bem dela, melhor ainda. Tudo bem que nem sempre serão rosas; você poderá passar raiva. Raiva como nunca pensou que poderia sentir. E desilusão. Dentre outros sentimentos de traição, indignação, desprezo ou inconformidade. Pode te fazer chorar; por minutos, por horas, por dias ou até mesmo por anos. Com a mesma intensidade com a qual você costumava sorrir e se divertir antes.
Talvez pareça exagero quando se coloca todos os sentimentos em palavras, e a imagem de que alguém poderia vivenciar todas estas sensações de uma vez parece inimaginável, a não ser que você esteja passando por isso agora... E você percebe que não é exagero. É amor mesmo. E é tudo isso e mais um pouco, porque faltam palavras. Porque é difícil dizer que a pessoa capaz de te fazer sorrir mais do que nunca, é a mesma capaz de te fazer se afogar em lágrimas e desejar ter perdido aquele primeiro olhar, aquele primeiro beijo. Era melhor não ter tido nada, mas também foi a melhor coisa que já poderia ter acontecido. Foi a melhor coisa que você já chamou de “sua”, e é algo que você jamais esquecerá.
Mas às vezes acaba, e é disso que nós vamos falar.


(Continua...)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Alguém novo



            Oito anos atrás, um garoto de Londrina viajou para a casa do seu pai em Cascavel para passar as férias de Janeiro. Ele tinha 14 anos, era tímido e não tinha o hábito de fazer amizades ou de lidar muito bem com mudanças, apesar de ter uma alma brincalhona e ingênua até demais para quem deveria estar começando a perceber as segundas intenções que a vida tende a inspirar em nós.
            Mas ele tinha sonhos, aspirações, talentos escondidos, uma vontade de conhecer o mundo tão grande quanto o seu medo de sair para desvendá-lo. Era iludido, porém contente. Era ridiculamente imperfeito, mas mesmo assim era capaz de viver bem e pedir ajuda quando não se sentia bem ou confiante sobre o que fazer diante de algum problema. E apesar de todos os problemas e as lágrimas que já havia derramado, mesmo com poucos anos de vida e experiência para realmente compreender o que era dor, saudade e amor não correspondido, ele era feliz.
Sua maior dificuldade era a ansiedade; a inquietação pelo futuro. Pelo que estava reservado para ele no horizonte, na estrada adiante na qual ele tentava sempre prever a ponto de ficar na ponta dos pés para tentar avistar alguma pista do que iria acontecer com ele quando crescesse. Ele adorava paisagens. Acreditava que se as observasse a ponto de perceber a paz e a imensidão que expressavam, ao mesmo tempo em que diminuíam sua própria existência, ele compreenderia que toda a felicidade do mundo estava reservada para ele, mas que ela estava sempre há um dia de distância.
            Foi por isso que durante uma tarde de Domingo, ele se pegou observando o céu azul enquanto estava apoiado na sacada da casa do seu pai, naquela cidade em que ele não conhecia nada nem ninguém, e teve um pensamento que nunca tivera antes: não importa o que estava por vir, ele iria adorar o amanhã.
Oito anos depois, o garoto viu seu reflexo no espelho e se surpreendeu com o que viu. Ou mais precisamente, com o que não viu. Oito anos depois, ele não se via mais ali. Quem estava ali era outra pessoa; outra pessoa que ele nunca pensou que iria se tornar quando crescesse. Outra pessoa que ele jamais enxergou quando tentava avistar o limite do horizonte. Outra pessoa terminalmente cansada, ridiculamente racional e profundamente desiludida.
            Se o garoto pudesse mandar uma mensagem ao homem que ele viu no espelho, sem dúvida alguma o recado diria: “O que aconteceu com você? Quem tirou o otimismo dos seus olhos? Quando foi que você desistiu de reparar o seu coração partido? Por que não olha mais para o horizonte?”. E se o homem no espelho pudesse respondê-lo, ele diria: “Ninguém tirou o otimismo dos meus olhos, mas eu precisei aprender a ser realista e aceitar o fato de que o horizonte tem limite. Meu coração não está totalmente partido, mas certamente não está tão aberto e confiante quanto foi um dia, quanto o seu costumava ser. Eu não parei de olhar para o horizonte, mas chega a hora em que você precisa se focar mais para o que está à sua frente e não o que está acima de você. Quando as pessoas, os compromissos e a vida não me chamam, pode ter certeza que eu ainda me perco nas nuvens e nas estrelas. Muita coisa aconteceu comigo. Muitas mudanças, pessoas que disseram que estariam aqui pra sempre e que se foram e outras de quem eu não esperava nada e de repente se aconchegaram do meu lado e aqui estão até agora. Alguns se foram, outros eu segurei comigo. Conheci muitos lugares, viajei bastante, vivenciei muito que aconteceu nesse mundo, oito anos depois que você se perdeu na vista daquela sacada. E não só descobri o que os céus haviam reservado para nós, como confesso que ainda acredito que tem muito mais por vir do que você já foi capaz de sonhar, e do que eu sou capaz de imaginar. Você não se perdeu, por mais que esse seja o seu maior medo, e confesso que ainda é o meu. Pelo contrário; você ainda está aqui, dentro de mim. Sua barba cresceu, sua voz engrossou, seu olhar diminuiu e seu corpo não aguenta mais correr solto pela vida incansavelmente e inconsequentemente como já fez um dia. Mas você ainda é parte de mim, e nós ficaremos bem. Não se assuste com as mudanças, seja grato por elas. Nada é para sempre e o mundo continuou girando, mas o horizonte ainda está ali, prometendo a felicidade de uma vida inteira para nós e nos desafiando a enfrentar um dia após o outro se quisermos mesmo alcançá-la. Oito anos atrás, você disse a si mesmo que iria adorar o amanhã. Oito anos depois, eu continuo perdidamente apaixonado pela sensação de deitar a cabeça no travesseiro e tentar aquietar a ansiedade que me consome enquanto minhas dúvidas se silenciam e meus sonhos tomam conta novamente.


