domingo, 15 de outubro de 2017

Deixe ela ir


Eu sinceramente esperava que não chegasse a esse ponto, mas às vezes acontece. Não importa quantas vezes ao dia você pense nela. Ou quantas músicas parecem ter sido feitas só para vocês. Ou as noites passadas em claro, porque não havia o que fazer a não ser esperar o sol nascer para, quem sabe, encontrá-la de novo por aí. E a verdade é que talvez você a encontre mesmo; só não será mais como antes. Dessa vez vocês serão estranhos. Você não tem mais nada a ver com ela. E ela... Bom...

Ela não é sua.

***

Aos vinte e poucos anos, eu confesso que acreditava que minha vida estaria mais organizada do que isso. Talvez não financeiramente... E ao julgar pelas minhas opções profissionais, talvez nunca financeiramente. E quem sabe não precisaria envolver um apartamento só meu de novo. Com o tempo você aprende que fazer parte de uma família significa que você jamais estará sozinho... Lide com isso. Mas, emocionalmente, ah... Eis aqui a eterna variável da equação. E por “variável”, entenda como a série de primeiros encontros, segundas intenções e terceiras pessoas às quais me refiro em textos como esse, quando as coisas entre nós não dão certo.

Por que não deram certo? Era só isso que eu queria saber. Você pode não se importar mais comigo, ou com o que faço ou deixo de fazer por aí. Pode até não dar a mínima para quem se arrisca a me dar uma chance, mesmo em meio à desconstrução que você deixou para trás. Mas seria injusto da minha parte dizer que é tudo culpa sua – claro que não é. Relacionamentos começam e terminam do mesmo jeito: com um consenso entre duas pessoas. Mesmo que o consenso seja obrigatório, no fim.

Eu não posso obrigá-la a ficar comigo. E não posso me obrigar a fingir que você não existe. Afinal, você ainda está por aí; freqüentando os mesmos bares, passando pelas mesmas ruas, falando com as mesmas pessoas que eu. Mas há uma coisa que você não pode me impedir de fazer: sentir a sua falta. E é algo que eu decidi que faria, por mim, até que não sobre mais nada para sentir. Você foi embora, mas não desapareceu.

Nós tínhamos tudo. O companheirismo, a química, as promessas... E é possível que a minha frustração esteja mesmo na sua partida, da noite pro dia, que deixou interrogações abertas até agora. Foi algo que eu fiz? Algo que não fiz? Ou eu simplesmente não era “o cara” que você procurava?  Eu não sei. E se depender de você, eu nunca saberei.

Houve um momento em que você faria qualquer coisa por mim. Contava os minutos para me encontrar. Confessava que nunca havia encontrado alguém como eu. E se entregou sem medo ou culpa alguma, porque eu estava lá para te abraçar. E foi bom. Muito bom. Eterno, inclusive, enquanto durou. Até que em algum momento similar àqueles, acabou para você. E eu preciso aprender a lidar com isso de uma vez por todas. Precisa acabar para mim também.

Eu quero as mãos dadas no shopping. As mensagens de “bom dia” e “boa noite”. Os lembretes do que preciso comprar no mercado a caminho de casa. Os pitacos enquanto escolho qual vinho iremos beber. As implicâncias com o meu jeito grosso de falar às vezes. As alfinetadas quando você percebe que não estou falando direito com a minha mãe ao telefone. Os jantares à luz de velas. Os almoços de domingo com a sua família. As conversas sussurradas em corredores tumultuados. As pernas entrelaçadas debaixo do edredom. O meu nome em sua voz ao pé do ouvido. O amor... Eu quero o amor. E queria que simbolizasse você.

***

Eu sinceramente esperava que não chegasse a esse ponto, mas aconteceu. Acabou. Eu não quero mais você. Só o que restam são os seus defeitos, suas desavenças, suas inconstâncias, suas más companhias, suas manias irritantes, e o símbolo de vários outros sentimentos que nada tem a ver com amor. É triste, mas aqui estamos... Bom, ao menos, eu estou. Você nem chegará perto desse texto. Nem ninguém próximo de você. Estou sozinho, emoldurando o que restou de nós para deixar guardado aqui. Como lembrete de que, quando foi bom, foi incrível. Você gostava assim. Mas quando o amor acaba, as lembranças se desprendem, os beijos parecem nunca ter existido, as promessas são esquecidas, e tudo que um dia houve de bom entre vocês enfim fica para trás, só resta uma coisa a fazer.

Deixe ela ir.

domingo, 8 de outubro de 2017

Eu sei que te amo


Diz que é verdade. Nós precisamos conversar. Ou talvez, só eu precise. Mas algumas coisas precisam ser ditas, e só o que eu posso fazer é esperar que cheguem até você. Mas conhecendo você como eu conheço, aposto que chegarão sim. E é exatamente esse o ponto: por que não deixar de me acompanhar de longe, e admite que sua vontade é mesmo andar ao meu lado. De mãos dadas no shopping, e tudo mais.

Você sempre foi péssima em negar as aparências, meu bem. E é por isso que se mantém próxima o bastante para cuidar do que ando fazendo, mas longe o suficiente para tentar mostrar ao mundo que você não quer nada comigo. E me recrimina, me odeia, me xinga, me ignora e finge que não existo. Passa reto por mim quando nos encontramos, mas foca em mim quando estamos bebendo no mesmo bar. Tentando, em vão, esquecer um ao outro.

Eu preciso do teu beijo. Era isso que eu pensava, desde aquela primeira conversa. Lembra de como eu chamei a sua atenção? Ninguém havia te atraído tão instantaneamente antes. Ninguém nunca nem te deu flores antes. Em vez disso, te deixaram acostumada com frases feitas, clichês e chavões direcionados a levá-la para a cama mais próxima. Eu não. Eu queria conhecê-la. Decifrá-la. Senti-la. Revivê-la. E planejei cada passo, ensaiei cada fala, porque queria que tudo fosse perfeito. Um romance que entregasse tudo que você merecia receber.

Chega de mentiras. Como você estava antes de mim? A vida ia bem? As coisas estavam em ordem? E o coração? Estava disposto a acolher alguém de novo, ou já estava partido demais para acreditar que qualquer um que surgisse optaria por realmente ficar? E agora que estou aqui, pairando sem rumo e pensando somente em você, está melhor? Que mal havia em admitir que essa vida era mesmo o que você queria?

Pra que viver fingindo? Lembra de como você estava ansiosa para me encontrar pela primeira vez? Lembra de como contamos os minutos do dia até aquele momento chegar? Você se encolheu no meu abraço, me enfeitiçou com o seu perfume, e eu confirmei o que já suspeitava há dias: eu era seu. E você, minha linda, admita: também queria ser minha.

