terça-feira, 15 de agosto de 2017

O outro lado da crevasse


Em 1991, Gaspar LeMarc, um explorador francês, estava no meio de uma jornada pelas cordilheiras dos Alpes quando uma nevasca o separou de sua equipe e subitamente causou um acidente que o fez cair dentro de uma crevasse – uma abertura natural entre geleiras, cuja profundidade aproximadamente estendia-se até 90 metros abaixo do chão. Quando recuperou a consciência, Gaspar percebeu que sua perna estava severamente ferida, deixando-o impossibilitado de escalar de volta à superfície. Ao lutar contra todos os instintos naturais que possuía, e ao obrigar-se a aceitar a pior alternativa possível no momento, Gaspar decidiu que não havia outro meio a não ser se aprofundar cada vez mais dentro da crevasse e da escuridão que a dominava. Depois de quase dois dias, Gaspar conseguiu encontrar uma saída do outro lado. Ao retornar para a base, Gaspar reencontrou sua equipe auxiliar que estava prestes a abortar todas as tentativas de resgate que já haviam procedido, conforme o código de honra dos escaladores. Diante deles, Gaspar anunciou que, apesar de estarem a ponto de desistir e deixá-lo para trás nas cordilheiras e em suas memórias, eles estariam fazendo a coisa certa. Diante de uma nevasca, conforme o código, é cada um por si, e um homem que por acaso fica para trás, deve ser deixado para trás, para que a segurança do grupo seja mantida.

Antes que você tente pesquisar a veracidade desta história, permita-me poupar o seu tempo: é mentira. É uma história fictícia que eu descobri dentre uma das minhas diversas maratonas de seriados em que eu me perco para compensar pela ausência de uma vida pessoal, amorosa, ou qualquer outra que não inclua uma escala impiedosa de trabalho. Uma que insiste em não me dar sossego, não só em horário comercial, mas em qualquer outro horário socialmente aceitável que me permita ser readmitido à sociedade como um ser ativo, solteiro e contribuinte de impostos que preza pela vigência de convenções políticas. Como a Copa do Mundo, a Política de Economia Nacional, e o Dia dos Namorados. O que também explica por que eu ando tão ausente da vida noturna Iguaçuense, e tão online nas redes sociais.

Mas o meu objetivo com esta história é similar ao que ela alude: como lidar com problemas ou situações aparentemente impossíveis, ao ponto de nenhuma equipe de apoio se dar ao luxo de voltar para tentar uma missão de resgate. Porque, assim como eu imagino que seja dentro da comunidade de escaladores, na zoeira da vida também é cada um por si. E alguém que por acaso tropeçar e cair, será impiedosamente deixado para trás. Apesar de todos os aspectos bio-psico-sociais envolvidos, das normas morais que nos são passadas de geração para geração, e de qualquer bom senso instintivo que seja desperto em cada um de nós, não há argumentos contra o fato de que, quando outros caem, estamos mais interessados em continuar seguindo em frente. Especialmente para encontrar outras pessoas com quem a gente possa comentar sobre como a vida do Fulano anda mal, e como ele provavelmente vai morrer congelado naquela montanha de problemas dele. É a natureza humana no seu pior, porém, no seu normal.

Acho que todo mundo, em algum momento da vida, já chegou em casa cansado depois de um dia aparentemente interminável e abominável, e pensou “Eu preciso fazer alguma coisa com isso...” E decidiu que mudar seria a solução, e que daquela noite em diante, depois de abrir uma garrafa de vinho (ou qualquer outra bebida que simbolizasse o autotriunfo do seu insight), brindou consigo mesmo e jurou silenciosamente que “Amanhã será um novo dia, para um novo eu!”. E aí acordou de ressaca, saiu de casa meio sonolento, tropeçou na velha rotina e caiu na crevasse dos seus problemas mais uma vez. E até aí, tudo bem. Estamos vivos, logo, fadados ao acaso, ao imprevisível e, invariavelmente, à sentença terminal dos nossos próprios padrões. Porque instituir uma mudança da noite pro dia é difícil – talvez até improvável, dependendo do grau do seu desespero silencioso. Por mais que você se sinta cheio de problemas, eles não irão desaparecer na manhã seguinte só porque você subitamente decidiu que eles não possuem mais importância que tinham quando você passou no mercado para comprar mais vinho antes de chegar em casa em uma noite solitária de inverno.

Foi então que, ao voltar para casa em uma noite dessas, eu me lembrei daquela história fictícia e do quanto – pelo menos, dentro da lógica do episódio daquela série – aquilo sinceramente fazia sentido. Se quanto mais você insistir em confrontar os seus problemas, sem nenhuma estratégia para resolvê-los, mais eles ganham força e acabam com a sua paciência, porque não fazer o contrário? Claro que não é fácil; admitir derrota, cansaço ou incapacidade vai contra tudo o que eu visceralmente acredito. Mas talvez seja o que esteja me impedindo de encontrar uma saída mais viável. Talvez, no final das contas, seja a chave da minha sobrevivência. Às vezes, na vida, para seguir em frente é preciso voltar atrás. Às vezes para subir aos céus, é preciso descer até os confins do inferno, nem que seja para pegar impulso. E assim como o imaginário Gaspar, às vezes quando alcançar a superfície parece impossível, talvez o melhor jeito de rever a luz seja ao entregar-se para a escuridão da crevasse, até escapar pelo outro lado. E é exatamente isso que eu vou fazer.

Que se danem as contas, os amigos que não vejo há meses, a cidade em que parece cada vez mais longe de que eu retorne, o amor que talvez nunca chegue, e a sanidade cuja qual eu gosto de pensar que ainda tenho algum controle. Eu vou me arrastar até o limite, indo contra tudo o que eu sempre acreditei que fosse o ideal, o certo, o justo para mim, e vou parar de lutar contra a escuridão da crevasse, da qual o mundo real está incomensuravelmente cheio. E vou encontrar a felicidade do outro lado, ou morrer tentando. Metaforicamente, é claro. Porque eu tenho uma faculdade para terminar, uma conta da Renner para quitar, um amor que dure o resto da vida para encontrar, e um punhado de seriados para rever em Setembro.

Antes de traçar qualquer estratégia, é sempre bom rever as prioridades.

*Escrito em 18 de junho de 2014, mas os velhos padrões ainda me assombram.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A culpa é minha



Eu sinceramente acredito que existe algo a ser dito sobre as coisas que não fazemos. Só não sei ao certo o que, porque dizem que o que não foi feito também não vale a pena ser comentado. Se não aconteceu, não significou nada. Mas aí entram as coisas que acontecem e que, vez por outras, também sofrem pela falta de um significado, um sentimento que as mantenha vivas em nossa memória. Então eu não sei. Particularmente eu gosto de acreditar que tudo que é capaz de me causar algum tipo de impressão marcante, também vale a pena ser discutido. E na falta de alguém para me ouvir, acredito que vale a pena ser escrito.

Talvez a poesia seja o exílio dos arrependimentos, ou o porto-seguro dos sentimentos ocos. Tudo parece muito bonito, muito apaixonante, muito sintético, mas sem muita utilidade. Isto é, a não ser para indicar a leitura à alguém que está sofrendo por algo que não sabe como lidar direito. Poesia serve para dar forma a estes sentimentos, como um porta-retratos que enfeita uma estante com um momento que decidiu-se ser inesquecível. Às vezes ser entendido é tudo que a gente precisa. Seja por alguém que nos ouça, pela poesia que nos traduza, ou por qualquer outra válvula de escape pela qual você permita expor as marcas que a vida te causou. Sejam elas boas ou ruins, ainda deixo um espaço separado especialmente para as coisas que eu não fiz que, por não terem acontecido, também não conseguem se encaixar em apenas uma categoria.

Porque tudo que não acontece, tem um motivo. Ou no mínimo, uma desculpa. E a minha desculpa de hoje vai para você, que às vezes dedica um pouco do seu tempo para mim, e nem sempre consegue o que esperava em troca. Às vezes eu penso se sou uma pessoa ruim com uma vida complicada, ou apenas um cara normal com uma capacidade extraordinariamente criativa para elaborar desculpas plausíveis que cubram as fraturas das minhas ações. Ou, então, a fratura causada pela falta delas. A verdade é que eu penso demais. E por pensar demais, mais vezes do que deveria, eu faço... Nada. A não ser que justificar minha falta de movimento conte como uma ação – não deixa de ser um movimento defensivo, e deveras cansativo. Tanto, que às vezes até eu preciso questionar os limites das minhas contradições, e refletir se talvez não seja mais fácil fazer as coisas em vez de justificar porque não às fiz, ou em vez de delegá-las a terceiros, como a Vida, o Destino ou Amor. Como se a vida, o destino e o amor já não estivessem ocupados demais.

Mas tudo isso não passa de mais um devaneio infame, mais uma desculpa, que só serve para camuflar o que eu realmente gostaria de dizer: eu sinto muito. Sinto muito por não ter acreditado em você. Sinto muito por te ignorar, ou tentar te bloquear da minha vida e impedir que você sequer soubesse a quantas eu ando, porque custei a deixar de duvidar que você se importa. Sinto muito por muitas vezes não medir as minhas palavras, e pela dor que elas são capazes de causar. Sinto muito por minhas dúvidas terem feito com que você mesma se questionasse. Sinto muito por você ter se sentido sozinha. Sinto muito por ter dito que eu não era o cara para você, em vez de simplesmente ter feito algo a respeito para que eu me tornasse então esse cara. Sinto muito por ter convencido você a desistir. A culpa não é sua, nem da vida, do destino ou do amor. Muito menos, das estrelas. Não. A culpa é minha. E é algo pelo qual eu preciso começar a me responsabilizar, antes que as minhas contradições acabem comigo de vez. Mas eu sei que não chegará a isto. Senão, o que seria das minhas poesias?

Este sou eu: dando dois passos para trás, para dar um adiante. Se me perco, é só porque parei para pensar em escrever alguma coisa. Às vezes fica bonito, às vezes compensaria mais ir em frente. Bom... Vivendo, escrevendo, amando e aprendendo.