Naquele dia, o garoto enxugou as lágrimas dos olhos e deu mais uma olhada no espelho. E ao contrário do homem solitário e triste que havia visto antes, ele viu a si mesmo. Completo com todas as mudanças que o tempo trouxe, os anos que ganhou, as olheiras que agora fazem parte dele, o sorriso encoberto que sempre lhe foi característico, e a felicidade e a esperança em seu olhar que permaneciam fielmente no mesmo lugar. E então o garoto finalmente percebeu que não deveria temer perder-se no tempo, ou entre mudanças, ou pela vida afora. Porque se os últimos oito anos provaram alguma coisa, foi que o garoto ainda vivia firme e forte dentro daquele novo alguém. Aquele novo homem que mesmo cansado e um pouco quebrado, cheio de souvenirs e lembranças que a vida lhe trouxe e guardou em seus olhos e seu coração, ainda iria adorar o amanhã.


domingo, 22 de setembro de 2013

Educação especial


            Algo está errado. Não sei se sou eu quem continua fazendo as escolhas erradas, ou que insiste em não admitir que comete erros, ou que finge em acreditar que não está mais aspirando por um relacionamento, ou qualquer outra coisa alheia ao meu universo que colidiu em mim sem querer. Eu não sei. A vida anda confusa, pesada, cansada, ofegante. Anda tão insensível e alucinada que me fez até desmaiar de sono em plena quinta-feira à tarde; como se eu simplesmente não tivesse orientação de TCC pra ir, banho pra tomar e compra de mercado pra fazer. Mas foi só deitar na cama por quinze minutos, que de repente três horas se passaram. E é assim que o resto da minha vida se parece: eu mato um pouco de tempo aqui e ali, e quando me dou conta de novo todos os prazos se expiraram, as pessoas cansaram de esperar e nada do que eu esperava aconteceu. Algo está errado e eu até tenho uma suspeita do que pode ser. E infelizmente, pensando bem, não é algo que está errado. Sou eu mesmo.
            Essa vida que você pensa que conhece tanto, Igor, não é esse mar de rosas todo. De tardes de tereré na sacada, jantares com amigos e estoques inacabáveis de essências para arguile sob os quais você anda alternando, isto quando não joga tudo para o alto e decide se esconder na boa e velha justificativa de que "só se vive uma vez" e faz tudo isso em um só dia. Não quer dizer que isso não seja bom, mas entre receber os amigos em casa ou sair por aí com eles, isto quando não está trabalhando ou cumprindo pena na faculdade, ainda sobra este desgraçado tempo livre que não me permite descansar. Porque me deixa ocupado pensando demais sobre a minha própria vida e estes pequenos intervalos que podem durar até mesmo alguns minutos, mas ainda são capazes de me fornecer munição o suficiente para que eu dance loucamente com as minhas neuroses até ficar tonto, enjoado e preocupado com o que diabos eu estou fazendo dessa minha existência gorda e preguiçosa.
            Eu deveria estar fazendo algo bem melhor do que escrever sobre isso, mas entre a chuva lá fora, os amigos ocupados, evitar fazer o meu relatório de estágio e a pizza que não chega, divagar sobre o sentido da vida foi o que me restou. Confesso que tem sido uma vida muito boa, mas eu estou longe de ter todas as respostas a ponto de dar conselhos certeiros aos outros sobre como ficarem tão tranquilos quanto eu, ou como encontrarem tudo aquilo que procuram. Quem sou eu pra dizer algo assim, sendo que tudo que eu sempre quis eu só alcancei quando estava distraído ou desiludido. Nem sei se seria bom procurar muito por algo e finalmente encontrá-la um dia; não pareceria certo ou quem sabe até real.
            Aquela velha teoria sobre acreditar que tudo acontece por um motivo se provou para mim de novo quando eu percebi exatamente o quanto não beber fez bem não só ao meu organismo e a minha pele, mas aos meus insights também. Cá entre nós, se eu pudesse me perder em alguns copos de uísque agora, nós não estaríamos tendo este devaneio. Assim como eu não teria descoberto várias outras coisas que eu não era capaz de enxergar antes, provavelmente porque a cerveja deixava meus olhos semi-abertos depois de um tempo. Estar sóbrio me permitiu rever alguns conceitos que depois de anos de tentativas-e-erros, e de finalmente acertar, eu simplesmente os guardei na estante para mostrar para as visitas o quando eu havia aprendido na vida e como eu estava bem. Só que o problema de guardar as coisas na estante é que elas pegam poeira. Muita poeira. Tanta, aliás, que se você não se atentar e cuidar, elas perdem o sentido. Bom, eu perdi o sentido por alguns meses, mas o fato de eu não estar me referindo a estar sozinho em casa em um fim de semana como "sobreviver a mim mesmo e ao mundo real" já faz uma grande diferença hoje.
            Eu ainda penso demais na vida e nas pessoas e situações que passaram por mim. E por muito tempo eu me importei demais com tudo aquilo que passou, que não ficou, que me magoou e seguiu em frente sem olhar para trás para ver se eu havia conseguido me levantar de novo. Não mais. A vantagem de estar sóbrio é que você sempre consegue reencontrar seu caminho de volta para casa, e de lembrar com clareza quem te ajudou a chegar lá. Foi assim que eu abri mão de algumas pessoas sem me importar em dizer adeus, a deixar de frequentar alguns lugares que eu costumava ir por comodidade e não diversão, e a compreender melhor a filosofia do que exatamente é passar um fim de semana com amigos, ou sentir que posso confiar em alguém, ou começar a perceber que amor é este com o qual eu sonhei por anos, e que quando finalmente apareceu eu a abandonei. Até o Existencialismo tem uma cara boa pra mim agora.
            Eu vou me organizar. Vou aprender a valorizar os amigos que selecionei, mas sem me esconder neles para evitar algo ou alguém nova. Vou aprender a andar com as próprias pernas para caminhos que fogem da minha rotina, para o meu próprio bem. Provavelmente vou continuar pensando sobre vida, especialmente durante os intervalos entre músicas, relacionamentos e a espera pela pizza que não chega. Vou continuar sem beber por mais dois meses e meio porque essas são as ordens da médica, e porque algo me diz que existe um mundo muito mais além do meu universozinho gordo e feliz do que eu já fui capaz de perceber. Mas acima de tudo, eu vou ficar bem. Aliás, nós ficaremos bem. Entre pessoas, filosofias, tererés, uísques, neuroses e o universo, é nisso que eu mais acredito.
            E te digo mais: a pizza chegou.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Pequenas esperanças


