terça-feira, 30 de abril de 2013

Igor permanente

Minha vida é engraçada. Na verdade, eu não sei se é só a minha vida que é cheia dessas ironias, diálogos inesperados, momentos definitivos que fogem dos lugares-comuns que assistimos nos filmes, pessoas incríveis capazes de esgotar a minha paciência e reacender minhas esperanças num piscar de olhos... Talvez não seja só comigo, eu espero que não. Enfim, de todo modo, o que posso dizer com certeza é que a minha vida é engraçada e eu agradeço por isso, mas o crédito vai mesmo para o tempo e as pessoas que não me deixam desistir dia após dia, que sentam comigo na sacada de casa para tererés, cappuccinos e lamúrias existenciais, ou que conversam comigo durante as horas mais impróprias, como durante a aula ou através de mensagens de texto enquanto estou trabalhando ou solto aleatoriamente pelas ruas e os sinaleiros de Cascavel...
Quando eu digo que minha vida é engraçada, é porque até mesmo depois do dia mais cansativo do mundo, de toda a pressão, dos prazos, dos compromissos, das tarefas, da louça suja, da casa desarrumada, da roupa pra passar, da barba pra fazer, da cama pra arrumar, do TCC pra escrever, da apresentação em PowerPoint pra editar e das conversas no Facebook para colocar em dia, eu ainda consigo perceber exatamente o quanto eu sou feliz por tudo isso. Desde os infortúnios até os superfulos, a vida não seria a mesma sem eles. E o tempo, claro, que tem sido sempre exemplar em sua arte de provar que sabe melhor do que a gente, o que é melhor pra gente. E que tudo tem a sua hora e lugar, e que se você aguentar tudo isso por mais um dia, você pode ver aquele sonho empoeirado que deixou esquecido no fundo da sua mente subitamente ganhar vida, e te fazer perceber porque ela não poderia ter aparecido antes... Não era ela, nem a roupa pra passar que acumulou desde a semana passada, nem o TCC que você finge que não precisa escrever, nem nada... Era eu quem simplesmente não estava pronto.
Não que eu esteja pronto para ser feliz para sempre agora, nem nunca por sinal. Mas eu gosto de pensar que hoje, aqui e agora, eu consigo lidar com o árduo desafio de me permitir ser feliz, sem me preocupar muito com o que pode acontecer amanhã. Quem é você e o que aconteceu com o Igor? Nada aconteceu... Talvez o Igor temporário, aquele que se perdia em neuroses e questionamentos infames, simplesmente cresceu com o tempo, parou com as ladainhas e começou a escutar mais as pessoas que sempre desejaram o seu bem, e aprendeu com isso... Senhoras e senhores; conheçam o Igor permanente. Muito prazer.
É incrível o quanto a vida – a minha vida, pelo menos – tem essa mania de altos e baixos, tudo ou nada, grandes e pequenos momentos decisivos, que fazem toda a diferença e sem os quais eu não seria capaz de ser quem eu sou hoje – que, diga-se de passagem, eu gosto de pensar que é uma pessoa bem incrível também. E eu devo isso, tudo isso, ao tempo e às minhas pessoas – todas as pessoas que já encontrei, conheci, comovi, emocionei ou até mesmo esbarrei por aí. Foram vocês e o tempo que passamos juntos, e o tempo que passei sozinho depois tentando decifrar o que todas essas coisas que nós dissemos enquanto filosofávamos sobre nada, mas sempre tentando querer dizer tudo, realmente significavam. Foi com vocês que eu consegui as coisas mais importantes da minha vida hoje: minha casa, minha família adotiva que construí para sobreviver em Cascavel (que eu, solenemente, chamo de amigos), minha sacada, minha saúde, o otimismo e a perseverança que eu pensei que havia perdido para sempre, minhas músicas, e até mesmo o amor que eu sempre quis e que – quem diria – realmente existia. E P.S. Ela é linda.
Então, esse sou eu. Alguns anos percorrendo esse caminho torto e incerto, mas que de algum modo faz sentido e que eu não trocaria nenhuma curva feita por nada. Foi o meu jeito que me trouxe até aqui, e é ele que vai garantir a minha felicidade permanente também. É... Minha vida é engraçada. Espero que a sua também seja.

***

Trilha sonora de Abril (2013)