*Escrito em 9 de junho de 2014, mas pelo visto eu ainda não mudei.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A complicada simplicidade


Você me dispensou. Tudo bem, eu entendo. Não é nenhuma novidade. A essa altura, eu nem leio mais as desculpas na íntegra. Só passo o olho nas já famosas palavras-chave – medo, ansiedade, indecisão – ou nas expressões infames do tipo “não sei o que quero da minha vida agora” ou “não estou pronta para um relacionamento sério”, e sigo em frente. Isto é; eu entendo que preciso seguir em frente. Mas por um instante – um longo e aparentemente arrebatador instante – eu realmente me sinto sem direção. Como alguém que estava tranquilamente em direção a um horizonte, acreditando que dias melhores estavam adiante, só para ser surpreendido por um penhasco. E a queda é certa, derradeira, finita.

Mas cá entre nós, e eu não quero ser nenhum estraga-prazeres, a verdade é que eu não entendo. Sabe por que? Porque eu sei o que vai acontecer agora. Não exatamente agora, nem amanhã, nem semana que vem. Mas é o que vai acontecer, porque essa história não é original nem imprevisível. Depois de um tempo, de algumas decepções, e do entardecer dos vinte e poucos anos, as coisas e as pessoas se tornam invariavelmente previsíveis. É como colocar a cabeça para fora da janela em uma manhã fria e avistar uma pequena nuvem escura pairando no céu. Você já sabe o que vai acontecer, e não tem mais o direito de reclamar ao decidir sair de casa sem um guarda-chuva.

Você me dispensou. Tudo bem. Eis o que vai acontecer agora: talvez você ainda se lembre de mim em alguns momentos no dia, como quando algo engraçado surgir na sua linha do tempo do Facebook e você se der conta que é exatamente o tipo de coisa que eu mandaria para você. Ou quando alguém disser uma palavra em especial que te faça perceber o quanto era algo que eu sempre costumava dizer. Mas isso passa, dia após dia, e eventualmente eu vou desaparecer. Você vai se aventurar em outros lugares, vai conhecer outras pessoas, vai provar outros beijos, vai sentir o êxtase da liberdade que você pensou que estava protegendo, e vai suspirar aliviada por ser dona da própria vida. Autora das próprias histórias. Responsável pelas próprias decisões, sem oferecer satisfações ou desculpas a quem estiver por perto. Estará livre, plena, satisfeita. E eu entendo.

Você me achou estranho. Apressado. Ansioso. Desesperado. Complicado demais para dar conta. Do tipo que exigiria satisfações se você mesma não as desse logo de cara. O tipo que cobraria estabilidade, pontualidade, fragilidade. O cara que a princípio parecia ser tão incrível e irresistível, com os dotes domésticos e as palavras certas nos momentos certos. Mas seria o mesmo cara que teria preguiça de ir àquela festa, ou de se socializar com os seus amigos, ou que faria questão dos próprios gostos em vez dos seus. Controlador, exigente, impiedoso. O tipo que faria sua liberdade deixar de existir, em troca de confortos passageiros em noites friorentas. O cara divertido para um encontro, mas não para dois. O homem para matar as vontades que você esconde do mundo até o anoitecer, mas que te deixaria arrependida no dia seguinte. Talvez este tenha sido eu, talvez não. Pode ser exagero, mas nem tanto. Afinal, você ainda está aí, acompanhando. E sabe por que? Porque não acabou.

Este é o interlúdio do silêncio. O cotidiano distante. As visualizações escondidas em redes sociais distintas. A vontade de perguntar como eu estou, abafada pelo medo de ser maltratada pela frieza que você plantou em mim. Porque eu não sou fácil, dócil ou tão compreensivo assim em situações normais. Nas adversas, por fim, sou alguém a ser evitado. O homem dos seus sonhos, de longe. A razão da sua partida, de perto.

Você ainda pensa em mim. No que poderia ter sido. Nos jantares à luz de velas. Nas conversas sussurradas debaixo do cobertor. Nos beijos impensados. Na minha mão na sua cintura. Meu amor na sua vida. Mas a qual custo? A complicada simplicidade tem seu preço. O mundo é pequeno demais para quem você quer ser agora, e quem você sonha em ser amanhã.

E é por isso que eu ainda estou aqui. Escrevendo, estranhando, escutando o que você tem a dizer, sem realmente dizer nada. Sentindo a sua presença, sem conseguir avistá-la ao meu redor. Sabendo que você sente a minha falta, mesmo sabendo que foi você quem me disse adeus. Eu sei de tudo isso, meu bem. Lembra de quando você era o meu bem? Eu me lembro disso também.

A solução é bem simples. Tão simples quanto a nossa vida poderia ser, caso ousasse abrir mão dos piores clichês do mundo – o medo, a ansiedade, a incerteza – para realmente arriscar sentir sua pele arrepiar por algo que você só tem coragem de sonhar na maior parte dos dias. Eu estou aqui. Você quer sentir o meu beijo de novo? Quer andar de mãos dadas comigo? Quer descobrir o quanto a complicada simplicidade, na verdade, não é tão complicada assim?

Demorou muito, mas muito tempo, mas eu aprendi a minha lição. Não cabe a mim convencer você de que nós valemos a pena. Cabe a quem interessar possa tomar a iniciativa – só uma, pra variar – e confiar na esperança de que alguns sonhos podem se tornar realidade. Talvez eu não seja o amor da sua vida – foi o que eu disse, logo no início – mas por que não tentar, não é?

Era só isso que eu tinha pra dizer. Decida se era pra você ou não.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O dia depois de amanhã


Das seis da manhã à meia-noite, com raras exceções. Tem dias em que consigo me refugiar em devaneios menos preocupantes, e noites que quase não tenho meu sono interrompido por algum medo do futuro. Mas quando a rotina não falha, este é o horário em que eu vivo ultimamente; das seis da manhã à meia noite. E entre trabalhar, namorar, estudar, ser parte de uma família, beber com os amigos e evitar ter um completo colapso nervoso, tenho que ser sincero: sobra preocupação, ansiedade, medo... e falta tempo.

O que aconteceu?

***

Era tudo o que eu queria. A carreira, o amor e um despertador programado no meu celular para me acordar todas as manhãs. Para soar a largada da corrida de mais um dia. Algo que, desde que cheguei a Foz do Iguaçu, não era um aplicativo muito utilizado. Ainda faltava uma razão para acordar cedo. Coisa que, infelizmente, ficou para trás durante a mudança.

Mas foi exatamente por isso que me mudei. As razões pelas quais eu levantava da minha cama de manhã, naquela vida, não me satisfaziam mais. E era uma vida bem parecida com esta, se não fosse pela sensação inquietante de que algo estava faltando...

Faltava estar feliz.

Talvez fosse por isso que eu passei tanto tempo daquela vida, escrevendo sobre o amanhã. Sobre os erros que eu não queria mais cometer. Os lugares que eu queria conhecer. O amor que eu queria viver... Tudo parecia estar tão distante. Tão longe da minha realidade. Até o dia em que eu decidi realmente ir à luta por tudo que eu pensava que queria, e que não estava ao meu alcance. E nada é mais aterrorizante, desconcertante, angustiante e maravilhoso, do que finalmente criar coragem o suficiente para tentar alcançar a vida que você quer ter.

Demorou um ano. Com inúmeras frustrações, desabafos, decepções e pessoas erradas, mas eu consegui. Eu finalmente faço parte de Foz de Iguaçu, completo com motivos para acordar e dormir cedo.

Por que eu não me sinto feliz então?

***

Nós temos essa mania incessante de sempre querer mais do que podemos ter. A psicologia nos define como seres incompletos, em constante movimento, e talvez isso explique este instinto de estar sempre à procura de algo a mais. Mas até que ponto a ambição pelo amanhã supera a harmonia de hoje?

Nós pensamos que queremos algo, e nos focamos nisso até conseguirmos. Às vezes o que queremos não é o que precisamos, e raramente as consequências disso passam pela nossa cabeça. Particularmente, eu costumava pensar que todo o tempo que passei escrevendo sobre o amanhã, foi por esperança. Não porque estava necessariamente desesperado por dias melhores, mas porque havia algo de bom em fantasiar sobre o que mais estaria por vir no dia seguinte. Como a inquietação de um leitor frenético, que não vê a hora de virar mais uma página para descobrir qual rumo a história que está lendo irá tomar. Na vida é parecido, mas nós somos os escritores. A ansiedade está em descobrir quais possibilidades estarão ao nosso alcance na próxima vez que chegarmos ao escritório, ou quando revermos os nossos amigos, ou quando abraçarmos o nosso amor. O mistério do novo. A sombra do desconhecido.

***

Ou talvez o único motivo pelo qual eu não consiga mais vislumbrar tanto a magia e o encanto do amanhã, é porque ainda estou tentando me acostumar a acordar cedo de novo. E ninguém pensa direito quando está com o sono atrasado. Seja lá o que for, eu só precisava mesmo escrever alguma coisa. Assim como a vida, o importante não é o desfecho, mas as histórias que a gente cria.

E se você tiver sorte, poderá tentar de novo amanhã.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A crise dos 20 e poucos anos


Tudo começou com uma ressaca. A sensação de que a noite anterior não havia terminado ainda, mas na forma de leves dores de cabeça, uma vontade insaciável por líquidos que não possuíssem o mesmo teor alcoólico de todas as bebidas pelas quais eu passei, e um cheiro intragável de tabaco que demorou dias para que eu deixasse de senti-lo nos meus poros. Foi uma típica sexta-feira à noite, para falar a verdade: sair com amigos para um dos tantos barzinhos da cidade, com direito a alguns copos a mais de cerveja e uns cigarros para ajudar a liberar toda a carga de estresse que se instalou durante a semana. A pressão do trabalho, a correria da faculdade, as obrigações domésticas, e as neuroses usuais sobre não ter dinheiro o suficiente no bolso, nem aquela “alguém especial” da vida. Nada que eu já não tenha vivido milhares de vezes antes.