            Eu estou esperando. Esperando por uma explicação, por uma desculpa, por um sinal de coerência. Estou esperando por uma mudança. Esperando para acordar um dia e me olhar no espelho e realmente sentir que os anos fizeram alguma coisa em mim além de deixar cicatrizes, rugas de expressão, bolsas debaixo dos olhos e saudade. Estou esperando para ver você de novo. É, isso mesmo. Estou esperando por você, mesmo sabendo que você não vai chegar.
            Às vezes parece que tudo que eu faço dessa vida é esperar. Por uma carona, por um conselho, por um abraço, por um milagre... E eu sou bom em esperar. Essa é a pior parte. Porque quando se é bom em esperar, as pessoas que são boas em se atrasar ficam bem mais tranquilas consigo mesmas. E se atrasam ainda mais, isso quando aparecem. Estou esperando por algumas pessoas até agora e não, eu não tenho um bom motivo para estar aqui fora no frio ainda por mais óbvio que seja que você não virá até mim. Mas eu espero. Senão por você, espero por alguém.
            Há anos que eu espero por alguém. Por alguém que me explique porque nada deu certo antes. Por alguém que me diga que eu posso sentar e descansar, porque ela chegou. Por alguém que me diga que a espera acabou. Que aqui estamos, juntos finalmente. Estou esperando por amor, justamente agora em que percebi que esse tipo de coisa boa só acontece quando estamos ocupados com outros compromissos, independente se são importantes ou não. A não ser que você esteja esperando pela pessoa errada. Esperando que da noite pro dia ela se torne certa. Esperando que da noite pro dia ela decida ficar com você. Esse é o problema em ter grandes esperanças: quando se espera por tudo, você pode acabar sem nada.
            É por isso que eu estou tentando reaprender a viver, começando pelo que eu espero disso tudo. Das pessoas, das coisas, da vida em si. Espero sinceridade. Espero respeito. Espero cumplicidade, reciprocidade. Espero até um pouco de reconhecimento, porque cansei de emprestar vida demais para quem sequer percebe que eu existo. Espero aceitar meus erros e tentar crescer com eles. Espero aceitar a mim mesmo, porque apesar dos apesares este é o rosto que eu verei no espelho pelo resto da minha vida, com rugas, marcas, espinhas, olhos cansados e tudo mais que ali reflete.
            Confesso que ainda espero por você, mesmo sabendo que você não vai chegar. De todas as esperanças, esta é definitivamente a que eu mais preciso abandonar, e a mais difícil de se abrir mão. Porque não é de hoje que eu estou esperando, e por mais distorcida que seja a sua presença na minha vida, quando alguém está com você por tanto tempo é difícil deixar de esperar por qualquer coisa. Mas de vez em quando eu ainda me pego esperando, por mais que eu queira seguir em frente sem ninguém. Por mais que eu gostaria de não precisar de nada nem ninguém, e de acreditar que eu poderia acertar todas sozinho, eu mesmo me prendo. Por mais que aqueles que gostam de se atrasar ainda se aproveitam da minha paciência, da minha compaixão e do meu companheirismo, eles só continuam chegando atrasados porque eu ainda estou ali esperando.
            Felizmente ou infelizmente, toda essa espera me fez perceber que nem tudo na vida vale a pena o tempo perdido. Mas pra alguns poucos eu ainda faço questão, porque ao relembrar sobre exatamente o quanto tempo eu esperei por essas pessoas, alguns minutos a mais de atraso não são nada. E quanto a você, que eu venho esperando há quase uma vida, eu decidi não me preocupar mais. Acredito que você está vindo o mais rápido que pode, e que se não chegou ainda é porque ainda não está na hora. Ainda existem algumas lições que eu preciso continuar esperando para aprender, antes de encontrar você e gritar aos céus que a espera acabou.
            Não é bom criar expectativas, mas apesar do coração partido e todo o cansaço que desgasta a minha alma, eu ainda gosto de me dar ao luxo de ter pequenas esperanças. Ou eu continuo a esperar por algo a mais desta vida, ou eu morro.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Retrato de família



            Começou como uma brincadeira. Na verdade, começou com uma mistura de brincadeira e preguiça. Porque era mais fácil deixar a máquina no canto da estante para enquadrar todo mundo, e combinado com o papel de parede que eu nunca quis mas que parece fazer sucesso, aconteceu que era li que as noites em casa sempre terminavam. Era ali que a família se reunia depois de um jantar, ou antes de sair pra balada, ou só quando estávamos juntos em casa curtindo a companhia um do outro. E decidimos que seria uma boa ideia registrar aquele momento, aquela paz.
            Eu não cresci em um lar onde algo assim era comum. Pelo contrário, nós mal tirávamos fotos. E quando nos lembrávamos de tirar, sempre faltava alguém. Então melhor deixar quieto. Espera todo mundo se reunir de novo, aí tiramos a foto, pra ficar legal mesmo. Bom, nunca ficou legal. Ficaram as lembranças, mas a medida em que eu continuo saindo de casa e vivendo intensamente e aleatoriamente por aí, fica cada vez mais difícil me lembrar daqueles almoços em família, das reuniões de amigos em casa, das pequenas coisas que fazíamos juntos em um Domingo preguiçoso ou um feriado chuvoso.
            Acontece que eu gosto de ter lembranças, e apesar de não ter crescido com essas coisas eu aprendi a ter um certo senso de tradição na minha vida. Aprendi que ter lembranças é maravilhoso, mas que tirar alguns segundos no meio da nossa loucura para registrá-la para a posteridade pode ser ainda melhor. Especialmente durante os Domingos preguiçosos e os feriados chuvosos em que não conseguimos nos ver.
            Mas apesar de não estarmos todos juntos sempre, a família Cascavelense que eu criei para mim, eu ainda faço questão de tentar registrar o máximo da nossa felicidade que eu puder. Para que eu me lembre de como nós fomos divertidos, e para que a gente continue assim. Para que quando a gente se afunde no sofá depois de comer muita pizza, ou depois do tereré esquentar, ou depois que o arguile esfria e morre, a sensação que fica continua sendo muito familiar. Por estarmos juntos aqui no lar que há muito tempo não é mais só meu, e que aos poucos se tornou um centro para reuniões de grupos de apoio, sessões de estudo, jantares em família, festas infames nas noites de sexta-feira, mas principalmente um porto seguro para todos nós.
            Desde a mim até os que precisam de pouso, aos que decidem vir aqui primeiro para depois a gente resolver aonde vamos ou o que vamos fazer do nosso fim de semana e os que aparecem porque ouviram tanto falar daquele sofá, daquela sacada e daquela paz que simplesmente precisaram vir conhecer. E o que fazemos quando alguém vem aqui pela primeira vez, se diverte e promete voltar? Nos arrumamos no sofá, programamos o timer da câmera e seguramos o sorriso e a risada até que o flash dispare.
            Eu gosto de ser um cara tradicional. Não me importo com a rotina desde que ela não se torne enfadonha. Existe uma linha tênue entre o clássico e o tédio existencial, mas eu ainda acredito sinceramente que não cruzamos essa linha. Porque se todas essas fotos, os sorrisos, as brincadeiras, as risadas e os momentos registrados servem para provar alguma coisa, é para mostrar que nunca estivemos tão bem e tão felizes. E que se existe um porto seguro com o qual eu posso contar hoje em dia, é com o sofá e a família que sempre se reúne ao redor dele. Já é a tradição daqui de casa.
            Quer dizer, só perde para aquelas noites na sacada.