domingo, 21 de abril de 2013

Todos os sonhos do mundo

Toda a felicidade que você procura, toda a alegria pela qual você reza, está mais perto do que imagina; está a cem lágrimas de distância. Eu cantei isto para mim mesmo por anos com muita vontade, porém sem grandes esperanças reais de que lágrimas poderiam realmente se transformar em qualquer outra coisa que não fosse algum símbolo de melancolia ou acúmulo de tristeza que o corpo simplesmente precisou extravasar para fazer mais espaço para as outras frustrações que estavam prestes a ser colhidas.
Talvez seja coisa da minha cabeça, mas todo mundo que se dispõe a acordar cedo (ou tarde, sem preconceitos a não ser pela minha inveja matinal) e sai de casa para enfrentar o mundo e todos os desafios e dificuldades que este joga em sua direção, definitivamente não conseguiria se levantar depois de cada queda ou tropeço se não acreditasse em alguma coisa – se não acreditasse que seus sonhos poderiam dar certo. E a verdade é que não há problema nenhum com isso. Pode ser o relógio que nos tira do sono, mas são os nossos sonhos que nos motivam a despertar e sair da cama para tentar mais uma vez, mais um dia, encontrá-los custe o que custar. Vai que dá certo?
Pode parecer algo dolorosamente existencialista de se dizer, mas todo e qualquer ser humano que se dispõe a enfrentar a vida por mais um dia, está fadado a carregar consigo todos os sonhos do mundo, com um brilho de esperança escondido no canto da mente de que pelo menos um (ou quem sabe, até dois) deles se torne realidade. Pode ser aquele trabalho que você sempre quis ter, ou a garota que você sempre quis que se virasse em sua direção enquanto você corria atrás dela. Pode ser a oportunidade que você sempre quis para mostrar o seu talento, ou até mesmo a maravilha de encontrar o rumo certo a tomar, para descobrir exatamente o que você quer fazer desta vida além de simplesmente seguir em frente. Porque de que adianta seguir em frente, se você não sabe aonde quer chegar?
Viver é tentar, sonhar é acreditar, vencer é consequência. Não deixe de acreditar só porque a realidade anda dificultando que você continue a enxergar a linha de chegada. É claro que não é fácil manter os olhos abertos o tempo todo; é por isso que somos permitidos deitar a cabeça no travesseiro e recarregar as energias através das fantasias que construímos durante o sono. Sonhos, fantasias, crenças, nada mais são do que um leque de possibilidades que se abrem diante dos nossos olhos – até mesmo quando estão fechados – para nos motivar a despertar para a vida e perseverar adiante para torná-los reais. Digo isso por experiência... Se tem uma coisa que carreguei comigo por todos esses anos, além de lágrimas, foram todos os sonhos do mundo. A ironia é que eu os encontrei exatamente quando deixei de procurá-los e me distraí com outros devaneios.
Eu não lembro o dia exato em que eu despertei para a vida, mas já fazem alguns anos e alguns baldes de lágrimas em que estou nesta jornada, entre alguns desvios aqui e ali, alguns acidentes de percurso, porém sempre adiante, custe o que custar. Porque toda a felicidade que você procura, todas as oportunidades que você almeja, todos os sonhos do mundo, só dependem de você. O mundo vai continuar aí, sempre tentando fechar os seus olhos, mas às vezes se descuida e facilita sem querer para que continuemos caminhando. Para atingir os seus sonhos, você precisa primeiro despertar para a vida. Qualquer sonhador pode dormir profundamente enquanto o mundo passa batido, mas estes não somos nós. Nós queremos mais; queremos o real.
Engraçado é que, quando você realmente conquista um sonho, você percebe o quanto o real é ainda melhor do que se pensava. Mas a gente demora mesmo para despertar; quem não implora por cinco minutos a mais do despertador para continuar debaixo das cobertas em pleno Outono? Deixe esse medo pra lá, jogue uma água na cara, sirva uma xícara (ou duas, ou três...) de café e vá lá fora mostrar do que você é capaz. Todos os sonhos do mundo estão contando com você. Vai que dá certo?

Ao som de: Dog Days Are Over – Florence + The Machine.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

15 de Abril

Você não pode prevenir o que não pode prever. Porque não importam os seus planos, se o dia está corrido, se está faltando tempo na sua rotina, se existem mais problemas do que esperança, se você precisa passar no mercado depois do trabalho antes de ir para casa ou se você perder aquele ônibus vai ter que esperar quarenta minutos por outro; o acaso vai te encontrar, e vai te fazer perceber que nós não temos controle algum sobre esta vida. Nós tentamos, e nos esgotamos muito por isto, mas é o que acontece. Se você precisar dar um jeito de passar no mercado, você o fará mesmo que apavorado e sem fôlego. Se perder aquele ônibus, você vai ter que esperar pelo próximo por mais que o tempo perdido te machuque. E se você se apaixonar, vai ter que admitir isto mais cedo ou mais tarde porque não há mais jeito; o sorriso dela é o motivo do seu, e é por ele que você espera quando chega em casa e todos os dias agora são motivo de comemoração.
Quanto a mim, 4 de Abril era só 4 de Abril, e a rotina diária se repetiria sem grandes eventos ou menções memoráveis para as próximas épocas. E como eu estava estressado naquele dia; com o trabalho, com os deveres da faculdade, com a rispidez das pessoas e a frustração crescente que eu continuava a carregar a cada dia – exatamente pelo fato que parecia estar fadado àquela rotina sem grandes eventos ou menções memoráveis para o futuro. E foi exatamente com este estado precário de espírito, olhos cansados, corpo doído e coração partido que eu a encontrei. E do momento que eu a conheci em diante, a vida ganhou cor. A rotina saiu dos trilhos, os pensamentos passaram a ter rosto e nome próprios, e o coração... O coração parecia aliviado, na falta de um sentimento mais apropriado para sentir. Não que ainda fosse muito bom em reconhecer sentimentos; estava cansado e ferido, mas seguia em frente porque não havia outro caminho, porém sempre lançando alguns rascunhos de esperança no olhar ao horizonte, acreditando por cinco segundos que a vida poderia mudar. E mudou.
Passados alguns dias, minha surpresa com ela ainda não havia esfriado, mas não haviam dúvidas; 10 de Abril seria apenas 10 de Abril e nada mais. O corpo continuava cansado, a esperança cada vez mais arrastada, e o coração daquele jeito; cambaleando a ponto de parecer que não iria resistir por muito tempo ainda. Mas no fim daquele dia, quando eu percebi que não havia mais nada a perder a não ser meu nome e a parte da alma que me sobrou (a parte que não distribuí em vão para tantos outros corações, que se apoderaram do que lhes era útil e partiram sem aviso ou a cortesia de uma explicação plausível), eu decidi que algo precisava mudar. Algo dentro de mim quebrou, algo além do meu coração, e como o despertar de uma ressurreição eu corri atrás exatamente do que eu suspeitava que poderia trazer o meu fôlego de volta. Eu a procurei novamente, mas com total intuito de que ela voltasse para mim para ficar. E então o extraordinário aconteceu: ela voltou, e ela quis ficar.
Algumas pessoas se descuidam a ponto de perderem a si mesmas, e deixam coisas que consideram superfulas (como esperanças, sonhos e aquela velha teoria cansada e desgastada sobre amor) para trás, acreditando que assim serão capazes de seguir adiante mais rápido para encontrar o que tanto procuram, mesmo sem saber o que é que lhe fará sentir realmente pleno ou até mesmo feliz. E então o acaso chega para provar que de nada adianta desistir ou reclamar, ou tentar voltar para trás – para o familiar – porque está cansado de falsas surpresas ou pior, de nenhuma surpresa. Quem manda nesta vida não somos nós nem nossos patrões ou compromissos; é o acaso que vai nos proteger e fazer acontecer o que tiver que acontecer quando o momento for certo, e quando você estiver pronto. E quando é o momento certo? Esta é a beleza do acaso: ele não avisa com antecedência quando você estará pronto, ele simplesmente aparece na sua frente e te faz perceber que a hora é agora, que não há mais espaço para medo neste coração, e que quando eu parecia exausto, confuso e perdido, era você quem eu procurava. E quando o 15 de Abril veio, eu descobri que estava certo.
Você não pode prevenir o que não pode prever. Ainda bem. Pior do que sentir-se desamparado pelo destino, seria perdê-lo por optar pelo caminho que achamos que é o certo. E falando por experiência própria; eu estive perdido a maior parte do tempo e não faço ideia de como cheguei até aqui, ou de como encontrei você. Eu só agradeço e sorrio, e às vezes até dou risada.

