domingo, 15 de dezembro de 2013

Desafio completo


Eu preciso de um ano novo. Não me leve a mal; 2013 conseguiu ser ainda mais do que eu esperava quando desejei esperançosamente durante o réveillon passado que este fosse o melhor ano das nossas vidas, e de certo modo foi. Claro, erros foram cometidos, calamidades aconteceram, pessoas se afastaram e, por mais que pareça que nada mudou, tudo está diferente. Eu estou diferente. Eu cresci, amadureci, sorri (inclusive em fotos), chorei, ri, gritei, andei, corri, me acidentei e voltei a andar. E cá estou, tentando ser assíduo com a minha escrita que, por algum motivo, não parece mais fluir tão naturalmente quanto antes. Talvez seja por cansaço, talvez seja pela fadiga emocional que eu ando arrastando dentro de mim. Eu não sei. Ultimamente tem sido difícil discernir algumas coisas, como quem é amigo e quem não é, aonde eu quero ir e aonde eu não quero, e quantas pedras de gelo eu quero no meu copo de uísque. Mencionei que já posso beber de novo? Pois é. Seis meses depois e cá estamos, já com dor de cabeça por ter tomado cervejas demais no almoço de Domingo. A vida tem dessas coisas. Este ano teve dessas coisas. Talvez nem todos concordem que foi bom, mas definitivamente foi diferente à sua maneira. Mas não é disto que eu quero falar.
            Eu quero falar sobre o que eu sempre falo, porque aparentemente é só disso que eu sei viver. Amor, amigos, antibióticos... Não me leve a mal, eu ainda quero amor. Espero que chegue logo o dia em que eu aprenda a amar tão bem quanto acredito que sou capaz de escrever sobre isto. Não deveria me espantar que a teoria vem muito mais fácil a mim, e indiscutivelmente de maneira mais poética, do que a tragicomédia da prática que em um momento nos faz agradecer por aquela pessoa, e vez por outra nos faz querer fugir dela. Eu ainda quero amigos, mas não quero obrigar mais ninguém a passar tempo comigo caso não seja do seu interesse. Se quiser conversar, dar risada, dividir uma cerveja ou simplesmente fazer nada, sabe que eu estou aqui. Sabe aonde me encontrar, que número de apartamento deve interfonar e que você pode se sentir em casa aqui. Se não quiser entrar, tudo bem também. Ultimamente eu ando recebendo desculpas demais. Por promessas demais que foram feitas em vão ou por impulso, mas que não estavam aptas para serem cumpridas. O que particularmente me ofende, para ser bem sincero. Em se tratando compromissos, diga o que quiser de mim, mas promessa feita é desafio aceito. E um desafio aceito deve ser cumprido.
            Foi isso o que me levou adiante muitas vezes durante este ano, especialmente quando as coisas pareciam ir de pior a óbito. Quando deixei oportunidades passarem e decidi que precisava levantar a bunda do sofá e fazer alguma coisa se quisesse que minha vida se tornasse mais do que um pedido rotineiro na pizzaria e dois litros de Coca-Cola em um Sábado à noite. Ou quando conheci pessoas que eu jamais pensei que poderiam fazer parte da minha vida do modo como fazem hoje. Pessoas, inclusive, que eu já havia conhecido antes e descartei com a mesma facilidade com a qual me deparo com momentos em que poderia tomar uma decisão que mudaria todo o rumo da minha vida, e aceno para estes momentos quando deixo passarem batidos por mim. Mas isso acaba aqui, juntamente com 2013, meu cinismo desenfreado e minha falta de fé na humanidade. Se é que promessas realmente valem alguma coisa.
            O que me deixa feliz é que nem toda a desesperança que habita o meu ser foi o bastante para impedir que 2013 fosse o melhor ano da minha vida. Eu tenho sorte. Muita sorte. Não é aquela sorte do tipo comprei-uma-raspadinha-e-ganhei-um-real-pra-comprar-outra-raspadinha-e-tentar-ganhar-mil-reais-de-novo. Não. É aquela sorte do tipo caiu-uma-telha-na-minha-cabeça-e-eu-sobrevivi. Cada ano tem sido melhor do que o que passou, por mais que meus dramas pareçam aumentar e, curiosamente, diminuam a frequência de lágrimas que se escorrem pelo meu rosto. Eu não choro mais tanto assim, talvez por algum instinto de autosobrevivencia que as impede de caírem por medo de que eu enferruje de vez. Mas como se este ano não tivesse sido intenso o bastante, tudo indica que 2014 será ainda melhor. Com o estágio novo que consegui, a autoescola que pretendo terminar, e o pós-tratamento do Roacutan que já me permite sentar em uma mesa de bar e me deliciar com um copo de cerveja e a sensação de que as coisas estão voltando ao seu eixo.

            Mas eu preciso de um ano novo. Sabe por que? Porque viver cansa. Tentar correr atrás dos objetivos cansa. Tentar colocar em prática os planos que você só se lembra que fez quando está prestes a dormir de noite e acaba deixando pro dia seguinte, cansa. Tentar ser aquela pessoa melhor, mais decidida, menos carente, dependente e romântica, para atrair pessoas novas e quem sabe até um novo amor, cansa. Tentar cumprir as mil promessas que você fez no último ano-novo e ainda não cumpriu, cansa. Não vou mentir. É bem provável que à meia noite eu esteja na sacada com um copo de uísque em mãos e vislumbrando os fogos de artifício como uma metáfora de uma mudança que explodiu dentro de mim e me encheu de determinação para enfrentar os próximos 365 dias que virão de uma maneira diferente, assim como eu fiz ano passado. Só que apesar de estar no mesmo lugar, será uma pessoa diferente que estará prometendo um ano novo para si mesmo. Uma pessoa que passou por muita coisa em 2013, boas e ruins, altos e baixos, risos e silêncios melancólicos, brindes e tratamentos médicos, mas que sairá deste ano com a sensação irrefutável de que, se há um ano eu decidi que este seria o melhor ano da minha vida, então, senhoras e senhores, eu declaro aqui: desafio completo.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Uma comodidade preciosa


            Uma semana antes de me mudar para Cascavel, eu me lembro de estar conversando com um dos meus melhores amigos na sacada da casa dele. E durante uma das nossas últimas madrugadas de tereré, arguile e filosofia enquanto eu ainda morava lá, eu tive um pensamento ridículo:

- Eles vão me odiar lá.
- Por que acha isso?
- Porque sim. Não sei se vou conseguir fazer amizades por lá. Eu sou difícil...
- Sim, você é. Mas você vai fazer novos amigos sim. Só não se esqueça dos antigos...

