quarta-feira, 30 de julho de 2014

A palavra com "C"


   Câncer. É uma palavra pequena com um grande impacto. É também uma palavra que envolve uma série de hemoglobinas fragilizadas, tratamentos intensivos e sensibilidade alheia. Eu não vou mentir e fingir que sei como deve ser ter algo dentro de mim capaz de anular as minhas células uma a uma, até que toda a minha personalidade irracional e desconcertante seja dizimada por uma força invisível insuperável. Com ênfase em outra palavra – invisível – porque esta talvez seja a que mais chegue perto de traduzir bem o que é o câncer em si, bem como o que ele causa na pessoa que o carrega. Mas eu não quero falar muito sobre a teoria, ou as ramificações filosóficas que envolvem estar submetido a algo tão desafiador e indescritível quanto um tumor. Não. Eu quero falar sobre a minha tia.
   É uma tia como você também deve ter na sua família. Aquela que anima a família quando aparece para o almoço de domingo, depois de comentar de maneira nem tão sutil sobre marcar o próximo almoço na casa dela na semana que vem, e que fica encarregada de trazer a sobremesa – ou, em outras ocasiões, a cachaça. É uma tia que fez grande parte da minha história, desde os anos que passei brincando no quintal da sua casa com seus animais de estimação – cachorros, gatos, periquitos, ou o que mais lhe desse vontade de criar – até as vezes em que posei lá porque acabei caindo no sono depois de assistir filmes demais e me afundar em um balde de pipoca com katchup. Porque eu era uma criança estranha, incorrigível e preguiçosa, mas que era sempre acolhido com muito carinho quando a visitava. Isto é, nas poucas vezes que a visitava. Também era uma tia que sempre fazia questão de me lembrar, com razão, que eu precisava visitá-la mais. Que sempre dava conselhos sobre fazer menos manha para almoçar apesar de não ter a minha comida favorita na mesa, que eu deveria brigar menos com o meu pai, e que, não importa o que acontecesse, ser parte de uma família significa que você nunca estará sozinho.
   É uma tia que mora em Londrina, e que está mais perto do resto da minha família do que eu, que tive a questionável ideia de ir estudar em outra cidade para... Sentir saudades, na falta de uma descrição melhor. E quando eu me lembro da minha tia, e da nossa família reunida, dos questionamentos do tipo “quando você vai vir na minha casa?” e “está namorando alguém, meu sobrinho?”, coisas do tipo plaquetas, quimioterapia, cabelo, radiação e afins nunca me vem à mente. Mas quando eu converso com ela – que, por sinal, está enfrentando um impiedoso segundo round contra uma doença incurável – eu percebo a sua surpresa por estar sendo vista como uma pessoa de verdade. Logo ela, cuja presença sempre foi tão marcante e chamativa, agora parecia invisível a olho nu, ao contrário do tumor que, segundo ela, parecia que era só o que algumas pessoas conseguiam enxergar nela.
   Dentre brincadeiras e cobranças de que sim, eu preciso te visitar mais, ela comentou comigo alguns sentimentos que, segundo ela, não podiam ser tão compartilhados com as pessoas que estão mais próximas dela do que eu. E me contou sobre receber abraços fúnebres, de ser censurada ao tentar comentar sobre sua condição, e de que já teve a impressão de que estava morta, apesar de ainda estar respirando. E o quanto é difícil lutar contra uma ameaça invisível, enquanto outras pessoas só a percebem como um motivo para usar preto e sentir constrangimento por não saber lidar com o assunto. E quanto mais ela me contava sobre como é complicado, cansativo e crítico o seu estado atual de espírito, tudo o que eu conseguia imaginar era ela como eu a sempre vi: animada, falando alto, brindando comigo com a nossa família ao redor em um domingo de sol e cerveja. Hemoglobinas à parte, eu não consigo enxergar a minha tia de outra maneira.
   Ela está doente sim. Tem dias bons e ruins, e vez por outra precisa mais de ajuda do que consegue pedi-la. Mas quando alguém fala dela perto de mim, ou comenta algo sobre o seu câncer, eu só consigo absorver isso como um detalhe; um detalhe perigoso que injustamente se prendeu à sua personalidade amigável e carinhosa, mas que em momento algum deve ser interpretado como a sua definição. As idas e vindas da quimioterapia não substituem os almoços de domingo e viagens pelo Brasil que ela já fez, tampouco sua imunidade biológica atual faz jus à sua resiliência natural, produto de anos de risadas, experiência e sorrisos que já vivenciou até hoje. Quando ouço falar da minha tia, eu penso em amor, família e hospitalidade, e não naquela palavra com C que alguns temem mencionar perto dela.
   Minha tia tem câncer, e infelizmente não há nada que eu possa fazer para combater o tumor que está lhe tomando as energias que deveriam ser gastas como sempre foram: sorrindo, viajando, dançando e “bebemorando”. O que eu posso fazer, para falar a verdade, não foge muito do que eu sempre fiz: aproveitar a sua companhia, compartilhar suas experiências, e sentir sua saudade. Exceto por um detalhe, que me parece mais significante do que este que invadiu a sua biologia: eu preciso visitá-la mais.

   Margara Moresca é filha, mãe, avó, tia, professora, educadora, brasileira, dançarina e viajante. Câncer é um adendo, e não uma identidade.

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