domingo, 14 de abril de 2013

O começo do fim

31 de Outubro de 2012. Eu me lembro exatamente de como aconteceu, o começo do fim. Quando Charles Dickens escreveu “Um conto de duas cidades”, suas primeiras palavras foram, “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, tínhamos nada a nossa frente, tínhamos tudo a nossa frente”. Um leitor distraído e despreocupado diante deste começo em particular pode realmente acreditar que Dickens estava se referindo a duas cidades, mas para as mentes mais abertas e os olhos mais precisos – nós que também somos conhecidos como sonhadores ou, pasmem, românticos – estes sim sabem que estamos falando de algo muito maior e bem mais complexo. Exatamente, senhoras e senhores: estamos falando de amor. E 31 de Outubro de 2012 foi a última vez em que me vi diante de tal começo, com total consciência de que o fim também estava próximo. Mas o que é o fim diante de algo tão mais fascinante quanto esperança acima de tudo?
Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, e começou como algo simples. Pensando bem, todas as coisas complicadas um dia, nem que por apenas cinco segundos, também foram simples. E em vês de deixá-las simples, nós tivemos que nos meter e ter a brilhante ideia de colocar sentimentos no meio. Sentimentos que não precisavam estar ali, porque não eram mútuos ou compartilhados. Ou até mesmo reais. Mas o que realmente aconteceu em 31 de Outubro de 2012 foi fatídico, porém ridiculamente pequeno. Foi decisivo, e certamente marcou o tom daquele relacionamento logo no início. Logo vieram outros tons – não foram cinquenta, como dizem ultimamente – mas em termos de comparação, foram consideravelmente mais escuros. O que eu fiz, vocês devem estar se perguntando... Nada demais, na verdade. Eu a convidei para sair. Cinema. Quinta-feira à noite. O começo do fim, no formato de dois bilhetes para a sessão das 21h. A maior ironia de todas? O filme era “Skyfall”. É, Igor. E não é que o céu desabou mesmo? Permita-se rir disto agora ou melhor; transforme tudo em literatura. Faça da lembrança infeliz e o gosto amargo que ela deixou, em algo um pouco mais agradável. Sabe, para facilitar recontar a história.
Seu nome era... Desnecessário. Pelo menos para mim, agora. Mas ela aceitou o convite e eu, no auge da minha ansiedade contente, comprei os ingressos com antecedência. Eu e essa mania constante de achar que as coisas vão dar certo... Como se comprar os ingressos na hora não fosse trazer a mesma felicidade, mas aí não teríamos história para contar. O que aconteceu foi que naquela noite o céu desabou mesmo, só que em forma de água e trovões. E só parou quando já era tarde demais.; ela não tinha mais carona, nem permitiu que eu a buscasse de alguma forma. Eu e essa outra mania constante, de achar que as coisas vão dar certo enquanto eu continuo à pé. Quando eu disse que esperaria por ela mesmo assim, ela se irritou e me pediu que não o fizesse. Esta deveria ter sido a sua primeira pista, Igor. Ela pediu que você não a esperasse, mas não. Eu esperei. Por cinco meses, na verdade, mas ela nunca veio. Ela nunca foi minha, para que minha antecedência por dois ingressos pudesse ser justificada. Este sou eu; o cara que espera incansavelmente, com dois ingressos em mãos e um olhar cansado em direção ao horizonte de onde ninguém nunca surge. Isto, e outras experiências mais, definitivamente me curou da paranoia de ir ao cinema sozinho. Ou de viver sozinho às vezes.
No dia seguinte, eu fiz o inimaginável. Eu dei a ela o canhoto de um dos ingressos, dizendo que já que havia comprado para ela, parecia fazer sentido que ela guardasse. A souvenir de um primeiro encontro que nunca aconteceu. A lembrança de um rascunho de uma história que jamais foi escrita. Infelizmente, alguns contos – independente de quantas cidades estão envolvidas – não podem ser escritos por só uma pessoa. Porque eu me lembro desta noite como o começo do fim, você deve estar se perguntando. Para saber ao certo, só estando no meu lado na época. Porque a partir do dia seguinte, a maratona começou. A busca pelo inatingível tornou-se mais do que um pensamento distante, e sim uma meta de vida. Uma vida que parou por cinco meses para ficar para trás e comer poeira. Pelo menos hoje posso dizer que o nome dela é mesmo desnecessário, assim, de coração. Todos os sinais estavam lá, mas não. Eu queria assistir ao filme. Eu queria andar de mãos dadas. Eu queria não estar sozinho quando o céu desabasse. Felizmente, eu não estava, senão como poderia estar aqui, livre e levemente contente, para recontar cada vírgula com orgulho? Orgulho porque, mais uma vez, eu amei e sobrevivi. E não recebemos muitos elogios por isto. Vitoriosos são aqueles que conseguem encontrar o caminho de volta para casa com dois bilhetes em mãos, depois de um cinema sozinho.
Tínhamos tudo a nossa frente, tínhamos nada a nossa frente. Eu não li “Um conto de duas cidades”, provavelmente porque estava – e continuo – ocupado escrevendo meus próprios contos, minha história. E talvez o motivo disto ainda seja ansiedade contente por antecipação. Porque em dias mais felizes eu acordo com uma sensação diferente pelo corpo, e um olhar diferente no espelho. Como se o começo do fim deste filme solitário estivesse próximo, e em breve aquele outro bilhete amassado deixaria de morar em meu bolso e passaria a ter dona e bolso próprios. Mas apesar de não ter lido o livro, sempre considerei seu começo o melhor de todos que já conheci. É, definitivamente, melhor do que os meus.
Eu sinto saudades de 31 de Outubro de 2012 às vezes. Talvez seja por isso que, apesar daquele dia e daquela história terem acabado, eu continuo aqui. Em busca de novos começos, enquanto o céu continua a desabar. Este sou eu. Esperançoso, com os bilhetes em mãos, voltando para casa.