            E por um tempo eu acreditei nele, especialmente durante os primeiros meses de adaptação em uma nova cidade que decididamente não parecia se importar muito com o quanto era difícil para mim me acostumar com todos aqueles novos rostos, ruas e compromissos. Talvez eu fosse mesmo difícil demais para cativar outras pessoas fora do meu habitat natural.  Ou talvez eu estivesse com medo demais. Medo de abrir a porta para que alguém pudesse entrar e se sentir a vontade com a minha bagunça, tanto física quanto emocional, e que, por incrível que parecesse, isto fosse o bastante para ser acolhedor e dar sentido e importância a outras pessoas para compartilharem a minha nova vida. Coisa que hoje parece ridiculamente irônica pra mim, visto que com o passar dos anos e das lágrimas, minha casa não só se tornou acolhedora para as vidas de muita gente, como eu também me tornei confiável o bastante para fazer você se sentir bem vindo.
            A verdade é que eu sou mesmo difícil. E egoísta. E demasiadamente incapaz de lidar com mudanças como um processo natural da vida, mas como uma calamidade que cruzou o meu caminho (ou que caiu na minha cabeça, como eu senti recentemente). Eu tenho problemas em abrir mão do passado, e ainda mais em abrir a porta para o futuro. Por mais que eu a deixe destrancada a maior parte do tempo, de nada adianta se não há alguém que se sinta vontade para entrar sem bater e reconhecer a minha bagunça também como algo natural, e não como o fim do mundo que muitas vezes é o que me parece. Cada um tem a sua bagagem, os seus momentos de fragilidade em que parece que tudo o que o compõe é desorganizado e inconsistente, e é isso que dificulta tanto expandir meus horizontes, cumprimentar pessoas desconhecidas e – infelizmente – aprender a conviver com diferenças e aceitá-las como o revés que inevitavelmente nos torna humanos ao fim do dia.
            Mas eu conheci pessoas novas que não só foram capazes de olhar além da dificuldade intransigente do meu ser, como se sentem a vontade dentro do lar que eu construí e às vezes não veem a hora de voltar a sentar no meu sofá ou na minha sacada. Para conversarmos sobre como foi o dia, ou para tentarmos procurar juntos pela solução de um problema, ou para sermos ouvidos um pelo outro quando a irreverência da vida se sobrepõe sobre a nossa própria e nos atrapalha a respirar. O que também é irônico, porque sempre acabamos fazendo isso enquanto alternamos a vez para fumar o arguile.
            Eu tenho pessoas insubstituíveis na minha vida. Pessoas que acompanham as vitórias que eu conquisto e os dramas que eu crio quando saio de casa todos os dias, e que se dispõe a me ajudar quando acabo chorando por causa de um amor quebrado, ou cansado por uma causa que parece ter sido em vão, ou enfaixado por causa de uma telha. E chamo estas pessoas de amigos, porque foi a sorte que a vida nos permitiu e que a intimidade e a cumplicidade nos mantém.

            Eu tenho pessoas que enfeitam porta-retratos na minha estante, que arranjam festas-surpresa, que mandam mensagens aleatórias só para não perdermos o contato e que fazem o esforço para que a gente continue sendo a gente. Mas também tenho pessoas que erram, que esquecem, que tem suas dificuldades, impaciências e inseguranças também. Tão desesperadoras e diferentes quanto as minhas. A diferença é que estas pessoas ainda são capazes de aceitar as minhas falhas, meus limites e minhas dificuldades. Eu, por outro lado, não ando conseguindo ser tão bom quanto a nova caneca de café que ganhei diz.


          Quatro anos atrás, eu tinha medo de não conhecer vocês. Agora tenho medo do que poderia ter sido se isto tivesse mesmo acontecido. O que seria de mim sem aquelas festas loucas de sexta-feira? Ou sem as mesas redondas que fazíamos para tentar encontrar sentido nos nossos relacionamentos, nossos problemas, nossos corações... Eu tenho essa mania de querer fazer tudo sozinho. Conseguir tudo sozinho, porque parte de mim acredita é que neste patamar que eu preciso me manter para ser capaz de ajudar vocês. Como se minhas diferenças, meus desenganos, minhas angústias precisassem ficar guardadas no bolso para que eu possa ajudá-los com as de vocês. E o meu erro foi crer que eu precisava mesmo fazer isso, por mais que ninguém tenha pedido. Pelo contrário, vocês estão sempre aqui, entrando sem bater, colocando os pés na mesinha de centro, reclamando que não tem nada de bom na geladeira, e me ajudando a assimilar a confusão constante que eu chamo de vida. Eu sou grato por isto, mas não acho que tenho dito isso o bastante.
            Amizades são como jardins nos fundos de uma casa. Precisam ser cuidados, mas sempre acabamos adiando para o próximo fim de semana. Mas até onde vão os nossos fins de semana, sendo que eu já não faço nada demais durante os meus, tampouco sei por onde vocês andam. O que nós criamos é especial. Uma comodidade preciosa em tempos de relacionamentos abstratos e superficiais, mas que ainda precisa ser cuidada. Bom, eu estou aqui. Cometi erros, fui impaciente, briguei, argumentei, esquentei a cabeça e irritei todo mundo até o ponto de decidir fazer falta do que criar caso. O problema em querer dar conta de tudo sozinho, foi perceber que era exatamente isto o que está me deixando sozinho.
            Eu não quero ficar sozinho. Muito menos quero tirar os porta-retratos da estante. Se eu sou um grande amigo, foi graças a vocês. E agora é hora de retribuir a comodidade. Obrigado.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Armas de auto-destruição


Minha dor é silenciosa. Sinceramente, acho que nem minha dor sente que dói. Ou então se sente, acho que não liga mais. Minhas lágrimas, quando existem, são secas. Evaporam em questão de segundos, antes mesmo que alguém seja capaz de perceber que havia sofrimento neste olhar, nesta alma amaldiçoada pela comodidade que a melancolia há tempos lhe proporcionava. Meu coração não está partido. Meu coração está quebrado, esmigalhado, estraçalhado e espatifado no chão, refletido somente através de um milhão de cacos impossíveis de se reajuntarem. Mas não é por sua causa. Ah, não. Definitivamente não é por sua causa. É por mim mesmo. Fui eu. Fui eu quem te fez abrir as mãos para segurar a chave da minha casa, o número do meu telefone, o endereço do meu prédio, a contradição da minha alma e toda a esperança que ainda ecoa dentro de mim, rezando solenemente por abrigo na eternidade da minha existência amargurada e inconsistente sem o ardor do seu olhar. Eu amo você, mas eu entendo completamente você não me amar de volta. Não porque eu não mereço – ora, pois, senão o que haveria aqui para aspirar pelo amor de outra pessoa, senão a priori prezasse pela delícia de existir como si mesmo, apesar dos apesares e de tudo mais que esta essência cansada e ofegante carrega consigo para permanecer de pé. Correndo enloquecidamente para manter-se no mesmo lugar, e esperando incansavelmente pelo dia em que você decida juntar-se a mim, mão à mão, bochecha com bochecha, até que a morte nos separe. Eu não sei pedir ajuda. Não sei pedir socorro. Tampouco sei admitir derrota, ou que o peso está acabando com as minhas costas. Honestamente nem sei se estou disposto a abrir mão da ilusão da minha autosuficiência, o que confesso que me confunde um pouco: pois não estava inconsistente sem o seu amor? Como pode alguém querer existir sozinho, ao mesmo tempo em que deseja viver com outra pessoa? Enfim, chegamos ao problema. E o dilema das partículas do meu coração não parece parar por aqui. Ainda existem outros quinhentos fragmentos somente esperando para furarem os pés de alguém que se atreva a percebê-los, e para desmascarar a fraude da minha desilusão. Eu amei você, sem antes amar a mim mesmo. Não deve existir pecado maior do que abandonar a si mesmo para cuidar de outra pessoa. O começo de uma lágrima espaireceu pelo meu rosto. Agora sim, estamos chegando a algum lugar...” (Igor Costa Moresca)

