terça-feira, 26 de novembro de 2013

Os 5 estágios do Roacutan


            Olá. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sou um alcoólatra. Muito pelo contrário, sou um apreciador, um namorador, um profissional em se tratando de bebidas. Sem preconceito, horário ou frescura com absolutamente nenhuma delas, acredito que existe sim o paraíso, e acredito que o harém particular que está reservado para mim certamente tem open bar. Já tive bebidas de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, assim como todas as ressacas que eram possíveis de se tirar delas. Mas todo esse amor, essa dedicação e essas dores de cabeça há muito deixaram de fazer parte do meu dia a dia, tudo por uma causa maior. Até mesmo maior do que churrascos de aniversário, camarotes com bebida liberada e brindes à meia noite depois de um dia difícil. Maior do que o meu gosto pelos drinques, coquetéis e chopes, eu optei por mergulhar de cabeça numa tentativa de aprimorar a mim mesmo, em vês de continuar me afogando na mesmisse da minha melancolia existencial.
            Eu gosto de beber. Demais, até. Não ao ponto de precisar recorrer à reuniões ou grupos de apoio, mas o bastante para topar fazer companhia para você caso queira sair para tomar alguma coisa, digamos assim, agora. É, agora! Larga tudo e vamos atrás do primeiro bar que encontrarmos. Vai na frente que eu te sigo e já pede uma cerveja e dois copos. E avisa o pessoal que a gente tá aqui e veja quem mais quer aparecer, porque nós temos muita conversa pra colocar em dia e melhor do que juntar os amigos ao redor de uma mesa de bar, é se cada um se comprometer a pagar uma rodada. Beber deixa a vida mais suave, mais tranquila, mais fácil de engolir. Por isso foi tão difícil me adaptar à seca que os antibióticos me causaram. Todos os 540 antibióticos, tomados 3 de cada vez, durante 180 dias. Antes de começar tudo isso, eu ouvi muito falar de outros ex-pacientes sobre como o tratamento com Roacutan vale mesmo a pena, e que fariam de novo se precisasse porque “o que são 6 meses em comparação ao resto da sua vida?”. Cá entre nós, eu não sei se faria de novo, e admito que me posiciono assim porque minha peregrinação pelo deserto da abstinência ainda não terminou, mas quanto a um ponto eu definitivamente concordo, quando me avisaram que não seria fácil. É, criançada. Não. É. Fácil.
            Imagine tirar qualquer coisa que faz parte da sua vida hoje e deixar em espera por seis meses. Independente se foi por trocar bebida por antibióticos, comer alucinadamente por uma dieta controlada, transar loucamente por um pouco de castidade e sossego (o que também pode ser ocasionado por antibióticos, dependendo da onde você andou se metendo – literalmente), a falta disso vai te deixar louco. Quer dizer, não imediatamente. Logicamente você vai dizer que isso não é tão importante assim, que você não depende disso, que existe algo chamado força de vontade que separa pessoas fracas e passivas de grandes empreendedores e gestores da sua própria vida, e que 6 meses nem é tanto tempo assim. Aham, ok. Chame do que quiser. Falando por experiência, aprendi que isso se chama negação.
            Quando você se dá conta exatamente do que abriu mão e do tempo que vai demorar até que você beba, coma, trepe ou goze daquele prazer que renunciou, vem a raiva. O rompante de som e fúria gritantes que fazem você alienar pessoas, cometer loucuras e amaldiçoar a existência de tudo e todos ao seu redor. Enquanto admite, silenciosamente, que tudo aquilo passaria se você pudesse tomar uma dose de gim agora, ou se um caminhão de sorvetes tombasse na frente da sua casa, ou se a sua ex te ligasse se sentindo sozinha e carente. Eis que surge a brilhante ideia de tentar tirar algo de bom de uma situação bosta (quem nunca?), e que talvez exista um jeito de alcançar alguma barganha para conseguir o que a gente tanto quer, sem desistir do que a gente tanto almeja também. Talvez se eu der só uma bicadinha desse chope, ou uma lambida na colher do brigadeiro, ou só uma bicadinha ou uma lambidinha... Enfim, você entendeu.