Ao som de: Skyfall – Adele.

sábado, 13 de abril de 2013

Mais do que palavras

Às vezes eu acho que escrevo mais do que deveria. Não me entenda errado; eu falo bem mais do que eu deveria também, mas com a escrita é diferente. A escrita envolve pensamento, planejamento... Não pode derramar algo em um papel simplesmente sem filtrar nada daquilo antes. Você optou por aquela letra, aquela palavra, aquela frase... O que torna a experiência definitivamente mais significativa e, por isso mesmo, mais perigosa. E eu escrevo demais, sempre escrevi, mas não consigo me imaginar vivendo de qualquer outro jeito. Prefiro ter arrependimentos em forma de vírgulas e dois-pontos, do que morrer engasgado com um ponto final fatal que poderia ter salvo a minha vida caso eu decidisse admiti-lo não só em voz alta, mas em tinta também. Ou em manuscritos virtuais, já que é assim que a vida tem funcionado ultimamente.
Foi exatamente este perigo, este risco constante de ser pego desprevenido enquanto transcrevia o que deveria ser apenas mais um período em uma composição ordinária, e descobrir que aquilo que você achava que sentia era só a ponta do iceberg. Você pode descobrir muito sobre si mesmo quando escreve, especialmente quando quem guia a ponta da caneta é o seu coração. Quantas vezes você já respondeu uma mensagem a alguém, dizendo que estava tudo bem, enquanto chorava do seu lado da tela? Palavras são maravilhosas, mas também podem ser afiadas e até mesmo impossíveis de serem retiradas depois que são libertadas ao mundo. Particularmente falando, eu não as temo. Pelo contrário, na maioria das vezes até penso que tenho mesmo algum poder sobre elas e o efeito que podem causar quando abro mão do meu raciocínio para compartilhá-lo com qualquer leitor que se interessar pelo desafio de tentar entender minhas neuroses, minhas fantasias, meus travessões.
O problema é que, depois de um tempo, as palavras passaram a falhar comigo. Não por me ferirem ou me sabotarem de algum modo, mas por serem mais capazes de me satisfazer como outrora conseguiam. Palavras não eram mais o bastante para mim; era preciso viver, e descobrir de uma vez por todas o que todas aquelas frases-prontas significavam, como “Eu estarei do seu lado”, “Acredite em mim” ou “Eu te amo”. Eu superei não só o meu medo, mas a minha necessidade das palavras, e aprendi uma das já famosas lições que toda pessoas vai aprender não uma nem duas, mas ao menos umas quinze vezes nesta vida: palavras não importam tanto quanto ações. Falar é fácil, escrever é lindo. Agora, quero ver mesmo sentir na pele.
Eventualmente, eu encontrei o meu caminho de volta aos cadernos, à frescura pelas canetas certas para dar conta de tudo que sentisse vontade de registrar em um papel, e aos súbitos olhares distantes no meio de multidões que pareciam ocupadas com qualquer coisa exceto pelos pequenos detalhes ao meu redor que só eu parecia capaz de perceber e até achar bonito. Aquele vento forte batendo naquela árvore, não poderia significar a nossa própria mortalidade sendo constantemente desafiada pela natureza? E aquelas mãos dadas naquele casal atravessando a rua, poderia esconder meses ou até anos de dificuldades de compromisso e superação de obstáculos até finalmente encontrarem um conforto real e digno do amor em si para apoiarem-se um no outro e serem capazes de andar, enfim, no mesmo ritmo? Talvez, com um bom raciocínio, uma dose generosa de criatividade e as palavras certas. Nunca subestime o poder de um escritor – ou até mesmo, o projeto cambaleante de um – de encontrar literatura em qualquer coisa ao seu redor. Mas tudo isso só começa mesmo com as palavras e a decisão de domá-las e transformá-las exatamente naquele pensamento que você teve quando estava à toa ali, parado debaixo de árvores e observando as pessoas ao seu redor. Parece simples, mas pode dar luz à mil significados diferentes. Alguém pode me emprestar uma caneta decente?
No fim, eu preciso agradecer às palavras por sempre terem sido tão misericordiosas comigo e pelos anos de colaboração que tivemos sem exigir nada em troca a não ser uma bela moldura para os pensamentos de uma mente neurótica, porém sensata que, com os cuidados e as conjugações certas, poderiam deixar de ser vistos como transtornos e virar arte. Mas hoje em dia é diferente; não vivo apenas com palavras, ou para as palavras. Vivo para mim, e deixo que todos os contos que sentir a inspiração para dar vida também, sejam consequências da minha existência neste mundo louco e intransitivo. Porque apesar de fantásticas, nem tudo na vida são palavras. Porque um “eu te amo” deve ser calculado, repensado e revisto repetidas vezes antes de encontrar seu caminho rumo a um pedaço de papel ou o ouvido de alguém. Mais vale andar de mãos dadas quando atravessar a rua, porque se tem uma coisa que eu aprendi depois de anos tentando encontrar as medidas certas para os meus sentimentos é isto: a vida é mais do que palavras. É o que você faz com elas que conta.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