Você se afasta e se defende de mim, porque é essa possessão te incomoda. E os sentimentos que você não sentia há tempos, porque estava acostumada com decepções e domingos chuvosos a sós debaixo do edredom. E como “ser de alguém” vai contra tudo que você acredita. Tudo que está convicta a não aceitar. Só tente se lembrar, meu anjo, que eu nunca quis roubar sua liberdade. Só queria mesmo voar com você, porque eu também preciso ser salvo dessa vida.

Essa loucura em dizer que não te quero já foi longe demais. Eu sei o que sinto por você, e é o que senti desde a primeira vez em que encontrei seu olhar. E ouvi a sua risada. E desci minhas mãos pela sua cintura. E escutei você dizer que queria mais, e mais... E eu prometi que te daria tudo que quisesse, tudo que pudesse, porque era você.

Eu te quero mais que tudo. Mesmo sabendo que eu posso estar errado. Mesmo pensando que você realmente não quer me encontrar. Mesmo aceitando que sejam só coincidências. Mesmo dizendo o contrário em voz alta por aí. Mesmo querendo te enxergar em cada multidão que passa por mim.

Quando eu digo que deixei de te amar, é por mágoa. Pela decepção que tive ao ver que você achava mesmo que eu poderia de fato ser um cara controlador, possessivo, machista, insensato, disfuncional, carente, ciumento e amargo, que te disseram que eu sou. Você sabe que não é verdade. E eu sei que tudo isso serve como uma desculpa muito próspera para justificar uma saída à francesa da minha vida. E um modo muito eficaz de camuflar todo esse seu medo. Essa ansiedade de ser feliz, que te desespera quando chega muito perto de ser realizada.

Faça o que quiser de mim. Por ser a mulher mais fascinante, bela, engraçada, inteligente, louca, desvairada, impulsiva, e apaixonante que eu já tive a sorte de encontrar. Como eu poderia desistir assim, enquanto ainda a vejo vagando por aí. Com o olhar desconcertado de quem sabe o que perdeu, mas não sabe como recuperar? Bom, coração, essa é a sua chance. Eu ainda estou aqui: honestamente, loucamente, profundamente apaixonado por você. Só quero ouvir você dizer que sim!

Agora, você pode admitir que tem saudade, ou continuar disfarçando as evidências. Quanto a mim, não dá mais pra enganar meu coração.

sábado, 23 de setembro de 2017

O amor não vem do Tinder


O amor não vem do Tinder. Não é algo que irá surgir em uma primeira conversa com alguém novo. Ou na primeira vez em que vocês criarem coragem o suficiente para se encontrarem. Ou quando você arrisca segurar a mão dela em um momento descontraído. Ou durante aquele beijo, o primeiro beijo, que te enche de sonhos e promessas. Não. O amor não vem disso.
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O amor não vem do cineminha. Não irá aparecer magicamente na sintonia de vocês ao escolherem o mesmo filme. Ou em concordarem que um pega a pipoca e o refrigerante, enquanto o outro tenta encontrar os ingressos no bolso. Também não é naquele primeiro momento após as luzes se apagarem, quando ela encosta a cabeça no seu ombro. E você a abraça, querendo dizer que ela pode se sentir confortável ali, porque você irá apoiá-la. O amor não surge na cena de sexo explícito, ou de conflito frustrante, e muito menos do final feliz. O amor não acompanha os créditos que sobem na tela quando as luzes se acendem de novo.
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O amor não é posto à mesa em um jantar romântico. Não acompanha o cardápio que você preparou cuidadosamente, pensando nos temperos que ela gosta e no vinho que vocês provaram quando se conheceram naquele bistrô no centro da cidade. O amor não está nos talheres alinhados, no mise en place, no decantador, nos pratos fundos ou nas taças rasas. O amor também não vem com a sobremesa, ou com os cumprimentos ao chef, ou com aquela provocação boba sobre o quanto ela está ficando mal acostumada, e você terá que continuar se superando se quiser agradar. O amor, definitivamente, não está na cozinha bagunçada e na louça suja que fica para trás.
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O amor não vem à tona quando você conhece os pais dela. Não se torna visível só porque o pai dela não vai com a sua cara, mas você tenta causar uma boa impressão por ela. Por vocês. O sentimento não é descoberto quando você prova a comida da mãe dela, e é pego desprevenido quando a sogra pergunta quais são as suas intenções com a filha dela enquanto você engole, e quase engasga com o risoto. O amor não é posto à prova quando o irmão mais velho dela te encara do outro lado da mesa, porque sabe o que você está fazendo com a irmãzinha dele. O amor não vem até vocês quando você promete que estarão lá de novo no próximo domingo.
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O amor não vem do sexo. Entre roupas jogadas aos cantos, suspiradas profundas, suor escorrendo, gemidos baixinhos, lençóis repuxados, pernas embaralhadas, beijos com mordidas no lábio inferior, sacanagens ao pé do ouvido, pressão, fricção, tesão, emoção, tapas, puxadas de cabelo, pegada, mordidas, arranhões e explosões... O amor não está entre o seu corpo e o dela. Ou no fogo que surge enquanto estão juntos. Ou no silêncio que paira quando se separam, esgotados, mas já pensando na próxima vez.
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O amor não vem nas notificações do seu celular, na forma de um “bom dia” ou “boa noite”. O amor não cabe no seu espaço de armazenamento, nem no seu cartão de memória, nem no seu HD externo. O amor também não está na nuvem ou no drive. O amor não está na sua linha do tempo, no seu feed de notícias, nos seus stories mais recentes, na sua atualização de status, ou guardado na sua galeria de imagens. O amor também não pode ser enviado, zipado, compactado, decupado, transferido ou compartilhado. O amor não está disponível para Android ou iOS.
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O amor vem de você. De quem você é. E mais ainda, da pessoa que você ainda procura ser. O amor vem da educação que os seus pais te deram, e do quanto você a passa adiante. O amor vem da sua preocupação com aquele velho amigo com quem você não fala há algum tempo. O amor vem dos gestos que você pratica sem pensar no que pode ganhar em troca. O amor vem do quanto a sua mãe fez por você, colocando a si mesma em segundo lugar, para fazer você sorrir. O amor vem do que o seu pai consegue te dar, quando dizer “eu te amo” não é o forte dele. O amor vem da sua irmã pedindo ajuda com o dever de casa, porque quer passar tempo com você. O amor vem da sua capacidade de abrir os olhos e enxergá-lo ao seu redor, nas pequenas vitórias do dia a dia. O amor vem do seu caráter. Do quanto você tem noção de quem é, do que é capaz, de tudo que já passou para chegar até aqui, e do que está fazendo para alcançar aonde mais deseja chegar. O amor está aí. Ela não o levou embora. Ele não roubou de ti a capacidade de acreditar em outra pessoa. O amor só depende de você, e só existe contigo. 