***

            Não há força mais destrutiva no universo capaz de me afligir mais intensamente do que eu mesmo. Não há desilusão avassaladora o bastante para estraçalhar as minhas esperanças, porque afinal de contas fui eu mesmo quem as plantou, colheu e soltou no mundo achando que vingariam. O mundo não tem nada a ver com o que eu espero dele, especialmente quando o que eu espero dele vai contra o que ele pode me oferecer. Não existem piadas ao meu respeito que você possa fazer sobre mim, que eu mesmo não me proponha a criar. Você não pode me ferir mais do que eu consigo exterminar a mim mesmo, sonho por sonho e lágrima por lágrima.
            Não me olhe assim. Como se eu estivesse falando alguma besteira. Todos nós temos algum tipo de botão de auto-destruição que nem sempre guardamos para emergências. Como os pedaços de pizza que sobraram da janta e já estão resfriados na geladeira, que você ataca de madrugada mesmo sabendo o que isso vai fazer com a sua dieta – ou com os seus planos de começar alguma dieta um dia. Ou como as oportunidades que surgem para ampliar os seus horizontes, te apresentar pessoas e lugares novos, e podem transformar uma noite de Sábado em algo mais memorável do que afundar-se no sofá ao som da novela e os carros que passam pela rua da sua casa com o funk no volume máximo. Ou, quem sabe, amar alguém que você simplesmente não pode ter, mas insiste na fantasia que o mundo do “quase” te proporciona. Nós quase demos certo. Nós quase nos entendemos. Nós quase funcionamos.
            Eu acho que, de todas as maneiras que nós mesmos nos atingimos e demolimos a estrutura do nosso equilíbrio emocional, amar alguém que não está ao seu alcance é provavelmente a pior de todas. A única diferença entre suicídio assistido e amor não-correspondido é que, no primeiro, as pessoas reconhecem a necessidade de um velório e uma prisão, enquanto no segundo de nada adianta se você não quer rever o sol; você ainda precisa sair de casa amanhã para trabalhar, cumprir os seus prazos, passar no mercado e comprar mais sabão em pó, retornar as ligações da sua mãe que você não ouviu, por mais que a sua alma tenha sido dizimada. E não foi por menos; como se já não fosse o bastante termos embutido em nós um botão de autodestruição, alguns ainda o encarregam a outra pessoa que nada tem a ver com o nosso bem estar – ou pior, não se importam com ele. E ainda se surpreendem quando outra pessoa aperta o botão e acaba conosco num piscar de olhos. As batidas do seu coração se aceleram, até se aquietarem e começarem a deixar a vida passar batido pelos destroços que agora compõe o que sobrou de você.
            Eu acabo comigo constantemente de tantas maneiras que sequer consigo parar para reconhecer o que estou fazendo, até que algum espectador preocupado me faça perceber a altura em que estou e me impeça de pular lá embaixo e acabar com tudo. Eu como demais, bebo demais, falo demais, brigo demais, excluo pessoas da minha vida quando dão defeito – ou, em uma concepção mais realista, acabam mostrando que são humanas – e mais vezes do que deveria prefiro ficar sozinho e derramar todos os meus problemas ao meu redor. Não necessariamente para tentar resolvê-los por conta própria, mas para ter ao menos uma ilusão de controle sobre eles.
            Eu li em algum lugar da minha vida que nossos maiores inimigos são nós mesmos e não é mentira. Há um motivo pelo qual nossas expectativas detonam na nossa cara quando trombam com a contradição da realidade à nossa volta, ou porque são os nossos próprios medos que muitas vezes impedem que a gente quebre padrões, ultrapasse limites e descubra exatamente do que somos feitos e até onde podemos chegar. Estamos ocupados demais nos prendendo a nós mesmos, e nos sentindo desesperados por isto ao mesmo tempo. Não culpe outra pessoa pelo seu dia ruim, ou pela sua frustração com algo que não deu certo, ou até mesmo pelo seu coração partido. A pira vem de dentro, e não há nada mais fácil do que permitir ser sugado pelo nosso próprio vórtex de drama interior, que preza mais pela deliciosa sensação de mártir do que pela capacidade de auto-realização por tomar mais atitudes e assumir a responsabilidade dos seus atos. A culpa não é da pizza, nem da vodka, e nem sua. Sou eu quem esteve ocupado demais atirando em meus próprios pés, enquanto deveria estar mais preocupado em seguir adiante.
            Chega de martírio, de sadomasoquismo compulsivo e de chorar pelo amor derramado. Se existe alguém tão ruim capaz de me derrubar como eu mesmo, então este mesmo alguém é capaz de me elevar ainda mais do que eu ainda desconfio que sou capaz. Só espero que isto não seja uma bomba-relógio disfarçada de promessa-de-fim-de-ano-que-vence-logo-no-dia-seguinte, mas por ora digamos que sim, eu vou ficar bem.

            Sabotagens à parte, eu vou cuidar de mim.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Tudo pode acontecer


            Tudo está acabando. Eu disso isso há um mês, quando Novembro parecia ser apenas mais um mês e não um prelúdio a propagandas de Natal na televisão, confraternizações de amigo-secreto, e ligações da minha mãe para que eu comece a procurar por um peru desossado para a ceia. Parecia ansiedade de separação demasiada por um ano que ainda tinha muito a oferecer, salvo pelo acidente que, felizmente, em vês de me subtrair uma perna, me trouxe uma vacina anti-tétano e um celular novo. Mas aqui estamos, senhoras e senhores. O fim do ano chegou. Os parentes já estão avisando que virão, as luzes de Natal já estão acesas, as aulas acabaram e o fatídico tédio das férias já tomou conta da minha rotina. 2013, você foi muito bom pra mim, até mesmo enquanto estava me torturando, mas você ainda tem mais 30 dias pela frente para se superar e me surpreender.
            Não me entenda errado, 2013. Eu sempre costumo dizer às pessoas que minha vida, além de engraçada, é ridiculamente boa. Cada ano tem sido melhor que o anterior, e me faz sentir que tenho cada vez mais motivos para agradecer quando deito a cabeça no travesseiro à noite. Você foi demais, de verdade. Foi o ano em que eu descobri o que realmente é ser um psicólogo, e que eu provavelmente tomei a decisão certa para a minha vida profissional. Foi o ano em que eu encontrei amor, nem que tenha sido somente para descobrir que eu talvez não esteja pronto para me comprometer completamente com outra pessoa. Não enquanto ainda há tanta liberdade que meu eu pode esbanjar e aproveitar, sem precisar se preocupar em ligar antes para alguém para avisar aonde estou indo – ou pior, para pedir permissão.
            Foi o ano em que eu abri minha casa para o mundo, literalmente, e percebi que por mais que tenha sido difícil transformar uma casa, um sofá e uma sacada em um lar, é ainda mais desafiador acolher amigos e colegas como família. Foi o ano em que eu aprendi que amigos são muito diferente de colegas, que confiança é algo muito valioso para ser compartilhado sem ter certeza de que outra pessoa não a usará para te destruir de dentro para fora, e que por mais que coisas novas pareçam aversivas ou assustadoras, é mais fácil dizer “sim” ao desconhecido do que permitir que a mesmisse tranque as portas.
            Foi o ano em que eu ri, chorei, me desesperei, caminhei, me decepcionei, tomei litros de tereré na sacada, tirei fotos no sofá, comecei a dividir o apartamento, me apaixonei, quase fui processado, conheci pessoas novas, abri mão do meu passado, arrombei a porta do meu banheiro sem querer, visitei minha família, derrubei meu celular da sacada, fui demitido, vi uma empresa fechar, arrumei outro emprego, fui pra São Paulo receber um prêmio, namorei, terminei, enchi a cara, fumei, participei de um protesto pelo Brasil, fiquei doente, organizei jantares em casa, briguei com muita gente (e fiz as pazes com alguns), fui pra balada (e tive alguns arrependimentos), tomei chuva, passei frio, dei festas para meus amigos, surpreendi meus pais nos seus aniversários, assisti filmes com a minha irmã, fiz um tratamento para espinhas, passei meses sem beber, senti saudades de tudo, completei 22 anos (e ganhei uma festa surpresa), comecei a auto-escola (sim, estou atrasado), me acidentei, quase morri, ressuscitei, ganhei um celular novo, escrevi um TCC, terminei o quarto ano, morei junto com alguém por um ano e, como se não fosse o bastante, sentei e escrevi sobre tudo isso.
            Nos primeiros instantes de 2013, um dos meus amigos me incentivou a fazer uma promessa. Uma promessa que eu tentei cumprir com todos que compartilham minha vida comigo: este seria o melhor ano das nossas vidas. Ainda é cedo para estourar o champanhe e cantar vitória: ainda temos 30 dias pela frente onde – falando por sofrida e extasiante experiência – tudo pode acontecer. Tudo só vai acabar quando a Globo anunciar “Feliz ano novo!” e os fogos de artifício iluminarem o céu e assustarem a minha avó com o barulho. Enquanto isso, aproveitem a última curva da viagem. 2013 foi bom, deu o que falar e cumpriu tudo que devia, mas ainda não acabou.