P.S. Eu sorri

O tempo é uma coisa engraçada, e provavelmente não é a primeira – e nem será a última – vez em que descubro isto. Digo isto porque hoje aconteceu algo tão astronômico, porém tão simples, que agora em vês de encontrar as palavras certas para descrever o que aconteceu, a única coisa que sinto vontade de dizer é saudade. Saudade daqueles vinte e cinco minutos em que eu, pego com alguns instantes de fôlego a mais entre um compromisso e outro, simplesmente sentei debaixo de uma árvore e esperei. E enquanto esperei, observei como a vida continuava a acontecer ao meu redor, com apenas uma diferença: nada daquilo era comigo, e como foi grande aquele alívio.

Foi a coisa mais assustadoramente tranquila do mundo, apenas assistir a vida seguir seu rumo sem nenhuma pressão, nenhum prazo para tentar alcançar, nenhum pedido para atender, ninguém para responder nem nenhuma necessidade de produzir algo novo. Eu estava simplesmente sentado, assistindo tudo acontecer de camarote, e qual foi a última vez em que consegui fazer isto? Não lembro, e me assusta também pensar que não sei quando será a próxima oportunidade de conseguir uma pausa no meio de toda essa agitação, todo esse caos que guia a rotina dos meus passos pela cidade afora. Foi tranquilo, foi acolhedor, foi maravilhosamente refrescante a sensação de ter tempo de sobra e aproveitar dele para respirar fundo e deixar que todo o resto continuasse a desabar, enquanto eu permanecia ali sentado com um caderno aberto que eu estava decidido a ler e uma caneta em mãos com a qual parecia mais interessante brincar do que forçar qualquer nova atividade intelectual.

O tempo parou para mim, e pela primeira vez em muitos dramas eu fui capaz de observar o quanto somos atarefados e o quanto somos apressados para dar conta de todas as outras coisas que escolhemos para compor a nossa vida, mas que precisam de constante cuidado e atenção. E sabe o que mais eu percebi? O quanto o céu tem um tom azulado mais forte durante o Outono. Acho que era exatamente isto que tomou conta de mim naquela tarde; entre o infernal Verão e o tenebroso inverno, fui invadido pela mediação do Outono e a graça de alguns instantes de transição, antes de voltar a caminhar rumo à minha próxima estação.

Eu vou sentir muita falta daqueles vinte e cinco minutos, especialmente quando a vida que eu escolhi para mim começar a parecer tão sobrecarregada de novo, o que não vai demorar muito tempo também. Apesar de ser a vida que eu escolhi para mim – a vida que eu acredito que me fará feliz – às vezes parece que arrumei compromissos demais, prazos demais, pessoas demais e cobranças demais para uma alma só. E que alma cansada é esta que eu venho carregando, tenho que admitir. Definitivamente, eu preciso arrumar mais tempo para ter tempo.

P.S. Eu sorri.

Ao som de: Yellow – Coldplay.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Enquanto rolarem as lágrimas...


Se tem uma coisa que eu aprendi depois de anos envolvido em relacionamentos imaginários, paixões inatingíveis e desafios que simplesmente não podiam ser ganhos, é que quando o inevitável acontece não tem como pular o sofrimento. Vai doer, mais cedo ou mais tarde, e não tem nada que você possa fazer a não ser aceitar o fato de que, nem que seja por cinco minutos do seu dia, você precisa abrir mão de ser forte e se permitir chorar por tudo aquilo que você tanto acreditava que poderia ser e não foi. Porque toda perda, não importa qual seja – grande ou pequena, real ou imaginária, sensata ou surreal – precisa de um período de luto. Toda morte precisa de uma aceitação, e todo amor que chega ao fim precisa ser sentido, para que possa renascer com outra pessoa.

Mas se tem uma coisa que eu ainda custo a aprender, é que ninguém vive só de dor e ninguém vive só de glórias. Você vai ter dias bons e dias ruins, com alguns mais ou menos entre eles porque é simplesmente assim que a vida funciona. Durante os bons, você vai querer suas pessoas favoritas por perto para compartilhar as risadas, e durante os ruins você vai precisar delas porque algo, ou alguém, ou seja lá o que, te fez chorar e não faz sentido guardar isto só para você. E as mesmas pessoas que estavam lá por você durante os dias bons, são exatamente as mesmas capazes de te levarem de volta para eles. Porque ninguém é inquebrável, e ninguém fica quebrado para sempre. E enquanto rolarem as lágrimas, você vai precisar de alguém do seu lado para dizer que não tem problema em se sentir mal por um tempo; pelo tempo que sentir que precisa se sentir mal, até as lágrimas secarem e você conseguir enxergar que a vida continua sim, com ou sem ela, e que isto não é o fim do mundo. É o fim do mundo que você queria, mas talvez não seja o mundo que você precisa. Pelo menos, não agora.