E se você finalmente descobrir isso, talvez possa ter algo em comum com alguém que também sabe de onde o amor vem. E, juntos, quem sabe, possam descobrir para onde ele vai.

domingo, 10 de setembro de 2017

Os arrependimentos certos

Entre doses de uísque, um amigo me disse algo marcante.

- Igor, se você se arrependeu de algo nessa vida, você simplesmente não viveu.

E eu fiquei com isso na cabeça por alguns dias. Porque se há algo que eu coleciono nessa vida, além de comentários sarcásticos e ironias do destino, são arrependimentos. Independente da sua natureza; se nasceram de algo que optei por fazer sem pensar direito, ou algo que escolhi não fazer por pensar demais. Seja como for, eu os carrego comigo. Assim como o meu amigo carregou no dia seguinte, após as doses de uísque.

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A vida é um grande, caótico ciclo de tentativa e erro. Por muito tempo eu acreditei que havia algo além disso nos guiando. Fosse o destino, ou as teorias sobre a pessoa certa no lugar certo e na hora certa. Sempre foi demais pra mim acreditar na noção de que não há nada a não ser desordem e sorte. Como se tudo não passasse de um jogo de tetris, onde às vezes as peças se encaixam perfeitamente, às vezes não.

A vida não é um jogo, nem uma completa bagunça, nem um esquema cujo segredo nós devemos procurar. Há quem passe a vida inteira procurando respostas sem nunca perceber que estava fazendo as perguntas erradas o tempo todo.

Eu não sei se ainda acredito em destino. Ou na pessoa certa, e em um timing que colabore conosco. Por muito tempo carreguei alguns sonhos desse tipo comigo: sobre a última garota certa, o amor da sua vida, a teoria das mãos dadas no shopping, os clichês... E ainda estou aqui.

Claro, eu não sou mais o mesmo cara que escreveu esses textos. Assim como não sou o mesmo cara que chegou aqui, dois anos atrás. Nós mudamos, crescemos, erramos e aprendemos. Evoluímos, mesmo que o resultado nos decepcione, o que só acaba servindo como motivador para nos transformarmos de novo. E entre um texto e outro, uma rua sem saída e outra, uma garota e outra, eu errei. Muito. E é nisso que pensei quando meu amigo bêbado disse sua teoria sobre a vida, arrependimentos e etc.

Sim, eu estava bêbado também. Trabalhar no dia seguinte foi difícil. Mas com o tempo e os erros, eu aprendi a usar alguns macetes: manter-se hidratado, carregar Engov comigo sempre, treinar a fazer o número quatro com a perna sempre para exercitar o equilíbrio... Alguns truques eu já domino, e só foram possíveis quando me pus à prova, sem saber se daria certo ou não. Essa é a graça das bebedeiras infames, dos relacionamentos errados, e todas as outras experiências de vida que nós acumulamos com o passar dos invernos.

Dá pra acreditar que já estamos quase na primavera? Não sei como foi pra você, mas o meu inverno foi difícil...

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Eu já apostei corrida bêbado em uma cervejada, tropecei e rasguei as calças em um estacionamento. Já fui convidado a ser retirado de um pub por dois seguranças depois que invadi o palco no meio de um show. Já estraguei uma festa surpresa que organizaram para mim, dizendo que eu já sabia dela. Já abandonei a faculdade de Jornalismo, acreditando que aquele não era o curso para mim. Já disse que nunca mais falaria com meus pais, ou com minha irmã, porque eles fizeram algo que me magoou demais. E mais vezes do que eu gostaria de admitir, eu já confessei estar apaixonado por alguém, mesmo sabendo que ela não sentia o mesmo.

Eu já fiz todas essas coisas. Agora existem histórias embaraçosas sobre mim, e fraturas no meu coração que talvez nunca realmente se curem. Mas eu também aprendi com elas, chorei, e cresci. Não é porque algo não deu certo, que não teve valor. Não estou te dizendo que era algo pelo qual você precisava passar, como se estivesse escrito nas estrelas. Mas a experiência, os esforços dedicados, e a vida que passou pelas suas veias, estarão contigo para sempre. Eternamente, enquanto nós estivermos aqui.

O segredo não é evitar os arrependimentos. Isso é impossível. O melhor que nós podemos fazer, no final das contas, é acabar com os arrependimentos certos.

domingo, 3 de setembro de 2017

8/80

Existem dois grandes medos que lideram a vida de um escritor diante de uma folha em branco. Ele pode começar aos poucos e, palavra por palavra, ponto a ponto, acabar submetendo mais da sua alma do que esperava. Ou, então, enrolar por períodos, parágrafos e pontuações infames, até descobrir que realmente não havia nada que precisava ser escrito. Quanto a mim, que ainda estou tentando descobrir qual caminho quero seguir para tentar chegar ao que eu acredito que deva ser dito, eu não sabia por onde começar. Uma indecisão que, por si só, resumiu exatamente o conflito que aqui reside: a insustentável leveza dos meios-termos. A noção de que as coisas, as pessoas e os lugares devem ser aproveitados ao máximo, ou então não há pra quê dar uma chance a eles. Enquanto a vida que pode ser vivida em equilíbrio entre um extremo e outro parece morna demais para valer a pena.

Para você que está lendo e pensando “Uau, eu sou muito assim, 8 ou 80!”, pare. Você não é assim. Você nem faz ideia do que é ser assim. Mas este sou eu, caindo em hábitos extremos mais uma vez, pra variar. Esvaziando o valor do que outras pessoas pensam, por já me considerar a pessoa mais quebrada do mundo. E também não há lugar no pódio para você. As outras posições já estão ocupadas pelas pessoas que eu mesmo quebrei pelo caminho.

Eu penso nisso todos os dias, o tempo todo. Desde a primeira xícara de café do dia, até os questionamentos noturnos sobre porque estou indo dormir sozinho. Alguns anos atrás eu tive um pensamento parecido, envolvendo meu repúdio absoluto sobre o café com leite. Quando somos crianças, aprendemos que quem é rotulado como “café com leite” é considerado frágil, fraco, sensível. Incapaz de lidar com as regras impiedosas do jogo da vida e, por isso, precisam ter algumas vantagens especiais para conseguirem acompanhar os outros. Eu já fui a criança café-com-leite e odiei cada experiência do tipo. Mesmo quando tentava jogar conforme as regras padrões e descobria que os outros tinham razão.

Alguns feitos, e algumas situações, não foram feitas para todos nós. E não há nada de errado em admitir derrota, aceitar ajuda, ou pedir um tempo. E se não fosse pelo mundo ao nosso redor, constantemente nos lembrando de que é preciso ser sempre o melhor, independente e invencível, talvez as memórias da infância não nos assombrassem até hoje.