domingo, 15 de setembro de 2013

O último beijo


            Eu não sabia que eu iria embora. Quando eu entrei na sua vida e você na minha, eu jamais considerei que haveria uma data de validade para as nossas palavras, nossas conversas durante as madrugadas, nossos olhares cúmplices de tantos sentimentos em comum, dentre eles inclusive a sensação de que nós iríamos mais além do território que já havíamos conquistado dentro do outro. Quando eu acordei naquele dia, eu não sabia que seria o último em que eu prezaria pelo seu bem, ou que eu iria continuar do seu lado, ou que eu chamaria seu nome diretamente para você. Eu não sabia que eu ia deixar de te chamar, mas isso não quer dizer que eu te esqueci.
            E se antes mesmo de eu ir embora, você já tivesse me abandonado e eu só não percebi? Ou então quem sabe fui eu quem se contentou com o prêmio de consolação de ser exatamente isto: seu prêmio de consolação. Na falta de algo melhor, de alguém mais interessante, de louça pra lavar, chapinha pra fazer, unha pra pintar ou algum filme novo pra assistir, você veio a mim. E eu não quero me gabar, mas sou uma distração deveras sensacional.
            Eu não sabia que o último beijo sequer seria no fim. Pelo contrário, nós o trocamos dias antes de sequer considerar que aquele seria o último. Em se tratando de amor, ninguém realmente pensa no fim a não ser quando não cria coragem o suficiente para começar. Porque quando já se está no meio dele, envolvido pelas graças e pelo cheiro daquela alguém especial, esperando desgraçadamente que o dia passe logo para que eu sinta suas mãos em mim de novo, o fim é definitivamente a última coisa em minha mente. Isto é, eu nem cogitei o fim. Porque eu acreditava em você, acreditava em nós e que sempre haveria o dia seguinte. E é por isso que eu não consigo enfatizar o bastante o quanto eu não planejei levantar a bandeira branca, ainda mais enquanto ainda estava a ponto de conquistar novos e excitantes horizontes do seu corpo e seu coração.
            Mas você se foi. Eu deixei você ir e confesso que na hora realmente fez sentido. Porque não era amor. Porque não era real. Porque não iria durar. Porque nós éramos muito diferentes. Porque você queria que eu mudasse. Ou então não foi nada disso. Talvez tenha sido porque eu senti que o fim era inevitável, mas tentar me apaixonar pela negação disto parecia mais atraente do que aceitar que você e eu fomos inesquecíveis um por outro por um certo tempo, mas que já estava na hora de começar a esquecer mesmo assim. Talvez seja porque eu não te fazia feliz. Talvez porque você não me fazia nada. Eu não sei.
            Eu não previ o fim. Não sei dizer ao certo como ele começou ou de quem é a culpa. Talvez seja sua, ou quem sabe eu me precipitei. Talvez mandar você embora da minha vida tenha sido um erro, ou talvez tudo isso faça sentido lá na frente quando outra aparecer e me fizer entender porque você precisou ir embora e eu precisei sofrer com isso.
            Assim como eu jamais soube explicar como alguém pode despertar o amor em mim, eu não sei dizer como ele acaba. Não foi porque simplesmente não era você, porque você é incrível. Só não é incrível pra mim, pelo menos não mais. Não, não foi nada que você fez, ou não fez por sinal. Mas eu tenho essa mania de impedir que as pessoas durem na minha vida, a não ser que elas mesmas deem um jeito de se ancorarem no meu coração e se permitam serem arrastadas às profundezas da minha incoerência. Por incrível que pareça, essas sim duram, enquanto as outras logo encontram coisa melhor pra fazer e nem se lembram das conversas que compartilhamos, dos conselhos que trocamos, dos sorrisos que causamos e da felicidade que criamos um com o outro. Porque o café esfria, o gelo do uísque derrete, o amor acaba e as pessoas enjoam.
            Eu amei você mais do que eu achei que era possível amar alguém. E do mesmo modo como eu não sabia que poderia me importar tanto assim, o último beijo veio e se foi. Não me peça para explicar; apesar dos apesares, nós dois sabemos aonde acertamos, aonde erramos e aonde soltamos as mãos um do outro pelo caminho. Mas caso você não saiba, quem sabe nunca tenha me segurado com força do seu lado, me convencendo de que ali era o meu lugar.
            Eu só espero que ter descoberto que tudo na vida tem um fim inevitável não me impeça de tentar começar de novo. Sei lá. Do mesmo jeito que eu não sabia que diria adeus a você, eu não sei quando direi “olá” a outra pessoa.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