Só havia um porém: eu não tenho mais 17 anos. Longe disso; os 25 estão me encarando cada vez mais de perto. O que explica a primeira ressaca que tive em anos – talvez voltando até às festas que frequentava aos 17.

As outras pistas sempre estiveram bem evidentes; eu só estava bem confortável na interminável negação. Interminável, mas não atemporal. Eu me lembro até hoje do primeiro cabelo branco que encontrei na minha cabeça. Ironia ou não, mas também foi aos 17. O que me faz concluir com grande pesar que os momentos de estresse, neurose e paranoia não são só momentos – são quem eu realmente sou. Estes, dentre tantas outras coisas, compõem a minha tal personalidade.

Se aos 17 é quando começamos a tomar nota de quem somos nesta vida, aos 25 a conta chega. E eu não sei se consigo cobri-la.

***

Na falta de sentido entre as palavras que eu mesmo produzo, me obriguei a procurar em outras bibliografias, outros autores e outros dramas uma razão para as minhas mais recentes ansiedades. E o que encontrei foi tamanho clichê quanto foi certeiro: páginas e mais páginas de artigos de jornais, postagens de outros blogs e breves trechos reconfortantes com direito a playlists para amenizar a sensação de esgotamento, desorientação e medo que tomam conta durante a já famosa crise dos vinte e poucos anos.

Aos que ainda não alcançaram a casa dos vinte, eu digo: continuem aproveitando. A festa não pode parar. Eu também sinto muito, mas essa conversa não vai rolar entre nós. Isso é papo para quem, assim como eu, se obrigou a dar um tempo das multidões, das batidas fortes de música que quase estouram as caixas de som, e das preocupações pequenas sobre “por que ela não responde as minhas mensagens?”, para encontrar um canto tranquilo e recuperar o fôlego. Preferencialmente, sentado.

Eu nunca pensei muito sobre envelhecer. Talvez como todo carinha mimado pela juventude e pela imensidão que o horizonte ao seu redor ainda reserva para ele, não tenho mais vergonha de admitir que não fiz planos para quando chegasse até aqui.

Sinceramente? Eu sempre pensei que viveria para sempre. Imaturo. Inconsequente. Igor para sempre.

Não sei se é a questão da idade que me incomoda, mas o cansaço é tão inevitável quanto é imperdoável. Senão pelos outros, por mim mesmo - que ainda tento me obrigar a ficar acordado por mais horas do que meu corpo já consegue aguentar, porque sou (teoricamente) jovem e são só onze horas. Tem gente que a essa hora ainda está se arrumando para sair de casa, e eu aqui: afundado no trágico conforto de calças de moletom, meias com chinelo e uma caneca de chocolate quente. Se é sexta, sábado ou domingo à noite, não faz mais diferença. Ao contrário do tempo em que ficar em casa em pleno sábado à noite era considerado um tapa na cara do meu eu do futuro, que certamente iria se olhar no espelho e pensar em todas as noites desperdiçadas, todas as oportunidades perdidas, enquanto evita sequer rever a coleção de arrependimentos que juntou ao longo dos finais de semana dentro de calça de moletom.

E como se não fosse o bastante, ainda acordo cedo no dia seguinte. Mais tempo para enlouquecer.

***

Eu ando muito chato. E quieto. E encontrando um conforto igualmente irresistível ao das calças de moletom nos momentos em que consigo ficar sozinho em um canto. Nem triste, nem contente; só quieto. Sozinho com os meus pensamentos, perambulando pela casa, pensando em todas as coisas que deveria estar fazendo. Ou nas coisas que até poderia estar fazendo, se não estivesse tão ocupado em nutrir as minhas preocupações. Como se isto fosse adiantar alguma coisa. Como se o tempo fosse me compensar por isso, e não o exato contrário fosse acontecer. Eu costumava ser engraçado, e divertido, e incapaz de me sujeitar a rotinas onde a única coisa em pauta é a inércia. Mas aí me pego pensando nas minhas reais alternativas, e nada me atrai ao ponto de proporcionar uma mudança. Nem nenhuma atitude drástica.

Em caso de crises existenciais, melhor não fazer nenhum movimento súbito.

Eu costumava me sentir mais vivo. Ou no mínimo, mais participativo. Nem sempre as noites eram animadas ao ponto de que eu me sentisse contente sobre o quanto estava aproveitando a minha juventude. Mas ainda se salvavam pelo esforço, coisa que eu pareço ter abandonado. Claro que tudo isso pode só ser uma fase. Segundo tudo o que já procurei ler, e baseado no meu próprio estado de espírito que move-se naturalmente da melancolia à sua programação normal em questão de dias e músicas, eu acho que ficarei bem. Até porque, já me sinto bem melhor do que estava durante os primeiros parágrafos deste texto.

Talvez porque, ao contrário da opinião geral que costumo tirar da minha vida atualmente, este texto encontrou seu propósito e tornou-se melhor por isto.

***

Todo ano é a mesma coisa. O desnecessário sofrimento e a ansiedade que precedem o meu aniversário, com mais antecedência do que o aconselhável. É normal imaginar um extrato da sua vida sendo impresso cada vez que um número é adicionado à sua idade, e sentir que talvez tivesse sido possível ter produzido um pouco mais do que o que já consegui. Ter chego um pouco mais longe. Ter deixado alguns erros que já cometi antes para trás, nem que fosse só para ter a chance de viver desenganos mais originais.

Já me pego falando com um tom de voz endurecido por todos os arrependimentos que já carrego comigo nesta vida, e deixando escapar frases como “no meu tempo”, “na minha época” e “quando eu passei por isso...”. Me vejo no espelho com a face cada vez mais ecoando os traços do meu pai, e meu corpo reproduzindo os trejeitos do meu avô, enquanto aviso minha irmã mais nova para se cuidar ao sair de casa para mais uma festinha com as amigas, e aconselho meus amigos que ainda não alcançaram a casa dos 20 que nunca é cedo o bastante para viver sem se preocupar com o que os outros vão pensar. Seja você mesmo, não importa o que isto implique.

Se você precisará conviver consigo mesmo até o fim, que seja no mínimo sincero sobre o que você significa. E acho que isto vale para mim também, que falo e escrevo como se estivesse em meu leito de morte, prestes a me despedir deste mundo. Ainda há muita vida em mim, eu sei. Eu só ando bem, mas bem cansado...

Reflexos da noite passada, ou talvez de todos os anos que vieram antes dela. Sem dúvida alguma, a pior ressaca é a que o tempo causa.

*Escrito em 11 de setembro de 2016.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A noite


Pôr do sol. Tire os sapatos. Suspire fundo.

O dia acabou. Prepare um drinque. Coloque um som. Encontre um lugar confortável. O som ambiente. A ausência da luz. Acenda um cigarro. Uma faísca para perfurar a escuridão. Observe a vista da sacada do apartamento. A primeira estrela surge no céu. As outras logo a seguirão.

Que tipo de dia foi hoje?

***

O que está acontecendo comigo? Quando foi que os dias se tornaram tão longos? Mas esta vida é tão curta! Prepare outro drinque. Tome outro suspiro. Relembre como tudo começou. Como chegou até aqui. Amanhã é outro dia...

Outra coisa? Outra vida.

De onde veio aquela estrela? Para onde ela vai? Para onde você vai? Por que a música parou? Acabou o CD. Mais uma vez.

Um dia você também vai parar. Haverá outra vez? Não sei dizer. Não pense nisso. Não pense em nada. Por que não fecha os olhos? O amanhã não pode esperar?

Por onde você anda, meu bem?

***

Chega disso tudo. Não toque nessa garrafa. Não acenda outro cigarro. Não olhe para cima. Há algo no céu? Está tudo escuro. Quer dizer, estava.

Há algo no horizonte. Algo que já vi antes. Não estou preparado para isso. Mas não depende de você. E as olheiras serão sua herança.

***

Nascer do sol. Coloque os sapatos. Suspire fundo. Não existe mais amanhã.

terça-feira, 18 de julho de 2017

O mundo pós-romance


Toda a maturidade que eu consiga alcançar nesta vida talvez jamais compensará pelos mil e um conceitos distorcidos que eu aprendi antes de saber julgá-los melhor. Não há juízo ou psicologia que possam me salvar agora – e, acredite, bem que eu gostaria. Se parece exagero... Bom, primeiramente, a essa altura nenhum devaneio exagerado meu deveria te surpreender mais; apenas revire os olhos e espere que algum capítulo mais coerente seja publicado aqui. Mas caso haja surpresa, duas considerações:

1) Desta vez a neurose não partiu de mim. É um misto entre os ecos da infância e os revezes da pós-modernidade. Eu juro!
2) Que bom que ainda consigo chamar a sua atenção.

Tudo bem; até eu me confundi um pouco. Mas isto só prova a minha nova teoria sobre a pós-modernidade. Pra simplificar: tudo começou com um dia frio, em que eu acordei com uma vontade inocentemente nostálgica e ironicamente simétrica de rever “A Era do Gelo”.

***

Em uma manhã dessas, enquanto preparava o café, eu resolvi desencavar da minha coleção de filmes algo para saciar minha vontade de voltar a ser criança um pouco. Porque, vez por outras, só a minha imaturidade inata não parece ser o bastante. E depois de re-assistir um filme de desenho, senti saudade de outro que, por acaso, eu também tinha guardado em algum lugar. E foi só depois de algumas horas de inércia e DVDs animados que eu comecei a enxergar entre eles, além de um padrão, uma herança invariavelmente intransferível: tudo o que eu aprendi nesta vida, foi ao assistir desenhos.