O meio que eu encontrei para ter paz sobre isso foi aceitar o fato de que às vezes quem faz o café, o faz muito forte. Às vezes é o meu pai, às vezes é a moça da firma, e, às vezes, a própria vida. E adicionar leite pode ajudar a suavizar as doses de cafeína que preciso para continuar operando normalmente.

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Quando eu saí de casa, minha mãe me deu o abraço mais forte do mundo. O abraço que silenciosamente me pedia para não ir embora, mas eu fui. Talvez na maior demonstração de todas sobre como toda vez em que eu me deparo com amor, meu instinto é fugir por não saber lidar com ele. Oito anos depois, minha mãe ainda me liga todos os dias, sem falta e até mesmo sem assunto. Só para saber se eu estou bem, se estou vivo... Se consegui encontrar amor por aí. Em dias mais estressantes, minha ingratidão questionava o motivo das ligações diárias. Minha mãe, a santa, sempre diz que em matéria de amor, é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. Eu acredito que ela tem razão. Eu também acredito que realmente não dou conta disso.

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A expressão “8 ou 80” vem de um game show dos anos 70. Nele, os participantes concorriam a prêmios ao responder perguntas feitas pelo apresentador. Respostas parciais valiam 8 pontos; as completas valiam 80. Para aumentar o suspense, o apresentador puxava o bordão: “É 8 ou 80?!”. E foi assim que nós aprendemos que o 8 quer dizer pouco, o 80 deve ser a nossa meta, e qualquer número entre um e outro na verdade não vale nada.

Foi assim que deixei minha ansiedade tomar o melhor de mim em relacionamentos que estavam só começando – só para afugentar o amor de vez. Similarmente, outros optei por nem dar uma chance, acreditando que a longo prazo o resultado seria apenas o eco que causaríamos na vida do outro. Ou eu sinto muito medo ou muita dúvida para arriscar te dar um “oi”, ou a gente casa semana que vem. Se não for pra ser assim, fico sozinho. Eu sei lidar com os meus extremos quando estou sozinho. A questão ultimamente tem sido: isso é algo que eu quero fazer até o extremo da minha vida?

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Quando começamos a conversar, eu te disse que existem dois grandes medos na vida de um escritor. Entre eles, eu sempre prefiro enfrentar o segundo. No mínimo, aprendo a lidar com algo que passa a semana adormecido em mim. Entre a correria do dia a dia, os deslocamentos entre um ônibus e outro, as segundas vias de boletos que preciso imprimir e pagar, e as idas ao bar que tem me mantido de pé. Agora, eu entendo também que a divisória entre o 8 e o 80 não é maniqueísta. O 8 pode ser pouco, mas não necessariamente ruim. O 80 pode ser muito, mas não necessariamente bom. São só duas pontas de um cabo de guerra onde quem decide se é possível achar o equilíbrio, ou acabar caído e arrependido em um dos lados, sou eu.

Eu não sei se encontrarei meu ponto de equilíbrio algum dia. E não sei se isso é bom ou ruim também. O que eu sei, com certeza, é que até a presente data não há como delimitar nenhum tipo de extremo para o meu 2017. Esse ano todo não tem passado de um exercício de desconstrução após o outro, onde tudo é possível e nada está a salvo. Isso não quer dizer que eu devo abandonar todo e qualquer sonho de alcançar um meio termo sobre quem eu sou, e quem eu ainda espero ser.

Só significa que, em meios termos de 2017, uma coisa é clara: não há mais regras.

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Espero que isso te ajude a entender pelo menos porque eu vivo sozinho, na defensiva, cercado de sarcasmo e armado de olhares desconfiados. Entre tudo e nada, convenhamos: é mais fácil aprender a lidar com o nada.

domingo, 27 de agosto de 2017

O deslocamento


Eu já pensei em absolutamente todas as teorias para tentar entender porque você foi embora. Talvez eu tenha sido “eu” demais, com minhas manias incorrigíveis, meus dramas épicos e minha ansiedade desenfreada. Talvez você tenha conhecido outra pessoa – alguém do seu passado, ou simplesmente alguém novo, presente e menos “eu” o bastante para te agradar. Talvez a graça da novidade tenha se dissipado com o passar dos dias, como se a rotina tivesse tornado a paixão rarefeita e à mercê dos ventos do inverno. Ou talvez, quem sabe, na pior das hipóteses e encarando o maior dos meus medos de hoje em dia, você simplesmente não estivesse disposta a ter um relacionamento. Completo com todas as manias, dramas e ansiedade que o acompanham.

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Eu não queria escrever sobre isso. Juro que não queria. Mas eu não consigo parar de pensar em você, Fulana. Não consigo deixar de me preocupar contigo, e de imaginar como seria bom tê-la em meus braços de novo, e sussurrar que tudo ficará bem. E já faz dias que penso sobre o mais posso dizer, o que mais posso escrever, que me leve de uma vez por todas para longe de você e rumo ao meu próximo desengano – já que esta parece ser a pauta recorrente de 2017. E então eu me peguei pensando em uma nova teoria, recém formulada, que talvez explique porque você se foi e, inclusive, porque eu não deveria mais pensar sobre isso. E não tem nada a ver com a sua teimosia, ou sua infantilidade, ou sua intransigência. Até porque, se você estralasse os dedos, eu estaria de volta aos seus pés. E o pior: eu estaria feliz por isso. E foi aí que eu comecei a pensar, enfim, no verdadeiro vilão. O deslocamento.

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A parte mais difícil de um relacionamento – qualquer relacionamento que seja – é e sempre será o deslocamento. E não estou falando dos clichês sobre andar de mãos dadas no shopping e seguir adiante, juntos, pela vida afora. Não. Estou falando de uma jornada mais intrínseca, impiedosa e insensata do que a dor e a delícia de uma vida a dois: a dor e a delícia de ser um só, e de se entregar ao outro para que possam, então, ser dois. E a magnitude envolvida no deslocamento é e sempre será o que desmotiva qualquer um a tentar algo com qualquer outro.

Porque eu tenho uma vida aqui, entende? Uma que existe bem antes de eu descobrir que você estava por aí. E que tem muitos, mas muitos problemas no dia a dia, que se misturam na correria da semana e que sempre me destroem a ponto de me motivar a ficar deitado, escondido da cama, vendo todas as oportunidades e experiências novas passarem por mim.

Viver é cansativo. É acordar às seis e pouco da manhã pra tomar uma ducha e um café rápidos, porque se eu parar pra pensar sobre como seria bom ter você dormindo ao meu lado, eu vou me atrasar e perder meu ônibus para o trabalho. E se eu perder o primeiro ônibus, vou perder o segundo, e o terceiro, e lá se foi toda a segunda-feira. Que chances eu tenho de recuperar o meu bom humor ao longo da semana? Sem falar que estamos no fim do mês, e mais uma vez tem mais dias do que dinheiro sobrando aqui. O que eu vou almoçar? Tem algum lugar perto daquela lanchonete em que eu posso passar pra pagar aquele boleto? Mas eu trouxe aquele boleto comigo? Não, ficou em cima da mesa, perto do café. Como faz pra emitir uma segunda via? Tem que se cadastrar no site?! Meu Deus, que empenho. E essa hora que não passa?