Porque é tão difícil para mim ultimamente aceitar que também preciso parar um pouco para chorar e aceitar o fato de que eu não quebrei, nem sou tão inquebrável quanto eu gostaria de pensar, eu não sei. Talvez seja porque eu gostaria de acreditar que sou melhor do que aquele homem que você deixou para trás, seja lá por quais razões que você tenha tido para isso. Certamente você teve um motivo, e é com isso que eu ainda não consigo conviver. Mas eu estou começando a ver a luz no fim do túnel, ou o começo da aceitação sobre o que te fez escolher seguir adiante sem mim. E eu chorei por isso; mais do que qualquer um – quer dizer, salvas as minhas pessoas favoritas – poderia imaginar que eu seria capaz de me mostrar vulnerável ultimamente. Porque eu decidi que preciso ser ao menos um pouco resistente, para conseguir ajudar outras pessoas ao meu redor e impedir que sofram e chorem pelos mesmos erros pelos quais eu passei. Só que tudo tem um limite, e seja bem vindo ao meu. Isto é, ao menos eu acho que cheguei ao meu limite. Senão, porque ainda estaria de pé, e ajudando todos que posso ao meu redor, mesmo enquanto minha dor ainda se recusa a ter fim?

Talvez eu não seja mesmo inquebrável, mas definitivamente não permaneço quebrado por muito tempo. Mesmo enquanto rolarem as lágrimas, e com toda a estranheza e a bagunça que compõem o meu ser, eu ainda sou capaz de exibir um sorriso bem mais verdadeiro do que o seu. E mais do que os meses que pareciam intermináveis enquanto eu me negava a sentir isto, foram os três dias que levei para ser capaz de colocar tudo isto em palavras e finalmente começar a enfrentar algo que parecia acabado... Só que nem um pouco. Senhoras e senhores, não deixem minhas risadas enganá-los. Eu preciso de ajuda.

domingo, 7 de abril de 2013

Adorável desilusão


O mundo mudou desde que você se foi. Bom, talvez não o mundo inteiro, mas a parte que eu uso para dormir, rir, tomar café e outras bebidas mais fortes definitivamente não é mais a mesma. Você levou parte deste mundo com você – a parte que construí com você, para você – e me tira o sono e a vontade de rir saber que não posso tê-la de volta. Só não me tira a vontade de tomar café e outras bebidas mais fortes também, porque eu preciso de algo para me manter acordado quando preciso responder à vida, e para fechar os olhos quando a noite cai e é possível roubar alguns momentos de sossego em meio ao turbilhão de rostos, deveres, pressões e lembranças dolorosas dentro do qual eu tento fazer o meu melhor para não me perder mais.

Mas eu acordei disposto a recolocar tudo em seu devido lugar, e a encontrar maneiras de utilizar o espaço vazio que ficou no meu coração logo ali, onde costumava ter um porta-retrato nosso com os nosso sorrisos e um momento congelado do tempo em que parecíamos ser feitos simples e inteiramente de promessas, ao contrário dos arrependimentos e frustrações que se tornaram sinônimos do seu nome para mim hoje. Acontece que eu ainda não sei exatamente o que fazer com este espaço, e às vezes parece que em vês de tentar fazer algo de útil com ele, eu resolvi abrir mão do coração inteiro, que já não parecia mais estar em condições de ser dado de presente para que outra pessoa fizesse dele o que quiser. E com isso eu abri mão de todo o resto; dos porta-retratos, noites sossegadas, sorrisos cheios de promessas, e o efeito do café e outras bebidas mais fortes para me ajudar a responder à vida. Eu cansei de responder, especialmente porque na maioria das vezes me peguei falando sozinho, e não é disso que um coração precisa.

Então, o mundo mudou. O café esfriou, os sorrisos se apagaram, as promessas mentiram, o coração esvaziou-se e seu nome nem significa mais tanto para mim. E o que eu vou fazer com tudo isso, eu ainda não sei. Talvez eu devesse juntar tudo, colocar em uma mala e abandoná-la na sua porta. Quem sabe assim eu não me sentiria mais leve, e um pouco mais determinado a ser otimista e começar de novo. Este café precisa de um novo sabor, e este coração precisa de uma mudança. Podemos quebrar algumas paredes aqui e ali, para dar mais espaço para a esperança conseguir respirar melhor. Podemos fazer deste espaço algo especial de novo, mas temos que repensar algumas coisas antes. Em primeiro lugar, chega de amor. Não do amor em si, mas de chamar de amor tudo aquilo que você definitivamente sabe que tem qualquer outro nome, mas ainda assim insistiu em chamar desse jeito, achando que fosse mudar alguma coisa. Só porque você quer que algo seja especial, não significa que isto vai acontecer. Pelo contrário; só te deixa com menos credibilidade.

Enfim, este sou eu. Igor Costa Moresca: fechado para reformas, para melhor atendimento.
Vou precisar de mais café aqui. Isto pode demorar um pouco.

Ao som de: Creep – Radiohead.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A teoria do caos funcional