Até aí, tudo bem. Ainda existem animações feitas especialmente para ajudar as crianças a desenvolverem suas habilidades motoras e cognitivas. O meu problema, no entanto, está no risco desses mesmos desenhos sobre o desenvolvimento emocional delas... Algo que ficou perturbadoramente evidente depois de re-assistir “Shrek 2” – que, na minha opinião, ainda é o melhor “Shrek” da franquia. E caso você não tenha assistido, ou só não se lembre, certamente já assistiu algo parecido porque o “plot” não difere muito dos clássicos mais antigos: há um mocinho (o herói), a mocinha (uma princesa), um vilão, uma série de obstáculos a serem superados e, por último (mas não menos traumatizante), um final feliz.

Eu me lembro de assistir o primeiro “Shrek” no cinema e de toda a repercussão que este causou, desde o ineditismo da figura considerada como monstruosa reposicionada como o herói da história, até uma reconstrução de valores com a moral de que aparências não são importantes em se tratando de histórias de amor. Tudo muito bonito, emocionante e cuidadosamente articulado em computação gráfica... Mas ainda emoldurado com o legado do final feliz.

Hoje, na época considerada como a tal pós-modernidade, novos conceitos circulam por aí que entram em conflito direto não só com o que nos foi apresentado antigamente, mas com quem os recusa fortemente sem nenhum argumento bem estruturado a não ser por um medo natural de mudanças. A revolução sexual, o movimento feminista, a globalização e tantos outros mudaram a maneira de enxergar as coisas, as pessoas e toda e qualquer relação que se estabeleça por aí. E eu acho tudo isso muito bom, até o detalhe infeliz que permanece sendo empurrado adiante: a cultura do “final feliz”.

E sabe por que isso me incomoda tanto? Porque é isso que eu ainda espero da vida.

Mas eventualmente a gente cresce e se depara com as verdades horríveis da vida que os pais tentam disfarçar dos filhos, por mais que os desenhos animados soltem algumas pistas em mensagens subliminares. Ou vai dizer que a sua visão de mundo não mudou depois disso:


***

Os desenhos animados nos ensinam que apesar dos obstáculos e dos problemas, tudo ficará bem no final. Além disso, que amor existe para todos e a sua alma-gêmea está mesmo por aí; você só precisa encontrá-la e num piscar de olhos ambos descobrirão que pertencem um ao outro. Em contrapartida, a versão adulta dos contos de fadas – os filmes eróticos – perpetuam a noção de que não só o amor pode surgir nos lugares mais inesperados (ex: no meio da selva, em uma entrevista de emprego, ou na casa do seu amigo quando só a mãe dele está), mas que o sexo será incrível. E o motivo pelo qual estas indústrias ainda conseguem se sustentar é bem claro: diga o que quiser sobre os valores questionáveis ou os meios de produção utilizados, mas ambas estão no negócio de vender e reproduzir esperança.

O mundo pós-moderno, que por sinal ainda não recebeu um nome melhor porque estudiosos ainda não o compreendem bem o bastante para tal, talvez seja uma era marcada não só pelos avanços e descobertas que trouxe, mas pelos conflitos que causou. Mais especificamente, pela desesperança que propagou. Somos direcionados a vencer a vida aos vinte e poucos anos, alcançar o sucesso até os 30 no máximo, mantendo um equilíbrio emocional e profissional ao mesmo tempo em que a mensalidade da academia seja bem aproveitada e a felicidade, por esta lógica, seja compensada pelo cansaço que tudo isso provoca. Não é a toa que tantos aplicativos são inventados – para facilitar a experiência humana.

Foram essas coisas que passaram pela minha cabeça enquanto eu assistia meus desenhos de infância naquela manhã fria. Eu sou um produto da pós-modernidade, capaz de raciocinar, questionar, investigar e opinar mais do que meus antepassados foram capazes durante suas vidas analógicas. Já faz tempo que perdi a minha inocência diante das coisas e das pessoas que passam por mim. E apesar de tudo isso, quando o Shrek salvou a princesa mais uma vez, tudo o que eu pude pensar foi: “quando tempo ainda vai levar para o meu final feliz chegar?”

Houve um tempo em que eu possuía mais romances do que aplicativos na minha vida. Eu só não me lembro exatamente quando eu os perdi. A vida não é um conto de fadas. Heróis e princesas não existem. Mas talvez, na maior das ironias, todos nós ainda precisemos ser salvos.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Tempo e castigo

No auge dos meus 25 anos, eu nunca me senti tão atrasado na vida. Houve um tempo em que a sensação era justamente o contrário: por ter gostos mais diferenciados do que os outros garotos da minha idade – o hábito caseiro, os dotes domésticos, a harmonia irônica – eu sempre me permiti acreditar que estava à frente do meu tempo. Mas com base no último ano, esta sensação foi definitivamente jogada ao vento. Não querendo dizer que o último ano não tenha sido bom – mais do que isso, foi revolucionário. Mas é inerente a tragédia de qualquer pessoa que já completou o que pode ser considerado ¼ de uma vida saudável. Isto é, se eu tiver sorte. Convenhamos, Igor: você não tem cuidado tão bem de si mesmo quanto deveria. Teu fígado não nega.

A sensação que tenho hoje é de que a vida que levo definitivamente não bate com a idade que tenho. Algo que é constantemente comprovado pelas atualizações dos meus amigos, conhecidos e figurantes na linha do tempo do meu Facebook: relacionamentos sérios, casamentos, filhos, sucesso profissional... Onde foi que arrumaram tempo para fazer isso?! Ou dinheiro, por sinal... Mas os fins são alheios aos meios, e o resultado paralelo de todos esses acontecimentos é a minha melancolia – que, ao contrário da minha conta bancária ou da minha tão sonhada estabilidade emocional, é algo que só vem aumentando.

Quando eu digo que minha vida tem demonstrado um saldo tanto quanto negativo, é porque penso no Igor de 2015; aquele que se formou na faculdade, morava sozinho, trabalhava e mantinha sua independência, apesar da eterna dificuldade e manutenção. Claro que o único fator que nunca me recordo de levar em consideração, é exatamente aquele que faz toda a diferença: a qualidade de vida.

Sim, eu me graduei. E tive meu incrível apartamento de solteiro por anos, completo com mais quartos do que eu precisava, e uma sacada quase feita sob medida para minhas bebedeiras e filosofias. E consegui encontrar meu lugar dentro de um mercado de trabalho ameaçado por crises políticas e recessão econômica. Tive todas as coisas que qualquer jovem de vinte e poucos anos sonhava ter nesta altura da vida, mas independência é algo mais caro do que a nossa vã juventude pode contemplar. No meu caso, estas conquistas se baseavam no sacrifício da minha felicidade. Até o dia em que eu acordei e pensei: “Para que estou trabalhando, para manter tudo isso?”. E então tomei a decisão que deu início ao ano mais revolucionário da minha vida, desde o dia em que fui embora da minha cidade para enfrentar o mundo real: admiti derrota, para começar de novo.

O preço foi alto e impiedoso: lá se foram minha liberdade, minha privacidade e parte do meu orgulho que, querendo ou não, se contentava com as coisas que conseguia manter em nome da minha sustentabilidade. Apesar de um grande pesar: minha felicidade. E quase dois anos depois, estou diante de um novo aniversário e um inventário curioso da minha vida. Um que me obriga a rever algumas definições, como as minhas “conquistas” e, mais importante, o motivo pelo qual eu levanto cedo para ir trabalhar.

E tem dias que eu ainda não me sinto nem um pouco adulto. Mais da metade das pessoas que encontro na minha rotina sequer podem beber ou dirigir ainda. O que é irônico, dadas às minhas condições socioeconômicas que também não me permitem ambas as coisas às vezes. Mas o contexto da faculdade invariavelmente me faz sentir um pouco diminuído, se não fosse pelo fio-conduto que me mantém adiante, e que respondo sem remorso aos meus pais quando me perguntam como vão as aulas: sim, é isto que eu quero fazer da minha vida. Sim, eu estou feliz.

Não, eu não moro sozinho. E meu emprego é um estágio. E tem dias em que eu não tenho um real no bolso. E existem certas satisfações que eu preciso dar aos meus pais, que antes passavam batidas. E eu continuo andando a pé. Minha cama é de casal, mas meu status civil deixa bastante espaço de sobra. E tem dias que eu realmente penso se valeu a pena a troca ou não. Se o tempo que passou me trouxe mais perto dos meus sonhos, ou só serviu para me atrasar. As coisas não estão só difíceis; estão sofríveis. Mas em vez de melancolia, o sofrimento atinge só a parte prática.

Estou velho, chato e cansado. Disfuncional às vezes e constantemente irritado. Sem ânimo para sair, e demasiadamente satisfeito em meus relacionamentos com minha cama, Netflix, vinho e dias nublados. Com preguiça de amizades instáveis e relacionamentos ocos. E acima de tudo, estou ridiculamente feliz com o quanto eu consegui redirecionar a minha vida ao que eu sempre quis ser.

Alguns castigos fazem parte do percurso, outros são escolhas que podemos manter ou abrir mão. O restante, como dizem, vem com o tempo.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Beber, rezar, amar


Ontem eu comemorei 45 dias de sobriedade filosófica em Foz do Iguaçu. Resistindo às tentações de mergulhar em questionamentos sobre a vida, o amor e a cidade que fossem além das minhas distrações metafóricas - como, por exemplo, pensar sobre o quanto a péssima direção dos motoristas paraguaios nos estacionamentos de mercados aqui pode representar o desequilíbrio do dólar na bolsa de valores mundial. E talvez eu conseguiria me manter sóbrio por mais tempo, se não fosse a minha irônica sorte de redescobrir a minha fé nos lugares mais aleatórios. Ou, neste caso, nos lugares e nos horários de funcionamento certos.