Entre trocas de ônibus, horários a cumprir, trabalhos a serem feitos, aulas que não posso perder, amigos que preciso rever, familiares que preciso cuidar, mensagens que devo responder e contas que preciso pagar, eu pensei em algo essa semana. Eu não estive ignorando a sua existência e sofrendo sozinho pela lembrança do seu beijo de propósito; eu só estava ocupado demais para sofrer por você. E quando eu finalmente decidi colocar a minha sofrência em dia – relendo tudo o que você escreveu, revendo todas as fotos que postou, e relembrando todas as vezes que passei por você nesse último mês – eu descobri algo incrível: a Fulana cuja falta ando sentindo era bem mais interessante do que você. E não há absolutamente nada que eu possa fazer sobre você ter ido embora. Assim como não há nenhum sinal escondido no fato de que – ironicamente – nós ainda iremos nos encontrar todos os dias.

É difícil manter um emprego, uma faculdade, uma casa organizada, uma família feliz, uma gata de estimação satisfeita com o tanto de comida que tem no potinho de ração dela, e os cadastros em dia para conseguir emitir a segunda via de um boleto quando necessário. Envolve empenho, comprometimento, e muito, mas muito amor por tudo para continuar seguindo adiante. Agora imagine um relacionamento no meio de tudo isso: alguém com medos, vontades, inseguranças, opiniões e compromissos totalmente diferente dos seus. E quando eu parei pra pensar no que realmente significaria estarmos juntos, você e eu, eu percebi o quanto somos diferentes.

Bom mesmo seria passar por você todos os dias, sem eu precisar me deslocar para qualquer outro lugar. Você já estaria no meu caminho. Que maravilha!

Então, eu entendi. Relacionamentos envolvem deslocamentos. Envolvem abrir mão, em parte, de quem você é e dos compromissos que você julga tão importantes, para dar espaço à outra pessoa com quem você queira viver junto. E me contentar com alguém pelo simples fato dela já estar no meu caminho não é nenhum sinal cósmico ao qual eu devo me apegar.

Obrigado, meu bem, por ir embora, porque eu não seria capaz de deixá-la. Obrigado por me mostrar, todos os dias quando eu a reencontro, que conveniência não é um pré-requisito para o amor. E se eu quiser mesmo encontrar amor de verdade, terei que ir além. Começando por sair da minha zona de conforto, até enfim ser capaz de deixar eu mesmo de lado um pouco para que mais alguém consiga viver aqui.

Pela primeira vez, no último mês, sinto que estou de volta à direção certa.

domingo, 20 de agosto de 2017

Pra não dizer que não falei das flores


Tem sido um inverno difícil. Eu sinceramente não me lembro da última vez que me senti assim. Inquieto, incompleto, inconstante. Como se nada fosse capaz de me satisfazer. Nem o café fresco na manhã de domingo, nem o conforto da minha cama ao fim do dia. Para falar a verdade, o que eu ando fazendo à noite também não pode ser chamado de “dormir”. E nem de algo mais divertido de se fazer em uma cama. Eu só fico deitado, acordado, em alerta. Na esperança de que o barulho de mensagem nova no celular me chamasse, avisando que alguém se lembrou de mim. E que bom seria se fosse você. Mas não tem sido. Já faz algum tempo que não é você, e é nisso que eu fico pensando...

Você ainda pensa em mim, ou as vezes em que tem cruzado por mim na rua são indiferentes? Comparadas aos dias em que estávamos ansiosos para nos encontrarmos... Lembra da primeira vez que nos vimos? Do sorriso largo que eu inspirei em você? E do quão bobo eu parecia ser, tentando chamar a sua atenção? Eu sinto falta de ser bobo, ao contrário da infâmia sarcástica na qual eu estou habituado a viver. A verdade é que, quando você surgiu, o mundo parecia estar recomeçando. E todos os lugares pelos quais passei estavam subitamente reabertos para serem experimentados. E os momentos que eu queria que fossem inesquecíveis, mas que desperdicei com as garotas erradas, poderiam ser revividos com você.

Era isso que eu mais vi em nós: o recomeço. Aquela vida que poderia ter sido e não foi, mas que agora – finalmente! – poderia ser. E eu não sei se foi o calor do momento que te deixou esperançosa, mas ao compartilhar contigo a promessa que fiz sobre nunca deixar o mundo vencer, você aceitou lutar comigo. Em algum momento isso foi verdade – eu despertei algo em você, fui diferente dos outros caras que você já havia conhecido – ou você estava só tentando ser gentil? Isto é, até o momento em que decidiu não ser mais, e foi embora. Sem explicação, sem grandes gestos, e sem se despedir.

A última coisa que eu tive capacidade de dizer foi para jogar fora as flores que eu havia te dado. Talvez tenha sido fácil para você, que dizia nunca ter ganho flores antes, logo o desapego não levaria tanto tempo assim. Mas para mim, que nunca deu flores a ninguém antes, tem sido mais difícil do que eu esperava. Só de pensar em dar flores à alguém de novo, eu opto por não plantar expectativa alguma. Por ninguém. Sobre nada.

Eu me sinto quebrado. Mais do que o de costume. Menos do que eu estava pronto para lidar. Eu me odeio por estar cercado de rostos em cada multidão que atravesso, e não conseguir parar de procurar o seu. E me odeio mais ainda quando eu a encontro, e percebo o quão sem reação você consegue me deixar. Sem saber para onde ir, ou o que dizer, ou como fugir de tudo que me assombra.

Eu me odeio por ter admitido que queria amar você. E me odeio por reconhecer que é só isso que restou. Espero, do fundo do meu coração, que você tenha jogado fora as flores. Se em algum momento eu signifiquei alguma coisa para você, esse é o mínimo que poderia fazer por mim. Não deixe que o gesto mais significativo que eu já fiz por alguém em muito, mas muito tempo, se torne um souvenir da última vez em que acreditei que as coisas poderiam dar certo para mim. Jogue fora do mesmo jeito que fez comigo.

O lado bom de não saber viver em meios termos, limbos ou purgatórios, é ser esperançoso diante do vazio que resta no meu coração. Porque eu ainda acredito em mim mesmo o bastante para sair por aí e tentar preencher esse vazio de novo.