9 meses



            Tudo começou há quatro anos quando ela dormiu em casa pela primeira vez. É incrível o quanto, às vezes, pequenas coisas que fazemos acabam tendo grandes repercussões lá na frente. Tudo acontece por um motivo, mesmo que você não entenda na hora. Ela disse que tinha gostado da minha casa; que era acolhedora e confortável, e que ela se mudaria para lá um dia. Eu dei uma risada desconsertada – imagine só dividir o mesmo espaço com alguém depois de anos trabalhando para transformar aquela quitinete de três peças em um lar digno de receber visitas e desmaiar de cansaço ou de bêbado em dias mais difíceis.
            Ela deu uma risada impensada – imagine só sair de casa de verdade para ir morar ali, tão longe de tudo que lhe era familiar até então para começar de novo em outro lugar, com outra pessoa tão diferente dela. Eis que surgiu o porém. Nós não éramos tão diferentes assim. A verdade é que em meados de quatro anos atrás, aconteceu que tudo o que eu mais queria na vida, entre o estresse do trabalho e a confusão do primeiro ano da faculdade, era simplesmente ser entendido.
            Eu queria um abraço, queria que alguém dissesse que iria ficar tudo bem. Queria que alguém visse além do sorriso pronto, da risada desconcertada e do olhar irônico que escondida muito mais tragédia do que minha comédia da vida pública parecia despistar. E aconteceu que eu a encontrei. E eu me lembro como se fosse ontem, porque naquele mesmo dia naquele mesmo ano, eu ainda escrevia como se não houvesse amanhã – apesar de acreditar muito que havia.
            E depois de passar um tempo com ela enquanto ela esperava pelo ônibus depois da aula para voltar para casa, a gratidão que eu tive por finalmente sentir que apesar dos apesares, alguém entendia tudo aquilo que me passava na cabeça mas era incapaz de compartilhar com outros meros mortais, eu tive que voltar para casa também e escrever sobre como era bom ser entendido, que havia muito mais vida em mim, nos outros e em toda parte do que eu poderia imaginar, e que a felicidade, apesar de aleatória, pode se tornar mais constante do que eu poderia conceber.
            Nós mantivemos contato através de conversas inesperadas entre outras amizades e aulas que tomavam o nosso tempo, mas de alguma forma sempre parecia que ela cruzava meu caminho na hora certa – exatamente quando eu menos esperava, mas quando eu mais precisava. E toda vez que ela precisava de um pouso em Cascavel, ela entrava em casa e dizia a mesma coisa: eu vou morar aqui um dia. E se não me engano, certa vez até disse a ela: você já mora, só não dorme aqui todos os dias. Nunca subestime o destino.
            Quatro anos depois, ela precisou de um pouso um pouco mais demorado. Só alguns dias enquanto ela procurava por outro lugar para ficar, algo permanente dessa vez. Tudo bem, fique à vontade. Este é o seu quarto, este é o seu banheiro, a chave para esquentar o chuveiro fica aqui, cuidado com o pé quebrado da geladeira, a porta precisa ser empurrada com força pra fechar, pode deixar a louça ali que eu lavo depois, tem toalhas limpas na cômoda... Precisa de mais alguma coisa? Não? Ok. Boa noite.
            Nenhum de nós realmente imaginava que alguns dias não seriam mesmo alguns dias, mas quis a vida – ou o destino, as coincidências ou a Rede Globo, seja lá em qual Deus você acredita – que conforme o tempo passou, ela simplesmente foi ficando. E ficando, e ficando... Acho que foi só um mês depois que nós percebemos que não estávamos mais lidando com algo temporário. Quatro anos atrás ela veio, ela viu, e quatro anos depois ela se mudou para cá. Simples assim.
            Não, não foi fácil dividir o meu espaço com alguém de novo, por mais que este alguém tenha trazido mais vida do que eu poderia imaginar que era possível para dentro do apartamento. Por anos eu me vangloriei por ter transformado minha casa em um lar, enquanto ela transformou as pessoas que transitavam neste lar em uma família, começando por nós dois. E entre bilhetinhos debaixo da porta, tererés durante a tarde, desabafos na sacada, brindes com uísque e coca-cola, xícaras com leite quente e bolachas para acompanhar, trilhas sonoras similares e tudo mais que aos poucos criamos juntos, aconteceu que nove meses depois ainda estamos aqui. Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, no uísque e no Roacutan, nas crises e entre relacionamentos, com cada vez mais amigos nos visitando e enchendo nossa geladeira, até que o aluguel nos separe.
            Eu não sei o que vai acontecer com a gente daqui quatro anos, mas de uma coisa eu tenho certeza: se esses nove meses foram como as alegrias e dores de um parto, nasce aqui uma amizade para o resto da vida. Porque você se tornou inesquecível, independente se o Existencialismo te levou a escolher isso ou não. Com as nossas essências parecidas, nós agora existimos juntos, e não nos vejo diminuindo o ritmo tão cedo. Quando completamos dois meses, eu disse que queria que você ficasse. Nove meses depois, eu quero que você continue.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O melhor de você


            O que é intimidade? É o que separa os colegas dos amigos, e o que diferencia amigos de irmãos que você escolheu para si. E pra ser bem sincero, tudo que vem com isso é muito bom. A facilidade com a qual eu jogo minha chave pela janela porque estou com preguiça de ensinar a eles como funciona o interfone problemático do meu prédio e já deixo a porta aberta para entrarem, é a mesma que eu tenho para dizer a eles quando algo está errado. Na verdade eu nem preciso dizer nada, porque um silêncio inesperado, um olhar torto, uma piada que eu engoli em seco e às vezes até mesmo uma vírgula fora do lugar (ou uma ausência de qualquer palavra que me ajude a expressar o que está acontecendo) já servem para me delatar e para pedir ajuda a eles por mim. Pensando bem talvez eu não tenha tanta dificuldade assim em pedir ajuda, porque em se tratando de amigos e pessoas ao meu redor para me socorrerem em momentos difíceis, eu ando muito bem acompanhado.
            O problema em dar intimidade para que as pessoas entrem na sua casa, na sua vida e no seu coração e deixar que se sintam à vontade é que, bom, é uma merda. É só dizer que não tem problema em derrubar migalhas no chão, ou esquecer de usar o porta-copos da mesinha de centro às vezes, ou não fechar a porta da geladeira direito, ou zoar meu Facebook quando eu esqueço ele aberto... De repente lá se foram as regras, o controle, o bom senso e alguns copos que foram quebrados entre uma festa e outra. Entre a intimidade e o respeito, existem subníveis de ousadia e imprudência que, querendo ou não, fui eu quem permiti que rolassem soltos assim como os parafusos da cortina da sala que há tempos ameaçam a cair. Porque não existe intimidade sem abrir mão dos seus limites para que outra pessoa possa realmente entrar não só na sua casa, mas na sua vida e no seu coração também.
            O pior não é nem a bagunça em si, mas os cacos de vidro que se acumulam a cada prato quebrado, os sacos de lixo que se amontoam depois de cada jantar, os DVDs que ficam guardados no saquinho errado a cada noite de filmes... Como se os limites, ao contrário da zoeira, deixassem de existir. E de repente quem você convidou para se sentir a vontade aqui já não te faz sentir tão a vontade com eles por perto. Intimidade tem um preço, e pode ser muito alto caso você não esteja acostumado a abrir mão de outras comodidades como controle ou privacidade.
            Eu não gosto de arrumar a bagunça, mas adoro receber todos em casa. A verdade é que eu gosto de ser o anfitrião, o que serve Coca-Cola para os copos de todos, o que fica com a espátula em mãos para alcançar o seu pedaço de pizza, o que prepara a cabeça do arguile, o que deixa a cerveja e a vodka gelando um dia antes de usarmos, o que grava os filmes em potencial para assistirmos, e o que sempre tem os ingredientes para tereré em estoque, porque nunca se sabe quando vamos precisar de uma conversa lá fora na sacada. E faz bagunça sim, até demais. Suja o chão, mancha as paredes, estraga os móveis, derruba as cortinas, risca os vidros, quebra os copos...
            Acontece que as mesmas pessoas que já não precisam mais de convite para entrar na minha casa são as mesmas que não precisam mais que eu diga que não estou bem. São as pessoas que há muito tempo deixaram de ser só colegas, e que já aprenderam a pegar a chave quando eu a arremesso da sacada. São as pessoas que sabem aonde procurar comida e aonde a cerveja está guardada, e quais copos podem usar sem medo de quebrá-los e me ouvir brigar com eles. Eles sabem que podem se sentir à vontade aqui, porque a verdade é que apesar de morar sozinho, eu não vivo sem eles. Uma deles até se mudou para cá, e foi só abrir a porta, a vida e o coração por inteiro para um que de repente ficou fácil confiar de novo em qualquer um que valorizasse o que eu construí aqui e, mais importante, quem eu sou.
            Eu não gosto de arrumar a bagunça, mas preciso admitir que ela não se fez sozinha. E se algo é tirado do lugar, certamente foi porque eu permiti. E uma vez que eu aprendi a permitir que as coisas não precisavam ficar sempre no lugar, esta casa nunca mais ficou vazia. E tanto eu quanto meus amigos aprendemos a conviver quase diariamente com o melhor e o pior de nós mesmos, desde a intimidade até a desordem. É isso que nos fortalece, e é isso que me faz agradecê-los sempre que aparecem correndo não só quando eu preciso, mas quando estamos todos sozinhos em cantos diferentes da cidade. Por que não assistimos um filme? Pedimos uma pizza, tomamos um tereré na sacada. Deixa a porta aberta porque tem mais gente chegando, e pode ficar à vontade.
            Quem entrou na minha vida e me aguentou até agora tem todo o direito de colocar os pés na mesinha de centro e relaxar. Sinta-se em casa.