            E o seu 2013, como foi?

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Pequeno Marcio, grande Igor


         Um dia desses eu resolvi criar vergonha na cara e fazer a barba, e tive uma surpresa. Quando o meu desmatamento facial terminou, já não era mais o meu resto que eu via no espelho. Era o seu. Depois de anos deixando a barba crescer pra facilitar o discernimento das pessoas entre eu e você, eu descobri que não adiantava nada. Nós somos iguais. O que não deveria me surpreender tanto, se tudo o que eu realmente precisava fazer não era nem fazer a barba e me rever no espelho, mas só olhar para você entre um sermão e outro, para perceber exatamente quem eu sou.
Nós brigamos o tempo todo. É assim que as pessoas nos veem, e às vezes é assim que eu mesmo me sinto quando falam de nós. Somos teimosos, impacientes, grosseiros, passionais, exagerados, sarcásticos e criticamente destrutivos. E não só um com o outro, mas com quem ousar nos desafiar, achando que sabe mais do que nós. Isto também explica porque não existe um consenso entre nós exceto quando cada um sai andando pra um lado cantando vitória silenciosamente, enquanto deixa o outro falando sozinho.

            Mas colocando toda a teimosia de lado, depois de ter feito a barba e ter visto seu rosto no meu espelho, eu comecei a realmente tentar enxergar você e tudo isso que você faz no seu dia a dia tão corrido e cansativo. Eu só costumava ver você passando reto por mim, dando um “bom dia” automático enquanto se dirige ao seu escritório para derrubar todos os seus problemas em cima da mesa e esquentar a cabeça enquanto tenta decidir qual dos incêndios você vai tentar apagar primeiro. O que eu não enxergava era o homem batalhador, determinado a fazer jus aos seus compromissos e prezar pelo bem da sua família e de todos os funcionários e terceiros que dependem do seu trabalho, do seu suor, da sua fadiga. Eu não enxergava este homem, e infelizmente confesso que também não me interessava por vê-lo.

         Porque se eu me arriscasse a enxergá-lo na totalidade do seu caráter indiscutivelmente irrefutável, talvez eu me assustaria quando percebesse que não estava apenas diante de um homem decidido a dar conta de tudo e de todos que dependem dele, mas do meu próprio futuro. Como se o Marcio que passa correndo por mim dando um “bom dia” automático enquanto sai em direção à batalha árdua e impetuosa de mais um dia não fosse mais do que o Igor mais acomodado à sua teimosia e sua insensatez, mas definitivamente motivado por seu senso de justiça e sua força avassaladora. Eu tenho medo de enxergar você, pai, porque não só eu penso que ainda não estou pronto para chegar perto de me tornar um grande homem como você é, eu também não quero assumir o seu posto caso quando você não estiver mais aqui. Nem que seja pra passar reto por mim quando voltar ao trabalho.
            E eu sinto que você não me vê também. Como se ao passar reto pelo pequeno garoto inconsequente e imaturo que curiosamente se parece com você, seria como se nada daquilo realmente tivesse algo a ver com você. Às vezes eu acho que você me vê como alguém que também sente medo, mas que sofre por saudade ainda mais do que isto. Saudade pelo garoto que foi antes de se tornar no super homem que dá inúmeras voltas ao redor da cidade, correndo atrás de tudo que os outros não estão dispostos a alcançar, somente para garantir que tudo e todos fiquem bem. Saudade pelo garoto que já não existe mais, a não ser por aquele que vos fala e que não herdou somente sua calvície precoce e seu nariz avantajado, mas também o legado de um nome e a reputação de um guerreiro.


         Você é mais do que um homem. É um super herói que garante a paz e a segurança de todos que contam com você para socorrê-los, por mais que isto te canse, te desgaste e te faça parar e pensar se tudo isso vale a pena. Te faz pensar se tem alguém não só olhando como quem não tem nada a ver nada, mas que enxerga e reconhece o papel fundamental que você tem nas vidas de todos ao seu redor. Você carrega o mundo nas costas e salva o mundo todos os dias, mas sabe bem no fundo do seu coração machucado e exausto que nem todos são gratos. Mas eu sou. Talvez eu não demonstre tanto quanto deveria, ou tão bem quanto poderia, ou tão regularmente enquanto você ainda está aqui neste mundo, e eu sinto que tanto eu quanto você consideramos um “obrigado” como uma palavra capaz de facilitar o nosso sono e tranquilizar a nossa alma.
            Às vezes eu acho que você não existe. Não é possível que alguém seja tão teimoso, tão impaciente e tão insensato, enquanto ainda consegue ser incansável, imbatível e ridiculamente trabalhador para garantir não só a paz mundial,  mas a paz de todos aqueles que te cercam e, felizmente, a sua própria paz de espírito também. Às vezes eu acho que não há como existir alguém tão irônico, tão sarcástico, tão bravo, e ao mesmo tempo tão bom. Tão carinhoso à sua maneira, mas que infelizmente peca ao tentar passar seu amor adiante porque não consegue disfarçar que está ferido, mas que ainda está de pé e disposto a continuar em frente. Voando alto, com a cabeça erguida. Mas aí eu me lembro de um detalhe: eu também sou assim. Eu sou o pequeno Marcio, encarregado de dar continuidade ao legado de uma família, de um nome, e de um homem que fez do seu trabalho, seu suor e sua luta diária uma lenda inspiradora a ser seguida. E você é real, e é tão bom quanto um Igor. Não é pra menos; foi você quem me criou.