Acho que já passei por todas as fases possíveis. Os dias atordoados, as noites em claro. As músicas que evitei ouvir por um tempo, e as atualizações sobre você que afastei dos meus olhos. A raiva por ter sido dispensado sem nunca realmente saber o motivo, e a tristeza que pesa na minha voz toda vez que repito o seu nome para algum amigo que não agüenta mais me ouvir falar disso. Dia desses até criei a coragem de passar por você sem fingir estar olhando para outra direção, porque é inevitável: nós ainda nos encontraremos por aí, por mais que eu queira me iludir do contrário. E agora que me atrevi a arriscar o impensável – admitir por escrito o que eu ainda sinto – talvez eu esteja pronto para dar o verdadeiro ponto final nisso.

Eu te desejo amor, mesmo que não possa ser o meu. Espero que fique bem, porque sei o quanto você se sente insegura e confusa sobre a vida. Quero que seja feliz, por mais tempo que os passatempos aos quais você se entrega são capazes de te distrair. E, enfim, desejo tudo isso a mim mesmo também. Talvez tenha sido melhor partir, aqui e agora, do que me decepcionar no futuro. E se por acaso esse tenha sido o motivo da sua desistência, eu o aceito.


Eu sou muito mais feliz quando acredito que o amanhã será melhor. Quem sabe, na próxima vez, a primavera dure. Obrigado por me mostrar que ainda sou capaz de cultivar flores.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O outro lado da crevasse


Em 1991, Gaspar LeMarc, um explorador francês, estava no meio de uma jornada pelas cordilheiras dos Alpes quando uma nevasca o separou de sua equipe e subitamente causou um acidente que o fez cair dentro de uma crevasse – uma abertura natural entre geleiras, cuja profundidade aproximadamente estendia-se até 90 metros abaixo do chão. Quando recuperou a consciência, Gaspar percebeu que sua perna estava severamente ferida, deixando-o impossibilitado de escalar de volta à superfície. Ao lutar contra todos os instintos naturais que possuía, e ao obrigar-se a aceitar a pior alternativa possível no momento, Gaspar decidiu que não havia outro meio a não ser se aprofundar cada vez mais dentro da crevasse e da escuridão que a dominava. Depois de quase dois dias, Gaspar conseguiu encontrar uma saída do outro lado. Ao retornar para a base, Gaspar reencontrou sua equipe auxiliar que estava prestes a abortar todas as tentativas de resgate que já haviam procedido, conforme o código de honra dos escaladores. Diante deles, Gaspar anunciou que, apesar de estarem a ponto de desistir e deixá-lo para trás nas cordilheiras e em suas memórias, eles estariam fazendo a coisa certa. Diante de uma nevasca, conforme o código, é cada um por si, e um homem que por acaso fica para trás, deve ser deixado para trás, para que a segurança do grupo seja mantida.

Antes que você tente pesquisar a veracidade desta história, permita-me poupar o seu tempo: é mentira. É uma história fictícia que eu descobri dentre uma das minhas diversas maratonas de seriados em que eu me perco para compensar pela ausência de uma vida pessoal, amorosa, ou qualquer outra que não inclua uma escala impiedosa de trabalho. Uma que insiste em não me dar sossego, não só em horário comercial, mas em qualquer outro horário socialmente aceitável que me permita ser readmitido à sociedade como um ser ativo, solteiro e contribuinte de impostos que preza pela vigência de convenções políticas. Como a Copa do Mundo, a Política de Economia Nacional, e o Dia dos Namorados. O que também explica por que eu ando tão ausente da vida noturna Iguaçuense, e tão online nas redes sociais.

Mas o meu objetivo com esta história é similar ao que ela alude: como lidar com problemas ou situações aparentemente impossíveis, ao ponto de nenhuma equipe de apoio se dar ao luxo de voltar para tentar uma missão de resgate. Porque, assim como eu imagino que seja dentro da comunidade de escaladores, na zoeira da vida também é cada um por si. E alguém que por acaso tropeçar e cair, será impiedosamente deixado para trás. Apesar de todos os aspectos bio-psico-sociais envolvidos, das normas morais que nos são passadas de geração para geração, e de qualquer bom senso instintivo que seja desperto em cada um de nós, não há argumentos contra o fato de que, quando outros caem, estamos mais interessados em continuar seguindo em frente. Especialmente para encontrar outras pessoas com quem a gente possa comentar sobre como a vida do Fulano anda mal, e como ele provavelmente vai morrer congelado naquela montanha de problemas dele. É a natureza humana no seu pior, porém, no seu normal.

Acho que todo mundo, em algum momento da vida, já chegou em casa cansado depois de um dia aparentemente interminável e abominável, e pensou “Eu preciso fazer alguma coisa com isso...” E decidiu que mudar seria a solução, e que daquela noite em diante, depois de abrir uma garrafa de vinho (ou qualquer outra bebida que simbolizasse o autotriunfo do seu insight), brindou consigo mesmo e jurou silenciosamente que “Amanhã será um novo dia, para um novo eu!”. E aí acordou de ressaca, saiu de casa meio sonolento, tropeçou na velha rotina e caiu na crevasse dos seus problemas mais uma vez. E até aí, tudo bem. Estamos vivos, logo, fadados ao acaso, ao imprevisível e, invariavelmente, à sentença terminal dos nossos próprios padrões. Porque instituir uma mudança da noite pro dia é difícil – talvez até improvável, dependendo do grau do seu desespero silencioso. Por mais que você se sinta cheio de problemas, eles não irão desaparecer na manhã seguinte só porque você subitamente decidiu que eles não possuem mais importância que tinham quando você passou no mercado para comprar mais vinho antes de chegar em casa em uma noite solitária de inverno.

Foi então que, ao voltar para casa em uma noite dessas, eu me lembrei daquela história fictícia e do quanto – pelo menos, dentro da lógica do episódio daquela série – aquilo sinceramente fazia sentido. Se quanto mais você insistir em confrontar os seus problemas, sem nenhuma estratégia para resolvê-los, mais eles ganham força e acabam com a sua paciência, porque não fazer o contrário? Claro que não é fácil; admitir derrota, cansaço ou incapacidade vai contra tudo o que eu visceralmente acredito. Mas talvez seja o que esteja me impedindo de encontrar uma saída mais viável. Talvez, no final das contas, seja a chave da minha sobrevivência. Às vezes, na vida, para seguir em frente é preciso voltar atrás. Às vezes para subir aos céus, é preciso descer até os confins do inferno, nem que seja para pegar impulso. E assim como o imaginário Gaspar, às vezes quando alcançar a superfície parece impossível, talvez o melhor jeito de rever a luz seja ao entregar-se para a escuridão da crevasse, até escapar pelo outro lado. E é exatamente isso que eu vou fazer.

