Pular para o conteúdo principal

Tudo normal como antes

Eu moro sozinho há dois anos, mas toda noite parece como a primeira vez em que dormi aqui. O apartamento estava vazio; havia apenas algumas caixas com meus pertences pelos cantos e apenas as coisas mais importantes em ordem, como a cama e a estante com o computador. Ainda estava um pouco sujo por causa da mudança e do tempo em que ficou fechado, mas nada disso se comparava ao que realmente estava acontecendo; a vida que eu conhecia até então havia terminado e uma nova fase inicou-se – e como é de se esperar nesses casos, o começo de qualquer coisa para mim me deixa assustadoramente perdido. Como se já não tivesse passado por mudanças o bastante até então; estava em Cascavel há apenas três meses, ainda tentando aprender a lidar com o terror do primeiro emprego e a ansiedade dos primeiros obstáculos da faculdade, quando a vida aconteceu e mudou tudo novamente. De repente já não estava mais apenas tentando sobreviver a uma nova cidade, mas a mim mesmo dentro do que iria se tornar meu primeiro apartamento.

Os primeiros dias foram difíceis; ainda estava funcionando com base em medo e lágrimas, até as coisas que transformaram esta casa em um lar passarem a integrar minha vida com o passar dos dias, como correspondências, vizinhos e móveis, até finalmente começar a ter um senso de estabilidade de novo – enquanto continuava a desequilibrar-me por dentro. E com o tempo logo vieram a internet, as companhias para passar a noite e as cortinas, mas não o mais importante. Eu me lembro que logo quando cheguei a esta nova cidade, mal podia esperar para ter uma rotina de novo; de saber o que esperar dos dias ou quando chegasse em casa, quando tudo parecia ser novidade seguida por novidade, desafios atrás de desafios, superando um obstáculo após o outro.

Queria me sentir confortável, seguro… Queria, enfim, me sentir em casa novamente, e mesmo quando eu já não esperava que tal sentimento viesse mais a mim, o tempo e a vida – que existem para me contrariar – mais uma vez provaram que, apesar de esperar muito do amanhã, eu ainda não tenho idéia do que realmente está por vir. E ao olhar ao redor e perceber que, apesar dos apesares, eu consegui construir um lar, uma vida nova para mim, e até mesmo me reinventei e finalmente deixei meu passado para trás para seguir adiante, certo de que agora ao menos tenho um porto seguro para me apoiar quando meu chão no mundo real desaba.

O que uma vez foram dias de silêncio, tristeza e desespero transformaram-se em risadas, músicas e muito mais barulho do que eu poderia imaginar. Olá, meu nome é Igor Costa Moresca e eu moro aqui. Agora, quanto tempo será que ainda levará para que este lar passe a ocupar uma vida a dois? Não me preocupo mais, porque depois de tudo o que passei para chegar até aqui, me sinto satisfeito em dizer que estou envolvido em um novo e emocionante relacionamento… Com uma pizzaria que faz entregas à domicílio.

Ao som de: As If We Never Said Goodbye – Glee.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os 5 estágios do Roacutan

            Olá. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sou um alcoólatra. Muito pelo contrário, sou um apreciador, um namorador, um profissional em se tratando de bebidas. Sem preconceito, horário ou frescura com absolutamente nenhuma delas, acredito que existe sim o paraíso, e acredito que o harém particular que está reservado para mim certamente tem open bar. Já tive bebidas de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, assim como todas as ressacas que eram possíveis de se tirar delas. Mas todo esse amor, essa dedicação e essas dores de cabeça há muito deixaram de fazer parte do meu dia a dia, tudo por uma causa maior. Até mesmo maior do que churrascos de aniversário, camarotes com bebida liberada e brindes à meia noite depois de um dia difícil. Maior do que o meu gosto pelos drinques, coquetéis e chopes, eu optei por mergulhar de cabeça numa tentativa de aprimorar a mim mesmo, em vês de continuar me afogando na mesmisse da minha mela...

A girafa e o chacal

Melhor do que os ensinamentos propostos por pensadores contemporâneos são as metáforas que eles usam para garantir que o que querem dizer seja mesmo absorvido. Não é à toa que, ao conceituar a importância da empatia dentro dos processos de comunicação não violenta, Marshall Rosenberg destacou as figuras da girafa e do chacal . Somos animais com tendências ambivalentes – logo, nada mais coerente do que sermos tratados como tal.  De acordo com Marshall, as girafas possuem o maior coração entre todos os mamíferos terrestre. O tamanho faz jus à sua força, superior 43 vezes a de um ser humano, necessária para bombear sangue por toda a extensão do seu pescoço até a cabeça. Como se sua visão privilegiada do horizonte não fosse evidente o suficiente, o animal é duplamente abençoado pela figura de linguagem: seu olhar é tão profundo quanto seus sentimentos.  Enquanto isso, o chacal opera primordialmente pelos impulsos violentos, julgando constantemente cada aspecto do ambiente ...

A justificativa sem fim

45 anos atrás, Pink Floyd disse que não precisamos de educação e aqui estamos nós: aparentemente muito confortáveis com a nossa imprudência. Claro: não imaginávamos que um hino rebelde poderia nos deixar tão mal acostumados, e realmente não é de se culpar o hino - nem nada ou alguém na verdade - a não ser nós mesmos pelo estado da nossa cultura. O problema, como é de se esperar, mora na interpretação de texto - ou então, especificamente, no nosso jeito de ler e reproduzir o mundo à nossa volta, à nossa maneira, sob uma visão espetacularmente egocêntrica. Pelo visto Pink Floyd não percebeu que, ao tirar a educação da equação, também estava abrindo a porta para a insensatez sem limites. O que nos leva ao novo grande mal estar da humanidade (e outro sério problema acadêmico): a justificativa sem fim. Assim como Pink Floyd nos absolve da necessidade de qualquer educação ou controle de pensamento, passamos a admirar toda e qualquer instituição capaz de assumir a responsabilidade sobre noss...