         Eu te amo, pai. Enquanto você estiver aqui para salvar o mundo todos os dias, eu sei que nós ficaremos bem. É uma honra ser capaz de ver você no meu reflexo, e só não digo que quero ser como você quando crescer, porque algo me diz que já estou chegando perto.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Os 5 estágios do Roacutan


            Olá. Meu nome é Igor Costa Moresca e eu não sou um alcoólatra. Muito pelo contrário, sou um apreciador, um namorador, um profissional em se tratando de bebidas. Sem preconceito, horário ou frescura com absolutamente nenhuma delas, acredito que existe sim o paraíso, e acredito que o harém particular que está reservado para mim certamente tem open bar. Já tive bebidas de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, assim como todas as ressacas que eram possíveis de se tirar delas. Mas todo esse amor, essa dedicação e essas dores de cabeça há muito deixaram de fazer parte do meu dia a dia, tudo por uma causa maior. Até mesmo maior do que churrascos de aniversário, camarotes com bebida liberada e brindes à meia noite depois de um dia difícil. Maior do que o meu gosto pelos drinques, coquetéis e chopes, eu optei por mergulhar de cabeça numa tentativa de aprimorar a mim mesmo, em vês de continuar me afogando na mesmisse da minha melancolia existencial.
            Eu gosto de beber. Demais, até. Não ao ponto de precisar recorrer à reuniões ou grupos de apoio, mas o bastante para topar fazer companhia para você caso queira sair para tomar alguma coisa, digamos assim, agora. É, agora! Larga tudo e vamos atrás do primeiro bar que encontrarmos. Vai na frente que eu te sigo e já pede uma cerveja e dois copos. E avisa o pessoal que a gente tá aqui e veja quem mais quer aparecer, porque nós temos muita conversa pra colocar em dia e melhor do que juntar os amigos ao redor de uma mesa de bar, é se cada um se comprometer a pagar uma rodada. Beber deixa a vida mais suave, mais tranquila, mais fácil de engolir. Por isso foi tão difícil me adaptar à seca que os antibióticos me causaram. Todos os 540 antibióticos, tomados 3 de cada vez, durante 180 dias. Antes de começar tudo isso, eu ouvi muito falar de outros ex-pacientes sobre como o tratamento com Roacutan vale mesmo a pena, e que fariam de novo se precisasse porque “o que são 6 meses em comparação ao resto da sua vida?”. Cá entre nós, eu não sei se faria de novo, e admito que me posiciono assim porque minha peregrinação pelo deserto da abstinência ainda não terminou, mas quanto a um ponto eu definitivamente concordo, quando me avisaram que não seria fácil. É, criançada. Não. É. Fácil.
            Imagine tirar qualquer coisa que faz parte da sua vida hoje e deixar em espera por seis meses. Independente se foi por trocar bebida por antibióticos, comer alucinadamente por uma dieta controlada, transar loucamente por um pouco de castidade e sossego (o que também pode ser ocasionado por antibióticos, dependendo da onde você andou se metendo – literalmente), a falta disso vai te deixar louco. Quer dizer, não imediatamente. Logicamente você vai dizer que isso não é tão importante assim, que você não depende disso, que existe algo chamado força de vontade que separa pessoas fracas e passivas de grandes empreendedores e gestores da sua própria vida, e que 6 meses nem é tanto tempo assim. Aham, ok. Chame do que quiser. Falando por experiência, aprendi que isso se chama negação.
            Quando você se dá conta exatamente do que abriu mão e do tempo que vai demorar até que você beba, coma, trepe ou goze daquele prazer que renunciou, vem a raiva. O rompante de som e fúria gritantes que fazem você alienar pessoas, cometer loucuras e amaldiçoar a existência de tudo e todos ao seu redor. Enquanto admite, silenciosamente, que tudo aquilo passaria se você pudesse tomar uma dose de gim agora, ou se um caminhão de sorvetes tombasse na frente da sua casa, ou se a sua ex te ligasse se sentindo sozinha e carente. Eis que surge a brilhante ideia de tentar tirar algo de bom de uma situação bosta (quem nunca?), e que talvez exista um jeito de alcançar alguma barganha para conseguir o que a gente tanto quer, sem desistir do que a gente tanto almeja também. Talvez se eu der só uma bicadinha desse chope, ou uma lambida na colher do brigadeiro, ou só uma bicadinha ou uma lambidinha... Enfim, você entendeu.

            Quanto tudo falha, a esperança foge pelos nossos dedos e o auge da abstinência nos possui, os dias se tornam cinzentos, o som da felicidade alheia se torna um barulho infernal e sair de casa para fazer qualquer coisa parece sem sentido. Olá, depressão, há quanto tempo! Sei que vem sempre aqui, só que agora não parece que vai embora tão cedo. Uma dose de vodka me salvaria. Um pudim me traria redenção. Um beijo me ressuscitaria. Se não tiver mais nada, só a vodka serve. Não. É. Fácil. Só que quando se está no fundo do poço, algo incrível acontece. Uma hora ou outra, você vai olhar ao redor e perceber que não há pra onde ir a não ser para cima de novo. Abrace o desespero. Acomode-se com a desgraça. Acolha a desesperança. Quem está na chuva é pra se molhar! O que é um peido, não é mesmo, pra quem está só com o nariz pra fora da merda? Eu acredito solenemente que não é a esperança, mas a sensação de não ter mais nada a perder que salva milhares de vidas por ano, especialmente aquelas que contam os dias e as cartelas de antibióticos que ainda faltam para passar por elas. Meu nome é Igor Costa Moresca, e este sou eu aceitando o fato de que não posso beber. E, sinceramente, realmente não há nada demais com isso.


         Eu demorei seis meses para me dar conta disto, e não digo que tenho um problema, mas estive perigosamente perto de apoiar toda a minha personalidade em um copo de cachaça. Como se toda a minha essência, completa com minhas qualidades, defeitos e excentricidades que fazem do Igor o Igor, pudesse ser engarrafada, rotulada e vendida a preço de custo em um mercado, bar ou padaria próxima de você. Eu gosto de beber, mas eu gosto ainda mais de mim. E sobriedade não é o fim do mundo; muito pelo contrário, é possível continuar bebendo e sendo feliz, e ainda por cima se lembrar de tudo que você fez na noite anterior. Eu tenho sido muito feliz com café, tereré, suco de laranja e com a descoberta incrível de que eu sou muito mais que tudo isso. Mais do que um drinque, mais do que uma dose de uísque, mais do que um brinde à meia noite. Agora eu só espero não perder noção disso tudo quando os antibióticos acabarem e eu voltar à levar a vida de bar em bar, mas não me preocupo muito. Se tem algo que eu aprendi nos últimos seis meses, é que nada nem ninguém na minha vida depende de cerveja para existir.
            Mas eu ainda digo que não, eu não faria isso de novo. Faltam 17 dias.