***

De agora em diante, vamos considerar que estes relatos infames sobre mudanças que ando registrando por aqui vão mais além do que um mero caminhão de mudança que viajou 130 quilômetros para levar as minhas coisas de um familiar ponto A para um distinto ponto B. O que eu quero com tudo isto na verdade é contar uma história que faça mais sentido do que a última que vivi. Apesar de ter terminado tudo relativamente bem, o começo em si foi algo mais difícil de desenvolver. Bem como todos os começos de qualquer coisa, creio eu.  Mas o prólogo é sempre simples: você faz uma escolha, e assume as ramificações dela ao longo do caminho que se forma à sua frente. É a lei natural da vida – a causa e o efeito – em sua versão mais cotidiana. Não querendo soar determinista demais, nem ofender aqueles que acreditam que é possível cometer erros sem comprometer o seu destino, assim como eu secretamente ainda acredito. Parece até juvenil admitir em voz alta que algo como destino pode existir; como se ao atingir certa idade, conceitos como “destino” e expressões como “nunca” e “para sempre” tornam-se ocos diante do mundo real, e irreconhecíveis para aqueles que realmente levam este mundo a sério. Voltando à minha história, cujo prólogo tem esfriado assim como o clima lá fora, este talvez seja o momento em que o leitor chega até a página em branco que separa o prefácio do primeiro capítulo. Um capítulo que chamarei carinhosamente de “A Espera”.

***

Se o mundo pertence aos dispostos, talvez eles considerem me aceitar em sua comunidade ao relevarem o quanto eu estou tentando fazer parte disso tudo pra valer. Caminhando pelas ruas de Foz do Iguaçu, visitando seus marcos históricos, registrando minhas experiências por esta terra de imigrantes e estrangeiros, um sentimento constante pairava sobre mim cuja nomenclatura permanecia indescritível. E talvez tenha sido esta a brecha que o destino estava aguardando que eu alcançasse, ou a qualquer outra força que você, leitor, creia que rege o universo: Deus, o governo, ou os fabricantes daquela pílula vermelha do Matrix. Enfim, em minhas aventuras pela terra das cataratas, eu descobri a palavra que me faltava no que quase seria o lugar mais inesperado de todos: na parede lateral exterior dos banheiros do Templo Budista Internacional.


Foi em uma visita a mais um ponto turístico da cidade que eu me percebi realmente tentando ir além das minhas zonas de conforto – e as chamo de “zonas” pelo caráter bagunçado que toma conta do meu quarto ultimamente. Admirando as estátuas e os dizeres em chinês sobre prosperidade e paz, eu senti uma calma que há muito tempo não sentia, visto que passo a maior parte do meu tempo entretido por maratonas de séries americanas e surtos de ansiedade generalizada sobre o futuro. Mas depois de passar por todas as estátuas, eu avistei mais alguns dizeres escritos pelas paredes da lojinha de lembranças e dos banheiros próximos a saída. E um deles prendeu a minha atenção ainda mais do que toda a minha mini-experiência budista até então:


E logo abaixo:


De acordo com a religião budista, a impermanência é um dos conceitos essenciais para a descrição do universo e diz respeito à constante mutação de todas as coisas. É importante compreender a importância da impermanência e, acima de tudo, aceitá-la como parte natural da vida. E como todo processo, toda mudança e toda viagem, é preciso dar o primeiro passo – que, por sua vez, sempre será o mais doloroso.

Coincidentemente ou não, a impermanência é a palavra-chave que simboliza esta parte da minha jornada hoje em Foz do Iguaçu. Na travessia entre o ponto A e o B, o mundo novo e o antigo, meu passado e o meu futuro, é preciso entender o porquê de certas coisas ficarem para trás antes de realmente seguir em frente. E ao dar fim à minha visita no templo (e de descobrir o quanto são caras as lembrancinhas daquela lojinha), levei algo bem mais valioso comigo: a crença de que mudanças são inevitáveis na vida de qualquer um, mas ao aceitá-las como um presente, a viagem rumo ao Nirvana pode se tornar bem mais proveitosa.

Namo Amituofo

*Escrito em 10 de setembro de 2015.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A corrida maluca


Antes de admitir qualquer problema, vocês precisam tentar entender o meu lado. Não é que eu queira defender um comportamento que talvez seja mesmo inconsequente, ineficiente e imaturo. Muito menos, quero exagerar na proporção disto... Mas eu sou irremediavelmente obcecado por competições. Por comparar o quanto eu já percorri na vida em comparação a todos as outras pessoas/competidores pelos quais eu já passei, e por aqueles que estão – teoricamente – à minha frente. E provavelmente você também é assim, ou então já teve seus momentos que obviamente guardou para si. Porque competir é a base da evolução humana; é instintivo. Desde o espermatozoide mais rápido que cruza a linha de chegada, até o candidato que demonstra ser mais eficiente nas perguntas eliminatórias de uma entrevista de emprego. Até mesmo quando se está caminhando pacificamente pelo shopping e alguém significantemente mais lento que você surge na sua frente; é instintivo querer ultrapassá-lo – e quem sabe até murmurar baixinho, “Por que gente lerda sai de casa?!”. No trânsito a competição fica bem mais evidente; é uma guerra e cada motorista pensa em si mesmo como se fosse o Bruce Willis tentando avançar todos os sinais vermelhos para capturar algum terrorista – mas não sem xingar em voz alta ou buzinar para quem tem a ousadia de respeitar os limites de velocidade.

Enfim, todos nós enfrentamos as nossas provações diárias, sejam pequenas ou grandes, silenciosas ou barulhentas. E caso eu esteja errado sobre isso, eis o problema que eu precise admitir. E eu estou sinceramente tentando mudar, começando por hábitos mais enraizados na arte de competir para, quem sabe, aderir o padrão aos outros contextos da minha vida. Toda tarde quando saio para correr, venho tentando cuidar da velocidade com a qual eu faço meu percurso para não terminar ofegante e visivelmente exausto ao passar por algumas avenidas movimentadas no caminho de volta para casa. Tento me concentrar no percurso e não na pressa, visto que o importante é exercitar-se, sair de casa para respirar ar puro, distrair-se dos problemas escutando minhas playlists favoritas... Não tem porque ficar se comparando com outros corredores; talvez eles tenham começado antes, talvez treinem há mais tempo, talvez estejam indo para outro caminho. Cada um na sua vibe.

E eu juro que ia conseguir, se não fosse por aquele cara.

Já na metade do caminho, atravessando o bosque na avenida Paraná, um cara surgiu na minha frente e me ultrapassou. Tudo bem; cada um tem o seu ritmo, o importante é exercitar-se, bla, bla bla... Só que quanto mais eu seguia, mais ele continuava à minha frente. Não disparado na minha frente, apenas ali; existindo há apenas alguns passos de mim, porém “à frente” na corrida.

“Ok... Tudo bem. Nada de pânico. É só um cara. Você não precisa ultrapassá-lo. Siga com esse ritmo porque ainda tem muito chão pela frente. A descida na República Argentina é sempre tensa e cheia de gente pra desviar. Não adianta querer se desgastar só porque ele está na sua frente. Na verdade ele nem está na sua frente; só está correndo no ritmo dele. Você não conhece ele. Não precisa provar nada pra ele. Não precisa provar nada pra ninguém! É só um exercício. Isso! Um passatempo. Uma redução de danos na sua gama defeituosa de sanduíches, bifes à parmegiana e strognoffs que você se atreve a chamar de “hábitos alimentares”. Isso pra não falar da cerveja, dos vinhos… Meu Deus, quanto vinho… Mantenha o ritmo! Foco, força e fé! Talvez ele não siga no mesmo caminho que você! Olha, ele pode atravessar aqui e sair do seu caminho! Ok, não é “meu caminho”, mas mesmo assim… Pare de pensar assim! Enfim, no que eu estava pensando? Ah, sim! Lá vai ele, lá vai ele, lá vai ele e... Ok, não foi. Seguiu em frente. Tudo bem; deixe ir... Concentre-se em se desviar das pessoas e tudo vai ficar bMAS QUE DROGA, GENTE! NÃO ESTÃO VENDO QUE ESTOU CORRENDO E VOU PASSAR MAIS RÁPIDO POR VOCÊS?! SAIAM DA FRENTE, CARAMBA! Vish! Que coisa, viu! Gente lerda é um atraso de vida mesmo! Mas ta, já passou. Pelo menos esse pessoal agora teve mais noção! E lá está aquele cara. Ainda na minha frente. Ainda no meu caminho. Ainda me caçoando. Ainda provando que é mais rápido que eu. Que é melhor na única coisa que eu tenho para fazer nesta droga de cidade calorenta! Acha que eu não tenho mais o que fazer, hein?! Acha que é melhor do que eu?! ACHA QUE É MAIS RÁPIDO QUE EU?! ISSO É O QUE NÓS VAMOS VER!”

Eventualmente eu ultrapassei o cara e me senti vergonhosamente vitorioso. Mas o pior mesmo foi passar reto pela rua em que eu sempre atravesso para voltar para casa, e seguir reto pela avenida até o próximo cruzamento, ainda correndo, até chegar na Presidente Kennedy e passar mais uma vez pelo cara que anuncia o fim do mundo em quatro línguas diferentes (desta vez em espanhol!). E ao chegar na rua de casa, continuei correndo até a portaria do prédio. Quando finalmente parei, hesitei um pouco antes de entrar em casa. Depois de ultrapassar o cara, nem me preocupei em olhar para trás para ver se havia mesmo ganho a corrida imaginária em que eu havia nos colocado, ou se ele seguiu por outro caminho. Provando mais uma vez que competições desse tipo só fazem mal para pessoas como eu, enquanto os outros estão (aparentemente) despreocupados com este tipo de coisa.

Naquela tarde eu aprendi duas coisas:
1) Eu sou tragicamente obcecado por competições e admito que preciso me preocupar com coisas mais importantes como o meu próprio caminho, e entender que para tudo na vida há um tempo certo e não adianta querer apressar as coisas. É preciso crescer, amadurecer, restabelecer metas, ser paciente e parar com as infantilidades, pois sou um adulto e já passou da hora de agir como tal.
2) Só pra constar: eu ganhei. Pelo menos por hoje.