Se eu precisasse definir a mim mesmo em uma palavra, esta palavra provavelmente seria “bagunça”. Não estou me referindo a questões de auto-estima ou auto-imagem propriamente ditas, mas sempre considerei os caminhos que tomei na vida, as decisões que fiz, o modo como interajo com as pessoas e os vários desdobramentos que meus pensamentos costumam gerar sempre foram um pouco, bem, tortos. Por isso sempre me surpreendo quando alguém faz questão de comentar sobre o modo como consigo organizar a casa depois de uma festa, ou a habilidade momentânea que toma conta de mim quando preciso entregar algum trabalho em cima da hora – e nem vamos comentar sobre meus grupos de estudo de última hora baseados em nada mais nem menos do que sorte, instinto, coragem e sem-vergonhice. Minha casa pode até estar em ordem, mas minha cabeça é definitivamente regida pela teoria do caos.
Tenho momentos de tédio profundo e crises existenciais que me fazem questionar toda a razão do universo, e em questão de segundos posso me tornar ridiculamente criativo a ponto de acreditar que as soluções para todos os meus problemas estão ao meu alcance – mas aí eu me distraio com alguma outra coisa, o barulho dos carros lá fora ou algum estralo estranho dentro de casa, e esqueço de anotar qualquer coisa que poderia me ajudar a salvar o mundo. Bom, acontece.
Mas apesar de tudo, minha bagunça é funcional. A desordem dos meus devaneios ainda é capaz de servir como ombro amigo, ou de tocar alguns corações partidos com uma quantidade surpreendente de compreensão que vai além do humor inconstante e os disparos de ironia e sarcasmo que às vezes antecedem a minha verdadeira irracionalidade. E talvez seja por isto, também, que eu tenho o dom de não encontrar as coisas que procuro quando quero. Pensando bem, tudo que eu sempre quis na vida encontrou seu caminho até mim quando eu estava distraído com alguma outra coisa provavelmente bem menos importante, enquanto quanto mais eu pareço me focar em algo que acredito que preciso, a linha de chegada parece mudar de lugar cada vez mais. Tudo tem a sua hora; seja para a felicidade, seja para a lógica da minha ineficaz linha de raciocínio. Estou sendo protegido pela minha inconstância, e nem tenho noção disto.
Foi através da minha bagunça, e os problemas que arrumei por causa dela, que algumas das melhores coisas do mundo agora fazem parte do meu cotidiano. Desde os amigos que fiz enquanto bêbado, os lugares que visitei quando nem prestei atenção no caminho, as conversas definitivas que se iniciaram depois de um “oi” mal dado, até os sonhos que conquistei quando nem considerava mais as chances de que eu poderia alcançá-los. Tudo isso e muito mais sem um pingo de bom senso ou alguma razão sensata que explique. Sem planos ou até mesmo noção de conseguir explicar ao certo como cheguei até aqui. Honestamente, confesso que sobrevivi grande parte da minha vida com base em “Sei lá...”, “Vai que, né...” e “Por que não?”. E fui em frente, sem saber aonde iria chegar. Fui torto, mas deu certo.
E acho que ainda funciona – senão, porque você ainda estaria aí, tentando acompanhar toda a minha anarquia?

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Sine qua non


Eu já me perdi muito nesta vida. Tantas vezes, aliás, que cheguei a considerar a hipótese de que eu havia deixado de ser eu, e havia me tornado uma versão abstrata de mim, ausente de fatores essenciais cujos quais eu sempre considerei fundamentais para a pessoa que eu pensei que fosse. E foram nesses momentos definitivos em que eu percebia o terror e a angústia de ter que refazer meus passos e minhas decisões, com esperança de que assim seria capaz de voltar ao meu lugar e a me sentir como eu mesmo de novo. Voltar a escrever foi um pouco assim, isto é, se eu não me sentisse tão seguro agora para dizer que depois de cambalear um pouco e esperar que a confusão inicial dos meus pensamentos logo se ajeitasse de modo que fosse possível descrevê-los e revê-los em forma de palavras – e até que não ficaram tão ruins.
Foram em momentos assustadores como a primeira noite em que passei em meu primeiro apartamento, depois de sair de casa e me deparar com a imensidão e a profundidade do mundo real, ou o primeiro dia em que saí deste novo lar depois que vi um grande amor desaparecer diante dos meus olhos, em que senti a mesma coisa: é preciso começar de novo agora. Disseram que preciso seguir em frente, porque não tem como voltar atrás. Só esqueceram de me dizer para onde eu deveria ir e o pior; que haveriam mais curvas na estrada do que eu podia imaginar. Felizmente, eu recuperei meu fôlego e segui adiante, e lentamente consegui enxergar novamente pequenos fragmentos de mim que achava que jamais encontraria de novo, como a força para acreditar no amor, a capacidade de ver o bem nas pessoas e ajudá-las sem medo de que pudessem se esquecer de mim depois, ou até mesmo as músicas que costumava ouvir pelas ruas com os fones de ouvido estourando melodias dentro de mim, trazendo ritmo e graça às minhas fantasias e um pouco mais de esplendor aos meus sonhos. Ah, sim. Até os meus sonhos voltaram, e eu até havia me esquecido o quanto senti falta deles. Talvez a falta deles fosse o vazio que por tempos eu senti dentro de mim, como se algum pedaço ainda estivesse faltando para recompor minha personalidade de uma vez por todas. Pois eles voltaram, e o amanhã nunca pareceu tão perto quanto agora.
Olhando em retrospectiva, talvez eu não tenha me tornado tão bom em recomeços quanto eu gostaria de pensar. Existe uma expressão em latim, sine qua non, cuja tradução literal significa, “sem ao qual não pode deixar de ser”, e talvez todas essas perdas e reencontros comigo mesmo possam ser explicados assim: apesar de tudo, eu nunca realmente deixei de ser quem eu sou. Porque se tivesse mesmo me ausentado, como poderia ter encontrado o caminho de volta? Parece simplório dizer que as pessoas podem deixar de ser quem são, mas vivi o bastante para concluir que algumas realmente se perdem e jamais voltam – às vezes para nós, e às vezes para elas mesmas. Mas quanto a mim, acho que sempre estive aqui mesmo durante os altos e baixos, os recomeços e as crises existenciais que vieram com eles. Eu jamais poderia deixar de existir se não fosse exatamente por todas as coisas que me trouxeram de volta. Eu jamais parti; apenas perdi o fôlego por algumas partes do caminho.
Escrever sempre foi o que me ajudou a não me perder, pois quando as coisas lá fora pareciam tumultuadas ou rápidas demais para que eu pudesse suportar, sempre foi muito útil ser capaz de procurar em meu arquivos e históricos os temas que me permitiam espalhar meus pensamentos pelo chão e reconstruí-los em forma de palavras. Sempre me considerei muito fiel às palavras, porque sempre soube o quanto elas poderiam fazer por mim quando eu me sentisse desamparado, até mesmo quando não eram as minhas próprias palavras. As pessoas ao meu redor também sempre souberam como me amparar através das vírgulas e travessões certos, e às vezes até sabiam bem melhor do que eu quando era a hora de um ponto final definitivo em uma frase que já havia se estendido demais, cujo significado parecia cada vez mais distante.
Então, este sou eu. Nem o velho Igor, nem o novo; apenas o mesmo de sempre, que aprendeu a recomeçar, amadureceu a cabeça e encontrou forças para continuar caminhando pelas ruas do mundo real, mas que nunca deixou de ser quem é; o estudante torto porém esforçado, o amigo dedicado porém preocupado, o filho mimado porém compreensivo, o apaixonado constante... Sem todos estes fragmentos, músicas, lembranças e cicatrizes, eu não poderia ser capaz de existir. Este sou eu, e sempre fui eu. Sine qua non por amor.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Os arrependimentos certos