domingo, 24 de novembro de 2013

Um pouco mais de segurança


            Eu acho engraçado reparar que o quanto mais fantástica é a pessoa que hoje faz parte da minha vida, mais irônica é a história de como isso aconteceu. E você e eu não somos exceção. Pelo contrário. Se eu parar pra pensar nas pessoas que eu jamais esperava conhecer, não por alguma falta de afinidade, mas por desencontros de oportunidade, é provável que a nossa história seja a mais infame. O que automaticamente faria dela a melhor.
            E qual é a história, afinal? O ano foi 2012. O lugar foi uma cervejada ensolarada nos arredores de Cascavel. Eu não estava muito acostumado com aglomerações alopradas e alcoolismo liberado em plena luz do dia, acompanhados das trilhas sonoras mais ridiculamente aleatórias possíveis, mas diante das opções disponíveis para aquele fim de semana, era o que restava. Eu estava usando uma camiseta preta com um pequeno símbolo indescritível de uma marca desconhecida, quando eu e meus amigos encontramos nossos outros conhecidos, ao redor de um mar de gente embriagada e desestabilizada que dava risada de tudo. E entre todas aquelas pessoas, aqueles copos de cerveja jogados no chão e aquele sertanejo universitário barulhento, eu quase conheci você.
            Não fomos apresentados, mas você estava naquela roda de colegas e semi-conhecidos, nos quais eu ainda estava tentando encontrar algum sentido – partindo daquelas pessoas, até buscando apoio da cerveja. Eu estava perdido, mas disposto a tirar algo de bom de uma situação anormal. De uma festa estranha com gente esquisita. Foi aí que alguém – como eu aprendi que é de costume nessas festas – gritou “foto!” e todos se posicionaram diante de algumas câmeras de celulares. Eu não sei se foi o destino, a vida, ou apenas as pessoas ao redor que nos empurraram pra cabermos na foto, mas você apareceu do meu lado. E depois que postaram a foto no Facebook e encheram aqueles rostos de marcações, eu aprendi o seu nome. Foi assim que eu conheci Dayane Zanella. E algum tempo depois, eu descobri como você me conheceu. Você achou que eu era um segurança da festa que estranhamente apareceu do seu lado. A vida tem dessas coisas.
            Mais engraçado ainda foi que, depois daquele dia, você aparecia em todos os lugares que eu ia. Em todas as baladas em que eu decidia ir em cima da hora, os barzinhos que eu visitava de madrugada antes de voltar para casa, e nas conversas com meus amigos, que eram amigos de amigos que eram da sua cidade e que, consequentemente, eram amigos seus também. Você estava em todos os lugares, o que hoje eu percebo que foi como um sinal do universo. Daqueles que eu costumava ser fanático pra encontrar, mas que hoje passam batido por mim porque eu ando cansado e desiludido demais e que, salvo algumas desilusões amorosas e telhas de amianto, o universo tem coisa melhor pra fazer do que jogar sinais no meu caminho. Mas aquilo sim era um sinal.
            Aonde quer que eu fosse, lá estava você. E isso durou alguns meses até exatamente este dia, um ano atrás, quando eu recebi um convite para uma festa de aniversário em Ibema. Um convite da sua festa. Da pessoa que achava que eu era um segurança. Eu não sabia exatamente quem era você, ou exatamente aonde ficava Ibema, e deixei o convite passar batido. Até receber um telefonema irritado de uma pré-aniversariante indignada cujo número eu nem tinha, mas que me atendeu uma frustração do mesmo tamanho da minha surpresa:

- Como assim você não vem na minha festa?!
- É que eu ando meio cansado, com umas coisas pra fazer... Achei que não ia fazer diferença...
- Pois faz diferença sim! Você vem e ponto final, nem que eu tenha que ir aí te buscar!
- An... Ok.


            Um ano depois, nós nos reencontramos em outra festa. Você ainda parecia ficar muito entusiasmada com a minha companhia, embora eu não conhecesse muito sobre você. Mas nós nos divertimos na festa, e em uma festa depois da festa, e em outra festa uma semana depois. Até que em uma noite qualquer, depois de publicar mais um post melancólico de Domingo, uma conversa sua apareceu na tela do meu computador. Dizendo que eu escrevia muito bem, e que você queria que eu escrevesse sobre você. Bom, pra escrever sobre você eu preciso te conhecer melhor. E não deu outra. Quando eu vi, nós já estávamos planejando um jantar com amigos, e discutindo sobre quantas cobertas você ia precisar pra dormir aqui em casa, e que essência de arguile você preferia, e que cadeira você achava melhor pra sentar e apoiar os pés na beira da sacada, e como havia sido o seu dia.


Com você eu aprendi que minha honestidade jamais é desperdiçada, que meu tempo é valioso e que meu cansaço é compartilhado. Com você eu aprendi que as pessoas são complicadas, ocupadas, corridas, atarefadas e silenciosamente desesperadas, mas que se a gente der sorte, ou simplesmente estar alerta para alguns sinais que a misericórdia do universo ainda é capaz de jogar no nosso caminho, você pode encontrar alguém que jamais esperava que pudesse se tornar tão importante. Alguém que, em um dia qualquer, você avistou em uma festa. Alguém que, na maior das coincidências, apareceu do seu lado. Alguém que, felizmente, tem o mesmo dedo podre para escolher amores como você, sente o mesmo peso do mundo sob as costas como você, e dedica sextas, sábados e madrugadas inteiras só pra te ouvir. Porque a dor que eu confesso à você é muito parecida com a que você sente. E, um ano depois de me confundir com um segurança, você descobriu que estava segura comigo também.
            E foi assim que a Day se tornou parte da minha vida. Obrigado por me conhecer.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A crise dos quatro anos