domingo, 8 de setembro de 2013

Meu erro favorito


            Este texto é um erro. Por inúmeras razões, dentre elas está primeiramente o fato de que eu deveria estar estudando para provas. Ou escrevendo meu TCC. Ou pesquisando referências para o meu relatório de estágio. Ou fazendo a barba. Ou passando a roupa. Ou descongelando a geladeira. Ou fazendo qualquer outra coisa que não fosse sentar aqui e escrever sobre como estar escrevendo é um erro. Mas apesar de tudo isso, eu sinto que é um erro porque ultimamente parece que tudo que eu faço é um erro.
            Você já teve a sensação de que tudo que você fez estava errado? A sensação de que fez as escolhas erradas, os maus julgamentos, os pensamentos equivocados, as atitudes opostas... Eu já. Eu a tenho agora mesmo. Aproveite a liquidação e corra logo até mim; estarei admitindo que errei qualquer coisa com você, já que este parece ser o tema da minha vida nesses últimos dias. Nada aconteceu, para falar a verdade. Mas é exatamente isso que me faz sentir que me perdi em minhas andanças: nada aconteceu porque se eu tivesse pensado um pouco mais antes de agir, talvez as coisas tivessem dado certo. De que coisas eu estou falando? Do trabalho, da faculdade, do futuro e sim, da roupa pra passar também. Eu não sei como lidar com minhas novas responsabilidades, eu não sei como criar vínculos e ter empatia com pacientes, e eu definitivamente não sei como passar camisas.
            Mas de todos os erros que eu carrego comigo, meu favorito é o de ser incapaz de admitir que eu erro. Sim, é muita incoerência para uma pessoa só, mas colabore comigo. Admitir que errar é humano e enfrentar meus temores de que também sou um mero mortal assim como você ainda é muito novo para mim. Não deveria ser. Se errar é natural e é esperado de todos nós, por que eu cobro de mim mesmo atitudes sobre-humanas? Por que eu penso que deveria ser melhor do que os outros? Por que eu não posso me confortar no fato de que minha vida não é perfeita. Ou então, por que eu não consigo aceitar o fato de que nada nunca realmente foi...
            Olhando em retrospectiva, eu ando pedindo muito mais desculpas do que explicações dos meus amigos. Ando me mostrando mais humilde do que arrogante para aqueles rostos familiares que estão ao meu lado e que, apesar dos apesares, aparentemente ainda gostar de estar por perto. Eu não entendo vocês, mas acho que faz parte do meu erro atual de escrever sobre isso. Porque errar é inaceitável, é ridículo, é fraqueza. Ninguém gosta de fracos, perdedores, de pessoas teimosas, insistentes, inconsequentes frente ao inconveniente fato de que ninguém está sempre certo, por mais que a sorte esteja do seu lado ou que a maré esteve ao seu favor até aqui.
            Nós não aprendemos a aceitar que erramos quando crescemos. Ninguém nos incentiva a aceitar o erro, mas apenas a dar o nosso melhor da próxima vez. Há quem diga que nossos erros nos tornam reféns do tempo e dos consequentes castigos que ele traz, tanto físico quanto emocionalmente. E o que acontece quando ninguém te ensina que errar é normal? Nada além da vitória se torna aceitável. Nada fora do alvo é favorável. Nada além da verdade estar em minhas mãos é compreensível.
            Somos seres sensíveis, temperamentais, passionais e nosso passatempo secreto predileto é seguir a vida através da velha técnica de tentativa-e-erro. Se da primeira vez não conseguir, tente de novo. Se na milésima vez ainda der errado, talvez – talvez mesmo, uma mera possibilidade em um oceano de profundo orgulho – seja necessário mudar de estratégia. Você erra, Igor. Você erra bastante. Você não erra mais do que todo mundo na face da terra, nem tão menos do que seus amigos de verdade tem coragem de te dizer. Mas você erra. Você não está sempre certo. Você precisa de ajuda. Precisa aprender a baixar a cabeça, mas entender que isso não significa render-se. Estar certo não significa que você venceu alguma coisa.
            O que você quer: estar com a razão ou ser feliz? Ok, eu admito; felicidade é algo abstrato demais para esfregar na cara das pessoas. Mas às vezes é melhor deixar que o tempo e o castigo cobrem seus honorários de outra pessoa do que pagar os dividendos de descobrir que estava certo ao custo de amizades, oportunidades, crescimento pessoal e amadurecimento. Eu gosto de pensar que amadureci bastante ao longo dos anos, mas acho que me empolguei demais com a ideia e me deixei acreditar que meu trabalho aqui estava feito. Errei de novo.
            Temos um longo caminho pela frente e não tem nada de errado em tropeçar e cair sem culpar alguém ou alguma coisa por ter te passado a perna. Você errou, pisou em falso, se enganou sobre o caminho, perdeu o equilíbrio e caiu. Agora levante e siga em frente. Eu admito que eu não sei errar. Finalmente, depois de tanto tempo, algo faz sentido.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A melhor coisa que poderia ter acontecido