*Escrito em 23 de setembro de 2015.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Fé e outros rascunhos


A cada dia que passa, eu tento me situar um pouco mais com a minha nova realidade. Uma realidade que, neste caso, envolve Foz do Iguaçu: uma das cidades mais dinâmicas em termos de turismo, cultura, entretenimento e possibilidades de vida em níveis internacionais. São tantos restaurantes, casas de shows, museus, parques temáticos, maravilhas da natureza...  Que às vezes eu me surpreendo um pouco com o quanto eu fico entediado em casa.

Porque, sinceramente, viver cansa. Explorar novos lugares pode ser trabalhoso. Provar novas cozinhas pode ser caro. E ter novas experiências tem lá a sua famigerada margem de erro. É fácil arquivar algo como “experiência” depois de ter passado por momentos de desgosto e estresse, mas a minha meta hoje vai além de tudo isso. Minha meta hoje é de aprender a ser feliz, tranquilo e grato pelo que eu tenho: uma oportunidade de recomeçar, o tempo e a infra-estrutura o suficiente para fazer isto.

Isto é, até aquele teste.

***

Dia desses eu fiz um teste online sobre traços de personalidade e sabotadores mentais que anulam a sua inteligência, dentre outras palavras-chave muito atraentes que me seduziram a clicar em “aceito sem ler os termos deste teste que pode ou não coincidir com uma resposta que você procura neste momento”. E de acordo com nossas análises, Igor, clique neste outro link e leia em preto e branco os resultados que obtivemos através do nosso longo e repetitivo questionário sobre como você lida com estresse, situações-problema e outras neuroses cotidianas. E ainda geraram os resultados em inglês, para dar mais credibilidade na nomeação dos meus déficits.

Enfim, a aleatoriedade do questionário – que, devo deixar claro, não influenciam em nada na sabedoria milenar que envolve a produção de biscoitos chineses da sorte – decidiu que o meu problema é o excesso de autocrítica, mas em um sub-nível diferente: a hiper realização. A necessidade constante de atingir novas conquistas e de, consequentemente, atribuir minha auto-estima a elas.

O que fez todo o sentido para mim hoje, vivendo em uma cidade que comporta inúmeras possibilidades e que desperta em mim a constante necessidade de explorar ao menos uma delas por dia. Porque eu decidi mudar de vida e decidi que isto deverá valer a pena – o quanto antes, porque meu tédio é inversamente proporcional à minha ansiedade. Será que isso caberia em uma fórmula ou algo do tipo?

***


Ok. Digamos que seja só coisa da minha cabeça, e que não haja nada nem ninguém me cobrando resultados que aparentemente eu não estou entregando ainda. Seja através de viver novas experiências ou finalmente cumprir velhas promessas de ano novo. Eu não sei. Mas em um novo capítulo das minhas irônicas desventuras, fiz uma limpa na pilha de rascunhos que compõe mais da metade da minha mesa e encontrei um que me chamou a atenção:


Talvez fosse mesmo uma crise existencial. A eterna procura por algo a mais, ou o teste definitivo pelo qual todos os seres humanos eventualmente passam durante o curso da vida – o da fé. Fosse o que fosse, decidi que valeria a pena dedicar o meu sábado para explorar outras partes de Foz do Iguaçu, como o famoso templo budista, na esperança de encontrar mais algum sinal. Mas só o que encontrei foi o aviso no muro de entrada: horário de funcionamento das 9h30 às 16h30. E às exatamente 16h36, eu senti que parte da minha fé ficou abalada.

Em seguida decidi visitar outro templo; a mesquita que reúne a segunda maior comunidade muçulmana do Brasil... também fechada para visitação.

Por último, a caminho de volta para casa, passei pela igreja católica matriz – com uma grande placa que dizia “EM OBRAS” bem em frente à porta principal. E a essa altura pensei que o problema não fosse a minha fé, mas a minha falta de planejamento.

***

No final das contas, eu decidi que meus pensamentos não estavam realmente voltados para fé, ou o segredo da vida, ou a psicologia da minha inquietação. Minha necessidade instintiva de encontrar uma resposta satisfatória eventualmente sossegou com o entardecer e deu brecha para uma nova teoria, representada pela fórmula abaixo:


***

Independente dos meus questionamentos, Foz do Iguaçu está fazendo jus à sua proposta turística de pelo menos levar a minha mente a novos rumos... mesmo que eu acabe com dor de cabeça em um beco sem saída. Tudo bem; vale como experiência.

*Escrito em 25 de agosto de 2015.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O soneto da mensagem instantânea


Tarde chuvosa, céu cinza, edredom.
Sábado à noite, clima ameno, vinho tinto.
Sofá, preguiça, televisão.
Acolhimento, segurança, conforto.
Felicidade nas pequenas coisas, em tempos nublados, só porque sim.
Sem motivos, sem pressão, sem explicações.
Conversa, risada, olhares.
Eu, você... É. Isso.
Neste verso, só eu e você.

Talvez o que complique as coisas seja querer sempre algo a mais do que isto.
Ou uma razão para isto.
Ou se concentrar no que não está ali no momento, do que no momento que está ali.
Ou, ou, ou...

Ou nada.
Pare com isto.
É sempre assim.
Tudo ou nada.
Mais do que tudo.
Mais do que o agora.
O que aconteceu com a simplicidade?
O que aconteceu com a gente?
Quando foi que deixou de ser divertido?
Por que não responde?!

O céu estava fechado e agora se abriu.
Manhã seguinte. Louça suja na pia. Claridade.
Preguiça de fazer o café, de levantar da cama, de viver de novo.
Fragilidade, vista embaçada, dores nas costas.
E aos poucos foi deixando de ser simples, prático, aconchegante.
E virou rotina, trabalho, canseira.
Estresse, nervoso, pressa.
Tédio, dúvida, impaciência.
Tanto faz, mas isso não.
Nem isso.
Nem isso!
Quer saber?
Deixa quieto.
Por que?
Porque sim.
Porque nada!
Porque esqueça!
Tchau.
Tchau!

Oi.
Oi.
Desculpa?
Desculpo.
Vem cá.
Tudo bem.
Passou?
Passou.
E agora?
Abre um vinho.
Chove lá fora.
Escute a chuva.
Feche os olhos.
Me dê a mão.
Um brinde.
Saúde!
Saúde.
Te amo.
Te amo!

Domingo à noite, fadiga, insegurança.
Me abrace, me beije, me queira.
Me segure, me proteja, me escute.
Me ajude a não estragar tudo, a não cometer um erro, a não desistir.
Tudo bem.
Tudo bem?
Tudo bem.

Boa noite.

Até a próxima.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Os embargos de sábado à noite


Até que ponto eu estou sozinho por opção?

Depois de mais uma semana corrida de trabalho, faculdade, e outros imprevistos de percurso, posso ficar tranquilamente em casa durante um sábado à noite, fixado em uma maratona de Netflix com acompanhamento de pizza e cerveja. Só descansando, recuperando o fôlego antes que mais uma manhã de segunda-feira chegue... E por pouco não me esqueço totalmente de que sequer existem Facebook, WhatsApp ou até mesmo outras pessoas. Não significa que estou sozinho no mundo – tenho meus amigos por aí, mas estão provavelmente na mesma situação que eu. Desfalcados financeiramente o suficiente para não pensarem em sair para lado algum, e existencialmente entediados o suficiente para não considerarem alternativas mais sustentáveis, como juntar a galera para que fiquemos todos desfalcados e entediados juntos em um lugar só.

É só um sábado à noite em casa; está tudo bem.

***

Quer dizer... É mais um sábado à noite em casa. Quantos sábados à noite eu já tive que seguiram este padrão? Aliás, já é o bastante pra constituir um padrão? Não, esquece. Se concentre no que está assistindo: o oitavo episódio consecutivo da mesma série. Mas está difícil me acomodar; esses travesseiros não param no lugar. E a cama parece pequena demais. O monitor do computador está longe demais. O som está muito baixo. Tudo parece tão incômodo... Mas o que mais se pode fazer? Com esse tempo feio lá fora – não vai parar de chover tão cedo. Não teria mais o que fazer, nem se eu quisesse. Nem se eu tentasse...

Não é?

***

Estou cansado. Incomodado. Inquieto. Tudo bem que não dá pra sair. Os motivos são vários: financeiro, emocional, climático... Mas talvez conversar com alguém sossegue essa sensação. Conversar sobre qualquer coisa... Mas não com qualquer pessoa. O que será que a Fulana anda fazendo? Há quanto tempo não nos falamos? Não, esquece; é sábado à noite! Com certeza ela deve ter saído. Juntou os amigos e foram para algum lugar, beber e dar risada. Mas ela poderia ter me chamado, não é?

Não... Ela sabe que eu não iria.

***

E o Ciclano? Que sempre me enche o saco para combinarmos algo. Toda semana é a mesma coisa, “No sábado vamos fazer alguma coisa na sua casa, viu?” Ok, pode vir. Chama os outros e vamos inventar algo. Um filme, um jogo, uma sessão incessante de conversa fiada, bobagens e piadas infames. Qualquer coisa. Mas não era nesse final de semana que ele ia viajar? Não me lembro. Deve ser; ele nem deu sinal de vida. Bom, e nem eu mandei nada. Será que ele ficou esperando?

Não, ele deve ter viajado mesmo. Fica pra próxima.

***

O que será que Ela está fazendo? Eu não sinto a falta dela, mas fico aqui imaginando... Será que está em casa também? Não posso mandar uma mensagem inocente que seja, pois as entrelinhas acidentais falariam por mim. Eu não sinto a sua falta. Só estava aqui deitado, pensando... Não faz tanto tempo que, em uma noite como esta, provavelmente estaríamos juntos. Senão na mesma cama, ao menos por mensagens. Impedindo que o outro se sentisse sozinho. Falando sobre nada, sobre o que estivesse fazendo... Sobre este seriado que terá outro episódio começando em 15 segundos, 14, 13... Ou sobre o que ela está usando... Ou, o que gostaria de estar fazendo. A cama não parece mais tão pequena. Parece grande demais agora. Quem sabe seja só coisa da minha cabeça; ela não vai achar que há algo subentendido em um “olá”. Ou vai?