            Foi o ano mais ou menos. Não é só disso que eu vou me lembrar, mas acho que aqui e agora, é a melhor definição que eu poderia dar. Diziam que seria o ano mais difícil. O ano em que realmente descobriríamos exatamente o que estamos fazendo aqui, o que queremos disso tudo, e o que vamos fazer com isso. Pois mentiram, porque eu ainda não sei.
            Eu sei que estou cansado. Meu Deus, como estou cansado! Cansado de levar bolos de pacientes, de fazer relatórios na clínica, de entregar trabalhos que não substituem provas, de obrigar meu corpo a assistir aulas porque a mente ficou em casa... Cansado de emprestar livros na biblioteca pra usar no relatório, no projeto, no TCC. TCC... TCC é algo que não me assustava tanto assim. Provavelmente porque, assim como o real tamanho da faculdade (que eu ainda não conheço por inteira) e a profundidade da psique humana, eu não tinha muita noção do quanto se tratava de um trabalho tão grande. Horas e horas de escrita, revisão, escrita, revisão, escrita, revisão, correção e começar tudo de novo porque não era nada daquilo que a gente queria dizer. Ou então, não era nada daquilo que a gente precisava dizer. TCC é algo que não acaba. Isso é algo que não nos disseram. Não acaba porque nunca está corrigido o bastante. TCC pronto é TCC que você não mostrou pro seu orientador e ponto final.
            Disseram que seria o ano mais difícil porque era muita coisa pra se dar conta. Até aí, acertaram. O que não disseram era que não só era muita coisa pra se dar conta, mas que se eu não tomasse cuidado era muito fácil eu me largar pelo caminho para conseguir carregar tudo. E confesso que algumas vezes eu me larguei. E pensei no que realmente estava fazendo ali. Pensei se tinha feito a escolha certa. Pensei se haveria um futuro para mim depois de tudo isso. E não só tudo isso me fez ficar ainda mais neurótico como também – adivinha só – me cansou.
            Não disseram também que eu não brigaria só comigo, mas com todo mundo ao meu redor. Até então era cada um no seu quadrado, com as suas inseguranças fortemente guardadas no peito, longe do alcance de quem não pudesse entendê-las, por mais que a gente tenha se visto quase todos os dias pelos últimos quatro anos e nos ensinaram que ao tocar uma alma humana, nós deveríamos ser apenas outra alma humana. Não disseram que, em se tratando de almas humanas, existe tudo menos simplicidade. E como se já não fosse o bastante derrubar minhas neuroses em cima dos outros, vieram os pacientes e jogaram as deles em cima das minhas. Pronto. Surtei. E agora?
            A crise dos quatro anos é um ritual de passagem. É algo que a geração passada tentou avisar para nós, mas ainda estávamos distraídos demais aproveitando a fase boa do terceiro ano, não mais tão calouros, mas nem tão veteranos. O que foi irônico de sentir hoje, quando sentamos no bar exatamente entre a comemoração dos veteranos do outro lado da rua, e a mesa dos calouros ao lado que brindavam ao primeiro ano de toda aquela Psicologia que eles estavam só começando a conhecer. E nós ali, os mais ou menos, cansados e cobertos de cicatrizes de orientadores e relatórios sem fim, só olhando ao redor e tentando recuperar o fôlego, lembrando de quando estávamos tão ansiosos pelo futuro, porém desesperados para correr pra rua e gritar que acabou.
            Eu não estou dizendo que foi um ano ruim. Pelo contrário, foi o melhor até agora. Foi o ano em que eu descobri que, mesmo sem acreditar que estou apto pra isso, eu posso ajudá-lo sim. Foi o ano em que eu aprendi a clinicar, a prevenir, a promover saúde e associar toda a teoria dos últimos três anos com a prática de triagens, transferências e todos os outros transtornos de ansiedade que fazem parte desta montanha russa de sentimentos, interpretações e mudanças da mente humana. Foi o ano em que eu me vi cercado de psicólogos e sob a análise de todos, a medida em que tentava compreender cada um deles também. Foi o ano em que, ao tentar ajudar o outro a se conhecer, eu acabei descobrindo muito mais sobre mim do que eu pensava conhecer. Algumas coisas boas, outras nem tanto, várias qualidades e um milhão de defeitos que, por bem ou por mal, fazem parte de mim.
            E aqui estamos, colocando mais um ano para trás. Os relatórios foram entregues, os TCCs foram avaliados e as provas acabaram. E ao ver os veteranos comemorando, eu não pude deixar de sentir inveja e, ao mesmo tempo, não. Eu estou feliz por eles, tudo acabou e agora podem partir pro abraço. Enquanto isso, nós somos os novos veteranos, prestes a vivenciar os últimos ‘’tudo” da faculdade antes de correr pro meio da rua ao som de cornetas e apitos. A crise dos quatro anos passou e nós sobrevivemos. Agora, meus amigos, é o começo do fim. Felizmente, nós ainda temos um ano juntos para dar a volta da vitória pelos corredores da faculdade em que passamos tanto tempo, todo dia, há quatro anos. Vai deixar saudade. Já está deixando saudades.

            Conversando ou não, cumprimentando ou não, passando reto ou não, eu passei quatro anos com vocês. E agora que está acabando, confesso que eu vou sentir muita falta. Acho que pior do que a crise dos quatro anos será a ansiedade de separação quando completarmos cinco.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Relacionamentos imaginários III


            Eu desisto. Como se as pessoas já não fossem difíceis o bastante de se entender em seu habitat natural, com suas coisas, suas neuroses, seus problemas, seus parentes e suas contas pra pagar, conceber a união entre dois seres igualmente disfuncionais e provavelmente semelhantes em seus desajustes e incoerências é demais pra mim. Talvez esteja cedo demais na minha vida para decretar uma opinião concreta sobre isto, muito menos duradoura ou perpétua, mas eu cansei. E não é porque eu não tenho nada de mais acontecendo na minha vida ultimamente a não ser pelas provas do último bimestre, os currículos que estou entregando por aí pra tentar colocar toda a psicologia que eu aprendi nos últimos quatro anos em prática, e a perna machucada que está começando a querer me motivar a andar sozinho de novo, porque tudo isso não deixa de ser importante e consumidor também. Mas eu desisto. Eu cansei. Existem vezes em que eu ainda consigo quase assimilar o sentido que algumas pessoas atribuem a si mesmas e as merdas que elas fazem, mas eu definitivamente não entendo relacionamentos.
            Como eles começam? Do que se alimentam? Fazem bem à saúde? Isso o Globo Repórter não mostra. Particularmente falando, confesso que não sei nem ler os sinais de que algo ou alguém está demonstrando ser promissora. Você é assim mesmo, legal e descontraída, ou está me dando mole porque percebeu e imediatamente decidiu que seria inútil lutar contra o fato de que eu sou irresistível? Ah, não? Você é só legal mesmo? Foi mal. E lá se vão meses de felicidade ao tentar juntar as pequenas peças do quebra-cabeça de uma nova paixão e os momentos de êxtase quando facilmente me engano e acredito que algumas peças se encaixam, e que isto é um sinal do universo de que estamos destinados a ficar juntos e que tudo dará certo. An... não. Lá se vão também meses de desilusão, músicas tristes, olhares pensativos em janelas embaçadas enquanto a chuva cai lá fora e reflete o tempo nublado como metáfora para a minha alma cinzenta que aos poucos tenta se conformar com a sua ausência. Lá se vão meses de inconformidade enquanto você passa por mim e se mantém completamente alheia ao fato de que nós fomos feitos um para o outro, mas que eu vou esperar por você enquanto você não percebe que esse cara tem carro, dinheiro, um belo sorriso e nenhum pingo de neurose nos seus músculos bem definidos, mas que ele jamais será como eu. Não, espera. Acho que me perdi no que eu queria dizer. Enfim...
            Eu também não entendo como eles terminam. Quer dizer, quando eles terminam. Ou então, quanto eles terminam de terminar. De acordo com as experiências que eu ouço falar por aí, são coisas diferentes. Por que eles terminam, se por algum tempo funcionou? Algo quebrou? Alguém deu defeito? Ou alguém viu um defeito que não tinha aparecido ainda, e aquilo foi a gota d’água? E aqui entram de tudo: ela não confiava em mim, ele não me amava de verdade (e o que é “amar de verdade”?), ela só quer me controlar, ele era muito ciumento, ela tinha medo de ficar sozinha, ele não estava comigo... E então o amor acaba. Eu não acredito que o amor sempre acaba. Parte de mim, meio à melancolia, o desânimo, a preguiça e os efeitos colaterais dos anti-inflamatórios (meus novos melhores amigos), ainda é bastante otimista e me faz pensar que pode sim dar certo. Dá muito trabalho. Tipo, muito trabalho. Mas pode dar certo. Só que quando não dá, pra onde vai todo aquele amor, que era tão amável até então? Para a próxima da fila? Ou a gente guarda pra si, igual quem fica remexendo as chaves guardadas no bolso ou fica atualizando o Facebook, esperando por algo ou alguém aparecer de novo, para abrir a porta e mandar uma nova mensagem. Confesso que um “oi” de alguém que eu ainda não conhecia já salvou o meu dia. Pra não falar de muitas outras noites solitárias. Confesso que algumas dessas pessoas, eu já não consigo mais viver sem. Confesso, também, que outras pessoas eram muito mais interessantes quando eu não as conhecia direito.
            Então, pra que servem os relacionamentos? São trabalhosos, demorados, consumidores, estressantes, fatigantes, irracionais, indescritíveis e, pelo que parece, finitos. Como se quando duas pessoas decidissem se unir, isto gerasse uma contagem regressiva imaginária que atua sobre o amor delas e o diminui a cada dia que passa, a cada briga que é mal resolvida, a cada olhar torto que é trocado e cada beijo distraído e sem carinho que é compartilhado. Como se todo esse esforço fosse em vão. Mas as pessoas insistem, especialmente quando estão carentes, decepcionadas ou desesperadamente querendo enxergar qualquer coisa que acontece como um sinal do universo. Como comprar iogurte no supermercado que está em promoção porque está próximo do seu prazo de validade. Algumas pessoas justificam que isto é viver. Pelo menos você se divertiu por um tempo. Pelo menos você aproveitou. Que seja eterno enquanto dure. E eu já comprei muito iogurte assim. E por iogurte, entenda como mulheres que não estavam nem aí, ou que até estavam um pouco animadinhas, e por isto mesmo eu deveria ter desconfiado do preço. Não adianta depois quando já se está passando mal, vomitando todo o amor que você engoliu achando que estava bom. Achando que era certo. Esperando que fosse diferente.
            Eu não entendo relacionamentos, mas parte de mim ainda sente falta de alguém. Não necessariamente de dormir com alguém, mas de acordar na manhã seguinte e te ver com a camisola bagunçada, com uma das alças caindo, descabelada e rindo comigo sobre qual de nós dois vai levantar pra ligar a cafeteira. Pra andar de mãos dadas por aí, não interessa pra onde, só pelo prazer de estar ligado a você. Só pela alegria de me sentir acompanhado, seguro, contente. Eu imagino que seria bom. Alguém pra animar os meus Sábados à noite, enlouquecer os meus Domingos, e dizer que sente a minha falta durante a semana. Alguém pra cuidar. É, alguém pra cuidar. Eu gostaria disso. Eu sinto falta disso.
            Ou talvez tudo isso seja só o meu medo transcrito em palavras, com esperança nas entrelinhas de que alguém leia e me convença de que, apesar de não fazer sentido, ainda vale a pena. Nem todos os iogurtes estão prestes a vencer, e nem todo o amor acaba derramado no chão com duas pessoas chorando por ele. Às vezes vale a pena. Felicidade é outra coisa que eu também não entendo, e não é a toda que entramos em relacionamentos por ela.
            Tudo bem. Eu não vou desistir.