            Convenhamos que é mesmo exagero. E extrapolação dos fatos. E ansiedade desgastada. E medo, insegurança, incerteza de tudo e de todos. Mas também é bom, é gostoso... É divertido até. É capaz de te fazer descobrir exatamente qual é o seu limite, e até onde você pode ir quando o ultrapassa.
            Pode fazer você redescobrir a si mesmo, seus gostos, seus desgostos, suas crenças, seus mitos e suas verdades. Pode fazer você perceber o quanto é possível se preocupar com outra pessoa, e sentir não uma necessidade, mas uma vontade de querer cuidar, de querer estar perto, de desejar sempre o bem para ela. E se você puder ser o motivo do bem dela, melhor ainda.
            Tudo bem que nem sempre serão rosas; você poderá passar raiva. Raiva como nunca pensou que poderia sentir. E desilusão. Dentre outros sentimentos de traição, indignação, desprezo ou inconformidade. Pode te fazer chorar; por minutos, por horas, por dias ou até mesmo por anos. Com a mesma intensidade com a qual você costumava sorrir e se divertir antes.
            Talvez pareça exagero quando se coloca todos os sentimentos em palavras, e a imagem de que alguém poderia vivenciar todas estas sensações de uma vez parece inimaginável, a não ser que você esteja passando por isso agora... E você percebe que não é exagero. É amor mesmo. E é tudo isso e mais um pouco, porque faltam palavras.
            Porque é difícil dizer que a pessoa capaz de te fazer sorrir mais do que nunca, é a mesma capaz de te fazer se afogar em lágrimas e desejar ter perdido aquele primeiro olhar, aquele primeiro beijo. Era melhor não ter tido nada, mas também foi a melhor coisa que poderia ter acontecido.
            Foi a melhor coisa que você já chamou de “sua”, e é algo que você jamais esquecerá.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Precisamos conversar


            Essas provavelmente são as quatro palavras mais assustadoras que uma pessoa pode ouvir. Porque você “precisa” falar comigo? Em vês de só conversar, livremente e arbitrariamente, você “precisa” falar comigo? O que foi que eu fiz? Já estava assim quando eu cheguei. Você deve ter entendido errado. Não foi aquilo que eu quis dizer. Ou foi, não sei, mas talvez eu tenha dito com a entonação errada. É isso, você não me ouviu direito. Ou eu disse errado. Ou eu fiz errado. Ou eu não fiz nada, e você esperava que eu tivesse feito. O que você quer afinal? Me diga agora! Não deixe para depois o castigo que você quer me dar agora. Por que tem que ser pessoalmente? Por que algo tem que ser dito afinal?! Eu achei que estava tudo bem. O que está acontecendo?
            O que aconteceu foi que as pessoas não conversam mais, vide a necessidade de pedir a você que precisamos tirar um tempo das nossas vidas ocupadas, nossos compromissos inadiáveis e nossas outras mil pessoas em nossas vidas para falar sobre nós e como estamos – e, principalmente, sobre o que vamos fazer. Porque não está tudo bem. Nós podemos continuar fingindo que está, e empurrar com a barriga até aonde der, mas e aí? Tudo tem limite, inclusive nós, e quando cairmos dele não me diga que eu não tentei.
            O silêncio grita. As palavras não ditas sufocam e as decepções que se mantém escondidas atrás de um sorriso amarelo e torto podem ser o gatilho definitivo para o fim de qualquer relacionamento, amizade ou ligação entre duas pessoas que se importam muito uma com a outra, até que alguém fez algo que o outro não gostou. Só que em vês do outro dizer que não gostou, ele guardou para si. Talvez porque quis se convencer de que aquilo não teve importância. Ou de que aquilo não machucou. Ou de que você não quis dizer aquilo. E aí acabamos conversando com nós mesmos para evitar admitir que precisamos conversar uns com os outros.
            Pior mesmo é quando eu e você não só evitamos de nos falar, mas trazemos reféns inocentes ao nosso eixo do mal-entendido. E repetimos a história tantas vezes que acabamos por decidir que conversar não adianta. Porque se você realmente se importasse, não teria dito o que dito. Porque Fulano entendeu o que eu senti, enquanto você não percebeu nada. Esse é o problema dos relacionamentos atuais: às vezes quando você pensa que não disse nada, o outro faz do seu nada o universo. E não só é capaz de se perder nele, mas se fere cada vez mais a medida em que insiste em não avisar a você que aquilo doeu. Que você não é mais o mesmo. Que você sumiu. Que eu sinto a sua falta. Que nós precisamos nos ver. E que tudo isso só vai ser possível se a gente sentar, olhar nos olhos um do outro e dizer tudo o que queremos dizer. Tudo o que precisamos dizer.
            Quanto a mim, ultimamente eu tenho dado crédito instantâneo a qualquer um que se disponha a me dar atenção. Não é questão de auto-estima baixa, carência ou transtorno bipolar. Mas se tem uma coisa que dois meses e meio de sobriedade me ensinaram é que não só os amigos de verdade são muito mais significativos do que as companhias abstratas de festa que nós arrumamos por aí, como a reciprocidade que eu venho recebendo deles é muito mais importante do que qualquer foto em conjunto na festa do último final de semana. Eu gosto das pessoas, especialmente das minhas pessoas. Gosto de conversar com elas, de saber como foi o seu dia e de como você está. Se tiver algo que eu possa fazer, me diga. E se tiver algo que está me incomodando, nada mais justo do que eu avisar a você de que não, não está tudo bem.
            Não é a toa que fazemos manutenções preventivas em aparelhos e máquinas, mas e quanto a impedir que nossos relacionamentos atrofiem? O que aconteceu com o tempo em que nós conversávamos só por conversar. Quando estávamos contentes só por estarmos juntos. Quando não precisávamos de nada a mais um do outro, porque estávamos em tamanha sincronia que você sempre era capaz de perceber que eu estava precisando de um abraço, ou de uma palavra amiga, às vezes de um conselho ou uma direção. E na grande maioria das vezes, eu simplesmente precisava de que você estivesse aqui, ou de que você me procurasse de vez em quando também.
            Para mim, mais assustador do que ouvir alguém dizer que precisa falar comigo, é quando alguém com quem eu conversava muito já não parece mais tão ansiosa para que troquemos palavras. E cá entre nós, ultimamente eu venho aprendendo cada vez mais que não existem pessoas importantes na vida com as quais é preciso conversar, porque elas geralmente costumam estar sempre por perto. Mas ainda há aquelas que decidem falar tarde demais.