Que se danem as contas, os amigos que não vejo há meses, a cidade em que parece cada vez mais longe de que eu retorne, o amor que talvez nunca chegue, e a sanidade cuja qual eu gosto de pensar que ainda tenho algum controle. Eu vou me arrastar até o limite, indo contra tudo o que eu sempre acreditei que fosse o ideal, o certo, o justo para mim, e vou parar de lutar contra a escuridão da crevasse, da qual o mundo real está incomensuravelmente cheio. E vou encontrar a felicidade do outro lado, ou morrer tentando. Metaforicamente, é claro. Porque eu tenho uma faculdade para terminar, uma conta da Renner para quitar, um amor que dure o resto da vida para encontrar, e um punhado de seriados para rever em Setembro.

Antes de traçar qualquer estratégia, é sempre bom rever as prioridades.

*Escrito em 18 de junho de 2014, mas os velhos padrões ainda me assombram.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A culpa é minha



Eu sinceramente acredito que existe algo a ser dito sobre as coisas que não fazemos. Só não sei ao certo o que, porque dizem que o que não foi feito também não vale a pena ser comentado. Se não aconteceu, não significou nada. Mas aí entram as coisas que acontecem e que, vez por outras, também sofrem pela falta de um significado, um sentimento que as mantenha vivas em nossa memória. Então eu não sei. Particularmente eu gosto de acreditar que tudo que é capaz de me causar algum tipo de impressão marcante, também vale a pena ser discutido. E na falta de alguém para me ouvir, acredito que vale a pena ser escrito.

Talvez a poesia seja o exílio dos arrependimentos, ou o porto-seguro dos sentimentos ocos. Tudo parece muito bonito, muito apaixonante, muito sintético, mas sem muita utilidade. Isto é, a não ser para indicar a leitura à alguém que está sofrendo por algo que não sabe como lidar direito. Poesia serve para dar forma a estes sentimentos, como um porta-retratos que enfeita uma estante com um momento que decidiu-se ser inesquecível. Às vezes ser entendido é tudo que a gente precisa. Seja por alguém que nos ouça, pela poesia que nos traduza, ou por qualquer outra válvula de escape pela qual você permita expor as marcas que a vida te causou. Sejam elas boas ou ruins, ainda deixo um espaço separado especialmente para as coisas que eu não fiz que, por não terem acontecido, também não conseguem se encaixar em apenas uma categoria.

Porque tudo que não acontece, tem um motivo. Ou no mínimo, uma desculpa. E a minha desculpa de hoje vai para você, que às vezes dedica um pouco do seu tempo para mim, e nem sempre consegue o que esperava em troca. Às vezes eu penso se sou uma pessoa ruim com uma vida complicada, ou apenas um cara normal com uma capacidade extraordinariamente criativa para elaborar desculpas plausíveis que cubram as fraturas das minhas ações. Ou, então, a fratura causada pela falta delas. A verdade é que eu penso demais. E por pensar demais, mais vezes do que deveria, eu faço... Nada. A não ser que justificar minha falta de movimento conte como uma ação – não deixa de ser um movimento defensivo, e deveras cansativo. Tanto, que às vezes até eu preciso questionar os limites das minhas contradições, e refletir se talvez não seja mais fácil fazer as coisas em vez de justificar porque não às fiz, ou em vez de delegá-las a terceiros, como a Vida, o Destino ou Amor. Como se a vida, o destino e o amor já não estivessem ocupados demais.

Mas tudo isso não passa de mais um devaneio infame, mais uma desculpa, que só serve para camuflar o que eu realmente gostaria de dizer: eu sinto muito. Sinto muito por não ter acreditado em você. Sinto muito por te ignorar, ou tentar te bloquear da minha vida e impedir que você sequer soubesse a quantas eu ando, porque custei a deixar de duvidar que você se importa. Sinto muito por muitas vezes não medir as minhas palavras, e pela dor que elas são capazes de causar. Sinto muito por minhas dúvidas terem feito com que você mesma se questionasse. Sinto muito por você ter se sentido sozinha. Sinto muito por ter dito que eu não era o cara para você, em vez de simplesmente ter feito algo a respeito para que eu me tornasse então esse cara. Sinto muito por ter convencido você a desistir. A culpa não é sua, nem da vida, do destino ou do amor. Muito menos, das estrelas. Não. A culpa é minha. E é algo pelo qual eu preciso começar a me responsabilizar, antes que as minhas contradições acabem comigo de vez. Mas eu sei que não chegará a isto. Senão, o que seria das minhas poesias?

Este sou eu: dando dois passos para trás, para dar um adiante. Se me perco, é só porque parei para pensar em escrever alguma coisa. Às vezes fica bonito, às vezes compensaria mais ir em frente. Bom... Vivendo, escrevendo, amando e aprendendo.

*Escrito em 9 de junho de 2014, mas pelo visto eu ainda não mudei.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A complicada simplicidade


Você me dispensou. Tudo bem, eu entendo. Não é nenhuma novidade. A essa altura, eu nem leio mais as desculpas na íntegra. Só passo o olho nas já famosas palavras-chave – medo, ansiedade, indecisão – ou nas expressões infames do tipo “não sei o que quero da minha vida agora” ou “não estou pronta para um relacionamento sério”, e sigo em frente. Isto é; eu entendo que preciso seguir em frente. Mas por um instante – um longo e aparentemente arrebatador instante – eu realmente me sinto sem direção. Como alguém que estava tranquilamente em direção a um horizonte, acreditando que dias melhores estavam adiante, só para ser surpreendido por um penhasco. E a queda é certa, derradeira, finita.

Mas cá entre nós, e eu não quero ser nenhum estraga-prazeres, a verdade é que eu não entendo. Sabe por que? Porque eu sei o que vai acontecer agora. Não exatamente agora, nem amanhã, nem semana que vem. Mas é o que vai acontecer, porque essa história não é original nem imprevisível. Depois de um tempo, de algumas decepções, e do entardecer dos vinte e poucos anos, as coisas e as pessoas se tornam invariavelmente previsíveis. É como colocar a cabeça para fora da janela em uma manhã fria e avistar uma pequena nuvem escura pairando no céu. Você já sabe o que vai acontecer, e não tem mais o direito de reclamar ao decidir sair de casa sem um guarda-chuva.

Você me dispensou. Tudo bem. Eis o que vai acontecer agora: talvez você ainda se lembre de mim em alguns momentos no dia, como quando algo engraçado surgir na sua linha do tempo do Facebook e você se der conta que é exatamente o tipo de coisa que eu mandaria para você. Ou quando alguém disser uma palavra em especial que te faça perceber o quanto era algo que eu sempre costumava dizer. Mas isso passa, dia após dia, e eventualmente eu vou desaparecer. Você vai se aventurar em outros lugares, vai conhecer outras pessoas, vai provar outros beijos, vai sentir o êxtase da liberdade que você pensou que estava protegendo, e vai suspirar aliviada por ser dona da própria vida. Autora das próprias histórias. Responsável pelas próprias decisões, sem oferecer satisfações ou desculpas a quem estiver por perto. Estará livre, plena, satisfeita. E eu entendo.