***

Em caso de interesse:


domingo, 17 de novembro de 2013

O dia seguinte


             A verdade é que nós morremos um pouco todos os dias, de um jeito ou de outro. Nos só não pensamos muito nisso porque, bem, não dá tempo. Entre tentar lembrar de tudo que você precisa comprar no mercado quando sair do trabalho e passar por lá pra ir pra casa, pra depois sentar em frente ao computador e tentar se concentrar para fazer um trabalho ou terminar aquele relatório de estágio, e ainda retornar a ligação da sua mãe que você não ouviu porque o trânsito estava muito barulhento, sem esquecer de avisar os seus amigos de que você já chegou em casa e dali meia hora eles já podem passar pra te buscar para vocês saírem... É, não dá tempo. E mesmo que dê tempo, ninguém realmente considera isto como algo tão sólido quanto a louça suja ou a roupa pra passar. Nós sabemos que vai acabar, uma hora ou outra, mas não temos muita noção quanto a fato de que pode ser amanhã, ou de que poderia ter sido Segunda-Feira.
            Mas nós ficamos doentes e elaboramos lutos todos os dias, por mais que nossos corpos continuem em pé. Abrir mão do passado que não volta, admitir que amamos a mulher errada, confessar que estamos errados e que precisamos de ajuda, chorar pelo amor que nos deixou, tudo isso nos mata um pouco a cada dia. Diminui a nossa alma e a nossa esperança de nos sentirmos completos de novo um dia, e acima de tudo isso nos engana sorrateiramente por nos fazer pensar que algo assim foi o pior que poderia ter acontecido. Não foi. Não é. Pior do que encarar o fim de um amor, é ser surpreendido pela realidade de que nós podermos ser os próximos.
            Eu ainda não consigo atribuir algum sentido para isso, e talvez simplesmente nem haja algum. Aquela queda tirou minha semana dos trilhos e me obrigou a visitar médicos, enfermeiras, hospitais e a aprender a lidar com receitas, remédios e ataduras. E também me fez escutar muito coisas do tipo “Você tem muita sorte” ou “Você nasceu de novo”. E enquanto todos se comoveram pelo que poderia ter acontecido, confesso que enquanto estava ali, deitado na calçada e sem noção do que havia desabado em mim, meu primeiro instinto foi o de levantar e continuar andando. O único detalhe que me impediu foi a perna ensanguentada e o desespero dos outros pedestres ao meu redor.
            Os primeiros dias foram estranhos. Parecia que essa perna enfaixada não era minha, que o garoto nas notícias não era eu, e que o nome das receitas médicas não era o meu. É difícil acreditar que eu poderia ter acabado, especialmente por conta de tudo que eu ainda tenho pra fazer. Eu ainda preciso terminar de corrigir meu relatório de estágio. Preciso desentortar o varão da cortina da sala de estar. Preciso perder mais uns 3kg. Preciso pagar o carnê da festa de formatura. Preciso ir buscar a camiseta que deixei separada semana passada em uma loja no shopping porque o cartão de crédito não tinha virado de mês ainda. Preciso beber uma cerveja de novo. Preciso dizer que te amo...
            Depois de uns dias, parece que tudo voltou ao normal. Claro, eu ainda tenho dificuldades para andar ou subir escadas, e meu repouso em prisão domiciliar não me deixa mentir sobre isso. Mas meus amigos já fazem piadas sobre isso só pela facilidade de fazer piadas. Minhas conversas não são mais voltadas somente para a minha perna e o meu bem estar, ou que indenização eu pretendo tirar disso. Sinceramente, pessoal, eu só quero que isso passe. Eu só estava andando pela rua quando aconteceu, e depois que aconteceu eu realmente estava pronto para me levantar e continuar andando. Eu ainda sou lembrado diariamente do que aconteceu toda vez que preciso trocar o curativo da perna. E apesar de ainda doer, a perna está começando a parecer com uma perna de novo. Então não tem porque prolongar isso. Exceto por este texto.
            Por mais que eu tente, eu não consigo me comover muito com o que aconteceu. Porque eu estou bem. Bem o bastante para ter desmarcado compromissos enquanto era socorrido por paramédicos, para avisar meus amigos que eu não poderia estudar com eles à tarde porque eu precisava ir ao hospital tirar uma radiografia, e para ir fazer prova na faculdade à noite mancando e levemente desorientado. Mas como desorientação não é nada estranho pra mim, desconsideremos este último. Estas são as minhas últimas palavras sobre o assunto. Porque eu estou bem, enquanto a vida seguiu seu rumo e aconteceu de cair sob outras pessoas, próximas das minhas pessoas, que não tiveram muita sorte e não nasceram de novo. Essas, sim, me comovem.
            Eu estou bem. A vida voltou ao normal, exceto pelo atestado que não me deixa sair de casa. Morrer muda tudo. Quase morrer não muda nada, mas pelo menos eu sobrevivi por mais um dia. Agora é só uma questão de dias para reaprender a andar. Ah, a ironia.