Melhor não arriscar. Não é tão ruim estar sozinho... Eu acho.

***

Acabou a cerveja. Talvez teria sido bom dar uma saída. Conhecer algum lugar novo. Tomar algo diferente. Descontrair. Quem sabe até encontrar alguém nova. E descobrir aos poucos de onde ela veio, do que gosta, no que acredita... Nada como a primeira vez em que a sua mão toca a dela, indicando que a conversa está boa. Ou então, quando a mão dela toca a sua, demonstrando que ela quer que você se aproxime. A primeira vez em que vocês olham nos olhos um do outro. A conversa desacelera. O coração dispara. O fôlego é interrompido. E vocês sentem os lábios se tocarem, devagar e incerto. Curioso e inseguro. Até se tornar rápido e insaciável em questão de instantes. E vocês param por um segundo para reverem seus olhares, e concordam com um sorriso que valeu a pena trocar a rotina pela interrogação da vida lá fora. “Que bom que eu saí de casa hoje e encontrei você...” que aos poucos se torna “Não quero que esta noite termine...

É, seria bom encontrar alguém nova. Só não sei se estou pronto. Ou sequer se me lembro de como fazer isso. Semana que vem, quem sabe. É. Sábado que vem.

Se eu não estiver muito cansado...

***

Por hoje, chega. Boa noite.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O princípio do quarto da bagunça


Para cada mudança que a gente faz, sempre há aquela caixa cheia de coisas aleatórias cujas quais você ainda não sabe exatamente aonde guardar no seu novo lar. E então você guarda a caixa em um canto escondido dos olhos das visitas para que não pensem que você é bagunceiro ou preguiçoso demais para desempacotar tudo. Dias passam, meses, anos, até que finalmente você lembra de que algo que seria muito necessário agora não estava junto com as outras malas e caixas que você organizou no dia da mudança. Está em algum outro lugar... Mas onde? E procura debaixo da cama, dentro do armário, nas gavetas do criado mudo e nas prateleiras da estante, até se lembrar de que ficaram algumas coisas guardadas na dispensa “pra arrumar depois”. E muitas mudanças depois daquela mudança em particular – a que ocasionou o empacotamento, arquivamento e esquecimento daquelas coisas – você reencontra aquela caixa e descobre que muitas outras coisas que você estava precisando ou já precisou antes estiveram ali o tempo todo.

É o princípio do “quarto da bagunça” que todos nós temos, independente das variações de móveis ou dependências possíveis para ocultar as nossas coisas que ficaram “pra arrumar depois”. E é um reflexo assustadoramente exato de como nós lidamos com as diversas fases que atravessamos pela vida. Caso ainda não acredite em mim, pense sobre a versão digital do princípio do “quarto da bagunça”: o desktop cheio de ícones não utilizados e muitas, mas muitas pastas simplesmente nomeadas como “nova pasta” ou qualquer outro neologismo que você criou ao digitar dez teclas aleatórias porque não importava como chamaria aquela nova repartição. Pois é. E talvez eu não precisasse falar sobre a forma mais preocupante deste princípio, mas é a que está mais camuflada entre todas as minhas gavetas bagunçadas e pastas de fotos salvas dentro de outras pastas de fotos; o meu coração.

Ainda sobre o exemplo digital, pense no seu coração com o mesmo carinho com o qual você trata o seu disco rígido – ou, em outros casos, o cartão de memória do seu celular. Agora imagine ele travando, reiniciando sozinho ou ignorando seus comandos cada vez que você experimenta instalar um aplicativo novo, até ficar entediado e desinstalar para poupar seus gigabytes. Agora imagine você sendo obrigado a esperar alguns minutos para que um anti-vírus tente excluir todos os resíduos e arquivos temporários que essas várias desinstalações foram acumulando, só para se irritar quando o anti-vírus conclui metade da sua varredura e te notifica que caso queira seu disco rígido 100% limpo, você pode optar por imprimir um boleto ou efetuar o pagamento online com seu cartão de crédito para obter o programa completo. O coração é assim; as pessoas vem e vão, os lugares são descobertos e às vezes revisitados, mas sempre ficam os excessos, os ícones e atalhos que já não abrem mais nenhum programa, tampouco levam a lugar algum. E na vida não há nada equivalente a um anti-vírus desbloqueado, mas há a contraparte dos arquivos temporários: a saudade, o medo, a insegurança. E ao contrário dos discos rígidos que esquentam ao serem sobrecarregados pelos aplicativos e processos em aberto, nós esfriamos cada vez mais.

O que eu quero dizer com tudo isso? Bom, certamente não é para dar uma lição de moral em alguém, visto que minha constelação de novas pastas é recriminatória por si só e minha necessidade por um celular novo já não é mais novidade desde que me acostumei com ele travando e reiniciando sozinho pelo menos três vezes por dia. Mas voltando à minha mudança, que permanece recorrente em meus novos dias Iguaçuenses, hoje me peguei pensando sobre todos os quartos de bagunça que já tive e sobre como hoje, milagrosamente, só o que tenho para provar-me humano é uma pequena dispensa que vai além da área de serviço, onde as caixas que empilhei lá não estão necessariamente organizadas – mas ao menos estão nomeadas para que à primeira vista já se saiba o que há nelas e se valem a pena serem abertas ou não. A bagunça que mais me assombra hoje é a do meu coração que ainda não se situou completamente de tudo que já viu passar nesse ano, e que teme pelo que mais poderá vir. Para fugir da minha bagunça eu prefiro aplicar as minhas estratégias de fuga favoritas: maratonas inacabáveis de temporadas de séries novas, reprises desnecessárias de séries antigas, e uma hora de corrida por dia para ao menos demonstrar para a cidade e para mim mesmo que estou tentando fazer parte dela. Por mais que nada nem ninguém caiba a mim aqui ainda a não ser pelos meus próprios registros sobre como tem sido visitar marcos turísticos e andar pelas ruas em uma multidão de estrangeiros. É reconfortante saber que, apesar dos contextos diferentes, eu não sou o único que se sente perdido por aqui.

Hoje me pus a escrever de novo, ainda com o intuito de desabafar comigo mesmo em vês de meramente contar uma história cíclica envolvendo uma nova aventura e uma velha metáfora sobre as palavras-chave que destaco ao fim de cada texto, ao me perceber exatamente como o exemplo que descrevi no começo desta nova crônica. Estava correndo pelas ruas de Foz do Iguaçu com os fones de ouvido ao som máximo sem muita vontade de voltar logo para casa ou de dar continuidade à minha odisséia rumo à boa forma. Ultimamente o que me atrai em correr são apenas os momentos gastos fora de casa e em um caminho que eu já aprendi a percorrer. Quando a única coisa entre você e as coisas que você procura é o próprio tempo, todos os dias se tornam Domingos intermináveis. E por mais microscópico que pareça em comparação com o resto da minha vida, tem sido bom utilizar um pouco deste tempo todo dia para trilhar um caminho. Qualquer caminho que você crie para si mesmo vale a pena quando a única alternativa é ficar parado à mercê do tempo. E foi em uma dessas corridas que eu me peguei tendo aquele insight repentino, do tipo “lembrei-aonde-guardei-tal-coisa!”, e voltei para casa para criar coragem de remexer no meu coração. E foi nele que eu reencontrei a minha confiança de que as palavras que eu sinta que preciso escrever valem a pena serem digitadas, que caminhos em que eu procure correr valem a pena serem trilhados, e que mudanças que eu aceite para a minha vida valerão a pena desde que nenhuma bagunça fique para trás. E antes que Foz do Iguaçu e eu possamos realmente nos apegar um ao outro, eu preciso me certificar de que acredito que as coisas poderão dar certo aqui. E talvez a única maneira de fazer isto seja exatamente esta, ao deixar registrados os passos que dei em direção ao que vim aqui para fazer: tornar-me um escritor.

Às vezes eu sinto que estou me aperfeiçoando cada vez mais na arte de recomeçar. Ou então, que eu estou finalmente descobrindo onde expor as coisas que mantive guardadas em mim como, por acaso, a minha felicidade.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O apocalipse nosso de cada dia


E lá vamos nós de novo.

Eu ainda me lembro do tempo em que não havia nada pior para mim, do que a perspectiva de um recomeço. Talvez fosse só a preguiça de precisar encontrar novas circunstâncias às quais eu deveria me adaptar, mas não acho que era só isso. Claro que havia medo também – a inevitável herança que o fim de um ciclo sempre deixa para o próximo. Então até aqui já temos preguiça, readaptação, medo... Todos são argumentos muito válidos para justificar a aversão a qualquer coisa nova que se torne disponível para mim. Ou então, qualquer coisa nova que eu pense em ir atrás por conta própria. Sem nunca parar pra contemplar a simples noção de que talvez, quem sabe, eu goste mesmo é de ser um ser faltante, mas por escolha própria.

A psicologia define o ser humano como uma instância inacabada, incompleta, em uma desesperada procura por sossegar o desamparo silencioso que rege a sua vida. Mas se a incompletude ficar por minha conta, em vez do universo, bom... Isso explica porque eu ando dormindo melhor. É uma sensação estranhamente reconfortante; saber que eu sou responsável pelos meus próprios desajustes. E saber que ainda é melhor querer algo que não tenho, do que ter algo que eu não quero.

Se isso não é maturidade, então eu não sei o que é.

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Talvez não seja nem questão de preferir a falta, mas de costume. É como dizem aqueles textos, que cada autor tem seu jeito de dizer, sobre como “a gente se acostuma, mas não devia”. E depois que consegue algo, ou encontra alguém, ou descobre um jeito novo de viver, ficamos perdidos. Sem saber como lidar, porque nossa prática sempre se baseou no eco das nossas vontades. E não me diga que não entende o que estou tentando dizer.