            Quanto tudo falha, a esperança foge pelos nossos dedos e o auge da abstinência nos possui, os dias se tornam cinzentos, o som da felicidade alheia se torna um barulho infernal e sair de casa para fazer qualquer coisa parece sem sentido. Olá, depressão, há quanto tempo! Sei que vem sempre aqui, só que agora não parece que vai embora tão cedo. Uma dose de vodka me salvaria. Um pudim me traria redenção. Um beijo me ressuscitaria. Se não tiver mais nada, só a vodka serve. Não. É. Fácil. Só que quando se está no fundo do poço, algo incrível acontece. Uma hora ou outra, você vai olhar ao redor e perceber que não há pra onde ir a não ser para cima de novo. Abrace o desespero. Acomode-se com a desgraça. Acolha a desesperança. Quem está na chuva é pra se molhar! O que é um peido, não é mesmo, pra quem está só com o nariz pra fora da merda? Eu acredito solenemente que não é a esperança, mas a sensação de não ter mais nada a perder que salva milhares de vidas por ano, especialmente aquelas que contam os dias e as cartelas de antibióticos que ainda faltam para passar por elas. Meu nome é Igor Costa Moresca, e este sou eu aceitando o fato de que não posso beber. E, sinceramente, realmente não há nada demais com isso.


         Eu demorei seis meses para me dar conta disto, e não digo que tenho um problema, mas estive perigosamente perto de apoiar toda a minha personalidade em um copo de cachaça. Como se toda a minha essência, completa com minhas qualidades, defeitos e excentricidades que fazem do Igor o Igor, pudesse ser engarrafada, rotulada e vendida a preço de custo em um mercado, bar ou padaria próxima de você. Eu gosto de beber, mas eu gosto ainda mais de mim. E sobriedade não é o fim do mundo; muito pelo contrário, é possível continuar bebendo e sendo feliz, e ainda por cima se lembrar de tudo que você fez na noite anterior. Eu tenho sido muito feliz com café, tereré, suco de laranja e com a descoberta incrível de que eu sou muito mais que tudo isso. Mais do que um drinque, mais do que uma dose de uísque, mais do que um brinde à meia noite. Agora eu só espero não perder noção disso tudo quando os antibióticos acabarem e eu voltar à levar a vida de bar em bar, mas não me preocupo muito. Se tem algo que eu aprendi nos últimos seis meses, é que nada nem ninguém na minha vida depende de cerveja para existir.
            Mas eu ainda digo que não, eu não faria isso de novo. Faltam 17 dias.

6 comentários:

  1. Acho q vc é álcoolotra kkk mas tamo junto! É complicado mesmo

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  2. Igor, eu estou passando por todas as etapas que vc citou, aliás, a aceitação é uma que acredito que demore um pouco a vir. Estou no terceiro mês de tratamento(serão 8 no total) e a abstinência do álcool me levou a abrir mão de certos círculos sociais, e isso sim está sendo foda. Espero alcançar esse equilíbrio logo, mas mais do que desejo isso, desejo o fim do tratamento!
    Ps: Também não sei se faria de novo.

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  3. Belo texto. É admirável suas força de vontade e determinação, principalmente por ser em prol de uma melhor auto-confiança. Apenas uma ressalva: o Roacutan não é antibiótico.

    Não obstante, bom tratamento.

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  4. E aquela sensação quando você passa em frente ao ''podrão'' e sente um cheiro de bacon? Não resistia auihiushiushiua, comi pra cacete..Nariz sangrava, cuspia sangue, tinha olhos de maconheira, chorava atoa, discutia até com minha cachorra, mas te digo, faria tudo novamente, passaria por tudo tudo tudo dnv. Nada no mundo paga, quando alguém me diz: Rhayane, é você ? Esteticamente hoje eu sou feliz. ..Chapisco, Bob Esponja, roseira e choquito, já não fazem parte da minha vida. Completo 3 meses do fim do meu tratamento e estou muito feliz e realizada.

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  5. Oie tbm estou fazendo o tratamento, estou apenas no 5° dia e já estou pensando no primeiro final de semana sem as farras e bebidas com os amigos, não quero desfazer dos meus ciclos de amizades, mais lembro que não será as mesmas conversar e brincadeiras, tenho que ser forte pois será uma solução para um problema que esta me incomodando muito.
    Alguém já tomou cerveja sem álcool durante o tratamento?

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  6. Obrigada pelo belíssimo texto. Entrei na net pra ver se podia beber cerveja sem álcool e me deparei com esse tapa na cara. Desisti então de tomar cerveja até mesmo sem álcool. Apelidos pejorativos nunca mais! Estou no 7º comprimido de 240 e vai valer muito a pena.

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