quarta-feira, 26 de julho de 2017

A complicada simplicidade


Você me dispensou. Tudo bem, eu entendo. Não é nenhuma novidade. A essa altura, eu nem leio mais as desculpas na íntegra. Só passo o olho nas já famosas palavras-chave – medo, ansiedade, indecisão – ou nas expressões infames do tipo “não sei o que quero da minha vida agora” ou “não estou pronta para um relacionamento sério”, e sigo em frente. Isto é; eu entendo que preciso seguir em frente. Mas por um instante – um longo e aparentemente arrebatador instante – eu realmente me sinto sem direção. Como alguém que estava tranquilamente em direção a um horizonte, acreditando que dias melhores estavam adiante, só para ser surpreendido por um penhasco. E a queda é certa, derradeira, finita.

Mas cá entre nós, e eu não quero ser nenhum estraga-prazeres, a verdade é que eu não entendo. Sabe por que? Porque eu sei o que vai acontecer agora. Não exatamente agora, nem amanhã, nem semana que vem. Mas é o que vai acontecer, porque essa história não é original nem imprevisível. Depois de um tempo, de algumas decepções, e do entardecer dos vinte e poucos anos, as coisas e as pessoas se tornam invariavelmente previsíveis. É como colocar a cabeça para fora da janela em uma manhã fria e avistar uma pequena nuvem escura pairando no céu. Você já sabe o que vai acontecer, e não tem mais o direito de reclamar ao decidir sair de casa sem um guarda-chuva.

Você me dispensou. Tudo bem. Eis o que vai acontecer agora: talvez você ainda se lembre de mim em alguns momentos no dia, como quando algo engraçado surgir na sua linha do tempo do Facebook e você se der conta que é exatamente o tipo de coisa que eu mandaria para você. Ou quando alguém disser uma palavra em especial que te faça perceber o quanto era algo que eu sempre costumava dizer. Mas isso passa, dia após dia, e eventualmente eu vou desaparecer. Você vai se aventurar em outros lugares, vai conhecer outras pessoas, vai provar outros beijos, vai sentir o êxtase da liberdade que você pensou que estava protegendo, e vai suspirar aliviada por ser dona da própria vida. Autora das próprias histórias. Responsável pelas próprias decisões, sem oferecer satisfações ou desculpas a quem estiver por perto. Estará livre, plena, satisfeita. E eu entendo.

Você me achou estranho. Apressado. Ansioso. Desesperado. Complicado demais para dar conta. Do tipo que exigiria satisfações se você mesma não as desse logo de cara. O tipo que cobraria estabilidade, pontualidade, fragilidade. O cara que a princípio parecia ser tão incrível e irresistível, com os dotes domésticos e as palavras certas nos momentos certos. Mas seria o mesmo cara que teria preguiça de ir àquela festa, ou de se socializar com os seus amigos, ou que faria questão dos próprios gostos em vez dos seus. Controlador, exigente, impiedoso. O tipo que faria sua liberdade deixar de existir, em troca de confortos passageiros em noites friorentas. O cara divertido para um encontro, mas não para dois. O homem para matar as vontades que você esconde do mundo até o anoitecer, mas que te deixaria arrependida no dia seguinte. Talvez este tenha sido eu, talvez não. Pode ser exagero, mas nem tanto. Afinal, você ainda está aí, acompanhando. E sabe por que? Porque não acabou.

Este é o interlúdio do silêncio. O cotidiano distante. As visualizações escondidas em redes sociais distintas. A vontade de perguntar como eu estou, abafada pelo medo de ser maltratada pela frieza que você plantou em mim. Porque eu não sou fácil, dócil ou tão compreensivo assim em situações normais. Nas adversas, por fim, sou alguém a ser evitado. O homem dos seus sonhos, de longe. A razão da sua partida, de perto.

Você ainda pensa em mim. No que poderia ter sido. Nos jantares à luz de velas. Nas conversas sussurradas debaixo do cobertor. Nos beijos impensados. Na minha mão na sua cintura. Meu amor na sua vida. Mas a qual custo? A complicada simplicidade tem seu preço. O mundo é pequeno demais para quem você quer ser agora, e quem você sonha em ser amanhã.

E é por isso que eu ainda estou aqui. Escrevendo, estranhando, escutando o que você tem a dizer, sem realmente dizer nada. Sentindo a sua presença, sem conseguir avistá-la ao meu redor. Sabendo que você sente a minha falta, mesmo sabendo que foi você quem me disse adeus. Eu sei de tudo isso, meu bem. Lembra de quando você era o meu bem? Eu me lembro disso também.

A solução é bem simples. Tão simples quanto a nossa vida poderia ser, caso ousasse abrir mão dos piores clichês do mundo – o medo, a ansiedade, a incerteza – para realmente arriscar sentir sua pele arrepiar por algo que você só tem coragem de sonhar na maior parte dos dias. Eu estou aqui. Você quer sentir o meu beijo de novo? Quer andar de mãos dadas comigo? Quer descobrir o quanto a complicada simplicidade, na verdade, não é tão complicada assim?

Demorou muito, mas muito tempo, mas eu aprendi a minha lição. Não cabe a mim convencer você de que nós valemos a pena. Cabe a quem interessar possa tomar a iniciativa – só uma, pra variar – e confiar na esperança de que alguns sonhos podem se tornar realidade. Talvez eu não seja o amor da sua vida – foi o que eu disse, logo no início – mas por que não tentar, não é?

Era só isso que eu tinha pra dizer. Decida se era pra você ou não.

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