Aquele desejo aparentemente incessante, uma vez satisfeito, passa então a ser igualmente entediante em proporção. Não é o sistema mais prático de todos, mas é o instinto que nos foi dado. O que nos é permitido agora é aprender a lidar com ele, sem ser engolido pela falta ou sufocado pelo conteúdo.

Preguiça, readaptação, medo e tédio. Os quatro cavaleiros do apocalipse nosso de cada dia.

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Caso você não tenha entendido nada, não se preocupe. Se um dia eu mesmo conseguir entender, te aviso.

terça-feira, 4 de julho de 2017

A cidade fantasma


Se eu considerar o quanto a maior parte de mim é feita na verdade de contradições e não de ironia e comentários sarcásticos (ao contrário do voto popular), isto não deveria surpreender ninguém – muito menos a mim mesmo – enquanto andava pelas ruas do centro de Foz de Iguaçu durante uma noite qualquer. Incomodado com um pensamento que havia tido algumas semanas antes, em outro dia qualquer, ao andar  por outra rua nos mesmos arredores. Cogitei a hipótese de que talvez a solução para o meu problema estivesse na iniciativa em desbravar novos territórios da terra das Cataratas que ainda não demarcados por mim e as minhas contradições. Mas então me lembrei de que a cidade, embora cheia de marcos históricos e rotas estratégicas de fuga para dois países vizinhos, não é tão grande assim. Embora a cidade e eu ainda tenhamos algo em comum nisto: nossos dilemas envolvem três fronteiras diferentes.

A contradição em questão está no seguinte: o que mais me assustava quando cheguei à Foz do Iguaçu era exatamente a mesma coisa que me animava e que me motivou a me mudar para cá: o novo. O potencial de um recomeço. O alívio de um histórico limpo. Era assustador porque não havia nada familiar no que me apoiar durante os primeiros dias, e é por isto que me desafiei a ser sincero em meus devaneios que publico aqui. Para que fossem relidos em noites como esta, quando eu me sentisse perdido ou sozinho, e que eu me lembrasse de que o começo é sempre a pior parte. Dias melhores viriam, e de fato vieram. A contradição está na contrapartida.

Enquanto andava por uma rua em particular da cidade, me lembrei da primeira vez que trilhei aquele caminho. Ainda não sabia aonde ele me levaria, mas queria descobrir. Queria conhecer aquela cidade e suas curvas, porque não via a hora de que tudo deixasse de ser novo e assustador para se tornar, enfim, familiar. E então passei por um ponto de ônibus, que serviu de cenário para um primeiro beijo de um quarto encontro com uma garota com quem eu esperava ter um novo relacionamento. E não tão distante ali, passei por um bar onde havia tido outro encontro com outra garota, com quem também compartilhei beijos e outras expectativas. Ao chegar à avenida principal, próxima da minha casa, me lembrei do fim de outro encontro, e de que foi em um momento daquele percurso em que outra garota tomou a minha mão na dela, insinuando que havia gostado da companhia que encontrou e, quem sabe, eu entendesse que ela queria que eu continuasse por perto.

Pois eu não entendi. E aquela foi a última vez que eu a vi. E as outras eventualmente também tomaram outros rumos para si. Talvez porque encontraram companhias mais atraentes. Ou talvez porque andávamos em ritmos diferentes, e com o passar do tempo eu não senti mais vontade de tentar acompanhá-las. Ou não permiti que elas me acompanhassem. Fosse o que fosse, aquele foi um caminho que percorri sozinho naquela noite. Assim como naquele outro dia em que pensei sobre isto, e muitos outros desde então. E naquela noite eu percebi que entre encontros e desencontros, Foz do Iguaçu já não é mais novidade para mim. Mas passou a me assustar com o quão terrivelmente familiar esta se tornou, em comparação com meus antigos lares em outras cidades, e os fantasmas que pensei ter deixado para trás.

A cidade já possuía uma história minha. Currículos que distribuí por aí. Encontros que tive. Caminhos que procurei percorrer simplesmente para aprender aonde levam. Tudo reconhecido, desbravado, e manchado de alguma maneira. Assombrado por sombras daqueles primeiros dias que não voltam mais, e primeiros momentos que já não despertam mais tanto interesse. Um padrão bastante familiar com o modo que tratei minha filial – Cascavel – e minha matriz – Londrina. E o que eu fiz quando estas pareciam não ter mais nada de novo para me apresentar? A mesma coisa que faço quando o suspense dos encontros se dissipa no ar do primeiro beijo, primeiro toque, primeiro apelido carinhoso... Eu faço as malas e sigo em frente.

Talvez Foz do Iguaçu não esteja tão assombrada quanto eu penso. Talvez a verdadeira maldição esteja em mim. A maldição de perder o interesse nas coisas e nas pessoas depois que a novidade se perde na intimidade. E só existe uma maneira de exorcizar esta sensação: eu preciso reaprender a deixar que alguém me traga de volta à vida, antes que eu me torne cada vez mais monótono, insosso e chato. Recluso de uma cidade que já não parece me cativar tanto quanto aqueles primeiros dias, que eu mesmo costumava odiar e rezar para que passassem logo. A maldição que reside em mim é a contradição.

Meus fantasmas são produtos de relacionamentos imaginários. De uma vida de andar de mãos dadas no shopping que poderia ter sido e não foi. A solução? Amor real. Vida de verdade.

domingo, 2 de julho de 2017

Amor: um arquivo temporário


Existe uma pasta escondida nas profundezas do disco rígido do meu computador que quase nunca é acessada. Nem por mim, nem por ninguém. Não está protegida por senha, nem está nomeada para orientar quem passa por ela a estar ciente sobre o que está guardado ali. E o que há nela, bom... É algo embaraçoso, eu confesso. Algo que, admito, não deveria existir há um bom tempo. E mesmo assim, ela se mantém intacta, salva e arquivada em uma outra pasta que também não está escondida ou bloqueada para que terceiros vejam o que ela contém. Ela só está ali, imóvel, intacta e impiedosa, se eu precisar adjetivar o seu conteúdo também. E ela continua ali por um motivo, é claro. Só não me pergunte qual é, pois se não há justificativa para a sua criação, quem poderá dizer da sua permanência? Mas algo a mantém ali, e é nisso que eu parei pra pensar nesta noite.

Depois de estações passarem sem que ela fosse redescoberta, eu a encontrei mais uma vez em um fim de tarde de inverno. Só porque eu escutei uma canção tocar – uma que, assim como aquela pasta, eu procuro sempre evitar. Mas o modo aleatório pelo qual a vida se inspira é mesma configuração pela qual a minha playlist do iTunes opera. E com a primeira batida daquela música, eu me recordei do que costumava acompanhá-la. Ou melhor, de quem costumava acompanhá-la.

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Dizem que amor de verdade só existe quando é compartilhado. E apesar de toda a minha ironia, sarcasmo e deboches com os quais eu normalmente me expresso pela vida afora, minha esperança em ser uma pessoa melhor, mais feliz e mais amável sempre residiu no que eu já fui capaz de escrever. Especialmente quando estava falando de outra pessoa.

Se eu já escrevi algo para você, direta ou indiretamente, e deixei que você soubesse disso, saiba também que eu te amo. E se nós não nos falamos mais, saiba que por um tempo considerável – o tempo que levei para organizar meus pensamentos em parágrafos e em uma trilha sonora para acompanhá-los – eu realmente amei sim. Mas a mesma profundidade que as palavras são capazes de expressar, também pode ser facilmente esvaziada por elas. Assim como algumas pessoas.

Eu ainda tenho guardado em um submundo de pastas digitais quase todas as homenagens que já escrevi nesta vida. Para amigos que estavam comemorando aniversários, casais que celebraram sua união e me convidaram para apadrinhá-los, ou amores que se esconderam debaixo da minha pele tão sutilmente que não havia mais como esconder o que eu estava sentindo. E a regra é clara: a única maneira de estar realmente sob o controle das suas emoções, é se rendendo a elas. Coisa que eu já deveria ter aprendido há anos também, depois de tantas palavras que já distribuí por aí. Mas algumas mensagens simplesmente passam em vão por nós. Assim como algumas pessoas, também.

O que aconteceu com a gente? Nós costumávamos ser amigos, ao menos.


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O motivo pelo qual esta pasta não deveria mais existir é claro: algumas pessoas se foram, e as homenagens já não possuem mais o seu sentido original. O sentimento de comemoração por estarmos um na vida do outro foi pedido de algum jeito, em algum momento do tempo que passamos juntos. E quanto mais eu insisto em ignorar que esses textos ainda estão salvos aqui, acumulando espaço, poeira e saudade, mais frequentes se tornam os tropeços que eu sofro ao reencontrá-los.

Apesar de serem rascunhos de desejos de felicidade e promessas de amor eterno que não provocam mais nada a não ser eco, eu ainda os vejo como artefatos. Souvenires de um tempo mais feliz. Lembranças de algo que talvez nunca irá voltar, mas que por um momento pareceu ser absolutamente tudo o que importava no mundo.

Lembra de quando só o que importava era estarmos juntos? É, nem eu. Mas as provas estão aqui e são irrefutáveis. Por alguns minutos, enquanto você lia, eu te fiz feliz. E antes disso, por dias e horas que fiquei pensando em como poderia escrever exatamente tudo o que estava sentindo, com as palavras certas e a música certa para deixar como dedicatória, eu amei você. E compartilhei, porque queria que fosse de verdade.

Não é amor que ainda mantém todos esses arquivos salvos aqui, e não é saudade o que eu sinto quando crio coragem de rele-los. Só há, então, uma explicação: é o controle que eu ainda consigo manter sob o que restou de nós. E seja lá o que tenha acontecido para fazer com que eu perdesse o carinho em escrever o seu nome, de alguma maneira ainda estamos juntos.

Houve um dia em que tudo o que eu mais queria nesta vida era ser inesquecível para você. E de uma maneira pequena, infame e abstrata, eu consegui. Só não estou mais por perto para avisar que isto aqui também é sobre você.