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Dançar é normal

Existem várias coisas que eu não sei fazer, não as nego nem tento desafiar-me a ousar enfrentá-las devido aos anos e anos de experiência que servem para provar que você simplesmente não pode fazer tudo. Mas de todos os feitos impossíveis, o número um da lista, aquele que causa mais desconforto e vergonha do que qualquer outra proeza humana, é justamente aquele que está diretamente interligado à minha filosofia de levar a vida através de músicas: dançar.

Dançar não é nada mais do que mover-se ou balançar-se ao som de músicas tentando parecer o mais coreografado possível sem parecer idiota. Não estou dizendo que não é divertido; só acho que não há nada mais complexo do que realizar tal façanha, especialmente em casamentos ou formaturas quando o holofote cai sobre você, a música começa a tocar e não há mais para onde correr a não ser para a pista de dança. Eu queria saber e já tentei aprender, mas para isso é preciso muita concentração, coordenação motora e, de preferência, não ter dois pés esquerdos e incapazes de darem dois-passos-para-lá-e-dois-para-cá sem se perderem, quando não acabam pisando nos pés da parceira meio ao desespero de tentar seguir o ritmo. Em sonhos e fantasias todos dançam, e dançam muito bem; esbanjam sensualidade em tangos argentinos, seduzem suavemente a parceira em valsas clássicas, e mexem e remexem-se meio aos mais variados ritmos num piscar de olhos, como se tivessem nascido sabendo a coreografia - quando na verdade já cansaram de tentar praticá-la na privacidade de um quarto trancado com as janelas fechadas e nada além dos seus próprios olhares condenadores para concluir que, definitivamente, deixar-se levar pela música não é fácil.

Mas minha má experiência com dança encontrou seu ápice anos atrás em uma festa de aniversário, onde meu eu pré-adolescente foi convidado sob a circumstância de que os convidados deveriam se agrupar em pares, pois era uma festa dançante. Juntei o máximo de coragem que pude e convidei a garota por quem estava apaixonado para ser meu par, mas o desafio estava mesmo em aprender a dançar em uma semana e tornar-me no mínimo semi-profissional para a festa. Cheguei cedo à festa e logo me deparei com meu par sentada em um banco do outro lado do salão junto a várias outras garotas ansiosas para serem convidadas para dançar, enquanto eu e os garotos tentávamos controlar nosso nervosismo para não fazer besteira e caminhar até elas parecendo confiantes o bastante de que sim, dançar era possível. A primeira dança foi um desastre, talvez porque tanto eu quanto ela estávamos nervosos por estar envolvidos ali juntos enquanto a música dizia o quanto era bom estar com aquele que você ama, mas de nada adiantou quando tentávamos dar um passo para frente e acabávamos dois passos para trás. Juntei meus amigos para me recuperar em um canto enquanto ela fez o mesmo do outro lado do salão, e após a primeira tentativa frustrada eu decidi que enfrentaria minha descoordenação se era o que precisava ser feito para estar junto a ela, mas foi tarde demais; quando a avistei novamente, ela havia sido convidada por outro para a pista, e o sorriso em seu rosto por estar com alguém com ritmo não me deixou dúvidas de que nem ela, nem a música e a dança, foram feitas para mim.

Então eu decidi aceitar o fato de que não fui feito para tomar uma dama em meus braços e rodipiá-la por um salão ao som de orquestras, bandas ou apenas caixas de som, mas não desisti totalmente da idéia de que dançar é uma das maiores formas de arte que duas pessoas juntas podem realizar. Ainda sou um profissional em meus sonhos e quando abro os olhos pela manhã sempre posso contar com minhas músicas, mesmo que, até conseguir ser um pouco mais coordenado, eu esteja dançando sozinho.

Ao som de: Last Dance - Donna Summer.

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