Dois anos atrás, eu costumava escrever muito sobre sonhos. Sonhos, planos, esperanças, amores não correspondidos cujos quais eu ainda gostaria que se tornassem realidade, dentre outras mil coisas que eu costumava dizer que queria muito, mas pra dizer a verdade nunca dei sequer um passo adiante para correr atrás. O que é curioso porque, há dois anos, eu costumava escrever muito também sobre arrependimentos e como a vida poderia ser melhor com eles se você se arriscasse mais, porque é melhor contar histórias do que frustrações.
Dois anos atrás, eu era pura teoria. Não que hoje eu seja uma pessoa muito diferente, mas ao menos eu tenho uma história ou outra para compartilhar em uma mesa de bar ou uma conversa entre amigos encostados em algum corredor. O que me separava da vida há dois anos era o medo de tentar. E o que me separa da vida hoje? Ter tentado demais, enquanto só o que restou foi um gosto amargo na boca e uma leve paranoia acerca das intenções dos outros que se aproximam demais sem que eu entenda exatamente o porquê.
Porque a verdade é que entre tantas saídas, apresentações, descobertas e reviravoltas, a gente cansa e fica com um pé atrás quando alguém nos convida para tentar algo novo... De novo. E com isso o medo reaparece e toma conta novamente do seu antigo lugar, enquanto nos impede de sair do nosso. Mas eu cansei de estar cansado, e tenho medo de continuar tendo medo.
Por isso eu decidi que desta vez, dois anos depois, as coisas vão ser diferentes. Admito que perdi muitos planos e sonhos pelo caminho, mas o básico continua comigo; aquelas histórias sobre como não devemos deixar de acreditar em nós mesmos, que quando dói a ponto de morrer a gente sobrevive, que toda a felicidade que desejo está a cem lágrimas de distância... Eu ainda sou eu, só um pouco mais machucado, porém disposto a ressuscitar aquela essência que sempre me ajudou a levantar e não desistir de tudo que eu sempre quis desta vida.
O que passou, passou. E de agora em diante, o que der errado será motivo de risadas e não só tragédias descritas em um pedaço virtual da minha alma que exponho aqui para me sentir mais leve e menos sozinho. E chega de tratar tudo isso como uma roleta-russa; o segredo da vida é arriscar sim, mas saber também até onde você aguenta ir, e em quais momentos você vai precisar de ajuda. Ainda levarei muitas histórias para minhas mesas de bar, mas sempre com um sorriso no rosto. Porque quando eu as compartilhar com vocês, saberei de coração que foram os arrependimentos certos.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

De volta pro amanhã


Eu me lembro da última vez em que realizei o tal ritual de sentar, pensar, sentir e deixar as palavras que viessem em mente serem derramadas em uma folha virtual, sempre com esperança de que elas fizessem algum sentido e, quem sabe, até ficassem bonitas o bastante para poderem ser compartilhadas com outras pessoas que poderiam sentir o mesmo. Porque era bom conseguir transformar uma agonia em compreensão, ou um olho encharcado de lágrimas em um ombro amigo, mesmo que abstrato e à distância. Mas eu parei.
Há dois anos eu decidi que falava muito, escrevia muito, até sentia muito, mas vivia pouco. Escrevia intensamente como quem já havia tido todas as experiências possíveis e sentiu todas as emoções que alguém poderia imaginar, quando na verdade arrastava uma vida escancaradamente vazia. Como um pequeno príncipe um dia disse, era tudo muito bonito, mas sem muita utilidade. E como viver leva tempo, esforço, paciência e companhia, eu decidi que não poderia dar conta de sair por aí mundo afora viver o máximo que podia, e ainda voltar e descrever tudo com o mesmo tom filosófico ou as mesmas metáforas avoadas que eu costumava usar para sobreviver. Eu estava perdido e as palavras não pareciam mais capazes de me mostrar o caminho a seguir. Eu precisei sair e parar de pensar tanto em como descreveria algo, para realmente viver algo.
Só que, dois anos depois, eu achei que não me sentiria mais tão perdido a ponto de precisar procurar uma base para recuperar o fôlego e descansar um pouco antes de continuar seguindo em frente. Mas deu no que deu, não é mesmo, Igor? E aqui está você de novo, exatamente aonde tudo começou. Admito que tenho algumas experiências a mais para compartilhar desta vez, sem contar algumas dores no coração que foram mais profundas do que eu jamais havia imaginado que poderiam acontecer. Dói, faz chorar, às vezes faz até repensar seu dia e até a sua vida, mas a literatura que vem disso... Ah, faz quase valer a pena. Isto é, aquela ideia de um livro surgir ainda não se perdeu; só ficou jogada pelos cantos, resistindo ao tempo, aos desapegos e a correria do dia a dia com base em promessas de que um dia...
Bom, eu voltei. Quer dizer, eu acho. Mas enquanto não tiver certeza, talvez seja melhor continuar por aqui. Talvez as palavras, ou alguém que invista seu tempo para revisá-las, possa me apontar o caminho a seguir. Enquanto isso, lá vamos nós de novo. Eu não disse que iria adorar o amanhã a toa.