domingo, 1 de setembro de 2013

Você vai adorar hoje



            Eu acredito que tudo na vida acontece por um motivo, mesmo quando você não sabe qual é. Como um quebra-cabeças que se forma diante dos nossos olhos, mas cuja imagem não tem muito sentido até que todas as peças finalmente se encaixem. Acredito que não é a toa que algumas pessoas entram na sua vida, e não é a toa que elas se vão. Acredito que talvez exista alguma força além do céu, da terra e da Rede Globo que move este mundo, e que apesar das nossas escolhas – as boas, as ruins e as meio bosta – as coisas sempre vão se acertar e nós ficaremos bem.
            Particularmente falando, insisto em dizer o quanto 2013 está cumprindo sua promessa de ser o melhor ano das nossas vidas. Porque foi o ano em que a Joyce se mudou pra cá, e me ensinou que ainda mais importante do que transformar uma casa em um lar, é ser capaz de compartilhar este lar com alguém, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, nos tererés de dia e de noite, até que o aluguel nos separe. Foi o ano em que as frases feitas do Renan sobre “um dia a gente saber” a verdade por trás dos relacionamentos finalmente fizeram sentido, que era muito mais complexo do que eu imaginava, porém tão satisfatório quanto era cansativo. Foi o ano em que o Luis continuou me sacaneando com montagens de fotos e comentários infames, só que com total moral para fazer isso porque era sempre ele quem estava do meu lado me dizendo o que fazer quando eu parecia atingir o meu limite e era obrigado a admitir que, de vez em quando, eu preciso de ajuda. Foi o ano em que o Chuck mais falou, e eu sempre fiz questão de ouvir porque ou a piada era muito engraçada, ou o insight era muito válido.
            Foi o ano em que eu e a Tati mais trabalhamos juntos, e entre entrevistas de campo e referenciais teóricos, percebemos o quanto ainda funcionamos muito bem juntos, seja como parceiros de TCC ou amigos de longa data. Foi o ano em que a Ellen continuou fazendo aqueles barulhos estranhos do nada, mas sem os quais eu não a reconheceria, e foi o ano em que a Luciana continuou mostrando a nós e ao mundo o quanto ela é mais forte do que qualquer problema que entre em seu caminho – e que seria muito bom ser tão forte assim também. Foi o ano em que a Lia continuou me fazendo chorar de rir com esse nosso humor negro levemente perturbado que tivemos sorte de descobrir que compartilhamos, e também o ano em que a Paula provou para mim que é preciso dar mais chances às pessoas, e que amigos de verdade, apesar da distância, jamais deixam de ser.
            E essas são só algumas das pessoas que Cascavel me trouxe para me ajudar a sobreviver ao tempo instável e aleatório daqui até o ano passado, porque não só 2013 fez um excelente trabalho até agora em nos manter unidos, mas também me apresentou ainda mais pessoas e lugares incríveis do que eu esperava. Foi o ano em que a Andressa se tornou uma moradora honorária daqui de casa, e tornou as tardes frescas e noites mornas e filosóficas na sacada ainda mais memoráveis. Foi o ano em que a Dayane, depois de centenas de encontros em cervejadas e baladas por aí, puxou uma tímida conversa comigo em um fim de domingo parado, mas que até agora não terminou. Foi o ano em que o Adriano foi morar sozinho e convidou a todos nós não só para ajudarmos na mudança, mas para estarmos ali presentes na vida dele também. Foi o ano em que a Lucimara começou a faculdade e descobriu a alegria e a tragédia de ir à cervejadas, mas que ao menos servem para nos fazer jamais deixar de rir.
            E quanto à Londrina, este foi o ano em que eu mais tive oportunidades de voltar para casa desde que deixei aquela vida para trás com todo o medo do mundo de que eu havia perdido aquelas pessoas e lugares para sempre. Mas este foi o ano em que o Marcio foi me buscar na rodoviária de terno às cinco da manhã, recém saído de uma formatura, para irmos tomar café na feira e me dizer “Bem vindo à Londrina!”. Foi o ano em que o Edson continuou fazendo jus ao título de filho favorito da minha mãe – só que não – e me deu conselhos e direção sobre o que fazer quando eu insistia em cair em ciladas que só eu era capaz de conseguir (alguém aí lembra da La....?). E também foi o ano em que o Guilherme veio pra Cascavel e me convenceu a ficarmos 48 horas diretas sem dormir só para aproveitarmos tudo que um fim de semana poderia proporcionar, completo com arguiles na sacada de madrugada, tererés ao som de Coldplay e Rosa de Saron, overdoses de energético e lições sobre mulheres, relacionamentos e até a vida em si, da qual concordamos que não podíamos mesmo reclamar.
            Foi o ano em que eu fui à São Paulo para receber o reconhecimento por um trabalho de 3 anos que eu recebi logo no dia em que mudei para cá, que me fez reclamar muito e definitivamente me cansou muito, mas que me tornou alguém excepcionalmente mais grato e mais afortunado por poder acordar todo dia de manhã e começar tudo de novo. Foi o ano em que eu namorei sério pela primeira vez e descobri exatamente o quando amar alguém pode mudar a sua vida e a dela, mas que talvez não esteja na hora de eu dar um passo tão grande assim ainda. Você não pode se comprometer à outra pessoa sem estar realmente comprometido consigo mesmo. 
            Foi o ano da faculdade em que os estágios começaram, que o TCC parece que veio para ficar e que todas aquelas teorias que aprendemos nos últimos anos de repente viraram práticas assustadoras. Estamos mesmo prontos para isso? Serei bom nisso? O que eu estou fazendo aqui? Não são as orientações de estágio que me assustam, mas a ideia de que em breve a saúde mental de outras pessoas estará em meus cuidados – e que diabos de cuidado eu ando tendo com a minha? E como se tudo isso não fosse o bastante, 2013 foi o ano em que eu decidi admitir que eu tenho problema, que eu precisava tomar Roacutan e que – quem diria – minha vida e minhas amizades não se resumem a um copo de cerveja. E de quebra, 2013 foi o ano em que eu tirei aquele cisto estranho do meu pescoço.
            Ao longo dos anos confesso que perdi muitas das minhas razões para acreditar nas pessoas, no amor e até em mim mesmo, mas ao julgar por tudo que 2013 fez por mim até agora, posso definitivamente dizer que as coisas acontecem mesmo por um motivo. E que se não fosse por tudo e por todos que já passaram por mim até agora, eu não seria capaz de acreditar ainda que você vai adorar o amanhã. Mas enquanto o amanhã não chega, porque vocês não aparecem aqui em casa? Podemos fazer um jantar, ou um arguile e tereré na sacada, ou só assistir a um filme. Vocês é quem sabem. A porta está aberta. Você vai adorar hoje.