Você me achou estranho. Apressado. Ansioso. Desesperado. Complicado demais para dar conta. Do tipo que exigiria satisfações se você mesma não as desse logo de cara. O tipo que cobraria estabilidade, pontualidade, fragilidade. O cara que a princípio parecia ser tão incrível e irresistível, com os dotes domésticos e as palavras certas nos momentos certos. Mas seria o mesmo cara que teria preguiça de ir àquela festa, ou de se socializar com os seus amigos, ou que faria questão dos próprios gostos em vez dos seus. Controlador, exigente, impiedoso. O tipo que faria sua liberdade deixar de existir, em troca de confortos passageiros em noites friorentas. O cara divertido para um encontro, mas não para dois. O homem para matar as vontades que você esconde do mundo até o anoitecer, mas que te deixaria arrependida no dia seguinte. Talvez este tenha sido eu, talvez não. Pode ser exagero, mas nem tanto. Afinal, você ainda está aí, acompanhando. E sabe por que? Porque não acabou.

Este é o interlúdio do silêncio. O cotidiano distante. As visualizações escondidas em redes sociais distintas. A vontade de perguntar como eu estou, abafada pelo medo de ser maltratada pela frieza que você plantou em mim. Porque eu não sou fácil, dócil ou tão compreensivo assim em situações normais. Nas adversas, por fim, sou alguém a ser evitado. O homem dos seus sonhos, de longe. A razão da sua partida, de perto.

Você ainda pensa em mim. No que poderia ter sido. Nos jantares à luz de velas. Nas conversas sussurradas debaixo do cobertor. Nos beijos impensados. Na minha mão na sua cintura. Meu amor na sua vida. Mas a qual custo? A complicada simplicidade tem seu preço. O mundo é pequeno demais para quem você quer ser agora, e quem você sonha em ser amanhã.

E é por isso que eu ainda estou aqui. Escrevendo, estranhando, escutando o que você tem a dizer, sem realmente dizer nada. Sentindo a sua presença, sem conseguir avistá-la ao meu redor. Sabendo que você sente a minha falta, mesmo sabendo que foi você quem me disse adeus. Eu sei de tudo isso, meu bem. Lembra de quando você era o meu bem? Eu me lembro disso também.

A solução é bem simples. Tão simples quanto a nossa vida poderia ser, caso ousasse abrir mão dos piores clichês do mundo – o medo, a ansiedade, a incerteza – para realmente arriscar sentir sua pele arrepiar por algo que você só tem coragem de sonhar na maior parte dos dias. Eu estou aqui. Você quer sentir o meu beijo de novo? Quer andar de mãos dadas comigo? Quer descobrir o quanto a complicada simplicidade, na verdade, não é tão complicada assim?

Demorou muito, mas muito tempo, mas eu aprendi a minha lição. Não cabe a mim convencer você de que nós valemos a pena. Cabe a quem interessar possa tomar a iniciativa – só uma, pra variar – e confiar na esperança de que alguns sonhos podem se tornar realidade. Talvez eu não seja o amor da sua vida – foi o que eu disse, logo no início – mas por que não tentar, não é?

Era só isso que eu tinha pra dizer. Decida se era pra você ou não.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O dia depois de amanhã


Das seis da manhã à meia-noite, com raras exceções. Tem dias em que consigo me refugiar em devaneios menos preocupantes, e noites que quase não tenho meu sono interrompido por algum medo do futuro. Mas quando a rotina não falha, este é o horário em que eu vivo ultimamente; das seis da manhã à meia noite. E entre trabalhar, namorar, estudar, ser parte de uma família, beber com os amigos e evitar ter um completo colapso nervoso, tenho que ser sincero: sobra preocupação, ansiedade, medo... e falta tempo.

O que aconteceu?

***

Era tudo o que eu queria. A carreira, o amor e um despertador programado no meu celular para me acordar todas as manhãs. Para soar a largada da corrida de mais um dia. Algo que, desde que cheguei a Foz do Iguaçu, não era um aplicativo muito utilizado. Ainda faltava uma razão para acordar cedo. Coisa que, infelizmente, ficou para trás durante a mudança.

Mas foi exatamente por isso que me mudei. As razões pelas quais eu levantava da minha cama de manhã, naquela vida, não me satisfaziam mais. E era uma vida bem parecida com esta, se não fosse pela sensação inquietante de que algo estava faltando...

Faltava estar feliz.

Talvez fosse por isso que eu passei tanto tempo daquela vida, escrevendo sobre o amanhã. Sobre os erros que eu não queria mais cometer. Os lugares que eu queria conhecer. O amor que eu queria viver... Tudo parecia estar tão distante. Tão longe da minha realidade. Até o dia em que eu decidi realmente ir à luta por tudo que eu pensava que queria, e que não estava ao meu alcance. E nada é mais aterrorizante, desconcertante, angustiante e maravilhoso, do que finalmente criar coragem o suficiente para tentar alcançar a vida que você quer ter.

Demorou um ano. Com inúmeras frustrações, desabafos, decepções e pessoas erradas, mas eu consegui. Eu finalmente faço parte de Foz de Iguaçu, completo com motivos para acordar e dormir cedo.

Por que eu não me sinto feliz então?

***

Nós temos essa mania incessante de sempre querer mais do que podemos ter. A psicologia nos define como seres incompletos, em constante movimento, e talvez isso explique este instinto de estar sempre à procura de algo a mais. Mas até que ponto a ambição pelo amanhã supera a harmonia de hoje?

Nós pensamos que queremos algo, e nos focamos nisso até conseguirmos. Às vezes o que queremos não é o que precisamos, e raramente as consequências disso passam pela nossa cabeça. Particularmente, eu costumava pensar que todo o tempo que passei escrevendo sobre o amanhã, foi por esperança. Não porque estava necessariamente desesperado por dias melhores, mas porque havia algo de bom em fantasiar sobre o que mais estaria por vir no dia seguinte. Como a inquietação de um leitor frenético, que não vê a hora de virar mais uma página para descobrir qual rumo a história que está lendo irá tomar. Na vida é parecido, mas nós somos os escritores. A ansiedade está em descobrir quais possibilidades estarão ao nosso alcance na próxima vez que chegarmos ao escritório, ou quando revermos os nossos amigos, ou quando abraçarmos o nosso amor. O mistério do novo. A sombra do desconhecido.

***

Ou talvez o único motivo pelo qual eu não consiga mais vislumbrar tanto a magia e o encanto do amanhã, é porque ainda estou tentando me acostumar a acordar cedo de novo. E ninguém pensa direito quando está com o sono atrasado. Seja lá o que for, eu só precisava mesmo escrever alguma coisa. Assim como a vida, o importante não é o desfecho, mas as histórias que a gente cria.

E se você tiver sorte, poderá tentar de novo amanhã.